Kate se aproximou silenciosamente, tirando o avental de trabalho e exibindo um sorriso cúmplice.
— Ok, Marianne. Já é a hora. Você está livre. Livre para deixar este abençoado lugar.
Marianne guardou o celular no bolso traseiro da calça e soltou um suspiro de puro alívio, esticando os braços.
— Hurrah. Um pouco de liberdade antes de termos que fazer tudo isso de novo amanhã.
Kate apoiou os cotovelos no balcão, observando o semblante cansado da amiga.
— Algo fora do comum aconteceu por aqui?
— Nope... Entediante... Como costuma acontecer — resmungou Marianne, balançando a cabeça. — É como eu vejo esse filme... Eu já vi ele centenas de vezes e me irrita desde a primeira vez. Eu juro que isso aqui deve ser como o purgatório.
Kate franziu o cenho, percebendo o tom de real angústia na voz de Marianne.
— Uhh... Você tem certeza que você está bem?
Marianne olhou para a amiga e suavizou a expressão, sentindo um lampejo de culpa.
— Eu não sei... Desculpe... Não queria descontar em você, se é isso que você pensa. É que, quando eu penso que tenho que voltar aqui amanhã, isso faz a minha pele dar arrepios. E se é isso o que a minha vida profissional será...
— Ok, então que tal você não pensar em ter que voltar amanhã? — interrompeu Kate, segurando os ombros de Marianne com firmeza e empurrando-a levemente em direção à saída. — Caia fora e não olhe para trás.
Marianne abriu um sorriso genuíno, o primeiro de todo o dia.
— Com certeza, Kate. Você é a única coisa que me mantém sã por aqui. Tem aquele filme que a gente falou que vai passar daqui a algumas semanas... Quem receber a próxima reclamação de um cliente paga os ingressos. O que acha?
— Hah! Fechado! — Kate riu alto, cruzando os braços. — Agora, sério, caia fora daqui. Eu não quero que você esteja neste lugar mais do que o necessário.
Marianne pegou sua bolsa e virou as costas, caminhando em direção à saída dos fundos, que dava para o beco de serviço do estabelecimento.
— Hah! Obrigada por cuidar de mim! — gritou Marianne antes de empurrar a porta de metal.
Ao pisar no exterior, o ar quente e úmido de Miami colidiu contra sua pele. Marianne deu apenas alguns passos antes de congelar. Encostada na parede de tijolos dos fundos, sob a sombra do toldo, estava aquela mesma mulher elegante de blusa preta decotada que a havia provocado no balcão horas antes.
A mulher estava com o celular pressionado contra a orelha. Assim que notou a aproximação de Marianne, seus olhos brilharam com um interesse renovado. Ela afastou o aparelho do rosto e falou rapidamente:
— Ei, ligo de volta em um segundo, surgiu um imprevisto.
Ela desligou a chamada, guardou o telefone na bolsa e deu um passo à frente, bloqueando sutilmente o caminho de Marianne.
— Ei, jovenzinha, você tem um minuto? Isso não vai demorar muito.
Marianne sem dentes, cruzou os braços e adotou uma postura defensiva instantânea. Sua paciência com aquela cliente já havia esgotado no turno de trabalho.
— Yeah, já que você diz... Mas isso já levou muito tempo para o meu gosto. Eu realmente prefiro não passar meu tempo livre neste lixo. Além disso, se você quer que eu peça desculpas por ter mandado você se foder, azar o seu. E eu não me importo se você disser para o gerente.
A mulher soltou uma risada baixa, longe de parecer ofendida. Pelo contrário, a agressividade e o fogo de Marianne pareciam apenas aumentar seu fascínio.
— Oh, não. Isso não tem nada a ver com isso. Olha, pelo que eu entendi, você realmente não gosta deste lugar. Eu estou certa?
Marianne revirou os olhos com desdém.
— Wow. Você realmente é boa em afirmar o óbvio, não é?
— Obrigada — ironizou a mulher, mantendo o tom calmo e controlado. — Se você está tão infeliz aqui, por que você não procura outro trabalho?
— Obrigada pelo conselho sólido... Ter um outro trabalho... — Marianne rebateu, a voz carregada de cinismo. — É isso aí para mim. Não me importo em estudar e este é o tipo de trabalho que posso conseguir. Se isso é tudo, estou indo.
Ela fez menção de desviar da mulher, mas as próximas palavras da desconhecida a fizeram parar no lugar.
— Mas isso não tem que ser dessa maneira. Você sabe, posso ter algum trabalho para você, se você estiver interessada.
Marianne estreitou os olhos, medindo a mulher de cima a baixo com desconfiança. A proposta soava estranha vindo de uma completa desconhecida no beco de uma cafeteria.
— Uhm. Você? Que tipo de trabalho você poderia me oferecer? Eu não tenho exatamente muitas habilidades comercializáveis e, se você disser que é virar hambúrgueres, nunca mais quero te ver na minha frente.
A mulher soltou uma gargalhada genuína, cruzando os braços sob o busto farto.
— Hah. Não, isso não é virar hambúrguer. Mas seria... como dizer? Eu acho que é um pouco picante e envolveria você tirar suas roupas.
O cérebro de Marianne processou a informação rapidamente, e uma onda de choque e indignação subiu por seu peito. Ela deu um passo para trás, a expressão endurecendo.
— Uhm... Você é a porra de uma cafetina?
— Não, não, não, nada dessa forma! — a mulher apressou-se em dizer, erguendo as mãos em um gesto de paz, embora o sorriso malicioso continuasse em seus lábios. — Vai tomar algum tempo para a gente discutir... Que tal irmos até minha casa e investigarmos um pouco mais a fundo? Eu poderia concluir meu lado dessa coisa e você poderia perguntar tudo o que você quiser.
A menção de ir para a casa daquela mulher desconhecida acendeu todos os alertas de orgulho e perigo na mente de Marianne. Ela inflou o peito, os traços latinos marcados por uma fúria fria.
— Yeah, que tal isso: a última coisa que eu estou procurando é ser agenciada por uma bruxa velha. Que tal você ir se foder?
Sem dar tempo para qualquer resposta, Marianne virou as costas com determinação, os quadris balançando com raiva enquanto ela marchava em direção à calçada principal, deixando a mulher misteriosa para trás na penumbra do beco.