Apocalipse 2193: o interrogatório de Kiara

Assim que a cadeira aprisionou os pulsos e tornozelos de Kiara, ela arregalou os olhos, surpresa. Rute, a Comandante da Cidade de Falésias, observou suas reações com bastante atenção. E a que mais lhe intrigou foi o fato dela estar amedrontada, mas não questionar ou buscar alguma explicação imediata.

- Então, diga-me sua história. Convença-me com a verdade. Mas preciso dizer que, se eu suspeitar ou não acreditar em uma vírgula do que sair de sua boca, chamarei os sentinelas para lhe sacrificar.

Kiara ainda sentia o coração pulsar com força. Estava nervosa, com medo. Como ela poderia ser confundida com uma Soberana? Ela nem sabia a aparência de uma, imaginava ser um ser de outro planeta.

- Eu sou Kiara, nascida no grupo Astros. Minha vinda a este mundo coincidiu com a Primavera Tóxica, que fez com que boa parte dos meus colegas morressem. Meus pais disseram que meu nascimento ocorreu no Morro do Triunfo, ponto de encontro dos grandes guerreiros Astros. Aprendi diversas técnicas para sobrevivência, mas nunca fui posta em condição de serviçal. Gostava muito delas, inclusive, minhas maiores amigas eram Solitárias que surgiam com o passar do tempo. Elas nunca contavam sobre o mundo e eram impedidas de dizer as verdades da organização da nossa sociedade, mas eu flertava com a emoção de um dia sair e conhecer o mundo...

Kiara contou sua história, seus pensamentos e ideias com bastante franqueza e naturalidade. À medida que fazia isto, Rute caminhava em volta da cadeira, a observava nos olhos e demonstrava muita atenção a todos os detalhes. Não a interrompia, mas parecia listar possíveis furos na conversa, o que deixava Kiara em suspense.

- Certo. Sabe dizer quais são os Impérios Insulares? - perguntou Rute, com bastante inocência.

- Ouvi falar sobre o Império do Norte. Mas não sei onde fica, o que fazem ou como funciona. Existem mais impérios? - respondeu Kiara com uma curiosidade translúcida.

- Existem mais sim. Sabe dizer quantas vezes os Soberanos vieram até o litoral e quantos deles estão no continente? - perguntou Rute.

- Não. Até onde eu sabia, os Soberanos não permanecem no continente. Eles agora ficam? - respondia Kiara, novamente com um semblante sincero de curiosidade.

- Acho que me equivoquei. É que Marcela afirmou que os Falcões eliminaram os Astros com a ajuda de três Soberanos. E agora me aparece você dizendo ser uma Astros, sozinha? Você não estaria por trás dessa ajuda dos Soberanos querendo se infiltrar na cidade para depois atrair seus amigos?

- Peraí, eu não sou Soberana. Eu odeio os Soberanos, eu quero matar todos aqueles que invadiram minha base e queimá-los vivos por entregarem meus parceiros aos meus inimigos.

- Conte mais sobre isso. - direcionou Marcela.

Kiara então falou sobre ter acordado de madrugada com sede, a conversa de Orlando com os Soberanos. O fato de ter sido pêga de surpresa com as atitudes deles. Sua perseguição que terminou com os membros Falcões explorando suas amigas sexualmente para depois matar um por um. Por fim, falou sobre sua caminhada sem fim, buscando um novo recomeço e chegando ao atual ponto.

- Eu realmente estou impressionada com você. Não existe uma mulher tão bela como você. É excitante te ver, mesmo para mim, uma mulher que nunca ficou com outra. Seus lábios, quando se mexem, parecem convidar para um beijo. Você enfeitiça. É virgem?

- Sim, sou.

- Já beijou ou fez algo físico com outra pessoa.

- Sim, já beijei.

- Quem?

- Minha amiga. Uma vez. Foi um beijo longo e demorado. Tivemos vontade de fazer algo mais.

- E porque não fizeram?

- Fomos interrompidas, ocorreu um ataque no nosso acampamento.

- E depois, porque não tentaram novamente?

- Ela sentiu o fardo de nossa comunidade. Nosso grupo abominava lésbicas e gays. Então também evitei, embora sempre sonhasse com a possibilidade de repetir.

- Que horror! Em Falésias não temos esse pensamento. As pessoas fazem o que elas quiserem fazer sem julgamentos.

Rute seguiu conversando sobre outros assuntos. Habilidades, feitos e marcos, sentimentos e desejos de Kiara.

- Para finalizar, preciso saber, o meu subordinado, senhor Jarbas, lhe provocou, tentou fazer algo ou tirar proveito sobre você ou Marcela enquanto estava encarceiradas?

Kiara engoliu cedo. Não tinha ideia do que poderia acontecer se denunciasse. Isso nunca aconteceu antes.

- Sim, ele tentou tirar proveito de mim.

- E Marcela? Ela tentou seduzir ele ou ele se aproveitou pelo fato de ter o domínio de vocês para fazer algo inapropriado?

- Ele transou com Marcela.

- E foi algo consensual? Ela permitiu ou facilitou ou foi forçada?

- Não sei dizer, aconteceu longe da minha visão.

- Certo! Por enquanto é isto, já volto.

Rute saiu da sala e Kiara então ficou sozinha. Passaram-se alguns minutos que pareceram horas. Então a porta se abriu novamente e duas pessoas entraram silenciosamente.

Jarbas apareceu no campo de visão de Kiara caindo no chão algemado e com a boca amordaçada. Rute tinha lhe empurrado. Seus olhos estavam arregalados e revelavam um terror brutal.

- O maior problema de homens como ele é que eles pensam que jamais serão punidos. - disse Rute com um ar de indignação.

A porta volta a se abrir e entra mais uma pessoa. Rute cruza o olhar por Kiara indicando estar observando a novidade que demora um pouco a aparecer. Antes há sons de tecido saindo do cor e também de algo sendo colocado.

Eis que Marcela aparece na frente de Kiara. Agora ela finalmente podia ver mais detalhes da amiga. Tinha a pele morena, manchada e queimada pelos intensos raios solares e marcas de alguém que apanhou ou sofreu castigos por algum tempo. Ainda assim era uma mulher interessante com a pele rígida. Era forte, tinha braços e pernas bem torneados.

Marcela estava totalmente nua e vestia uma cinta peniana com um membro grande e grosso, similar a de animais de grande porte. Rute então puxou seu vassalo do chão e o posicionou sobre a mesa.

- Mostre-me Marcela, como seu algoz conduziu o abuso ao seu corpo.

Marcela se aproximou por trás, deu-lhe tapas estalados e fortes. Jarbas gemia abafado devido à mordaça.

- Está gostando agora? Seu filho da puta!

- Ele lhe chamava assim? - questionou Rute.

- Não!

- Tente simular como foram as atitudes dele e falas. Não exagerei, deixe isso pra depois.

Marcela então abriu a bunda de Jarbas, que já estava vermelha devido aos tapas. Colocou a cabeçona de seu brinquedo encostando em seu cú e empurrou. Vendo dificuldades nisso, tirou e cuspiu. Repetiu o processo até finalmente começar a comer.

Jarbas tentava escapar indo pra frente, tentando travar o corpo, mas Marcela seguia, sem nenhuma piedade.

- Está gostando, putinha? Eu sei que você quer mais!

O tempo parecia não andar. Os gemidos e gritos abafados de Jarbas seguido de seu melancólico choro deixaram Kiara surpresa. Ela sabia que ele não valia nada, ela não tinha visto nada, mas também morava que Marcela tinha colaborado e aceitado ir sem resistência. Isso a deixou sem jeito, mas seus olhos tentavam registrar o máximo de informações.

Ver Jarbas, um homem grande e gordo, debruçado na mesa sendo arrombado por uma mulher sofrida tinha um ar de vingança e também de interesse por Kiara. Algo similar tinha acontecido com suas colegas que morreram após serem comidas a força pelos Falcões.

Então, imóvel, assistindo a tudo sem atrapalhar, questionar o dizer uma palavra, Kiara esboçou um sorriso sínico. Por um instante ela enxergava Jarbas ser um dos Soberanos e até mesmo Falcões. Ela via Marcela se excitar, tocando em seus seios enquanto macetava Jarbas e isso a estimulou.

Rute então chegou próxima ao seu ouvido, também olhando a cena.

- Ela sabe punir bem um homem mau, não é mesmo?

- Aham!

Enquanto ela não tirava os olhos da enrabada de Marcelo em Jarbas, Rute pegou seu queixo e o virou levemente para roubar-lhe um selinho. Com os olhos abertos, como se não aguentasse mais não fazer aquilo.

- Desculpe, eu queria muito saber como eram seus lábios, mas não quero lhe forçar a nada. Não sou como ele.

Kiara sentiu os lábios de Rute e eles a fizeram se lembrar de seu antigo amor. Mas aquilo era diferente, parecia haver paixão platônica, da boca de uma suposta mulher hétero que mal a conhecia.

- Mas eu quero mais! - disse Kiara com o olhar brilhando.

Rute então voltou a lhe beijar, agora com maior intensidade. Kiara sentiu o toque seco dos lábios, depois as línguas a se encontrar. Deixou que ela a conduzisse, fazia tempo que não sentia algo nem parecido com aquilo. Fechou os olhos, se entregou, se excitou como nunca antes.

E quando ela menos esperou, ao reabrir os olhos, viu Jarbas sem algemas render Rute, puxando-a para trás. Em um único movimento, cortou-lhe a garganta, fazendo jorrar sangue por todo lado.

Marcela estava do seu lado, parecia fazer parte de algum plano mais elaborado. Jarbas jogou Rute no chão, agonizando, enquanto Kiara arregalava os olhos, vendo mais um de seus amores partir.

- Você achou mesmo que iria ficar com todo esse poder para si? Regulando uma cidade falida? Criando regras para impedir que os homens possam ser homens e se submetam a ideias fajutas de uma tal organização social ideal? Faça o favor.

Rute então deu seus últimos movimentos e se foi de vez. Kiara chorava, não mais porque perdeu Rute, mas porque estava sozinha, presa e exposta.

- Agora finalmente você é minha. Sua piranhazinha lésbica! - e deu-lhe um tapa com as costas da mão no rosto.

- Ei, pode parar com isso. Chega, ela é minha! - interrompeu Marcela.

- Ah, ela é sua?

- Sim. Se não fosse eu, não teria tido a chance de anular sua rival. Foi eu quem falei que isso era possível, que fiz Rute acreditar que antes de te matar era necessário te punir, que fiz Kiara confirmar a história e lhe dar essa oportunidade.

- Tá bom. Eu não vou reclamar, embora um dia eu vou ter essa vadiazinha pra mim. Especialmente porque pensou em tudo também, mas esqueceu de um detalhe.

- E qual seria?

- Entramos eu, Rute, você e essa putinha. Rute, a líder de todos, morreu assassinada. Eu estava preso, todos viram, você não. E a puta ninguém sabe como estava. Mas quem será que tinha maior condição de matar a Rute?

Por um instante, Marcela notou que seu plano tinha sido péssimo. E isso fez com que todos ficassem imóveis. Ela então se esticou e bateu a mão no dispositivo que liberava Kiara. Assim que a algema dos braços e pernas se soltaram, Jarbas agarrou Marcela tentando segura-la. Os dois se envolveram numa briga desajeitada.

- Sai daqui, garota! Se salva e desaparece dessa cidade! Deu tudo errado, a gente se ferrou!

Kiara ficou em estado de alerta e pensou rápido. Sair pela porta que entrou não era o caminho certo pois obviamente estava repleta de guardas. Ela olhou para as janelas, viu que havia a possibilidade de cruza-las e então correu.

Ao pular, Jarbas tinha imobilizado Marcela e a chamar de assassina. Kiara pulou, arrebentou a janela e caiu do segundo andar numa estrutura que reduziu um pouco seu contato. Não havia nenhum guarda por ali e ela então começou a correr desajeitada, dolorida, mas ainda com uma velocidade razoável.

Quando já estava um pouco distante, notou que Jarbas tinha conseguido por os guardas em alerta.

- Ela está lá! Direção norte!

Ouviu Jarbas esbravejar. Kiara correu, correu, correu. Se lembrou da vez em que foi cercada. Não olhou pra trás e mudou a rota após um tempo. Sem notar, correu, chorou por mais uma traição e mais uma morte importante.

Ao anoitecer, sem mais ouvir barulho de passos ou patrulhas distantes, Kiara se escondeu em grutas, sua especialidade. Era preciso juntar os cacos... De novo...


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Ficha do conto

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Nome do conto:
Apocalipse 2193: o interrogatório de Kiara

Codigo do conto:
266694

Categoria:
Sadomasoquismo

Data da Publicação:
09/07/2026

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