O aroma de grãos de café torrados e o zumbido incessante da máquina de espresso costumavam ser agradáveis, mas agora pareciam apenas a trilha sonora de uma prisão cotidiana. Marianne estava encostada no balcão de fórmica, apoiando o peso do rosto em uma das mãos, os olhos fixos no vazio. Aquele emprego em uma cafeteria local de Miami era simplesmente emburrecedor e entediante, uma rotina sufocante que parecia sugar toda a sua energia e sensualidade natural dia após dia.
Sua amiga e colega de trabalho, Kate, aproximou-se do balcão. Vestindo um casaco cropped laranja vibrante que contrastava com o ambiente rústico de tijolos aparentes, Kate tentava trazer um pouco de leveza ao turno.
— Oi, Marianne. Como está indo? — perguntou Kate, ajeitando o cabelo escuro preso no alto da cabeça.
Marianne soltou um suspiro pesado, mudando de posição, mas sem perder a expressão de desânimo.
— Você sabe... É mais agitado durante a hora do almoço. É um pesadelo, mas eu sobrevivi. Finalmente tive que trabalhar de verdade e não ficar apenas enrolando atrás do balcão.
Kate olhou com simpatia para a amiga, sabendo o quanto Marianne detestava a monotonia daquele lugar.
— Você teve algum tempo para comer?
— Yeah, eu comi entre os pedidos — respondeu Marianne, apontando discretamente com o queixo para a parte de trás. — Mas a cozinha está uma bagunça. Você se importaria de cuidar disso? Eu odeio a cozinha ainda mais do que o atendimento no balcão.
— Yeah, isso não é problema — consentiu Kate com um sorriso compreensivo. — Vou começar imediatamente.
Assim que Kate se afastou em direção aos fundos, Marianne abaixou a cabeça por um instante, massageando as têmporas.
"Deus, eu apenas espero que não tenha muitos fregueses pelo resto do dia", pensou, desejando apenas que o tempo voasse para que pudesse tirar aquele uniforme e aproveitar o calor real de Miami.
— Olá, mocinha.
A voz feminina, madura e decididamente autoconfiante fez Marianne levantar a cabeça imediatamente.
Parada do outro lado do balcão estava uma mulher atraente de cabelos curtos e repicados, exibindo uma postura ousada com a mão na cintura. Ela vestia uma blusa preta com um decote em V profundo que valorizava seu colo, e calças cinzas ajustadas que abraçavam suas curvas generosas. Havia um brilho divertido e quase predatório em seus olhos.
Marianne respirou fundo, forçando a sua melhor e mais artificial voz de atendente:
— Bom dia, senhora. O que posso fazer... O que posso fazer por você hoje nesse maravilhoso dia?
A cliente soltou uma risadinha provocante, achando graça do sarcasmo mal disfarçado da jovem.
— Oh, "senhora"? Alguém já te contou que você tem um talento natural para servir a freguesia?
Marianne cruzou os braços sobre o balcão, estreitando os olhos.
— Alguém já te contou que você é muito hilária?
— Eu já ouvi isso — rebateu a mulher, inclinando-se ligeiramente para a frente, o decote acentuando-se sob a iluminação pendente do local. — As pessoas me dizem que eu sou amável por todo lugar. E olhando para você, parece que você é um verdadeiro raio de sol.
A paciência de Marianne, que já estava por um fio, esgotou-se. Ela não tinha energia para jogos de aparências com clientes entediados.
— Olhe, senhora, eu não estou com humor para isso agora. Você pode me dizer o que você quer? E não cause uma fila atrás de você.
— Ah... agora é "dama"... — a mulher ironizou, achando a petulância de Marianne incrivelmente excitante. — Eu gostaria de um café com creme e Stevia, por favor.
— Por favor, diga-me que é para viagem para que você caia fora logo — disparou Marianne, sem se importar com as regras de etiqueta do comércio.
A cliente sustentou o olhar, o sorriso se alargando em seus lábios pintados.
— Eu penso que vou me divertir com meu café aqui. Você me parece uma amável companhia.
— Isso é perfeito — murmurou Marianne entre dentes.
Ela virou as costas para a mulher e caminhou até a cafeteira industrial. Enquanto Marianne operava a máquina, a posição de espádua destacava perfeitamente o contorno de sua cintura fina e a curvatura acentuada de seus quadris.
Atrás dela, a cliente não fez o menor esforço para disfarçar o olhar ardente que descia pelas costas de Marianne, fixando-se demoradamente em seu bumbum redondo e empinado.
— E o que uma garota bonita como você... Você tem uma cara tão comprida e uma atitude tão desagradável, se me permite perguntar? — a voz da mulher ecoou, cheia de segundas intenções.
Marianne pegou o copo de café, sentindo o calor do líquido através do papelão.
— Você pode perguntar. E isso não é da sua conta, senhora.
— Ora, vamos, me entretenha um pouco — insistiu a cliente, apoiando o quadril contra o balcão.
Marianne soltou um som de desdém com a garganta.
— Ugh, que se dane... Eu vou resumir isso de uma forma bem curta. Esse lugar é uma merda e eu odeio trabalhar aqui.
— Certamente esse lugar não é tão ruim — comentou a mulher, os olhos brilhando com malícia enquanto Marianne se virava de frente novamente. — Eu tenho certeza que você ganha toneladas de gorjetas. Ao menos pela vista que eu tenho te vendo por detrás... Você deve flertar bastante com os cavaleiros.
Marianne aproximou-se do balcão, batendo o copo de café com firmeza na superfície de madeira. Ela fixou os olhos nos da mulher, recusando-se a ser intimidada pelo flerte aberto.
— Yeah. Eu tenho toneladas de gorjetas — disse ela, a voz caindo para um tom mais grave e audacioso. — E por gorjetas... eu me refiro a rapazes se oferecendo para colocar a "gorjeta" deles dentro de mim. E é basicamente isso. Eu prefiro que você não encare minha bunda.
Em vez de se ofender, a mulher soltou uma gargalhada genuína, maravilhada com a audácia e a crueza da jovem de traços marcantes.
— O que você espera? Você tem um amável e redondo bumbum. É muito cativante. Agora, quanto eu devo a você?
— Isso é cinco dólares.
A mulher abriu a bolsa, retirando uma nota verde.
— Aqui está. Isso é uma nota de vinte dólares e você pode ficar com o resto. Isso é somente um tipo de gorjeta que estou oferecendo a você. Agora, por favor, garota... vai te matar se você colocar um sorriso nesse rosto? Isso me mata em ver uma bela senhorita com uma carranca todo esse tempo.
Marianne pegou a nota de vinte dólares, sentindo o papel áspero entre os dedos. O valor do troco era generoso, mais do que ela ganhava em uma hora inteira ali dentro. Ela suavizou ligeiramente a expressão, embora o cinismo continuasse presente.
— Obrigada, eu acho.
A mulher guardou a carteira, ajeitou a blusa preta decotada e começou a se retirar em direção a uma das mesas, virando o rosto uma última vez sobre o ombro.
— Pelo dinheiro ou pelo elogio da sua bunda amável? Eu vou assumir pelo último. Tenha um bom dia, senhorita de traços latinos!
Marianne observou a cliente se afastar, balançando a cabeça enquanto guardava a nota no caixa. O comentário sobre seus traços e seu corpo deixou um eco persistente em sua mente; no fundo, ela sabia que seu físico chamava atenção em qualquer lugar, e que aquele balcão estava se tornando pequeno demais para o que ela realmente valia.
Antes que pudesse se perder nesses pensamentos, o som de passos a trouxe de volta. Um novo cliente parou em frente ao caixa. Marianne limpou a expressão, respirou fundo e assumiu seu posto novamente.
— Olá, o que eu posso fazer por você?