O quarto real fedia. Não adiantava o quanto as aias queimassem aquele incenso caro que vinha do leste; o ar ali dentro era pesado, grosso, com cheiro de vinho azedo, lenha torrando na lareira e suor de homem velho. Era um cheiro que me dava náuseas há anos, mas eu já tinha aprendido a engolir o nojo junto com o orgulho. Aquele quarto não era um ninho de amor, porra. Era um campo de batalha. E eu era a porra da general sobrevivendo nas trincheiras de seda. Alistair estava em cima de mim, pesado feito um boi abatido. A respiração dele era um chiado nojento, o hálito quente e carregado de álcool batendo direto na minha cara enquanto ele forçava aquele ritmo bruto, querendo provar para si mesmo que ainda era o garanhão que tinha conquistado aquela coroa de merda. — Você é minha, Catherine. Minha! — ele rosnou, a voz rouca, as mãos grossas apertando meus braços com uma força desnecessária, quase sádica. Os dedos dele pareciam garras, marcando a minha pele clara. Ele adorava deixar roxos. Adorava olhar para mim no dia seguinte, nos banquetes, e saber que debaixo dos vestidos caros de veludo, eu estava marcada com a assinatura dele. Eu fechei os olhos e joguei a cabeça para trás, soltando um gemido arrastado que não tinha um pingo de tesão real, mas que era o teatro perfeito. — Toda sua, meu Rei... — sussurrei, a voz aveludada, enquanto cravava minhas unhas de leve nas costas largas dele. O atrito dos nossos corpos era violento. A cama de carvalho rangia, acompanhando a loucura daquele velho desgraçado que achava que me dominava enfiando a própria arrogância goela abaixo. Ele achava que mandava na porra toda. Ele achava que aquele corpo pesado, suado e coberto de cicatrizes velhas era o que me mantinha na linha. Mas Alistair era burro. Um rei leão, mas burro. Ele não percebia que enquanto ele me prensava contra o colchão, cego pela própria luxúria e pelo ego inflado, era eu quem ditava as regras do reino. Era depois dessas fodas brutas, quando ele caía para o lado, roncando e vulnerável, que eu plantava as ideias na cabeça oca dele. Eu sussurrava quem deveria morrer, quem deveria ser promovido no conselho, como manter o nosso sangue, a nossa maldita e sagrada linhagem pura intacta. O sexo era só o pedágio que eu pagava para governar no lugar dele. E tinha mais uma coisa. Um detalhe que deixava tudo ainda mais... interessante. Eu não estava atuando só para o Alistair. Meus olhos se abriram uma fresta e correram para o canto escuro do quarto, onde a grande tapeçaria com o brasão da família escondia um painel falso de madeira. Eu sabia que ele estava lá. James. Meu filho. O herdeiro daquela bagunça toda. Dezoito anos na cara, um corpo de homem se formando, mas a mente de um rato curioso. O moleque era um voyeur do caralho. Fazia meses que eu sentia o cheiro da ansiedade dele espreitando pelos corredores secretos do castelo. Eu sabia que ele passava noites inteiras com o olho colado naquela fresta, no escuro, assistindo à mãe ser tomada pelo pai. Eu podia sentir a respiração acelerada do James dali. O tesão reprimido do garoto exalava pela parede. O sangue puro fervendo. Ele estava aprendendo a ser homem vendo a pior versão de um: um pai tirano e uma mãe que fingia submissão enquanto segurava as rédeas invisíveis de tudo. Para James, eu não era mais só a mãe intocável. Eu era a carne. Eu era o objeto de desejo coberto de suor na luz amarela da lareira. E eu, no fundo da minha mente doentia e calculista, estava começando a gostar dos olhos dele em mim. Se Alistair era o passado desmoronando, James era o futuro. E eu precisava ter esse garoto na palma da minha mão. Alistair grunhiu mais alto, o corpo tremendo. Ele tentou acelerar, bancando o invencível. O atrito era doloroso, as pernas dele roçando nas minhas, a pele grudando no suor. Ele fez uma força absurda, as veias da testa saltando, o rosto ficando vermelho, roxo... e então, tudo deu merda. Ou melhor, tudo se encaixou. O rosnado que ia sair da boca dele se quebrou no meio. Virou um engasgo bizarro, seco, parecia que ele tinha engolido terra. O ritmo frenético parou de soco. Abri os olhos. A cara de Alistair estava a um palmo da minha, e a expressão dele era de dar pena. O rosto estava contorcido numa careta grotesca, os olhos arregalados, injetados de sangue, como se tivessem visto o próprio Diabo. A cor dele passou de roxo para um branco acinzentado nojento em questão de segundos. Ele tentou puxar o ar, mas a garganta só soltou um chiado molhado. A mão dele, que antes me apertava querendo ser dono do mundo, soltou meu braço e foi direto para o lado esquerdo do próprio peito, agarrando a carne como se quisesse arrancar o coração que estava falhando. O velho infartou. No meio da foda. O coração podre, cansado de tanto vinho, de tanta banha e de tentar forçar uma juventude que já tinha ido pro ralo, simplesmente explodiu sob pressão. Ele deu um último tranco violento, as costas arqueando pra trás numa agonia muda, e depois despencou em cima de mim como um saco de pedras. O silêncio desabou no quarto junto com ele. O contraste foi absurdo. Um segundo atrás, era suor, barulho de carne batendo, respiração pesada. Agora? Nada. Só o estalo da madeira queimando na lareira e o peso frio pra cacete daquele corpo morto em cima do meu. Eu não conseguia respirar direito com os cento e tantos quilos de carne morta me esmagando contra o colchão. Qualquer mulher da corte teria dado um berro. Teria rasgado a garganta chorando, empurrado o cadáver suado no meio do desespero e chamado os guardas gritando que o Rei estava morto. Mas eu não sou qualquer mulher. Eu não senti um pingo de dor. Não senti luto. Senti foi um puta alívio. Fiquei ali, esmagada sob ele por uns bons trinta segundos. Deixei a realidade bater. O tirano babaca que me usou a vida inteira tinha acabado de virar carniça na minha cama. Com um esforço do cacete, apoiei as duas mãos no ombro peludo do Alistair e o empurrei para o lado. O corpo dele rolou pesadamente e caiu de costas no colchão macio. Ele estava com a boca meio aberta, os olhos vazios encarando o teto de madeira. O todo-poderoso Rei Alistair, agora parecia só um pedaço de carne no açougue. Eu me sentei na beira da cama, completamente nua. O ar frio do quarto bateu na minha pele suada e eu puxei o ar fundo, enchendo os pulmões. Caralho. A sensação de liberdade misturada com adrenalina era melhor que qualquer orgasmo que aquele velho um dia tentou me dar. Levantei, o corpo doendo pelas pancadas dele, e fui caminhando descalça até a mesa de prata onde ficava a água e a bacia de lavanda. Meus passos eram lentos, calmos. Eu não tava com pressa. Peguei um retalho de seda limpa, mergulhei na água gelada e comecei a passar no pescoço, entre os seios, tirando a sujeira, tirando o cheiro do Alistair de mim. Enquanto a água fria escorria pela minha pele, minha cabeça já girava a mil por hora. O tabuleiro tinha acabado de virar. Alistair era a minha proteção, mesmo sendo um escroto. Sem ele, os abutres do conselho iam tentar me jogar pra escanteio. Iam tentar me trancar numa torre e governar o reino pelas costas do novo rei inexperiente. Mas eles não faziam ideia com quem estavam lidando. A linhagem era pura. O sangue era nosso. E eu não ia largar o osso. Eu joguei a seda molhada de volta na bacia, a água pingando no chão de pedra, e lentamente virei o rosto, olhando por cima do meu próprio ombro nu. Olhei direto para a tapeçaria no canto escuro do quarto. Eu sabia que James ainda estava lá. O desgraçadinho devia estar paralisado, grudado na fresta, tendo assistido o pai morrer em cima da mãe. Tendo assistido a mãe empurrar o cadáver, se levantar nua, majestosa no meio da tragédia, e se lavar como se tivesse acabado de sujar as mãos de graxa. Um sorriso fino, afiado como uma navalha, desenhou-se na minha boca. Alistair estava morto, mas o show não tinha acabado. Pelo contrário, só tinha mudado de protagonista. Se James gostava de assistir, eu ia dar a ele um motivo de verdade para não conseguir tirar os olhos de mim. Eu ia pegar aquela curiosidade doentia do meu filho, aquele tesão de moleque que não sabe o que fazer com a própria vontade, e ia enrolar no meu dedo mindinho. Ele ia ser Rei lá fora. Mas aqui dentro, nos quartos escuros desse castelo... o Rei ia ser meu escravo. Para manter o nosso sangue no poder, eu faria qualquer coisa. E se seduzir o garoto que eu pari era o preço para continuar com a coroa na cabeça... bom, pior pra ele. — O Rei está morto — sussurrei para o ar vazio do quarto, sabendo perfeitamente que, atrás da parede, o novo Rei estava escutando cada palavra minha, provavelmente sem conseguir respirar. A partir de amanhã, o luto ia ser apenas um vestido de seda preto. Um vestido preto, muito decotado e muito fácil de tirar. O jogo de verdade estava prestes a começar.
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