"Eu conhecia Eduardo e Ricardo havia mais de vinte anos. Fizemos faculdade juntos, viajamos, jogamos bola e aprontamos muita coisa naquela época. Quando convidei os dois para um churrasco lá em casa, achei que seria apenas mais uma noite de cerveja, carne e histórias antigas. O que eu não sabia era que minha esposa preparava para aquela noite.
Naquela tarde de sábado, Renata vestiu um vestido de verão leve, com um decote justo que realçava o colo, e sandálias de salto. O cabelo castanho comprido caía solto sobre os ombros, e um leve perfume de coco misturado com seu cheiro característico começou aCircular pela casa enquanto ela arrumava a cozinha. A janela estava aberta, e o sol batia nas plantas do parapeito. Eu estava na sala, arrumando as cadeiras na varanda, quando ela entrou com uma bandeja de aperitivos.
— Querido, o gelo não vai dar para a noite toda. Tu pode passar no mercado?
Eu dei de ombros, já pegando as chaves do carro no cinzeiro.
— Claro, amor. Acho que os dois vão chegar qualquer coisa agora.
Ela sorriu, um sorriso que eu conhecia há dezesseis anos, mas que hoje parecia ter um outro brilho, um segredo nos lábios.
— Pode deixar que eu arrumo a mesa enquanto tu não está. A carne já está temperada, só falta eles chegarem com a cerveja.
Saí de casa sentindo aquele calor bom de fim de tarde. A nossa rua era tranquila, com algumas crianças brincando na calçada e um cachorro latindo ao longe. No caminho para o mercado, o rádio do carro tocava uma música antiga que me trouxe uma lembrança imediata da faculdade: uma festa no CTG, Eduardo com uma camisa xadrez, Ricardo tentando dançar e eu, mais tímido, observando tudo de longe. Era engraçado como o tempo passava. A gente muda, cresce, engorda um pouco, a barba fica grisalha, mas algumas coisas, o som de uma música, o cheiro da carne na churrasqueira, conseguem nos trazer de volta num piscar de olhos.
Quando voltei, o som de risadas já vinha da varanda. Eles tinham chegado.
— Cadê o mestre-cervejeiro? — gritou Ricardo, levantando um copo.
— Aqui, seu animal. Trago o suprimento.
Eduardo se levantou e me deu um abraço forte. Ele sempre foi o maior do grupo, e o tempo só pareceu ter alargado seus ombros.
— E aí, Marcelo? Tá parecendo um homem de família. Barriga de churrasqueiro profissional.
Ricardo riu, batendo na minha barriga.
— Pelo menos eu sou casado, seu solteiro convicto.
Renata apareceu na porta, com um sorriso largo.
— Parem de implicar com o meu homem. Quem mais aqui sabe temperar uma picanha como ele?
Eduardo fez uma reverência exagerada.
— Senhora Renata, a dona da casa e do coração do Marcelo. Perdoe a nossa falta de modos.
Ela riu e serviu mais cerveja. A conversa fluiu, fácil como sempre. Lembramos de uma viagem a Uruguaiana, de uma prova que quase todos nós reprovamos, de uma professora que o Ricardo tentou paquerar sem sucesso.
— Lembro da primeira vez que te trouxe pra conhecer eles, Renata — eu disse, passando a mão nas costas dela.
Ela se virou para mim, com um brilho nos olhos.
— Lembro sim. Tu estava com tanto medo que eu não fosse gostar deles. Eles não eram nada como eu esperava.
— O que tu esperava? Uma plateia de intelectuais de Administração? — brincou Eduardo.
Renata deu de ombros, um sorriso malicioso no rosto.
— Não sei. Talvez um pouco menos... barulhentos.
Ricardo levantou o copo.
— Ao barulho! À saudade!
Bebemos à saudade, aos vinte anos de amizade. Em algum momento, a conversa se calou um pouco, e Eduardo abriu uma gaveta de memórias.
— Sabe, Marcelo, tu sempre foi o mais sério do grupo. A gente sempre apostou que seria o primeiro a se casar.
— Mas não acreditavam que seria com uma mulher tão incrível — acrescentou Ricardo, olhando para Renata com um respeito genuíno.
Eduardo e Ricardo trocaram um olhar, e um silêncio estranho caiu sobre a varanda. Renata riu, um pouco alto demais, e mudou de assunto, perguntando sobre o trabalho de Eduardo. Eu percebi, mas não insisti. Deixei a curiosidade repousar como a carne na churrasqueira, esperando a hora certa.
A noite caiu, e o som dos grilos se misturava com o zumbido da geladeira. A carne já tinha acabado, e a conversa ficou mais baixa, mais íntima. Falamos sobre o divórcio de Eduardo, sobre as tentativas frustradas de Ricardo de arrumar uma namorada séria.
— Acho que nunca encontrei ninguém que me aceitasse como eu sou — disse ele, com um suspiro.
Renata riu.
— Ou talvez tu nunca tenha prestado atenção nas mulheres certas, seu idiota.
Eduardo concordou, balançando a cabeça.
— Ela tem razão, Ricardão. Tu sempre correu atrás de quem não te queria.
Eu me levantei para buscar mais gelo, e Renata me acompanhou até a cozinha. A luz amarela da cozinha deixava seu rosto mais macio, e o perfume de coco parecia mais forte ali perto.
— Tu se lembra da primeira festa universitária a que a gente foi junto? — ela perguntou, apoiada na pia.
Eu rii, pegando o saco de gelo no freezer.
— Claro que lembro. Tu vestia uma saia azul, e eu não tirava os olhos de ti.
Ela sorriu, mas havia algo diferente no sorriso agora. Uma hesitação.
— Marcelo... — ela começou, e depois parou, escolhendo as palavras. — Tem uma coisa que eu nunca te contei sobre aquela época. Antes de a gente começar a namorar oficialmente.
Eu parei, o saco de gelo na mão.
— O que foi, amor?
Ela respirou fundo, o olhar fixo no meu.
— Eu também achava o Eduardo muito interessante.
Eu fiquei parado, o saco de gelo começando a derreter e a gelar minha mão. A surpresa me deixou sem palavras por um momento. Eduardo? O conquistador do grupo, o homem que todas as mulheres queriam?
— E... o que aconteceu? — eu consegui perguntar, a voz mais rouca do que eu esperava.
— Nada. Nunca aconteceu nada. Mas... havia uma curiosidade. Algo que ficou no ar, nunca dito.
Eu coloquei o saco de gelo na pia e me aproximei dela, a mão ainda fria tocando seu braço.
— E essa curiosidade... ainda existe?
Ela me olhou nos olhos, e um sorriso lento, um sorriso que eu nunca tinha visto antes, se espalhou por seu rosto.
— Tu quer mesmo saber?
A pergunta pairou no ar entre nós. Não era uma brincadeira. Era uma porta se abrindo, uma possibilidade que eu nunca tinha considerado. Eu me sentia como se estivesse em pé na beira de um penhasco, com um medo estranho e uma empolgação ainda maior.
— Sim — eu disse, e a palavra saiu firme, surpreendendo a mim mesmo. — Quero saber.
Voltamos para a varanda, mas a atmosfera tinha mudado. O ar parecia mais pesado, carregado de palavras não ditas. Ricardo estava contando uma história sobre uma viagem a Gramado, e Eduardo ouvia, com um copo na mão. Quando Renata se sentou, ela se virou para Eduardo.
— Edu — ela disse, e a voz dela era calma, mas firme. — Tu alguma vez percebeu que eu te achava atraente?
Eduardo parou com o copo no meio do caminho dos lábios. Primeiro ele pensou que era uma brincadeira, um sorriso se formando nos cantos da boca. Mas quando ele viu o rosto de Renata, o sorriso desapareceu.
— Sinceramente? Não. Acho que não. Sempre achei que tu só tinha olhos para o Marcelo aqui.
— Pois é — disse Renata, olhando para mim. — Mas também tinha olhos para ti.
Ele olhou para mim, como se pedindo permissão. Eu dei de ombros, um gesto que queria dizer mais do que eu conseguia expressar.
— Eu também sentia uma atração — admitiu Eduardo, e sua voz era mais baixa agora. — Mas nunca tentei nada, por respeito a vós dois.
Ricardo riu, um som alto que quebrou a tensão por um momento.
— Pelo visto, eu era o único idiota que não percebia nada aqui.
Renata olhou para ele, um brilho provocador nos olhos.
— Não te faz de inocente, Ricardo. Tu também não era nenhum santo. Lembro de tu tentando me convencer a dançar um forró bem devagarinho numa festa.
Ricardo abriu um sorriso largo, sem vergonha.
— Tinha que tentar, né? A mulher era linda, e ainda é.
A conversa fluiu, mais aberta agora, mais pessoal. Falamos de atrações não correspondidas, de oportunidades perdidas, de fantasias que nunca saíram do papel. Em algum momento, o silêncio caiu de novo, e eu me vi falando, sem ter planejado.
— Sabe... já pensei em como seria compartilhar uma experiência íntima com a Renata e pessoas em quem eu confio.
Eduardo me olhou, surpreso.
— Tu falando sério, Marcelo?
— Estou — eu disse, e a certeza na minha própria voz me surpreendeu. — É uma fantasia, claro. Mas é uma fantasia que a gente já conversou. De forma teórica.
Renata encostou a cabeça no meu ombro, e eu senti a mão dela encontrando a minha.
— Teórico nem tanto — ela disse, com um sorriso na voz.
Ricardo se inclinou para a frente, com interesse genuíno nos olhos.
— A fantasia de vós dois envolve outras pessoas?
Renata olhou para ele, e depois para Eduardo. Um silêncio. E então ela se levantou, lentamente, e se aproximou de Eduardo. Era um movimento elegante, deliberado. Ela parou na frente dele, e a varanda ficou silenciosa. Ninguém mais ria. Ninguém mais bebida. Todos nós observávamos.
— Sabe, Edu — ela disse, com a voz suave. — Aquela curiosidade de vinte anos atrás... nunca desapareceu.
Ela estendeu a mão e tocou o rosto dele. Eduardo não se mexeu, apenas a observou, com os olhos um pouco arregalados. E então ela se inclinou e o beijou.
Não foi um beijo rápido, nem um beijo tímido. Foi um beijo lento, profundo, um beijo que carregava vinte anos de curiosidade não dita. Eu senti um nó na garganta, uma mistura de ciúme e de uma empolgação que eu não sabia que era capaz de sentir. Olhei para Ricardo, e vi que ele também observava, hipnotizado.
Quando Renata se afastou de Eduardo, ela não olhou para mim. Seus olhos encontraram os de Ricardo, como se o estivesse convidando. Ricardo hesitou por apenas um segundo, antes de se levantar e se aproximar. Ele não pediu permissão. Apenas seguiu o convite silencioso nos olhos dela. Quando ele a beijou, o beijo foi diferente. Mais urgente, mais faminto.
Eu me levantei e me juntei a eles na varanda. Renata se virou para mim, e em seus olhos eu vi uma pergunta. Um convite. Eu a beijei, e em seus lábios eu senti o gosto deles. Sentia o perfume dela misturado com o cheiro dos meus amigos. Era estranho, era intenso, era... real.
Quando nosso beijo terminou, Renata olhou para nós três, um sorriso satisfeito nos lábios.
— Acho que o churrasco acabou — ela disse. — Mas a noite está só começando.
Ela pegou minha mão e a de Eduardo, e nos guiou de volta para a sala. Ricardo nos seguiu, sem dizer uma palavra. A luz da sala estava mais baixa, mais íntima. A música ainda tocava, baixa, uma melodia suave que parecia ter sido feita para aquele momento. Renata parou no meio da sala e se virou para nós.
Ela começou a dançar sozinha, lentamente, com os olhos fechados. Nós três a observávamos, como se estivéssemos assistindo a um ritual antigo. E então ela abriu os olhos e estendeu a mão para Eduardo.
— Dance comigo.
Eles dançaram, próximos, seus corpos se tocando de uma forma que eu nunca tinha visto. Ricardo se aproximou de mim.
— Tá bem com isso, Marcelo?
Eu olhei para ele, e vi a preocupação genuína em seus olhos.
— Estou melhor do que eu jamais imaginei que estaria — eu disse, e era a verdade.
Dançamos os quatro juntos, em um círculo estranho e íntimo. As mãos se tocavam, os corpos se aproximavam. Em algum momento, Renata parou de dançar e começou a desabotoar a blusa. Seu sutiã era preto, de renda, e seu colo parecia mais lindo do que nunca sob a luz baixa da sala.
Ela olhou para nós, um sorriso desafiador no rosto.
— Quem vai ser o primeiro?
A pergunta pairou no ar, carregada de significado. Era Eduardo quem respondeu, com a voz baixa e rouca.
— Deixa ser o Marcelo. É a casa dele, a esposa dele.
Eu me aproximei dela, e a beijei novamente, desta vez com mais paixão, mais urgência. Minhas mãos encontraram o fecho do sutiã dela, e o soltei. Seus seios eram perfeitos, e eu os beijei, sentindo o corpo dela arquear sob meu toque.
Quando olhei para o lado, vi Eduardo e Ricardo nos observando, com os olhos brilhando de desejo. Renata os chamou com um gesto, e eles se aproximaram.
Nós a levamos até o chão, sobre um tapete macio. Era como se estivéssemos explorando um novo território, um novo mapa do prazer. A boca de Renata encontrou a de Eduardo enquanto minhas mãos exploravam seu corpo. Ricardo se ajoelhou ao lado dela, acariciando seus cabelos.
O vestido de Renata foi desaparecendo, peça por peça, até que ela ficou nua sob nossos olhares. Era um espetáculo, uma deusa no meio da nossa sala. Seu corpo era um território a ser descoberto, e nós éramos os exploradores.
Minha boca desceu pelo corpo dela, enquanto Eduardo beijava seus seios e Ricardo acariciava suas coxas. O som da respiração dela, misturado com a música baixa, era a única trilha sonora de que precisávamos.
Eu a beijei entre as pernas, sentindo o gosto dela, a umidade do seu desejo. Ela gemia, um som baixo e profundo que vibrava em todo o meu ser. Quando olhei para cima, vi que ela tinha o pênis de Eduardo na mão, movendo-se lentamente, enquanto a boca de Ricardo encontrava a sua.
Era um caos de prazer, uma sinfonia de corpos e desejos. Eu me levantei e me despi, e então entrei nela. O movimento foi lento, deliberado. Eu a senti se contrair ao meu redor, e o gemido dela foi mais alto desta vez.
Eduardo se ajoelhou perto da cabeça dela, e ela o levou à boca. O ritmo aumentou, a tensão cresceu. Ricardo se ajoelhou do meu lado, sua mão encontrando o bumbum de Renata. Eu senti o dedo dele entrar nela, e ela gritou de prazer.
Nós nos movemos juntos, em uma dança primitiva e antiga. O mundo exterior desapareceu, e só existíamos nós quatro, naquele tapete, naquele momento. O tempo parou, e o espaço se expandiu e se contraiu ao nosso redor.
Em algum momento, Eduardo se afastou, e Ricardo tomou seu lugar. A boca de Renata o envolveu, enquanto eu continuava a movimentar dentro dela. O ritmo estava ficando mais rápido, mais urgente. Eu sentia o orgasmo se aproximando, uma onda que começava nos meus pés e subia pela minha espinha.
Quando atingi o clímax, foi como se o mundo explodisse em cores e sons. Renata gemeu comigo, e senti o corpo dela se contorcer sob o meu. Ricardo também gozou, e o som do prazer dele se misturou com o nosso.
Ficamos assim por um tempo, entrelaçados, ofegantes. O suor escorria pelos nossos corpos, e o ar da sala parecia espesso com o cheiro do sexo.
Quando finalmente nos separamos, havia uma nova intimidade entre nós. Algo que havia sido quebrado e, ao mesmo tempo, reconstruído. Renata se sentou, um sorriso satisfeito no rosto.
— Isso foi... inesperado — disse ela, com a voz um pouco rouca.
Ricardo riu.
— Inesperado é pouco. Isso foi... lendário.
Eduardo concordou, balançando a cabeça.
— Vinte anos. Vinte anos de curiosidade, e a gente resolve isso em uma noite.
Eu me sentei ao lado de Renata, passando o braço ao redor dela.
— Melhor tarde do que nunca.
Renata me olhou, e em seus olhos eu vi algo novo. Algo que eu nunca tinha visto antes. Uma nova profundidade, uma nova compreensão. Ela me beijou, um beijo lento e doce.
— Eu te amo, Marcelo.
— Eu te amo também, Renata.
Olhamos um para o outro, e por um momento, esquecemos que tínhamos companhia. Era só nós dois, em nosso próprio mundo. Mas então, o estômago de Ricardo roncou, e o feitiço se quebrou.
— Acho que alguém está com fome — brincou Renata.
— Sempre estou com fome — respondeu Ricardo, com um sorriso. — Principalmente depois de um... exercício como esse.
Rimos, a tensão se dissipando no ar. Eduardo se levantou e se esticou.
— Acho que é hora de um lanche da madrugada. O que tem na geladeira, Marcelo?
— Tem um resto de salada, talvez algumas salsichas — eu respondi, me levantando.
— Salsichas? Ricardo vai gostar — brincou Renata.
Ricardo deu de ombros.
— Não vou negar. Gosto de uma boa salsicha.
Fomos para a cozinha, ainda nus, como se fosse a coisa mais natural do mundo. A luz fria da cozinha nos fez piscar, e a realidade da situação começou a se instalar. Olhei para Renata, para Eduardo, para Ricardo. Meus amigos de vinte anos. E minha esposa, nua na cozinha com eles.
Foi estranho. Foi intenso. Mas de alguma forma, estava certo.
Encontramos queijo, presunto, pão. Fizemos sanduíches, comiamos em silêncio, o som da mastigação preenchendo a cozinha. Em algum momento, a conversa recomeçou. Falamos sobre o futuro. Sobre o que aquilo significava.
— Não sei o que isso significa — admitiu Eduardo, com a voz séria. — Mas sei que não me arrependo.
Ricardo concordou.
— Eu também não. Foi... incrível.
Renata olhou para mim.
— E tu, Marcelo? Tu se arrepende?
Eu a olhei, e em seus olhos eu vi não apenas minha esposa, mas uma mulher com desejos próprios, com uma curiosidade que eu tinha ajudado a satisfazer. E me senti orgulhoso.
— Não — eu disse. — Não me arrependo. Me sinto... completo. De alguma forma, isso nos aproximou.
Ela sorriu, um sorriso de alívio e de alegria.
Eu me sinto da mesma forma.
Terminamos os sanduíches e voltamos para a sala. O ar parecia mais limpo agora, mais leve. A música ainda tocava, baixa, uma trilha sonora para nossas conversas e nossos pensamentos.
Nos sentamos no sofá, um pouco mais distantes uns dos outros. A intensidade do momento anterior tinha dado lugar a uma calma mais reflexiva.
— Acho que vou dormir um pouco — disse Ricardo, bocejando. — Onde é o quarto de hóspedes?
— Lá no final do corredor — eu respondi. — Toalhas no banheiro.
Eduardo também se levantou.
— Acho que vou acompanhá-lo. Estou cansado também.
Eles se foram, e ficamos Renata e eu sozinhos na sala. O silêncio entre nós era confortável, familiar.
Ela se aninhou em meu braço, a cabeça no meu ombro.
— Foi uma noite louca, Marcelo.
— A noite mais louca da minha vida — eu concordei. — E também a melhor.
— A melhor pra mim também — ela disse. — Mas tu sabia? Sobre mim e o Eduardo?
Eu pensei por um momento.
— Acho que, no fundo, eu sempre soube. Ou pelo menos, sempre suspeitei. Nunca me incomodou, porque eu sempre soube que tu escolheu a mim.
Ela me olhou, com os olhos brilhando.
— E eu sempre escolheria a ti, Marcelo. Sempre.
Nós nos beijamos, um beijo lento e doce, um beijo que selava não apenas nosso amor, mas nossa nova compreensão um do outro.
Vamos para a cama — disse ela. — Tenho sono, mas quero acordar ao seu lado.
Fomos para o nosso quarto, e nos deitamos. O cheiro dela estava nos lençóis, um cheiro familiar que agora parecia conter segredos e novas histórias. Adormeci com o corpo dela colado ao meu, com a sensação de que algo havia mudado, fundamentalmente, para sempre.
***
Acordei com o sol batendo no rosto. A cama ao meu lado estava vazia e fria. Por um momento, pânico me atingiu. Tudo tinha sido um sonho? Mas não. O cheiro da sala estava diferente. O cheiro de sexo, de suor, de meus amigos.
Eu me levantei e vesti um boxer. A casa estava silenciosa. Ricardo e Eduardo provavelmente já tinham ido embora. Fui para a cozinha em busca de café, e então eu ouvi.
Um som baixo, um gemido. Vindo da cozinha.
Eu parei, o coração batendo forte. Me movi silenciosamente até a porta da cozinha e olhei.
E lá estava ela. Minha esposa. De pé, de costas para mim, encostada na pia. Usando uma das minhas camisetas, grandes demais para ela, e nada mais. A camiseta estava levantada até a cintura. Eduardo estava atrás dela, e o movimento dos seus quadris deixava claro o que estava acontecendo. Ele a estava possuindo, com calma, com uma força que eu nunca tinha visto nele. E do lado, Ricardo, sentado em um banquinho, observava, com um sorriso nos lábios.
Renata gemia, um som baixo e profundo de prazer. Eu fiquei parado, escondido na sombra, assistindo. Era uma cena íntima, privada, e eu era um intruso. Mas eu não conseguia me mexer. Eu conseguia apenas observar.
Em algum momento, Renata se virou, e seus olhos encontraram os meus. Ela não se assustou. Ela não parou. Ela apenas me olhou, e em seus olhos eu vi um convite. Um convite para assistir, para participar, para compartilhar.
Ela fez um gesto para Ricardo, e ele se levantou. Ele se aproximou dela, e ela o levou à boca. E ali, na minha cozinha, sob a luz da manhã, minha esposa estava com dois homens. E eu assistia, com uma ereção dolorosa e um coração transbordando de emoções.
Eles mudaram de posição. Eduardo se sentou em um dos bancos da ilha, e Renata se sentou em seu colo, de costas para ele, se movendo lentamente. Ricardo se aproximou, e ela o levou à boca novamente.
O ritmo aumentou, a respiração ficou mais ofegante. Eu os vi atingir o clímax, quase ao mesmo tempo, um som de prazer que preencheu a cozinha. Quando terminaram, ficaram assim por um momento, abraçados, ofegantes.
Foi só então que Renata se virou completamente para mim, um sorriso nos lábios.
Bom dia, dorminhoco.
A voz dela estava rouca, satisfeita. Ricardo e Eduardo se viraram para mim, com expressões de surpresa e, depois, de alívio.
Eu entrei na cozinha, um sorriso se formando em meu rosto.
— Pelo jeito, sou sempre o último a saber das coisas nessa casa.
Eduardo riu, um som alto e genuíno.
— Desculpa, amigo. A gente acordou com fome.
— E encontrou bastante o que comer — acrescentei, olhando para Renata.
Ela riu e se aproximou de mim, a camiseta de malha ainda enrolada na cintura. Ela me beijou, e em seus lábios eu senti o gosto deles.
— Tudo bem, Marcelo? — ela perguntou, a voz baixa e séria. — Tu está bem com tudo o que aconteceu?
Eu a olhei, e vi a preocupação em seus olhos. Eu a beijei novamente, um beijo lento e firme.
— Estou mais do que bem — eu disse, e era a verdade. — Estou incrivelmente bem.
Ricardo se levantou e se esticou.
— Bem, agora que o anfitrião está acordado, acho que a gente pode pensar em café da manhã de verdade. Não só o... café da manhã dos outros.
Rimos, a tensão se dissipando no ar. Fomos para a geladeira, uma estranha procissão de pessoas satisfeitas e famintas. Encontramos ovos, pão, bacon. Eduardo começou a fritar o bacon, Ricardo mexia nos ovos, e eu fazia o café. Renata se sentou em um banco, observando, com um sorriso no rosto.
— Sabe — disse ela, depois de um silêncio. — Eu nunca imaginei que um churrasco com os amigos da faculdade do meu marido acabaria assim.
Eduardo riu, virando o bacon na frigideira.
— Eu também não. Mas foi... inesquecível.
— Inesquecível é pouco — disse Ricardo, quebrando os ovos na tigela. — Acho que nunca mais vou conseguir olhar para as fotografias antigas da faculdade da mesma maneira.
— Nem eu — concordei, servindo o café em quatro canecas. — Nem eu.
Tomamos o café da manhã na cozinha, a conversa fluindo facilmente. Falamos sobre a noite anterior, não com vergonha ou arrependimento, mas com uma nova cumplicidade, uma nova compreensão.
— Acho que a gente precisa fazer isso de novo — disse Eduardo, com a voz séria. — Não necessariamente assim, mas... a gente precisa se encontrar mais.
Ricardo concordou, com a boca cheia de ovo.
Claro. Não posso esperar mais vinte anos para o próximo churrasco. Da próxima vez, eu levo o pão também.
Renata riu, um som claro e feliz.
— Vinte anos, não. Mas da próxima vez vocês podem trazer o pão também.
Olhei para meus amigos, para minha esposa, e me senti uma gratitude tão profunda que quase me sufocou.
— Engraçado — eu disse. — Passei a faculdade inteira achando que conhecia esses dois. Bastou um churrasco para descobrir que ainda tinha muita história que ninguém tinha contado.
Todos riram, e o som se encheu a cozinha, um som de amizade, de descoberta, de novas possibilidades.
Depois do café, Eduardo e Ricardo se despediram. Houve abraços, promessas de manter contato, planos vagos para um futuro próximo. Quando a porta se fechou, a casa pareceu silenciosa de repente, vazia.
Fiquei com Renata na cozinha, ajudando-a a lavar a louça.
— Tu ficou surpreso mesmo quando eu contei aquilo sobre o Eduardo? — ela perguntou, secando uma panela.
Eu parei, pensando na pergunta.
— Surpreso eu fiquei — eu disse. — Só não sei se fiquei mais surpreso com a história de vinte anos atrás ou com a de ontem.