Interior de uma cidade litorânea que de dia fingia ser decente e de noite mostrava os dentes. O lugar não tinha nome no letreiro. Só uma placa pequena e apagada que dizia “Pensão Recanto” e, por baixo, em letras quase invisíveis, “Entrada pela lateral”. Todo mundo sabia o que era. Cabaré. Casa de prostituição. Zona.Eu era o porteiro.Três anos naquela porta de ferro enferrujada, das dez da noite às seis da manhã. Camisa preta, calça escura, rádio no ouvido e um cassetete escondido atrás do banco de madeira onde eu ficava. O trabalho era simples: controlar quem entrava, quem saía, quanto tempo ficava, e garantir que ninguém fizesse merda demais. Brigas, clientes bêbados, meninas que tentavam fugir sem pagar a casa, policiais curiosos. Tudo isso passava por mim.As noites começavam sempre iguais.O cheiro chegava primeiro. Perfume barato misturado com cigarro, álcool e aquele odor doce e pesado de sexo que nunca saía das paredes. As meninas desciam uma a uma da escada interna. Algumas de shortinho e top, outras de vestido justo, outras só de calcinha e sutiã por baixo de um robe aberto. Passavam por mim, acendia o cigarro, reclamavam do calor, do frio, do cliente de ontem, do gerente. Eu só acenava com a cabeça.— Boa noite, gato — dizia a Rúbia, sempre a primeira a descer. Cabelo vermelho tingido, peitos grandes, boca pintada de vermelho escuro. Passava a mão no meu ombro de propósito, deixando o perfume dela grudado na minha camisa.Depois vinha a Jéssica, magra, tatuagem de rosa na coxa, olhar cansado. A Thaís, alta, pernas longas, que só falava o necessário. A Loira do quarto 12, cujo nome verdadeiro ninguém usava. E as outras. Sempre as mesmas, com poucas trocas ao longo dos meses.Os clientes chegavam em carros escuros, motos, a pé. Homens de todas as idades. Casados, solteiros, bêbados, nervosos, safados. Eu abria a porta, olhava o rosto, cobrava a entrada quando era o caso, e apontava a escada.— Quarto livre no fundo. Ou sobe e escolhe.A maioria subia. Alguns demoravam na porta, conversando comigo como se eu fosse terapeuta. Outros já desciam as calças com os olhos antes mesmo de entrar.Mas as noites boas não eram as dos clientes.As noites boas eram as que sobravam no intervalo.Uma quinta-feira de fevereiro. Chovia fino lá fora. O movimento estava fraco. A Rúbia desceu por volta da uma da manhã, robe aberto, só de calcinha preta. Parou na minha frente, acendeu um cigarro e ficou olhando a rua molhada.— Tá morto hoje — murmurou.— Tá.Ela jogou o cigarro no chão, apagou com o salto e se virou pra mim.— Me leva pro depósito.Não precisei responder. Levantei, travei a porta por dentro e a segui pelo corredor estreito que dava pro depósito de bebidas e lençóis. O lugar era quente, cheirava a álcool e amaciante barato. Assim que a porta fechou, ela ajoelhou.Puxou meu pau pra fora com a mesma naturalidade de quem abre uma garrafa. A boca dela era quente, treina da, sem pressa nenhuma. Chupou devagar primeiro, língua passando pela cabeça, depois engoliu fundo, até o nariz encostar na minha barriga. Eu segurei o cabelo vermelho dela e fodi a boca com calma, ouvindo o barulho molhado e os gemidos baixos que ela soltava.Quando senti que ia gozar, puxei ela de pé, virei de costas contra a parede de caixas e puxei a calcinha pro lado. A buceta dela já estava encharcada. Encostei a cabeça do pau e meti de uma vez. Ela soltou um gemido alto, a testa batendo na parede.Fodi com força. O tipo de foda que a gente faz quando conhece o corpo da outra pessoa e não precisa fingir delicadeza. Cada estocada fazia as nádegas dela baterem contra mim. Eu segurava a cintura larga, puxava ela pra trás, metia até o fundo. Ela gozou primeiro, apertando meu pau em espasmos, a voz embargada pedindo mais. Continuei até gozar dentro, fundo, segurando ela contra a parede enquanto o esperma vazava pela buceta.Ela se ajeitou, puxou a calcinha no lugar, passou a mão no meu peito e saiu.— Depois você limpa o chão.Eu fiquei mais um minuto respirando o cheiro dela no ar.As noites seguiam assim.A Jéssica gostava de ser comida no banheiro dos fundos, de quatro, com a cara virada pro espelho rachado. A Thaís preferia no carro dela, no estacionamento de trás, com o banco reclinado e a chuva batendo no teto. A Loira do quarto 12 me puxava às vezes pro próprio quarto quando o cliente saía e ela ainda estava molhada. Deitava na cama usada, abria as pernas e dizia só:— Termina o serviço.Eu entrava nela ainda quente do homem anterior, o cheiro misturado, a buceta escorregadia. Fodia devagar ou rápido, dependendo do humor dela. Goza va na boca, nas tetas, dentro. Ela limpava com a toalha do cliente e acendia um cigarro.Tinha noites em que mais de uma aparecia.Uma madrugada de sábado o movimento estava pesado. Clientes subindo e descendo. Eu mal conseguia sentar. Por volta das quatro, a Rúbia e a Jéssica desceram juntas, as duas meio altas de vinho barato. Me olharam, se entreolharam e a Rúbia falou:— Fecha a porta um pouco.Travei por dentro. Elas me puxaram pro canto escuro perto da escada de serviço. A Rúbia ajoelhou e começou a chupar. A Jéssica ficou atrás de mim, mãos na minha bunda, beijando meu pescoço. Depois trocaram. A Jéssica engoliu meu pau enquanto a Rúbia me beijava com gosto de cigarro e boca alheia. Eu fodi a boca de uma, depois a da outra. Quando não aguentei mais, virei a Rúbia de costas, levantei o robe e meti. A Jéssica ficou do lado, masturbando a amiga e se masturbando também. Gozei nas costas da Rúbia. A Jéssica lambia o esperma enquanto eu ainda tremia.Depois as duas subiram rindo baixinho.O cabaré tinha regras. Eu não podia me envolver demais. Não podia ficar com ciúme. Não podia achar que alguma delas era minha. Elas eram da casa. Eu era só o homem da porta. Mas nas madrugadas mortas, quando a chuva batia forte e os clientes rareavam, a linha ficava fina.Uma noite a Thaís desceu chorando. Cliente bruto. Eu subi com ela, entrei no quarto, fechei a porta. Ela tirou a roupa sem falar nada e se deitou de bruços. Eu passei a mão nas costas dela, desci até a bunda, abri as pernas. Encontrei a buceta inchada e vermelha. Chupei devagar, com cuidado, até ela parar de tremer. Depois tirei a roupa e entrei com calma, bem fundo, bem devagar. Ficamos assim um tempão, eu fodendo ela sem pressa, ela gemendo baixo no travesseiro. Quando gozei, gozei dentro e fiquei em cima dela, sentindo o coração aos poucos acalmar.Ela não falou obrigado. Só me beijou no ombro quando eu saí.As noites em Santa Catarina, naquela porta de ferro, cheiravam a maresia distante, a mofo, a porra seca e a perfume barato. Eu via homens entrarem com fome e saírem vazios. Via meninas subirem sorrindo e descerem com o olhar um pouco mais apagado. E no meio daquilo tudo, de vez em quando, eu também comia.O sol começava a clarear por trás dos telhados. Eu abria a porta de ferro, deixava o ar da manhã entrar, apagava as luzes da entrada. As meninas iam dormir. Os últimos clientes sumiam. Eu tirava a camisa suada, guardava o rádio, sentia o cheiro de sexo ainda grudado na pele.E já sabia que na próxima noite tudo ia recomeçar.Porque na zona, o dia é só um intervalo. A noite é o que importa. E eu era o homem que abria a porta pra ela.Como era a rotina das meninas no cabaréA rotina das meninas no cabaréA rotina das meninas não começava à noite. Começava no meio da tarde, quando o sol ainda batia forte nas telhas de zinco e o cheiro de sexo do dia anterior ainda não tinha saído completamente dos colchões.Elas acordavam tarde. Quase sempre depois das duas da tarde. Algumas sozinhas nos quartos pequenos e abafados do segundo andar. Outras deitadas de conchinha com outra menina, porque o frio da madrugada e o cansaço pediam companhia. O primeiro gesto era quase sempre o mesmo: acender um cigarro ainda na cama, tossir, esfregar os olhos e olhar pro celular com a cara amassada.Depois vinha o banho. Água morna, sabonete barato, às vezes um pouco de vinagre pra tentar tirar o cheiro. Lavavam o cabelo, as axilas, entre as pernas com mais cuidado. Algumas se depilavam ali mesmo no chuveiro. Outras só ajeitavam o que já estava feito. O espelho do banheiro coletivo era embaçado e rachado. Ninguém se olhava por muito tempo.Por volta das quatro, cinco da tarde, a casa começava a se mexer de verdade. O gerente — um homem baixo, barrigudo, sempre de chinelo — passava nos quartos cobrando a diária da cama e o percentual da noite anterior. Quem não tinha feito dinheiro suficiente ouvia bronca. Quem tinha feito bem ouvia um “continúa assim”. As meninas respondiam pouco. Só assentiam com a cabeça ou xingavam baixinho quando ele virava as costas.Aí vinha a preparação.Maquiagem pesada. Base pra esconder o cansaço, rímel pra abrir o olhar, batom vermelho ou nude escuro. Cabelo chapado, cacheado ou preso. Roupa de trabalho: shortinho que subia quando elas se inclinavam, vestido justo sem calcinha, top que mal segurava os peitos, salto alto mesmo com o calo doendo. Perfume barato jogado no pescoço, entre os seios e na virilha. Algumas tomavam um gole de cachaça ou de energético com vodka ainda no quarto, pra “pegar o embalo”.Por volta das nove, nove e meia, elas desciam.A escada rangia. O cheiro de perfume, creme de cabelo e cigarro descia junto. Passavam por mim na porta, algumas já sorrindo, outras com cara fechada. A Rúbia quase sempre era a primeira. Acendia o cigarro na minha frente, ajustava o robe e dizia:— Bora pra guerra.A Jéssica descia depois, mais quieta. A Thaís vinha engomada, pernas longas à mostra, olhar profissional. A Loira do quarto 12 só aparecia quando já tinha cliente marcado ou quando o movimento pedia.A noite de trabalho tinha regras claras, mesmo que ninguém as escrevesse numa parede.Ficar na sala, no corredor ou na porta, dependendo do movimento. Sorrir quando o cliente olhasse. Não discutir preço na frente dos outros. Subir com o homem, fazer o programa no tempo combinado (meia hora, uma hora, a noite toda) e descer de novo. Se o cliente quisesse mais, renegociava. Se ficasse bruto, batia na parede ou gritava. Eu subia. O gerente subia. Às vezes a própria menina resolvia na base da conversa ou da ameaça.Entre um programa e outro, elas ficavam no corredor, fumando, mexendo no celular, reclamando do calor, do frio, do cliente que gozou rápido demais ou que não gozava nunca. Comiam pouco: bolacha, salgadinho, café passado no fundo da cozinha. Algumas bebiam mais do que deviam. Outras tentavam ficar sóbrias pra aguentar até de manhã.Os programas variavam.Tinha o cliente rápido: subia, tirava a roupa, metia, gozava e descia em quinze minutos. Tinha o que queria conversa, carinho, beijo na boca. Tinha o que pedia pra mamar, pra rebolar, pra xingar, pra fingir que gostava. Tinha o que só queria gozar no rosto ou nas tetas e ir embora. Tinha o casado que chorava depois. Tinha o jovem nervoso que gozava na hora que a menina tirava a calcinha. Tinha o velho que precisava de ajuda pra engrossar. Tinha o bruto. Tinha o educado. Tinha o que voltava toda semana e pedia sempre a mesma.As meninas faziam o que dava pra fazer. Algumas com mais vontade, outras no automático. O corpo aprendia a separar. A buceta molhava quando precisava. A boca abria. O gemido saía no volume certo. Quando o cliente virava as costas, muitas vezes o olhar apagava por um segundo antes de elas ajeitarem a roupa e descerem de novo.De madrugada o movimento mudava. Os bêbados chegavam. Os que tinham bebido coragem no bar da esquina. Os que tinham brigado com a mulher. Os que só queriam alguém quente pra não dormir sozinho. As meninas mais experientes pegavam esses. As mais novas às vezes se ferravam.Por volta das quatro, cinco da manhã, a casa ia esvaziando. As que ainda tinham energia desciam pra fumar na porta comigo ou no beco dos fundos. Algumas me puxavam pro depósito, pro banheiro ou pro carro. Não por amor. Por alívio. Por costume. Porque o corpo ainda pedia alguma coisa que não fosse programa. Porque eu era o único homem ali que não pagava e não mandava.Quando o sol começava a clarear, elas subiam. Algumas tomavam banho de novo. Outras caíam na cama do jeito que estavam, maquiagem borrada, cheiro de porra e cigarro na pele. Dormiam pesado até a tarde seguinte.E no dia seguinte tudo recomeçava.Acordar tarde. Banho. Maquiagem. Descer a escada. Sorrir. Subir. Descer. Fumar. Reclamar. Foder. Dormir.A rotina das meninas no cabaré não era glamorosa nem trágica o tempo todo. Era trabalho. Trabalho de corpo aberto, de noite sem fim, de cheiro que não saía da pele. E eu, na porta, via todas elas passar. Toda noite. Todo dia.
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