A Chave do Meu Passado 11

Parte 11: O Baile das Duas Vidas e o Encontro com o Amanhã
A Contagem do Tempo e as Linhas da Saudade


O silêncio do meu apartamento no centro de Belo Horizonte tinha uma textura completamente diferente daquele silêncio cúmplice e denso da nossa antiga casinha na região metropolitana. Ali, no décimo quarto andar, o ruído sutil dos pneus dos carros deslizando pelo asfalto da Avenida João Pinheiro funcionava como um metrônomo do tempo que teimava em avançar lá fora, alheio às minhas pausas internas. Sentei-me no tapete da sala, encostando as costas na lateral do sofá de couro novo, mantendo a pequena caixa de metal fechada entre as minhas coxas.

A mente de uma médica aprende a operar sob a rigidez dos números, dos prazos e das dosagens exatas. E, olhando para aquela janela que mostrava os contornos da Serra do Curral sob o céu escuro da capital, comecei a repassar a matemática exata da minha própria existência.
Nossa jornada conjunta de emancipação havia ganhado corpo no início de 1999, o ano da grande guinada, o ano em que o Eduardo e eu decidimos romper as amarras invisíveis do parentesco de fachada para inaugurarmos o nosso santuário particular de fórmica e lençóis limpos. Foi naquele mesmo ano que a aprovação histórica na UFMG redesenhou o nosso horizonte financeiro e deu ao Edu o fôlego necessário para erguer o que viria a ser o Centro Automotivo Silva. Mas o destino, com sua ironia cirúrgica, permitiu que colhêssemos o sabor daquela plenitude por poucos meses. No dia vinte e nove de dezembro de 1999, o ferro do elevador hidráulico desabou, sepultando o meu homem sob o peso do chassi e arrastando a sua força viril para o labirinto escuro do coma.

O Eduardo lutou. Seu peito largo subiu e desceu de forma artificial durante três meses inteiros, atravessando a virada do milênio em um leito de isolamento, até que a falência múltipla levou embora o seu último suspiro na madrugada de 4 de abril de 2000. Eu tinha apenas vinte e um anos quando vi o corpo do meu irmão e único marido ser baixado à terra fria do cemitério da colina.

O luto que se instalou em mim não foi uma transição sutil; foi uma amputação de alma. Durante três longos anos, contados dia após dia, desde abril de 2000 até meados de 2003, eu me transformei em uma máquina de estudar e trabalhar, anestesiada para qualquer estímulo que não viesse dos livros de patologia ou dos plantões de trauma do Hospital das Clínicas. O meu corpo, que havia conhecido o ápice do erotismo e do prazer sob as estocadas profundas e os beijos molhados do Edu, simplesmente fechou as portas. Eu não conseguia conceber a ideia de permitir que outra mão tocasse a minha cintura fininha ou que outros lábios buscassem o mel da minha intimidade. Eu usei o luto como uma armadura impenetrável contra as tentativas de aproximação que surgiam nos corredores da faculdade ou nos congressos acadêmicos.

O Maurício assistiu a todo esse deserto afetivo com uma paciência de cirurgião. Ele não tentou invadir o meu território, não forçou o compasso e nunca cobrou um sorriso que eu não pudesse dar. Ele se manteve ali, entregando apostilas, dividindo o peso das fichas clínicas e oferecendo uma presença sólida que, aos poucos, foi quebrando as pedras do meu isolamento. Quando o ano de 2004 começou, trazendo o peso do sexto ano da graduação e o início do internato obrigatório, a convivência diária com o respeito dele fez com que uma nova porta se abrisse no meu peito. O pedido de namoro que recebi naquele restaurante elegante da Savassi não foi um rompimento com o passado, mas uma aceitação de que a vida exigia que eu continuasse caminhando. O namoro que iniciamos ali já durava dois anos de estabilidade, respeito e companheirismo absoluto.

Agora, o calendário marcava 2005. A contagem cronológica estava encerrada, e o grande dia da nossa colação de grau na Faculdade de Medicina da UFMG havia finalmente chegado. Seis anos após o início de tudo, a menina que saíra descalça do interior de Minas Gerais estava prestes a receber o título de doutora.

Os Preparativos e o Espelho do Sucesso

A manhã de sábado do grande baile de formatura amanheceu com um céu limpo, azul e lavado de nuvens, trazendo à minha mente a lembrança daquela mesma sexta-feira em que o Juliano havia ido embora e a nossa casa havia se transformado em um palco de entrega total. Levantei-me da cama e caminhei até o espelho do banheiro da suíte. Olhei para a mulher de vinte e seis anos refletida no vidro moderno: os cabelos escuros estavam alinhados, a pele estava tratada e o corpo, embora mantivesse as curvas normais e as coxas grossas de sempre, exibia a postura elegante de quem havia conquistado o próprio espaço no topo da sociedade médica da capital.

O dinheiro da indenização milionária da HidraMec Engenharia e os recursos da venda do Centro Automotivo Silva para o Gordinho haviam criado uma realidade onde eu nunca mais precisaria escolher entre o necessário e o supérfluo. O vestido de gala que estava estendido sobre o cabide do armário era uma peça de alta costura, em tom azul-escuro, com um caimento perfeito que esculpia a minha cintura fina e deixava os meus ombros totalmente à mostra.
Por volta das cinco horas da tarde, a campainha do apartamento tocou. Abri a porta e encontrei o Maurício vestindo um smoking sob medida, com os cabelos alinhados e um sorriso que transbordava o orgulho da conquista compartilhada. Ele trazia uma pequena caixa de veludo nas mãos.

·       Maurício: "Boa tarde, minha doutora favorita. Eu passei o dia inteiro tentando imaginar como você ficaria nesse vestido, mas a realidade superou qualquer expectativa minha. Você está deslumbrante, Amanda."
·       Amanda: "Obrigada, Maurício. Você também está impecável. Entra, eu só preciso pegar a minha bolsa para a gente descer."
Ele entrou no apartamento, colocando a caixinha de veludo sobre o balcão de granito da cozinha americana.
·       Maurício: "Eu trouxe isso para você usar hoje à noite. Acho que combina perfeitamente com o brilho dos seus olhos."

Abri a caixinha e encontrei um colar de brilhantes sutil, mas de uma elegância aristocrática inquestionável. O Maurício aproximou-se por trás, pegando o colar com as mãos limpas e macias, e o prendeu ao redor do meu pescoço, depositando um beijo terno na curva do meu ombro. Senti um arrepio leve, uma sensação de conforto que o toque dele sempre me trazia, mas por uma fração de segundo, a memória da mão calejada do Edu segurando a barra da minha camiseta cinza cruzou a minha mente como um relâmpago. Afastei o pensamento com um suspiro discreto e virei-me de frente para o meu noivo.

·       Amanda: "É lindo, Maurício. Obrigada por estar comigo em cada passo dessa jornada."
·       Maurício: "Nós corremos essa maratona juntos, Amanda. Hoje é a noite de comemorar a nossa vitória. O carro já está esperando lá embaixo. Vamos?"

A Noite de Gala no Expominas

O pavilhão do Expominas estava transformado em um verdadeiro palácio de celebração. Mais de duas mil pessoas, entre familiares de elite, médicos de renome da capital, professores titulares da UFMG e convidados ilustres dividiam o espaço decorado com imensos lustres de cristal, arranjos de flores nobres e cortinas de seda que isolavam as mesas de buffet. O som da orquestra preenchia o ar com uma melodia clássica e imponente.

Caminhamos pelo tapete vermelho de mãos dadas, recebendo os cumprimentos dos nossos colegas de turma e dos professores que haviam acompanhado a nossa trajetória no internato. O pai do Maurício, Dr. Roberto, postou-se perto da mesa principal vestindo um terno alinhado, segurando uma taça de champanhe com a altivez natural de quem comandava o conselho cirúrgico do hospital.

·       Dr. Roberto: "Olhem só se não é o casal de ouro do Hospital Central! Amanda, Maurício, venham aqui. O reitor acabou de me confirmar que o seu discurso como oradora da turma foi considerado um dos momentos mais marcantes da colação de grau de ontem no Palácio das Artes. Vocês dois são o futuro da medicina cirúrgica deste estado."
Maurício: "Obrigado, pai. A Amanda passou as últimas três semanas revisando cada linha daquele discurso. Ela mereceu cada aplauso daquele auditório."
·       Amanda: "Obrigada, Dr. Roberto. O suporte que o senhor nos deu na ala de trauma foi fundamental para que a gente conseguisse aliar a teoria dos livros com a prática complexa do plantão. Eu pretendo honrar a confiança que o hospital depositou no meu trabalho."
·       Dr. Roberto: "E nós não temos a menor dúvida disso, minha querida. O seu contrato como plantonista titular já está com o departamento jurídico para os trâmites finais assim que o número do seu CRM for liberado pelo conselho regional nesta semana. Brindo ao sucesso de vocês!"

Erguemos as nossas taças, o som do cristal batendo levemente sob as luzes do Expominas. O Maurício me puxou pela cintura fina, conduzindo-me até a pista de dança onde os outros casais de formandos já se movimentavam ao som de uma valsa clássica. Deitei a cabeça no ombro dele, deixando-me guiar pela coreografia polida, sentindo o perfume importado dele invadir o meu olfato. A noite era perfeita, o sucesso era total, e a estabilidade que eu tanto havia buscado perante o mundo dos doutores estava finalmente consolidada sob os meus pés.

Os Trâmites do CRM e a Posse no Hospital Central

A segunda-feira seguinte à festa de formatura trouxe de volta o pragmatismo burocrático que antecede o início da vida profissional médica. Acordei cedo no meu apartamento do centro e organizei todos os documentos oficiais emitidos pela secretaria de graduação da UFMG: a certidão de conclusão de curso, o histórico escolar com o coeficiente de rendimento máximo da turma e as cópias das minhas assinaturas de contrato da fundação.
Dirigi-me à sede do Conselho Regional de Medicina de Minas Gerais (CRM-MG), localizada em um prédio imponente no bairro da Serra. O movimento na recepção estava tomado pelos meus novos colegas de profissão, todos segurando pastas e compartilhando a mesma expectativa de receber o número que nos daria o direito legal de prescrever e operar nos hospitais do país.

Após duas horas de espera e conferência minuciosa por parte dos funcionários do conselho, fui chamada até o balcão de atendimento principal pelo funcionário responsável pelo registro dos formandos da UFMG.
uncionário do CRM: "Doutora Amanda da Silva? Os seus documentos estão todos em perfeita ordem. O seu histórico de graduação é realmente impressionante, parabéns pelo primeiro lugar geral. Aqui está o seu protocolo oficial de inscrição. O seu número definitivo de registro profissional é o CRM-MG 41.205. A sua carteira de identidade médica de capa verde estará disponível para retirada em trinta dias, mas com este protocolo carimbado a senhora já está autorizada a assumir as suas funções nos hospitais."

·       Amanda: "Muito obrigada. Esse papel representa o fechamento de seis anos de dedicação integral."

Segurei o protocolo de papel timbrado com as duas mãos, sentindo o mesmo arrepio de alívio que experimentara na sala da diretoria do cursinho quando assinei a bolsa de estudos. A menina que viera do interior com uma sacola de lona e um short jeans rasgado agora tinha uma identidade oficial perante o Estado: eu era, por direito incontestável, uma médica cirurgiã.

Do conselho, peguei um táxi direto para o Hospital Central de Belo Horizonte para formalizar a minha contratação. O Diretor Geral do hospital nos aguardava na mesma sala de vidro com as paredes decoradas com diplomas e títulos institucionais. O Maurício, que já havia entregado o seu protocolo de manhã cedo, estava sentado em uma das cadeiras de couro, esperando a minha chegada para darmos início ao nosso novo ciclo profissional de forma conjunta.

·       Diretor Geral: "Seja bem-vinda, Doutora Amanda. O Dr. Roberto me informou que o seu número de registro já foi liberado pelo conselho. Aqui está a via final do seu contrato de prestação de serviços como plantonista titular da ala de trauma e emergência avançada. O seu primeiro plantão oficial de doze horas está escalado para a próxima sexta-feira, às sete horas da manhã."
·       Amanda: "Perfeito, diretor. O contrato está perfeitamente alinhado com o que havíamos discutido. Vou assinar agora."
Peguei a caneta tinteiro e firmei o meu nome nas linhas indicadas, oficializando o meu vínculo com a instituição de saúde mais importante da capital mineira. O salário de doze mil reais iniciais, somado aos bônus técnicos de procedimentos cirúrgicos, colocava-me em um patamar de independência financeira absoluto. Eu nunca mais saberia o que era a falta de recursos para o básico ou a dependência de um auxílio externo.

A Viagem ao Interior e a Despedida Solitária

Apesar de todo o turbilhão de sucesso, contratos e comemorações com o Maurício, o meu santuário interno continuava guardando um nó que precisava ser desfeito antes que eu pudesse me entregar por completo ao futuro que se desenhava. Na manhã de quarta-feira, aproveitando os dias de folga que antecediam o meu primeiro plantão de sexta-feira, arrumei uma pequena sacola de viagem. Falei para o Maurício que precisava ir até a nossa antiga cidade natal no interior para resolver umas pendências burocráticas do inventário das terras do meu pai e para levar os meus documentos de formatura para a minha mãe guardar na gaveta de relíquias da família.

O Maurício me levou até o terminal rodoviária com aquela fidalguia habitual, dando-me um beijo calmo nos lábios antes de eu subir no ônibus da linha interestadual.

·       Maurício: "Vai com Deus, Amanda. Dá um abraço nos seus pais e avisa que no próximo mês eu faço questão de ir com você para passar um final de semana com eles na roça. Aproveita para descansar esses dois dias antes do plantão de sexta."
·       Amanda: "Obrigada, meu amor. Eu trago notícias deles para você. Até quinta à noite."

O trajeto de ônibus durou cinco horas, cruzando as estradas de asfalto que aos poucos davam lugar às estradas de terra batida cercadas por plantações de milho e pastagens verdes que eu conhecia desde a minha infância. Na minha mochila de lona, guardada sob as minhas roupas, estava a pequena caixa de metal que eu havia trazido do meu apartamento do centro. Dentro dela, a chave de boca gasta, pesada e manchada de óleo diesel que pertencia ao Eduardo continuava fria, esperando o seu destino final.

Cheguei à casa dos meus pais no início da tarde. A recepção da minha mãe foi cheia de lágrimas e orgulho ao ver o protocolo do CRM com o nome da filha doutora; meu pai abriu um sorriso largo na varanda de madeira, o mesmo sorriso que ele usava antes de o destino arrancar o Eduardo de nós. Passamos a tarde conversando sobre o andamento da roça, sobre a saúde dos parentes e sobre a nova vida do Gordinho que estava prosperando no Centro Automotivo Silva lá na capital. Eles me viam como o orgulho máximo da família Silva, a menina que havia vencido a miséria através do esforço puro.
Por volta das cinco horas da tarde, quando o sol começou a baixar no horizonte, pintando o céu do interior de Minas com tons intensos de rosa, laranja e dourado, eu me despedi da minha mãe na cozinha sob o pretexto de fazer uma caminhada solitária pelas colinas para respirar o ar puro da roça e organizar os pensamentos antes de iniciar a minha maratona nos hospitais.

Caminhei devagar pela estrada de terra, deixando para trás a cerca de arame farpado da propriedade dos meus pais. Subi a colina mais alta da região, um campo aberto e verdejante, coberto por uma relva macia e salpicado de pequenas flores silvestres que dançavam com o vento fresco do final de tarde. Dali de cima, eu conseguia ver toda a extensão do vale, as montanhas de pedra ao longe e a linha do horizonte onde o sol estava se pondo em um espetáculo de luz.
Aquele era o cenário perfeito. Um lugar intocado pelas convenções sociais, longe da graxa da oficina, longe do formol da faculdade e longe do olhar polido dos doutores da capital. Era o lugar onde eu poderia ser, pela última vez, a Amanda do Eduardo.

Sentei-me na relva macia, puxando a caixinha de metal da mochila. Abri a tampa de ferro com um clique suave, revelando a ferramenta gasta do meu homem. Peguei a chave de boca com a mão direita, sentindo o peso frio do metal contrastar com o calor que subitamente começou a queimar no meu baixo ventre, uma reação direta à lembrança das noites intensas que havíamos vivido na sala da nossa casa. As lágrimas que eu havia guardado sob a capa de doutora de sucesso desabaram livremente pelo meu rosto, limpando a maquiagem e devolvendo-me a identidade daquela menina que havia se entregado por inteiro nos braços do seu mecânico favorito.

·       Amanda: "Edu... meu amor... meu único e grande amor..."

A minha voz saiu como um sussurro quebrado, carregado de uma saudade dilacerante que ecoou pelo campo silencioso.

·       Amanda: "Olha para mim aqui em cima, Edu. Eu consegui. Eu assinei o meu contrato como médica no hospital central hoje de manhã... recebi o meu número do CRM, exatamente como a gente planejou naquela segunda-feira na mesa da nossa cozinha quando a bolsa de estudos saiu. O peso financeiro do meu sonho não está mais nas costas de ninguém. Eu venci, meu amor... nós vencemos."

Apertei a chave de boca contra o meu peito largo, fechando os olhos e revivendo, em uma fração de segundo, a intensidade do toque dos lábios quentes do Edu no meu pescoço, o sabor doce do suco dele na minha boca e a força avassaladora com que ele me possuía de quatro ou por cima dele na nossa cama de casal. O sêmen dele, que um dia havia me preenchido por completo no fundo do meu ventre, agora parecia uma lembrança sagrada que me mantinha viva.

·       Amanda: "Mas a vida continuou caminhando lá fora, Edu... O milênio mudou, as estradas ganharam asfalto e eu precisei abrir as portas do meu coração para não morrer junto com você naquele leito de hospital. O Maurício cuida de mim, ele me respeita, ele me oferece um futuro seguro no mundo onde eu agora pertenço. Ele é um homem bom, meu amor... mas ele nunca vai saber o sabor do segredo que a gente trancou dentro daquela porta da periferia."

Usei uma pequena ferramenta de jardinagem que trouxera na sacola para cavar um pequeno buraco na terra preta e úmida do topo da colina, bem embaixo de uma árvore frondosa cujas folhas balançavam com o vento da primavera. Recoloquei a chave de boca gasta dentro da caixinha de metal, fechei a tampa de ferro com um estalo definitivo e a depositei no fundo do espaço escavado.

Antes de cobrir a caixa com a terra, aproximei o meu rosto e deitei os meus lábios no metal da tampa, dando um último beijo demorado, um beijo que trazia o gosto da despedida final e da aceitação do destino.

·       Amanda: "Eu estou encerrando o meu luto hoje, Eduardo. Estou deixando o meu passado, a minha inocência e o homem que eu mais amei na vida guardados aqui, no coração dessa terra de Minas onde a gente nasceu. Você vai ser para sempre o dono do meu santuário secreto, a minha força e a minha primeira entrega. Mas agora eu preciso voltar para a capital e iniciar o meu novo ciclo de cabeça erguida. Descansa em paz, meu mecânico favorito. A sua Amanda vai ser feliz."

Cobri a caixinha com a terra preta, compactando o solo com as minhas mãos até que a superfície ficasse totalmente alinhada com o restante do campo florido. Joguei algumas pétalas de flores silvestres por cima do local, marcando o túmulo secreto do nosso amor proibido. Levantei-me da relva, limpei a poeira do meu vestido e respirei fundo, sentindo um fôlego novo invadir os meus pulmões. O nó que me prendia ao abismo do luto havia sido desfeito; a dor havia se transformado em uma saudade mansa, uma cicatriz dourada que eu carregaria com orgulho sob o tecido engomado dos meus jalecos de doutora.

O Retorno à Capital e o Início da Nova Era

O ônibus da volta para Belo Horizonte entrou na rodoviária na noite de quinta-feira, sob um céu estrelado que parecia abençoar o meu retorno. O Maurício estava me esperando na plataforma de desembarque, vestindo uma camisa de linho clara e segurando um pequeno buquê de rosas vermelhas nas mãos. Quando desci os degraus do veículo, ele caminhou até mim e nos envolvemos em um abraço forte, um abraço que trazia a segurança da realidade palpável que me esperava no centro da cidade.

·       Maurício: "Bem-vinda de volta, Amanda. Como foram as coisas no interior? Conseguiu resolver tudo com os seus pais?"
·       Amanda: "Foi tudo perfeito, Maurício. Deixei os meus documentos com a minha mãe e consegui resolver todas as pendências que estavam travadas no passado. Eu me despedi do que precisava ser deixado para trás. Estou pronta para começar a nossa vida nova."

Ele sorriu, depositando um beijo carinhoso na minha testa antes de pegarmos o carro em direção ao nosso apartamento. O relacionamento que estávamos iniciando ali se consolidou com o passar dos meses e dos anos em uma união baseada no respeito mútuo, na cumplicidade acadêmica e em uma felicidade perfeitamente estável que se mantém viva até o dia de hoje. O Maurício tornou-se o meu marido perante as leis do mundo, o pai dos meus futuros projetos e o companheiro que divide comigo os louros do sucesso nos hospitais da capital.

Na manhã de sexta-feira, o relógio marcou exatamente seis horas quando terminei de me vestir no quarto do apartamento do centro. Coloquei minha calça de alfaiataria preta, calcei o sapato fechado e vesti o meu jaleco branco novo, com o brasão da UFMG e o meu nome, Doutora Amanda da Silva, bordados com fios metálicos azuis no bolso superior. Prendi o meu estetoscópio ao redor do pescoço e coloquei o protocolo carimbado do CRM dentro da pasta de couro.
Caminhei até a janela da sala antes de sair. O sol da manhã estava nascendo atrás dos prédios modernos da Avenida João Pinheiro, iluminando o movimento dos trabalhadores que começavam a lotar as calçadas para mais um dia de batalha na capital. Eu olhei para o reflexo do meu rosto no vidro e vi a imagem de uma mulher vitoriosa, uma médica cirurgiã que havia desafiado os limites da sua própria história para conquistar o topo do seu mundo.

Girei a chave na fechadura da porta da frente, ouvindo o clique suave do trinco caindo. Desci pelo elevador social do edifício, atravessei a portaria vinte e quatro horas com passos firmes e rumei em direção ao Hospital Central para assumir o meu primeiro plantão oficial de trauma. O disfarce para o mundo lá fora já não era uma farsa; era a minha realidade definitiva. O meu passado estava sepultado na terra do interior, mas a força daquele amor proibido que havia inaugurado o meu corpo continuaria sendo o motor silencioso que me faria salvar vidas em cada mesa de cirurgia da capital do novo milênio.


Fim.


Nota do Autor

Queridos leitores,

Com este capítulo, encerro oficialmente a jornada de Chave do Meu Passado.

Escrever a história da Amanda e do Eduardo foi um desafio imenso e uma jornada profundamente emocional para mim. Como entusiasta da escrita, eu me apaixonei por esses personagens, sofri com cada drama, com o luto e com a superação da Amanda, colocando-me no lugar dela em cada linha para tentar trazer a maior verdade possível para o papel.

Sei que o desfecho dela pode trazer um misto de sentimentos, mas sinto que este era o final que ela merecia: o passado guardado com respeito e um futuro conquistado com passos firmes. A história deles se fecha aqui.

Quero agradecer do fundo do coração a cada um de vocês que acompanhou, leu, votou e comentou ao longo desses capítulos. O apoio de vocês foi o combustível para que essa trama ganhasse vida.

Nos vemos nas próximas histórias!

Muito obrigado,
Clarice Guimarães.

Foto 1 do Conto erotico: A Chave do Meu Passado 11


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Ficha do conto

Foto Perfil amanda-silva
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Nome do conto:
A Chave do Meu Passado 11

Codigo do conto:
263758

Categoria:
Heterosexual

Data da Publicação:
05/06/2026

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