Prólogo Bahia, 1972. Na pequena cidade de ruas de barro e casas de portas sempre abertas, todos conheciam Antônio e João. Antônio era viúvo havia três anos. A esposa morrera de febre, deixando-lhe dois filhos pequenos: Miguel, de oito anos, e Davi, de cinco. Desde então, dividia os dias entre a roça, a criação das crianças e uma saudade que parecia não ter fim. João era seu compadre. Casado com Helena, uma professora respeitada, carregava outro silêncio: o casal nunca conseguira ter filhos. Apesar da tristeza, Helena permanecia ao seu lado com a mesma doçura dos tempos de namoro. Os dois homens haviam crescido juntos. Pescaram no mesmo rio, enfrentaram secas, dividiram alegrias e enterraram parentes lado a lado. A amizade era tão antiga que ninguém estranhava vê-los juntos todos os dias. Mas havia coisas que nem eles conseguiam explicar. João demorava mais do que precisava na casa do compadre. Antônio sempre encontrava um motivo para pedir ajuda na cerca, no telhado ou na plantação. Era mais fácil dizer que precisavam de companhia do que admitir que precisavam um do outro. Enquanto isso, o Brasil vivia seus anos mais duros. Homens desapareciam durante a noite, qualquer comentário podia ser interpretado como ameaça ao governo, e numa cidade pequena bastava um boato para destruir uma família inteira. Eles sabiam que certos sentimentos não tinham espaço naquele tempo. Mesmo assim, bastava um olhar prolongado, um aperto de mão que demorava além do costume ou o silêncio compartilhado ao pôr do sol para perceberem que havia algo crescendo entre eles. Algo que nenhum dos dois ousava nomear. Porque algumas paixões não começam com um beijo. Começam quando dois homens descobrem que o lugar onde encontram paz é exatamente ao lado um do outro, ainda que o mundo inteiro diga que aquilo jamais deveria existir.
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