Guiá-lo para o momento final foi uma negociação de corpos. Ele virou-se de bruços, enterrando o rosto no travesseiro, e eu o segui, colando meu peito às suas costas. Minha boca estava em sua nuca, sentindo o sal da sua pele. Minhas mãos seguravam seus quadris, firmes, e ouvi sua respiração mudar, ficar mais ofegante, mais urgente. Eu estava no comando, mas cada movimento meu era uma resposta a um pedido silencioso dele, uma dança onde ele, passivo, ditava o ritmo com a linguagem primitiva do seu corpo.
O mundo lá fora, com suas entregas e protocolos, deixou de existir. Só havia o som dos nossos corpos, o calor úmido da pele, os gemidos que ele soltava, abafados, e que me levavam ao limite. O ápice, quando veio, foi um colapso conjunto, um tremor que começou nele e se alastrou por mim, nos deixando exaustos, entrelaçados em um silêncio diferente, agora cheio e pesado.
Ficamos assim por um tempo que não sei medir. Até que ele se moveu, levantou-se sem dizer nada. Vestiu o uniforme com a mesma calma com que entrou, ajeitou a bolsa no ombro. Na porta do quarto, nossos olhares se encontraram mais uma vez. Não havia constrangimento. Havia uma cumplicidade nova, um segredo aceso.
Ele foi até a sala, pegou o protocolo assinado que ficara na mesa. Antes de sair pela porta, virou-se e me deu um pequeno sorriso, daqueles que a distância nunca mostrou. O portão rangeu ao fechar. O som das suas botas no cimento sumiu na rua.
Fiquei ali, ouvindo o silêncio da casa que voltava. Peguei o envelope da entrega especial sobre a mesa. Era uma conta de luz.