O entregador de bebidas

O bar do tio fechou às 23h, mas a cervejaria prometida para o happy hour da sexta ainda não tinha chegado. Fiquei para trás, esperando o entregador. Meu tio deixou as chaves comigo e foi embora, cansado.

O caminhão parou na porta às 23:40. O motorista desceu, suado, com a camisa do uniforme colada nas costas. Era mais novo do que eu imaginava – talvez uns trinta. Cabelo escuro rente, braços densos de quem carrega caixa o dia todo. Pedi desculpas pelo atraso e ele apenas assentiu, sério.

“Precisa descarregar agora? Posso deixar na calçada”, ele disse, voz rouca.

“Melhor guardar no depósito. Ajudo você.”

Trabalhamos em silêncio, passando as caixas uma a uma do caminhão para o corredor apertado atrás do balcão. O espaço era mínimo, e nossos corpos se esbarravam a cada virada. O cheiro dele era salgado, misturado com o travo do asfalto quente e um leve aroma de sabão em pó barato.

Na última viagem, ele tentou passar por mim no corredor estreito. Eu virei de lado, mas não foi suficiente. Seu peito pressionou o meu, quente e sólido. Paramos. O ar parou. Ele não recuou. Olhei para seu rosto e vi seus olhos escuros fixos nos meus, sem desafio, sem sedução, apenas uma presença densa e cansada. Algo se partiu ali.

Sem uma palavra, ele levantou levemente as mãos, como quem se rende, e as apoiou na parede, uma de cada lado da minha cabeça. Seu rosto estava a centímetros do meu. Respirava fundo.

“Tá muito quieto aqui”, ele murmurou.

“Fechou”, respondi.

Ele então fez o movimento mais direto: baixou as mãos da parede e, com uma naturalidade brutal, desabotoou o meu jeans. A mão dele entrou, firme. Um grunhido saiu da minha garganta.

Foi quando a dinâmica mudou. Em vez de apenas tocar, desci. Ajoelhei-me no chão de concreto sujo do depósito, o jeans arrebentado ainda prendendo meus joelhos. Puxei o zíper e a calça dele para baixo, junto com a cueca. Ele estava ereto, tenso, pulsante. Não houve preliminar, nem beijo. Levei à boca de uma vez, sentindo o peso e o sal e a realidade crua dele. Ele gemeu baixo, uma mão pesada indo parar na minha nuca, não forçando, apenas se ancorando.

Ele ficou assim por talvez um minuto, dois, a respiração ofegante ecoando nas garrafas vazias. Depois, suas mãos nas minhas axilas me puxaram para cima, com força. Virou-me de costas para ele, contra a mesma parede de tijolos. O rosto esmagado contra o reboco áspero, senti ele cuspir na própria mão, um som úmido e rápido. Em seguida, a pressão, direta e insistente, na entrada.

“Aceita?” a voz dele, um rosnado perto do meu ouvido.

“Aceito”, cuspi na parede.

Ele entrou num movimento só, longo e profundo, arrancando-me um gemido abafado. Não era macio, nem lento. Era a penetração como continuação daquele primeiro choque de corredor: uma invasão necessária, mútua. Ele me possuía com um ritmo de choque, seus quadris batendo contra minhas nádegas, a fricção do tecido do uniforme nas minhas costas nuas. A dor inicial deu lugar a um calor expansivo, a uma sensação de estar sendo usado e, ao mesmo tempo, de estar usando aquele corpo para meu próprio prazer. Eu me empurrava contra ele, encontrando cada investida.

Quando senti a respiração dele ficar mais descontrolada, os dedos cravando-se nos meus quadris, virei a cabeça para o lado. “Para. Troca.”

Ele parou, retirou-se – uma sensação de vazio súbito. Viramos um para o outro, ofegantes, iluminados apenas pela luz fraca do refrigerador. Sem discussão, sem negociação. Ele se apoiou na grande pia de aço, de costas para mim, se curvando para a frente. O convite era claro.

Eu cuspi na palma da mão, esfreguei em mim mesmo, ainda lubrificado por ele. Coloquei as mãos em sua cintura larga e entrei. A sensação era diferente – o controle, o ângulo, a visão de suas costas tensionadas sob a camisa suada. Ele gemia baixo, um som contido que ecoava no aço da pia. Meu ritmo era mais lento no começo, mas ficou mais urgente, guiado pelos seus grunhidos, pelo modo como ele empurrava o quadril para trás, me engolindo mais fundo.

A troca era o ponto. Não quem fazia o quê, mas o fato de que ambos fazíamos. Ambos éramos atravessados. Ambos atravessávamos.

Foi assim que chegamos ao fim. Eu dentro dele, ele curvado sobre a pia, seu rosto virado para o lado contra o metal frio. Um tremor percorreu suas pernas e ele gozou em jatos contra o aço, sem tocar em si mesmo, o prazer vindo apenas da penetração. O som, a visão, a contração violenta do corpo dele ao meu redor me arrancaram o meu próprio orgasmo, profundo e rouco, enterrado nele.

Ficamos parados por um longo minuto, conectados, depois desconectados, pesados. Ele se levantou com dificuldade, puxou a calça. Eu fiz o mesmo, o jeans ainda aberto. O silêncio que se seguiu não era mais carregado de tensão sexual, mas de algo estranhamente mundano. O trabalho estava feito, em todos os sentidos.

Ele foi até a última caixa de cerveja, pegou a nota fiscal e a caneta. As mãos dele tremiam ligeiramente. “Preciso da assinatura.”

Assinei, ainda sentindo o gosto dele na minha boca. Ao me devolver a caneta, nossos dedos se tocaram. Ele olhou para a porta, depois de volta para mim. O cansaço em seus olhos havia dado lugar a uma expressão pensativa, quase avaliadora.

“Tem um cigarro?”, ele perguntou.

“Não fumo.”

Ele fez que sim com a cabeça, mas não se moveu para ir embora. Em vez disso, puxou o celular do bolso. “Então me passa seu número. Se for reclamar do atraso da entrega, quero que seja direto.”

O tom era seco, quase profissional, mas o convite estava ali, claro como a luz do refrigerador. Sorri pela primeira vez desde que ele havia chegado. Recitei meu número. Ele digitou, salvou. Seu telefone tocou no meu bolso, um número desconhecido aparecendo na tela.

“Agora você tem o meu”, ele disse, guardando o aparelho.

Ficamos mais um momento em pé, naquele depósito agora testemunha de tudo. A formalidade tinha evaporado, mas uma nova hesitação tomou seu lugar – a hesitação do “e depois?”.

Ele deu um passo em minha direção, não com a fúria de antes, mas com uma decisão tranquila. Colocou uma mão na lateral do meu pescoço, o polegar fazendo um leve arco na minha mandíbula. Inclinei-me. O beijo não foi doce nem apaixonado. Foi seco, firme, uma impressão de lábios ainda quentes e salgados. Era um ponto final e, ao mesmo tempo, um hífen. Um selo.

Quando nos separamos, ele apenas assentiu uma vez, o mesmo aceno seco e profissional de antes, mas agora com um canto da boca levemente tensionado, quase um esboço de sorriso.

“Até a próxima, então”, disse, e a frase soou como uma promessa factual, não como um clichê vazio.

“Até.”

Ele saiu. A porta do bar abriu e fechou. O motor do caminhão roncou e se afastou na noite.

Lavei a pia de aço com cuidado, limpando cada vestígio nosso. Lavei minhas mãos, o rosto. Olhei para o telefone. A tela ainda mostrava a chamada perdida do número desconhecido. Salvei como “Entregador – Cervejaria”.

Na segunda-feira, as cervejas estariam geladas para os clientes. E eu, enquanto verificava o estoque, sentiria uma leve dor muscular, um lembrete perfeito. E esperaria, sem ansiedade mas com uma curiosidade sutil, pelo próximo sábado, ou por uma mensagem no celular. A troca não havia terminado. Apenas fizera uma pausa.


Faca o seu login para poder votar neste conto.


Faca o seu login para poder recomendar esse conto para seus amigos.


Faca o seu login para adicionar esse conto como seu favorito.


Twitter Facebook



Atenção! Faca o seu login para poder comentar este conto.


Ultimos 30 Contos enviados pelo mesmo autor


253650 - O entregador de bebidas - Categoria: Gays - Votos: 3
253051 - Meu amigo diácono - Categoria: Gays - Votos: 2
251748 - Aula Particular - Categoria: Gays - Votos: 10
251508 - O filho magrinho do vizinho - Categoria: Gays - Votos: 13
250490 - Obra em casa rendeu com pedreiro - Categoria: Gays - Votos: 13
249562 - Um Sábado de Barbearia - Categoria: Gays - Votos: 7
249310 - Troca troca com o rapaz da CPFL - Categoria: Gays - Votos: 15
248892 - Rapaz da companhia de água - Categoria: Gays - Votos: 9
248674 - O padre - Categoria: Gays - Votos: 5
248181 - Vizinho casado - Categoria: Gays - Votos: 10
247715 - O entregador de leite e o vendedor de rede - Categoria: Gays - Votos: 11
247186 - O Segurança do banco do Brasil - Categoria: Gays - Votos: 24
246544 - Rapaz da loja que concerta celular - Categoria: Gays - Votos: 6
246107 - O chefe escroto e preconceituoso - Categoria: Gays - Votos: 12
244543 - Dia que fiz troca troca com o supervisor de estágio - Categoria: Gays - Votos: 9
244425 - Amigo do meu pai - Categoria: Gays - Votos: 4
243961 - Eu e o Entregador do magazine luiza - Categoria: Gays - Votos: 14
243656 - As Vizinhas - Categoria: Heterosexual - Votos: 5
243410 - Festa de noivado do meu primo - Categoria: Gays - Votos: 8
243349 - Entrevista de emprego - Categoria: Gays - Votos: 6
243307 - A confissão que tomou um outro rumo - Categoria: Gays - Votos: 5
243168 - O médico e eu - Categoria: Gays - Votos: 6
242983 - O dia que possuí e fui possuído pelo policial - Categoria: Gays - Votos: 4
242932 - Em família - Categoria: Incesto - Votos: 10
242864 - Meu chefe e eu - Categoria: Gays - Votos: 4
242805 - O vereador e eu - Categoria: Gays - Votos: 3
242664 - O filho marrento da vizinha - Categoria: Gays - Votos: 18
242594 - Entregador da shoppe - Categoria: Gays - Votos: 9
242502 - O professor da faculdade - Categoria: Gays - Votos: 7
242384 - O Homem Por Trás do Personagem - Categoria: Gays - Votos: 4

Ficha do conto

Foto Perfil taradenhum
taradenhum

Nome do conto:
O entregador de bebidas

Codigo do conto:
253651

Categoria:
Gays

Data da Publicação:
01/02/2026

Quant.de Votos:
5

Quant.de Fotos:
0