Chave do Meu Passado 6


A Invasão do Santuário e os Sinais de Alerta

Os dias que antecederam a chegada do Juliano foram tomados por uma tensão silenciosa e sufocante. A nossa casa, que antes era o palco da nossa liberdade mais pura, de repente parecia uma armadilha com data marcada para fechar. O Edu e eu sabíamos que qualquer deslize, qualquer troca de olhares mais demorada ou um carinho espontâneo na cozinha, poderia destruir a vida que havíamos construído e nos expor ao julgamento implacável da nossa família no interior.

Na noite anterior ao desembarque dele, arrumamos a sala. O Edu buscou um colchão emprestado com o Gordinho e o estendeu ao lado do nosso sofá de tecido. Ver aquele colchão no chão da sala era como ver uma fronteira física sendo erguida entre nós.
Quando deitamos na minha cama naquela última noite de privacidade, o Edu não me procurou com a urgência dos outros dias. Ele apenas me abraçou por trás, colando o peito largo nas minhas costas, e suspirou contra a minha nuca.

·       Eduardo: "Vai ser difícil, Amanda. Duas semanas fingindo... duas semanas sem poder te tocar, sem poder te chamar de minha."
·       Amanda: "Eu sei, meu amor. Mas é só um teste. Vamos focar no tratamento dele e manter a cabeça no lugar. Daqui para fora, e agora dentro da sala também, somos os irmãos de sempre."

Ele apertou o braço ao redor da minha cintura, como se tentasse me prender a ele antes que o mundo entrasse pela nossa porta.

O Terceiro Elemento

Na manhã de terça-feira, o Juliano chegou. O Edu foi buscá-lo na rodoviária e, quando os dois entraram pela porta da frente carregando uma mala de lona desgastada, o ar da casa mudou instantaneamente. O Juliano era um rapaz magro, de olhar vivo e observador, com aquele jeito típico de quem vive na roça e repara em cada detalhe ao seu redor. Ele me deu um abraço apertado, soltando uma risada alta que ecoou estranha no nosso ambiente tão acostumado ao silêncio cúmplice.

·       Juliano: "Cresceu demais, hein, Amanda! Quem te viu correndo descalça lá no quintal da tia e te vê agora, quase doutora... O pessoal lá embaixo não para de encher o peito para falar de você."
·       Amanda: "Obrigada, Juliano. É muito bom te ver. Como está a sua saúde? A tia me falou que você veio para uns exames."
·       Juliano: "Ah, uma bobeira no estômago que os médicos de lá não descobrem o que é. Mas o Dr. Renato, lá do hospital central daqui, vai passar um pente fino. Vou tirar de letra. E essa casa de vocês, hein? Boa demais! Vocês dois estão bem arrumados na capital."
O Edu colocou a mala dele no canto da sala e forçou um sorriso, cruzando os braços. A postura dele estava rígida, os músculos do ombro travados.
·       Eduardo: "A gente trabalha duro, Juliano. A Amanda estuda o dia todo e eu fico na oficina até o corpo não aguentar. Mas o espaço é seu. O colchão está ali na sala, pode se acomodar."
·       Juliano: "De forma alguma, moço! Só de não pagar hotel já é uma bênção. Vou dar trabalho nenhum, vocês vão ver."

Nos primeiros três dias, o plano funcionou perfeitamente. O Edu saía antes de o sol nascer para a oficina e eu passava o dia inteiro no campus da UFMG. O Juliano passava as manhãs nas consultas e as tardes assistindo à televisão na sala. Mas a convivência forçada começou a cobrar o seu preço à noite.
Lembro-me de uma noite em que eu estava na cozinha preparando o jantar. O cheiro do arroz com alho preenchia o espaço. O Edu chegou do trabalho, exausto, com aquela camiseta cinza gasta e algumas manchas de graxa nos braços. Por puro instinto, pelo hábito de meses, ele caminhou direto na minha direção, os braços abertos para me envolver por trás enquanto eu mexia na panela.

Eu vi o movimento pelo reflexo do vidro do armário. Meu coração disparou. Dei um passo rápido para o lado, fingindo pegar o saleiro, cortando a aproximação dele no ato. O Edu parou no meio do caminho, a expressão confusa mudando rapidamente para um choque de realidade. Ele pigarreou, disfarçando, e olhou para trás.
O Juliano estava parado no portal da cozinha, com as mãos nos bolsos, observando a cena com as sobrancelhas levemente arqueadas.

·      Juliano: "Opa, Eduardo! Chegou cedo hoje. Estava aqui reparando... vocês dois continuam iguaizinhos ao tempo do interior, né? Um não desgruda do outro. O Eduardo parece o cão de guarda da Amanda."
O Edu forçou uma risada, coçando a nuca com a mão limpa, tentando aliviar o peso que havia se instalado no cômodo.

·       Eduardo: "Cuidado de irmão, Juliano. Você sabe como é a capital... cheia de malandro. Tenho que ficar de olho na minha irmãzinha."
·       Juliano: "É... mas ela já é uma mulher feita, sô. E bonita demais. Na rodoviária o pessoal já deve ficar de olho."
Senti minhas bochechas queimarem. Voltei a atenção para a panela, tentando ignorar o olhar penetrante do meu primo. Havia uma pitada de desconfiança na voz dele, um tom de quem sentia que havia algo fora do lugar naquela dinâmica, mas ainda não conseguia decifrar o que era.

O Ciúme e a Sombra de Maurício

Se dentro de casa o ar estava rarefeito, na faculdade a pressão não diminuía. Maurício continuava a cercar o meu espaço. Ele não era invasivo, o que tornava tudo mais difícil de rejeitar; ele agia como o companheiro de estudos perfeito, sempre com apostilas caras que eu não tinha condições de comprar e anotações detalhadas dos professores titulares.
Na sexta-feira daquela mesma semana, o céu de Belo Horizonte desabou em uma tempestade violenta no final da tarde. Eu estava na biblioteca, esperando a chuva passar para pegar o ônibus. Meus livros de anatomia estavam espalhados pela mesa de madeira escura quando Maurício se sentou ao meu lado, guardando as chaves do seu carro importado no bolso.

·       Maurício: "Sem chance de pegar ônibus com esse tempo, Amanda. A Avenida Afonso Pena está completamente alagada. Vamos fazer o seguinte: eu te dou uma carona até a sua casa. Não aceito não como resposta, é perigoso você ir sozinha nessa chuva."
Olhei para a janela, vendo as rajadas de vento castigarem as árvores do campus. Eu não queria aceitar, mas a perspectiva de passar duas horas presa em um ponto de ônibus no meio da tempestade me fez ceder.

·      Amanda: "Tudo bem, Maurício. Agradeço muito. Mas não precisa me deixar na porta, pode ser na entrada do bairro."
·       Maurício: "Bobagem, te deixo na porta. Quero garantir que a nossa melhor aluna chegue inteira."

O trajeto foi tenso. Maurício tentava puxar assunto sobre música, sobre os restaurantes que ele frequentava, enquanto eu apenas balançava a cabeça, pensando na reação do Edu se visse aquilo. Quando o carro dele embicou na nossa rua de terra, os pneus luxuosos patinando na lama, meu estômago revirou.
Para o meu azar, o Edu estava na calçada da oficina, que ficava a poucos quatros dali, ajudando o Gordinho a cobrir um motor com uma lona por causa da goteira. Ele viu o carro parar diante da nossa casa.
Eu saí do veículo rapidamente, segurando minha pasta de estudos contra o peito.

·       Amanda: "Obrigada pela carona, Maurício. Até segunda."
·       Maurício: "De nada, Amanda. Bom final de semana. Se precisar de ajuda com a matéria de patologia, me liga."
Ele acenou e deu a marcha ré. Quando me virei para abrir o portão, o Edu já cruzava a rua, caminhando debaixo da chuva fina que continuava a cair. Seus cabelos lisos estavam molhados, colados na testa, e seus olhos castanhos, que sempre me olhavam com adoração, agora brilhavam com uma faísca perigosa de ciúme e posse.

·       Eduardo: "Quem é esse, Amanda? Quem é o sujeito do carro importado?"
A voz dele saiu baixa, mas carregada de uma fúria contida que me fez estremecer. Olhei para os lados, com medo de que o Juliano estivesse na janela.
·       Amanda: "Fala baixo, Edu, por favor! É o Maurício, meu colega de turma. A avenida estava alagada, não tinha ônibus. Ele só me trouxe por segurança."
·       Eduardo: "Colega de turma? O cara entra na nossa rua, para na porta da nossa casa e te olha daquele jeito... você acha que eu sou bobo, Amanda? Eu sei como os homens olham para o que desejam. E ele deseja você."
·       Amanda: "Eduardo, para com isso! Ele é só um menino rico da faculdade. Eu amo você! Você sabe disso, não sabe?"
Aproximei-me dele, esquecendo por um segundo as regras do nosso disfarce, mas o Edu deu um passo para trás, limpando o rosto molhado com as costas da mão calejada. A expressão dele era uma mistura de dor e insegurança. O abismo social entre o mundo da medicina e a graxa da oficina havia se materializado na figura do Maurício, e isso estava machucando o orgulho do meu homem.
·       Eduardo: "É melhor a gente entrar. O Juliano está na sala."
Ele deu as costas e caminhou na frente, me deixando sozinha na chuva por alguns segundos. Aquela foi a primeira vez, desde a nossa noite de entrega, que o Edu se afastou de mim. As primeiras sombras haviam chegado ao nosso paraíso secreto, e o teste estava apenas começando.


Continua...


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Ficha do conto

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Nome do conto:
Chave do Meu Passado 6

Codigo do conto:
263728

Categoria:
Heterosexual

Data da Publicação:
04/06/2026

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