Um dia, no elevador do prédio, subindo com o marido depois de uma tarde com o Caio, a Marina sentiu escorrer. Olhou pra baixo. Uma gota branca desceu pela perna interna dela, devagar.
O vizinho do 302 entrou no elevador no terceiro andar. Olhou pra Marina. Olhou pra perna dela.
— Boa tarde, Marina.
— Boa tarde, Seu Jorge.
Ele olhou de novo. Franziu a testa. Não conseguiu não perguntar:
— Desculpa a indiscrição, mas... é... isso aí na perna?
A Marina olhou pra baixo, como quem não sabia. Depois riu, tranquila, escandalosa como sempre:
— Ah, isso. É porra, Seu Jorge. — Seca. — De outro homem.
O Seu Jorge arregalou os olhos. O Rafael, do lado, abaixou a cabeça.
— E o Rafael? — perguntou o vizinho, rindo.
— O Rafael limpa. — Ela olhou pro marido. — Não é, amor?
— É, senhora.
O elevador abriu no andar deles. Saíram. A Marina deixou o vizinho de queixo caído e a porta fechar.