Ele tinha 37 anos e a casa ainda cheirava a ela. Três semanas depois do enterro, a cama continuava grande demais, o silêncio pesado demais. Saía de casa só pra não enlouquecer. Naquela noite foi parar numa festa em casa de alguém que mal conhecia: música alta, gente empilhada, álcool barato correndo solto. Bebeu sem contar. Cada gole afogava um pouco a saudade e acendia outra coisa: a falta do corpo dela, do sexo quase diário que tinham, da rotina quente que sumiu de uma hora pra outra. O tesão veio misturado com raiva e solidão. Quando a menina se aproximou, ele já estava bêbado o bastante pra não se importar com mais nada. Ela era bem mais nova. Dezoito, dezenove, ele não perguntou e ela não disse. Cabelo solto, short curtíssimo, sorriso fácil de quem já bebeu e já se soltou. Dançaram colados. Ele sentiu o corpo dela quente contra o dele e ofereceu mais bebida. Ela aceitou tudo. Mais um copo, mais outro. A voz dela ia ficando pastosa, o riso mais solto, as mãos mais ousadas. Quando ele puxou ela pelo corredor em direção ao banheiro, ela foi atrás sem resistir. A festa era daquelas em que ninguém ligava pro que acontecia nos cantos. Passaram pelos caras mijando nos mictórios, o cheiro de mijo e álcool no ar. Ele empurrou a porta de um box. A porta não fechava direito, ficava entreaberta. Luz fraca, azulejo sujo. Beijou ela com pressa, puxou o short pra baixo, enfiou a mão entre as pernas dela e sentiu que já estava molhada. Virou ela de frente pra parede, abaixou a calça, enfiou de uma vez. Ela gemeu alto, embriagada demais pra se importar. Ele fodeu com força, segurando a cintura dela, ouvindo o bater das coxas e o barulho molhado. Do lado de fora, vozes masculinas, risadas, o som de alguém mijando. Alguém passou e parou um segundo, olhou pela fresta, depois foi embora rindo. Ele sentiu o gozo subindo. Foi aí que a imagem dela — a esposa — atravessou a cabeça como uma faca. O luto voltou de uma vez, misturado com nojo de si mesmo, com ódio de estar ali, com raiva de ainda precisar disso. Continuar gozando mesmo assim. Empurrou fundo, gozou dentro dela com o maxilar travado, o pau ainda duro enquanto a porra saía quente. Não falou nada. Puxou a calça, olhou pra ela uma última vez: short no joelho, pernas tremendo, gozo escorrendo pela coxa. Virou as costas e saiu. Passou pelos caras que ainda estavam no banheiro sem olhar pra ninguém. Desceu a escada, atravessou a sala barulhenta e saiu pra rua. O ar da madrugada bateu no rosto. Continuava bêbado, continuava com o gosto dela na boca e o vazio intacto no peito. Foi embora andando, sem olhar pra trás.
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