Os dias seguintes foram marcados por uma espécie de trégua com o pudor. Naquela casa, a roupa havia se tornado um acessório exótico, quase um capricho, enquanto a nudez passara a ser o tecido cotidiano de nossas conversas. Sabino dizia que o mineiro só é solidário no câncer e no desquite, mas ele esqueceu de mencionar a solidariedade de uma família que decide, por mútua concordância, abolir as aparências. Na manhã seguinte, a cena na cozinha era de um naturalismo que faria qualquer pintor renascentista aposentar os pincéis. Minha mulher e minha filha estavam sentadas à mesa, entregues ao ritual do café com pão na chapa. As duas, inteiramente nuas, pareciam não notar o sol que entrava pela janela e desenhava o relevo de seus corpos. — O café está forte, Fernando, do jeito que você gosta — anunciou minha mulher, servindo-me enquanto o movimento de seu braço fazia seus seios acompanharem a cadência do gesto. Sentei-me à frente de minha filha. Ela estava debruçada sobre uma tigela de frutas, e a visão daquela mata escura e selvagem, tão próxima das xícaras de porcelana, criava um contraste quase poético. — Pai, você está muito silencioso hoje — provocou a menina, limpando um pingo de suco que escorrera pelo queixo. — Ainda está processando o “novo normal”? — Estou apenas tentando entender se isso é uma casa ou uma colônia de férias na Suíça — respondi, tentando manter a voz firme diante daquela geografia tão generosa que se espalhava diante de mim. — É a liberdade, pai — ela riu, esticando as pernas por baixo da mesa, de modo que seus pés roçaram os meus. — Admita: é muito melhor tomar café sem o aperto do elástico da calcinha incomodando. À noite, porém, a civilização exigiu o seu tributo. Minha filha tinha um encontro com amigos e, pela primeira vez em dias, eu a vi vestida. Ela usava um vestido de verão, uma estampa floral leve que parecia flutuar ao redor de seu corpo enquanto ela terminava de se arrumar na sala. Assumi meu papel de pai zeloso, aquele personagem que todo homem representa com uma mistura de dever e cansaço. — A que horas você volta? Com quem você vai mesmo? Juízo nessa cabeça, hein... e nada de aceitar carona de estranhos. Ela sorria, ouvindo as recomendações típicas como quem ouve uma música antiga e conhecida. Quando ela se aproximou para se despedir, eu a olhei de cima a baixo, com uma ponta de desconfiança brincalhona. — Tem certeza que vai sair assim mesmo? — perguntei, apontando para o vestido que parecia leve demais. — Não está faltando nada, não? Ela parou diante de mim, com um brilho de puro deboche nos olhos. Com um movimento rápido e gracioso, segurou as bordas do vestido floral e as levantou até a altura da cintura: ela estava sem calcinha. Só a nudez total por baixo das flores. A mata escura e densa que eu vira durante todo o dia estava lá, agora emoldurada pelo tecido leve, um segredo carregado para a rua. — Eu disse para o senhor que eu precisava me acostumar, não disse? — ela zombou, soltando o vestido que voltou a cair suavemente sobre as coxas. — Hoje está uma noite tão quente! É bom para dar uma refrescada. Deu uma gargalhada sonora, deixou um beijo rápido no meu rosto e saiu batendo a porta, deixando para trás o perfume das flores e o silêncio de um pai que acabara de descobrir que a sua menina não só crescera, como aprendera a transformar a provocação em uma forma de arte. Minha mulher, surgindo nua do corredor, abraçou-me por trás e sussurrou: — Deixe ela. A gente só é jovem uma vez. E você sabe muito bem que as flores escondem os melhores jardins. O silêncio que se instalou com a batida da porta não era de vazio, mas de uma densidade nova, como se a saída da nossa filha tivesse deixado o oxigênio da sala carregado de tudo o que fora visto e não dito. Fiquei ali, parado, ainda processando a visão das flores subindo e daquela natureza rebelde que ela levara para a noite. Minha mulher aproximou-se por trás, o calor do seu corpo nu pressionando as minhas costas, uma presença que me devolvia ao presente. Ela passou os braços pelo meu peito, as mãos espalmadas sentindo o ritmo do meu coração, que ainda batia naquela cadência de quem acabara de levar um susto bom. — Ela é um furacão, não é? — sussurrou ela contra o meu pescoço, o hálito quente misturado ao perfume suave da pele. — Às vezes esqueço que ela tem a minha audácia, mas com essa moldura tropical que você deu a ela. Virei-me devagar nos braços dela. Ali, na meia-luz da sala, minha mulher era a imagem da plenitude. Sem o contraste da juventude da filha para dividir a minha atenção, pude me perder novamente na geografia que eu conhecia tão bem: as curvas mais generosas, a maturidade que o tempo esculpira com paciência e sabedoria. — Ela aprendeu com a melhor — respondi, passando as mãos pelos ombros dela, descendo pelas costas até sentir a firmeza dos quadris. — Mas confesso que essa política de "portas abertas" da nossa casa está testando os meus limites. Ela soltou um risinho baixo, aquele som que sempre foi o meu porto seguro. Ela me conduziu até o sofá, sentando-se no meu colo com uma naturalidade que abolia qualquer distância. O contato da pele dela com a minha era um diálogo antigo, mas que naquela noite ganhava palavras novas. Meus dedos perderam-se nos cabelos dela e, depois, seguiram o caminho natural, explorando a maciez do ventre até encontrar a sua própria intimidade, tão bem cuidada e acolhedora. — Sabe o que eu mais gosto nessa história toda? — ela disse, arqueando-se levemente sob o meu toque, os olhos fixos nos meus. — É que agora não existem mais segredos entre nós três. Mas entre nós dois... ah, entre nós dois ainda existe um mundo inteiro para ser descoberto, sem roupas e sem pressa. Com uma habilidade própria de quem conhece tão bem aqueles caminhos, ela abriu o meu zíper e liberou o que já não podia mais ser contido. Com uma maestria que só anos de experiência podem conferir, me encaixou em si mesma e começou um sobe-e-desce íntimo. — Você ficou perturbado com a cena, não foi? — sussurrou ela, enquanto suas mãos, com seus quadris se movendo gentilmente, acomodando minha carne nas suas carnes. — Vi como seus olhos devoraram aquela mata rebelde dela. Eu não pude responder. Só gemi. — Ela tem a minha audácia, Fernando — disse ela, aumentando o ritmo. — Mas você... você sempre teve essa queda pelo que é selvagem. Eu a penetrei com uma voracidade que ignorava qualquer polidez. O contato da pele nua, o calor úmido e o som rítmico dos nossos corpos se encontrando criavam uma sinfonia rústica naquela sala de livros e memórias. Eu segurava seus quadris com força, sentindo a firmeza da carne, enquanto ela arqueava as costas, oferecendo-se inteira. Cada estocada era carregada pela eletricidade dos dias anteriores, uma descarga de toda a tensão acumulada sob o teto daquela casa sem segredos. — Isso... — ela gemia, a cabeça jogada para trás, os cabelos balançando conforme o ritmo aumentava. — Me use até não sobrar nada! A provocação agia como um açoite. Na minha mente, a imagem da filha subindo o vestido floral se fundia com a realidade da mãe se entregando sob as minhas mãos. Era um sexo intenso, cru, despojado de qualquer máscara social. Minha mulher buscava o meu prazer com a mesma urgência que eu buscava o dela, suas mãos tateando para trás, buscando o contato, enquanto seus gemidos subiam de tom, ecoando pelas paredes. Chegamos ao ápice juntos, numa explosão de sentidos que nos deixou exaustos e trêmulos sobre o sofá da sala. Ficamos ali, emaranhados, o suor colando nossos corpos, enquanto a respiração voltava, aos poucos, ao normal. — Sabe o que é mais engraçado? — ela sussurrou, ainda ofegante, aninhando-se no meu peito. — O quê? — perguntei, passando a mão pelos seus cabelos úmidos. — É que amanhã, quando ela entrar por aquela porta e nos vir tomando café, ninguém vai imaginar que esta sala presenciou a nossa maior verdade. Naquele momento, sob o teto da nossa casa agora sem véus, a cumplicidade era o único traje que nos interessava vestir. A noite era longa, a filha estava longe vivendo sua própria liberdade, e nós tínhamos todo o tempo do mundo para celebrar a nossa.
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