O som do garfo de Lena tocando a porcelana a trouxe abruptamente de volta à realidade.
— Você deveria comer mais — disse Lena, observando o prato praticamente intocado da filha.
Marianne soltou o garfo, encostando-se na cadeira com um suspiro desanimado.
— Eu não estou com fome.
Lena franziu o cenho, pousando o próprio talher.
— Como assim? Você trabalhou o dia todo em pé, Marianne.
— Eu não sei... — Marianne desviou o olhar para a janela que dava para a noite de Miami. — Talvez seja essa atitude rabugenta que eu tenho a toda hora.
Lena respirou fundo, tentando manter a compostura para não transformar o jantar em um novo campo de batalha.
— Marianne, não vamos começar com isto enquanto comemos.
— Yeah, com certeza... — Marianne murmurou, a voz transbordando de um sarcasmo cortante. — Porque tudo está tão bom...
Lena empurrou levemente o prato para o lado, perdendo o apetite. O cansaço de lidar com a insatisfação constante da filha começava a transparecer em seu rosto.
— Sério, Marianne, eu não sei o que fazer com você. Você reclama constantemente sobre como o trabalho é horrível. Você não era assim no ano passado... O que aconteceu?
Marianne olhou fixamente para a mãe. O contraste entre as duas era evidente: a estabilidade conformada de Lena contra o fogo e o desejo de liberdade que queimavam dentro de si.
— Nada aconteceu, mãe. Eu acho que fui apenas estapeada no rosto com a realidade. Eu não sou exatamente uma pessoa muito requisitada no mercado de trabalho.
— Você não deveria se vender por tão pouco, Marianne — Lena argumentou, suavizando o tom e tentando adotar uma postura encorajadora. — E se você der uma tentativa no programa de enfermagem? Eu penso que você iria gostar. É uma carreira estável, com propósito.
A reação de Marianne foi instantânea. Seus olhos se estreitaram e ela sentiu uma repulsa física àquela sugestão.
— Mãe, eu nunca serei a porra de uma enfermeira, okay? Eu não tocaria nesse programa de treinamento nem com uma vara de dez metros, mesmo que a minha vida dependesse disso. Não depois que eu vejo as horas que você fica enfiada naquele hospital.
— Você está falando sobre o meu trabalho que sustenta ambas de nós... — o tom de Lena subiu, defendendo a própria trajetória com orgulho ferido. — Eu tenho que trabalhar longas horas para que nós possamos ter uma vida confortável aqui. E se você passasse no hospital e conversasse com algumas das enfermeiras que fazem o programa de treinamento? Um monte delas são perto da sua idade. Elas podem te dar uma perspectiva que você vai gostar.
Marianne empurrou a cadeira para trás com força, o som da madeira arrastando no piso ecoando alto pela cozinha. Ela se levantou, a silhueta imponente e cheia de energia contida dominando o espaço.
— Mãe! Chega desse negócio de enfermagem. Eu não vou fazer isso. Eu já expliquei! Eu não quero essa merda de trabalho 9 às 5 que esmaga a sua alma. E por quê? Porque eles são a razão exata de eu estar de mau humor todo esse tempo! Não vai importar se eu trabalhar em algum hospital ou em uma cafeteria, é a mesma coisa. O resultado no final é o mesmo: eu não vou ganhar nada com isso, vou continuar quebrada e vou ficar completamente exausta depois que o meu turno se acabar.
Lena olhou para a filha de baixo para cima, os olhos cansados cheios de uma triste resignação com o que considerava a imaturidade de Marianne.
— Olha, Marianne, eu não vejo um monte de opções para você. A vida não é sempre algum desfile onde você faz o que você quiser o tempo todo.
Marianne sustentou o olhar da mãe por um último segundo elétrico. Ela cruzou os braços, sentindo o próprio corpo, a juventude e a beleza que possuía — atributos que o mundo lá fora parecia valorizar muito mais do que um diploma de enfermagem.
Ela deu as costas para a mesa e caminhou a passos firmes em direção ao corredor de seu quarto. Antes de fechar a porta, ela olhou por cima do ombro e disparou sua última linha de pensamento:
— Seria interessante se fosse um desfile mesmo... por um tempo.
A porta do quarto se fechou com um estalo firme. No escuro de seu aposento, Marianne jogou-se na cama, o coração acelerado. Ela pegou o celular na bolsa. A imagem daquela mulher misteriosa e a promessa de um mundo onde seu corpo seria o seu único instrumento de trabalho começavam a parecer menos um absurdo e mais como a única saída de emergência daquela vida monótona em Miami.