Assim que fechei a porta, tudo se quebrou.
Vieram rápido. Mãos, vozes, pressa. Fui empurrada contra o carro, a mochila arrancada, a camiseta puxada, o jeans rasgado. Gente passando, música alta demais para qualquer pedido de ajuda se sustentar. Foi bruto e curto. Quando se afastaram, levaram tudo. Roupa, documentos, dinheiro. Na correria, esqueceram das meias e dos tênis.
Fiquei parada, peladona, só os pés protegidos. O carro atrás de mim, inútil. A chave tinha ido junto. O choque veio seco. Depois, a vergonha subiu como febre.
O instinto gritou para eu me esconder. Olhei em volta. Carnaval seguia. Fantasias mínimas, gente rindo, bebendo, dançando. Todos vestidos de algum jeito. Eu não. Eu era a única completamente pelada sem ter escolhido.
Dei dois passos para trás. Não havia abrigo. O bloco avançava e a rua inteira se movia. As pessoas passavam perto demais. Olhares rápidos, depois mais longos. Não havia ameaça direta. Só atenção. Silenciosa. E aquilo acendeu algo que eu não tinha convidado.
Entrei no bloco quase sem perceber. A música me pegou pelo corpo. Dançar era inevitável. A cada batida, minhas tetas balançavam livres, denunciando a entrega que eu fingia não querer. Meus bicos endureceram sem pedido, marcando o ritmo junto comigo. O calor, o suor, os olhares — tudo empurrava meu corpo para frente. Minha buceta reagiu sozinha, úmida, viva, como resposta automática à exposição total. Isso me envergonhava e, ao mesmo tempo, me prendia ali.
Meu coração disparou. Tremores. Respiração curta. Lutei para endurecer, virar pedra. Não consegui. A exposição constante foi quebrando minha resistência. Em algum ponto, percebi que já não dançava só para acompanhar a música. Dançava porque parar era impossível. Porque voltar não existia.
Quando finalmente gozei, foi intenso demais. Um arqueio contido, um gemido escapando antes que eu pudesse segurar. Logo depois, o vazio. A queda. Vergonha pesada, culpa, arrependimento. Eu estava peladona no meio do Carnaval, sem proteção nenhuma, sem o tesão para anestesiar.
Continuei andando.
E foi justamente esse depois que fez tudo voltar. Sem o escudo do tesão, cada sensação ficou mais intensa: o vento na pele, tenis e meias nos meus pés, o contraste entre corpos cobertos e o meu exposto. A vergonha crua reacendeu meu desejo de forma lenta, porém sólida e consciente.
Atravessei ruas cheias, depois vazias, depois cheias de novo. Blocos diferentes, músicas diferentes, sempre o mesmo tesão. Lembrei então de algo simples e anterior a tudo aquilo: antes de sair de casa, eu tinha deixado uma cópia da chave escondida, para o caso de acabar a luz e o portão automático não funcionar, deixei no chão, no cantinho do portão. A lembrança me manteve em movimento, sem devolver nenhuma saída para o que eu já tinha vivido.
Ainda tinha que andar 7 km para voltar para casa. Não me escondi. Não corri. Caminhei firme. Cada passo reforçava a irreversibilidade. Eu estava ali. Assim. E o Carnaval não ia parar por minha causa.
Passei por gente comprando bebida, por corredores de vento gelado entre prédios, totalmente pelada, e sempre sendo observada. MInhas gozadas vinham em ondas, intercalado com vergonha e culpa, tudo misturado, impossível de separar.
Quando finalmente cheguei em casa, já era noite. O som distante dos blocos ainda vibrava no ar. Peguei a chave onde tinha deixado, abri o portão e entrei tremendo. O corpo cansado, a pele ainda viva, a memória do dia inteira grudada em mim.
No banheiro, foi simples: tirei meus tênis, depois minhas meias. Só isso, não havia mais nada. A água caiu quente, lavando o suor, a poeira, mas não levou as lembranças. Saí do banho, me enxuguei devagar, pendurei a toalha. Não procurei roupa. Não procurei proteção.
Fui me deitar pelada, descalça, sem nem um lençol para cobrir o corpo. Deitada, o silêncio pesava mais que a música. Bastou lembrar de tudo — os olhares, a dança, a exposição — para o desejo explodir de novo, inteiro, inevitável. Fiquei ali até o corpo cansar de vez.
Adormeci assim.
No dia seguinte, acordei com o sol entrando no quarto. A primeira coisa que lembrei foi que ainda precisava ir buscar o carro. Levantei. Vesti meias e tênis.
Mas isso já era o começo de outro conto.


