A Idéia - Parte 8

Naquela noite, decidi que ia arriscar um pouco mais

Não muito
Pelo menos era o que eu dizia a mim mesma enquanto olhava para a conversa aberta no celular

Havia alguma coisa curiosa na maneira como eu vinha falando com ele, aos poucos, as mensagens tinham deixado de ser apenas uma troca casual de palavras, continuavam parecendo inocentes quando lidas isoladamente, mas eu já sabia que algumas delas carregavam uma intenção que não aparecia na superfície

E eu queria descobrir se ele percebia
Mais do que isso, queria saber o que fazia com aquilo
Até então, eu tinha sido cuidadosa, uma pergunta aqui, uma brincadeira ali, uma frase que poderia significar duas coisas diferentes, dependendo de quem estivesse lendo

Sempre havia uma saída

Se ele não entendesse, eu poderia fingir que não era nada, se entendesse, poderia rir e mudar de assunto
Era confortável manter tudo naquele território indefinido
Mas, naquela noite, eu estava menos interessada em me proteger

Queria ver se ele teria coragem de atravessar comigo aquela pequena distância que existia entre o que dizíamos e o que realmente queríamos dizer
Digitei uma mensagem

Apaguei
Escrevi outra
Apaguei também
Aquilo começou a me irritar

Eu já tinha idade suficiente para saber o que estava fazendo, não estava declarando sentimentos, muito menos procurando alguém para ocupar um lugar na minha vida, André continuava sendo meu marido, meu companheiro, a pessoa com quem eu dividia a rotina e a intimidade

Aquilo era outra coisa

Eu queria sentir o efeito de uma provocação
Queria imaginar o que acontecia do outro lado da tela quando ele lia alguma coisa minha
E, principalmente, queria descobrir se aquele homem conseguia me surpreender
Finalmente, escrevi:

— Posso te fazer uma pergunta um pouco indiscreta?

Fiquei olhando para a mensagem enviada
A resposta demorou alguns minutos

— Depende, você costuma avisar antes das perguntas indiscretas?

Sorri
Não era uma resposta particularmente ousada, na verdade, era quase banal
Mas havia alguma coisa nela
Ele não tinha perguntado qual era a pergunta, não tinha demonstrado surpresa nem tentado adivinhar o assunto
Apenas devolvera a provocação, deixando a decisão comigo

Respondi:

— Só quando não tenho certeza se a pessoa vai saber responder

Dessa vez, a resposta chegou mais rápido

— Então acho que você deveria perguntar

Encostei as costas no sofá
Era isso que eu queria
Não uma declaração, não um elogio fácil, muito menos uma frase vulgar que acabasse com toda a graça da conversa
Queria aquele pequeno movimento de aproximação
A sensação de que ele tinha entendido a intenção, mas estava disposto a me deixar descobrir sozinha até onde ela poderia chegar

Digitei:

— Você sempre é tão tranquilo assim quando alguém tenta provocar você?

Enviei antes que pudesse mudar de ideia
Dessa vez, ele demorou
Olhei para o relógio, depois para a tela, peguei o celular, deixei-o sobre a almofada e tentei me concentrar no programa que estava passando na televisão
Não consegui
Quando a notificação apareceu, peguei o aparelho depressa demais para alguém que supostamente não estava esperando

— Quem disse que eu estou tranquilo?

Li a frase duas vezes
Não havia nenhuma palavra explícita, nenhuma confissão, ele nem sequer tinha dito que eu estava conseguindo provocá-lo
Ainda assim, senti um calor discreto subir pelo rosto
Porque a resposta mudava a posição dos dois
Até aquele momento, eu era a pessoa que fazia perguntas, que experimentava frases, que observava os efeitos das próprias palavras
Agora, pela primeira vez, não tinha certeza de quem estava observando quem

Respondi:

— Você não parece muito incomodado

A resposta dele veio acompanhada de uma pausa que, na minha imaginação, pareceu maior do que provavelmente tinha sido

— Talvez eu só queira acabar com o mistério

Fiquei imóvel por alguns segundos
Era uma frase simples
Poderia significar muitas coisas, talvez ele estivesse apenas brincando, talvez tivesse percebido minha intenção desde o início, talvez estivesse se divertindo tanto quanto eu

O problema era que eu não conseguia escolher uma interpretação
E percebi que ele provavelmente sabia disso
Apoiei o celular no colo e ri sozinha

— Você está ficando convencido, escrevi

— Não, só estou tentando acompanhar o seu raciocínio

— E está conseguindo?

A resposta demorou um pouco mais

— Acho que você gostaria de saber

Soltei uma risada curta
Aquilo foi quase irritante
Eu tinha começado a conversa acreditando que conseguiria conduzi-la com a mesma facilidade com que conduzia minhas pequenas brincadeiras com Daniel ou com o vizinho

Fazia uma pergunta, recebia uma reação, decidia o próximo passo
Com ele, porém, as coisas não aconteciam exatamente assim
Ele respondia o suficiente para me manter interessada, mas nunca tanto que eu pudesse ter certeza de alguma coisa
E, quando eu tentava descobrir o que havia por trás das palavras, acabava percebendo o quanto estava envolvida naquele pequeno jogo

Não envolvida com ele
Era importante fazer essa distinção

Eu não estava imaginando encontros, conversas intermináveis ou qualquer tipo de futuro ao lado daquele homem, não sentia vontade de saber como seria acordar com ele, dividir uma casa ou participar dos detalhes da vida dele

O que me atraía era muito mais imediato
Era a possibilidade de despertar alguma coisa
De perceber que uma frase minha podia mudar o tom de uma conversa, que uma provocação discreta podia continuar existindo na cabeça de outra pessoa mesmo depois que o celular fosse guardado

Eu queria despertar desejo
E queria sentir o meu próprio desejo responder a essa possibilidade

Talvez fosse vaidade, talvez curiosidade, talvez aquela parte de mim que havia começado a aparecer durante as viagens de André e que, desde então, eu vinha conhecendo com uma mistura de prazer e surpresa

Não precisava dar um nome definitivo àquilo
Por enquanto, bastava saber que eu queria continuar
Olhei novamente para a tela

Escrevi:

— E se eu disser que gosto de deixar as pessoas curiosas?

Dessa vez, a resposta veio quase imediatamente

— Eu diria que você não gosta tanto assim de deixar as pessoas curiosas

Franzi a testa, sorrindo

— Ah, não?

— Acho que você gosta de descobrir se elas ficaram curiosas

Parei de sorrir por um instante
A frase tinha acertado um ponto que eu não esperava
Porque era verdade

Eu não queria apenas provocar e ir embora, queria saber se a provocação tinha funcionado, queria enxergar algum sinal, por menor que fosse, de que minhas palavras tinham provocado uma reação

E ele acabara de mostrar que percebia isso
Respondi:

— Você pensa demais

— E você pergunta demais

— Talvez porque você responda pouco

Dessa vez, ele levou alguns minutos
Eu já estava começando a imaginar se tinha exagerado quando a mensagem apareceu

— Talvez eu prefira deixar você pensando no que não respondi

Fiquei olhando para a tela
Depois outra vez
Apoiei o aparelho no peito e fechei os olhos por um instante
Não era uma declaração, não era uma promessa

Mas havia uma abertura
Pequena, calculada, suficiente para me fazer pensar no que aconteceria se eu decidisse avançar mais um passo
E foi justamente isso que me fez sorrir
Eu tinha começado aquela conversa querendo descobrir se ele reagiria às minhas provocações

Agora, começava a suspeitar de que ele tinha entendido a brincadeira muito antes de mim
Peguei o celular novamente
Dessa vez, não fiquei ensaiando a mensagem

— Você está tentando me deixar curiosa de propósito?

Dessa vez, a resposta não veio imediatamente

Esperei

Quando o celular vibrou, quase não percebi que estava prendendo a respiração

— Você está me dando essa oportunidade

Li a mensagem uma vez
Depois outra

E respondi

— Então talvez eu devesse aproveitar melhor a oportunidade

Enviei
A resposta demorou o suficiente para que eu me arrependesse de ter sido tão direta
Por alguns segundos, pensei em acrescentar alguma brincadeira, qualquer coisa que diminuísse o peso da frase, mas me obriguei a deixar a mensagem como estava

Eu tinha escolhido dizer aquilo
Não precisava correr para desfazer a escolha
Finalmente, ele respondeu:

— Talvez, mas não tenha tanta pressa, às vezes, a melhor parte é perceber que você pode ir um pouco mais longe sem precisar chegar a lugar nenhum

Fiquei quieta
Havia alguma coisa naquela frase que me atingia de um jeito diferente
Não porque fosse especialmente ousada, mas porque parecia compreender exatamente o que eu estava procurando

Eu não queria uma história de amor
Não queria que ele me prometesse nada, que demonstrasse ciúme ou que tentasse ocupar um espaço que nunca lhe ofereci
Queria a tensão
A dúvida

A sensação de que existia alguma coisa entre duas pessoas que ainda não precisava acontecer para produzir um efeito real
E queria continuar no controle da minha própria escolha
Talvez por isso aquela resposta tivesse mexido tanto comigo

Ele não estava tentando me convencer de nada
Apenas me mostrava que tinha percebido a direção para a qual eu tentava conduzir a conversa, e que não precisava correr para me acompanhar
Estava alimentando o meu desejo
Deixei o celular sobre a mesa e me levantei para buscar água

Enquanto atravessava a cozinha, percebi que estava sorrindo
Era estranho como uma conversa tão simples podia continuar dentro da minha cabeça mesmo quando já não havia mais mensagens chegando
Eu me lembrava de cada frase, de cada pausa, das respostas que poderiam significar duas coisas diferentes
E, pela primeira vez, me ocorreu que talvez eu não fosse a única pessoa capaz de usar o silêncio como parte da provocação

Quando voltei para a sala, havia uma nova mensagem
Era dele

— Acho que vou deixar você descansar, boa noite

Sorri, um pouco surpresa
Nenhuma tentativa de prolongar a conversa, nenhuma pergunta sobre o que eu estava fazendo, nenhuma cobrança por uma resposta
Ele simplesmente encerrara o assunto
E me deixara com ele na cabeça

Respondi:

— Boa noite, e não fique convencido

A resposta chegou pouco depois

— Vou tentar, mas não prometo

Ri sozinha
Apaguei a tela e fiquei alguns segundos olhando para o reflexo escuro do celular
Eu tinha conseguido o que queria?
Em parte

Sabia que ele percebera minhas intenções, sabia que estava disposto a brincar comigo, embora não soubesse exatamente o que aquilo significava para ele
O resto continuava em aberto
E, curiosamente, eu não sentia necessidade de resolver tudo naquela noite

Não estava apaixonada, não queria estar
O que eu queria era descobrir se conseguiria provocar nele uma reação mais evidente sem perder aquela distância que tornava tudo tão interessante

Queria saber se, na próxima vez, ele continuaria respondendo com aquela calma irritante ou se, em algum momento, deixaria escapar alguma coisa que não pudesse ser disfarçada como brincadeira

Por enquanto, o jogo estava nas mensagens, nas pausas e naquilo que nenhum dos dois dizia diretamente

E eu começava a entender que, às vezes, a provocação mais eficiente não era aquela que revelava uma intenção
Era aquela que fazia a outra pessoa perceber que havia uma intenção ali, e passar o resto do tempo tentando descobrir até onde ela ia
Naquela noite, antes de dormir, pensei nele mais uma vez

Não imaginei um beijo
Não imaginei um encontro
Imaginei apenas a próxima conversa
A próxima frase
A próxima oportunidade de descobrir se ele continuaria me deixando tão curiosa quanto eu tentava deixá-lo
Se me arrepiaria esperando tudo isso, como estava agora
Se meu corpo continuaria reagindo

E adormeci com uma certeza que me fez sorrir no escuro:
Na próxima vez, eu seria um pouco mais ousada
Só um pouco
O suficiente para descobrir se aquela tranquilidade toda era real
Ou se ele estava apenas esperando que eu desse o próximo passo



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Ficha do conto

Foto Perfil Conto Erotico ramone84

Nome do conto:
A Idéia - Parte 8

Codigo do conto:
275782

Categoria:
Confissão

Data da Publicação:
28/10/2026

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