No começo da fuga chegou a pensar em retornar para próximo da região de Falésias para recuperar seus mantimentos escondidos por ela antes de ser flagrada pelos Falesianos, mas logo percebeu que seria uma ideia ridícula. Primeiro porque sentia fortes dores no braço e ombro, devido à queda desajeitada ao saltar pela janela. Segundo porque realmente estava perdida.
Por instinto, buscou cavernas que lhe dessem o mínimo de conforto para recuperar-se fisicamente. Notou que a queda lhe marcou a pele, perto da clavícula com manchas escuras, devido à forte pancada. Teve de espionar mais tempo do que gostaria e progredir devagar. Temia sentir-se mal e acabar desmaiando em lugar aberto. Embora não fosse tão simples encontrar pessoas pelo caminho, ninguém arriscava ficar num mesmo ponto por mais de um dia. Atraía muita atenção. Sem dizer que segurança era um luxo que se achava em cidades. Pelo menos naquelas em que não haviam tido algum golpe, como ocorrido em Falésias.
Refez parte dos seus mantimentos usando alguns dos panos que cobria seu corpo, teve que se expor um pouquinho mais. Habilidosa, logo saciava sua fome com pequenas facas e material cortante, que fazia utilizando as pedras e outros itens que eram dispensados próximos das ruas de maior movimentação. Não se colocava em risco e tentava sempre avançar disfarçada no ambiente.
Passou por pequenos grupos traseuntes de 4 a 20 pessoas, que transitavam entre cidades. Observou algumas carroças precárias levando itens indicando haver alguma forma de comércio na região, mas nunca encontrava outra pessoa sozinha como ela. Chegou a invadir um pequeno acampamento para encontrar medicamentos, item extremamente raro, mas saiu de lá com novas ferramentas menos importantes. Recuperou parte das vestimentas, embora não da forma que gostaria.
Então, quando estava prestes a chegar na parte mais alta do relevo, indicada pelas águas límpidas do córrego. O que iria lhe representar mais riscos por serem pontos de encontro e de abastecimento de outros grupos nômades e até mesmo de vilarejos, Kiara ouviu o som mais perigoso de toda a região. Os badalos de um sino.
O sino representava a chegada dos comerciantes à alguma região. Mas não eram comerciantes comuns, eles ofereciam mão-de-obra capturada durante suas viagens em troca de alimentos, itens de luxo e qualquer outra coisa do interesse deles. Sua principal mercadoria eram mulheres solitárias, encontradas, capturadas, roubadas ou sequestradas em grupo. Eles sabiam que grupos nômades tinham enorme interesse nelas para múltiplos usos.
Ao ouvir o sino, Kiara, que já andava próximo às estradas com um olho nela e outro no que poderia vir a acontecer à sua volta, tentou regressar para evitar ficar nas proximidades do local de comércio. Mas o barulho do badalar atraía todo o tipo de gente e os comerciantes sabiam bem onde se estabelecer para fazer com que o máximo de pessoa os ouvissem. Afinal, também não podiam ficar badalando tanto e nem ficar por mais de dois dias dando sopa. Sabiam que ao mesmo tempo que atraíam pessoas sem escrúpulos para negociar as mulheres, também atraíam grupos, parentes e pessoas que buscavam vingança.
Por isso, eram grupos armados com forte poder de fogo e possuíam muitos espiões e camufladores. Kiara temia exatamente esse grupo e por este motivo iniciou o regresso, interrompido várias vezes por passos e movimentações de locais que faziam ela parar totalmente para ver de quem se tratava. Percebeu que não dava para seguir pois havia um pequeno campo aberto, e os comerciantes ou mesmo outras pessoas conseguiriam vê-la. Resolveu então buscar uma área mais fechada até encontrar uma gruta de acesso tão apertado que mal passava seu corpo. Certificou-se de não ter nenhum animal lá dentro e também se não era usada por alguém ou outro bicho e então resolveu ficar para aguardar a noite.
O barulho das vozes e passos eram frequentes. Às vezes pareciam vir bem de perto e às vezes à distância. Kiara aproveitou para organizar seus mantimentos e ver o estado de seu braço, agora melhor. Provocava o mínimo de barulho, era acostumada ao silêncio.
Ao anoitecer, decidiu sair para ver se encontrava algum alimento e para ver como eram os comerciantes. Seus pais e membros Astros diziam que eles eram exploradores de corpos. Afirmavam que eles não se limitavam às mulheres solitárias, mas à qualquer pessoa fraca, que não oferecesse riscos. Diziam haver até homens sendo utilizados no mercado e se aproveitavam de cada um deles de todas as formas possíveis. As histórias eram similares às de terror contadas para pessoas bem jovens.
Agora era diferente, havia um grupo de comerciantes há alguns metros. Ela então subiu pelo morro, de olho nas possíveis posições de sentinelas. Se arrastava devagar, com a cabeça bem próxima do chão, parava e repetia o processo. Tinha paciência e disposição para fazer isso por horas. Alcançou uma parte um pouco mais elevada e identificou snipers nas partes altas. Por isso, se ajeitou vendo se ficaria exposta por algum dos lados e ao perceber que para não ser vista era preciso ficar quieta, assim o fez.
Então seus olhos passaram a ver o cenário. Haviam algumas carroças arcaicas com homens amarrados na posição dos cavalos. Seus braços estavam presos para trás, fixos na estrutura do veículo. Eles também tinham uma espécie de mordaça e estavam de pé. Deviam haver cerca de 10 a 20 à frente das carroças. Também era possível ver mulheres entre eles.
Kiara contou pelo menos 5 carroças maiores. Duas com mantimentos em geral e três com pessoas solitárias presas em uma espécie de jaula. Também tinham pessoas soltas, mas presas em uma espécie de corrente que interligava a todos. Do mesmo modo, haviam vários comerciantes de olho nos seus objetos.
As pessoas que iam até os comerciantes passavam por uma espécie de revista para desarmá-los e também já ver o que teriam disponível para trocas. Kiara flagrou o momento em que um dos visitantes parecia não ter nada do interesse deles, o mesmo foi separado dos demais e capturado sem nenhuma resistência ou impedimento dos seus acompanhantes. Em questão de minutos ele era colocado como mais uma mercadoria.
Os visitantes então circulavam o espaço, observavam detalhes, procuravam pelas mulheres mais bonitas, mesmo sabendo que eram absurdamente mais caras. E no final tinham que sair com algo. Enquanto isso ia ocorrendo, Kiara notou o movimento de alguém que se parecia muito com os Soberanos que tinham rendido os Astros. Firmou o olhar neles e, como se não bastasse, pareciam ser outros Soberanos, que passavam entre os visitantes lendo suas mentes e observando se haviam novas mercadorias disponíveis para os comerciantes.
- Esse continente já era um inferno e agora, com os Traidores do Império se associando aos piores seres humanos, a gente está muito fudido - pensou ela enquanto observava.
De repente ela ouviu o som de uma pequena cavalaria, o que fez um dos snipers dar um tiro de aviso. Os comerciantes armados logo formaram uma espécie de formação e os visitantes seguiram fazendo suas negociações como se nada tivesse acontecido. Eram Falesianos, haviam quatro deles. Sinalizaram querer passar uma informação ao grupo e rapidamente um comerciante se destacou indo até eles.
Comerciantes não faziam negócios com membros das grandes cidades, no máximo em vilarejos pequenos, que se diferenciavam dos grupos nômades por simplesmente não avançarem. Não fazia sentido porque as pessoas das cidades eram mais protegidas e não possuíam escravos para tarefas pesadas ou mesmo atividades sexuais. Mas isso não significava que não tinham importância. As melhores fontes de informações eram a de comerciantes e de moradores de cidade. Sem dizer que as pessoas que davam muito trabalho às cidades viravam moeda de troca por algum item valioso.
Kiara quis saber o que tanto falavam, tentou identificar algo, mas era impossível. O comerciante retornou até o grupo, desfazendo a defesa que tinham armado e então foi até a maior tenda. Dela saiu um casal, um homem muito bem vestido, com um ar de poder supremo e uma mulher igualmente bem vestida, porém mais sádica. Saiu do local já chicoteando alguns escravos presos enquanto seu suposto esposo ria da ação. Ele foi até os falesianos, conversaram algo e se despediu com um papel em mãos. Os homens montados nos cavalos partiram de volta de onde vieram e o líder dos comerciantes seguiu observando o documento.
Ao se aproximar da tenda, a mulher também quis observar e os dois aparentemente discutiam algo de forma amistosa. Ele estalou os dedos e chamou um dos Soberanos que logo apareceu, olhou o papel e deu outra volta nos comerciantes. Fez o processo de forma meticulosa. Depois também observou os membros presos nas gaiolas e nas correntes. Voltou até ele e sinalizou negativo. O líder demonstrou desapontamento enquanto sua mulher pegou com as duas mãos em seu queixo e falou outra coisa.
Um assobio foi ouvido e um dos snipers desceu a serra rapidamente. O líder mostrou o papel pra ele que olhou com bastante atenção e também sinalizou que não. Então o líder orientou algo e eles retornaram para a tenda.
Outros dois assobios foram feitos e agora todos os snipers saíram de suas posições, Kiara se assustou com a saída de um deles há pouco mais de vinte metros abaixo de sua posição, saindo de uma espécie de buraco. Eram sete snipers no total. Eles sinalizou o mesmo papel aos demais e todos seguiam sinalizando negativo. Eles então voltaram às suas posições e Kiara buscou um espaço atrás da encosta, para não ser flagrada pelo sniper que retornou e não a viu.
O comércio seguiu normalmente. Alguns homens e mulheres eram trocados por maços de tabaco, balas de revólver, panelas grandes, facas, sementes, medicamentos e todo o tipo de itens que fosse possível ser negociado e ter grande utilidade. Remédios e armas eram os itens mais caros. Por uma metralhadora, dois dos visitantes pôde levar um homem e duas mulheres, além de alguns itens para acampamento. Seis representantes de um grupo nômade ofereceram uma caixa de algum medicamento que não foi possível ser visto por Kiara em troca de quatro belas mulheres.
Após a negociação, os visitantes levavam suas "mercadorias" até o lado de fora e, a partir dali, podiam fazer o que bem entendessem. Kiara chegou a flagrar um dos homens colocar o pênis para fora para que uma mulher negociada já lhe punhetasse enquanto caminhavam. Outros aproveitavam para abraçar, beijar, dar tapas e ofender. Ela apenas observava tudo, engolindo seco e pensando no inferno que tudo aquilo seria para quem estava na coleira.
Pela madrugada, os comerciantes encerraram as negociações durante aquele dia. O número impressionante de prisioneiros tinha reduzido bastante, mas ainda haviam pelo menos uns 100, a maioria presa nas carroagens. Um dos piores lugares para se estar pois as mãos ficavam presas para trás e impedia que eles se sentassem no chão ou mesmo se agachassem.
Os snipers então passaram a ser trocados. Enquanto um descia, outro subia para ocupar o posto. Os prisioneiros choramingavam enquanto eram açoitados pelos vigilantes que pareciam fazer questão de deixá-los acordados o tempo todo. Devido à inexistência de comercialização e o surgimento do silêncio característico de uma madrugada no meio da natureza - mesmo que apocalíptica. Kiara conseguia ouvir a respiração do sniper abaixo dela, dos passos das pessoas que caminhavam dentro do acampamento, especialmente os que se dirigiam para a posição em que ela estava e também alguns fragmentos de conversa.
- Você viu como ela é linda? - disse um dos guardas que caminhava próximo de onde estava para o outro. O papo era cochichado.
- Eu duvido que exista uma fêmea assim no continente.
- Mas os Falesianos não iam andar tão longe procurando alguém. Só uma preciosidade daquelas pra fazer os frouxos da cidade irem tão longe.
- Haha. Verdade. Qual seria o preço de uma fêmea daquelas?
- Ah! Não sei. Mas se ainda for virgem, é coisa de te transformar na pessoa mais rica do continente.
- Ou de te transformar na mais sortuda, se não quiser negociar.
- Sim!
E os dois saíram rindo. Kiara por um instante não quis acreditar que poderia ter sido mencionada. Muito menos não imaginaria que poderia haver uma foto dela sendo repercutida.
Isso a fez lembrar da última foto que tinha tirado. Ainda era muito jovem. Seus pais tinham encontrado uma máquina fotográfica num carro antigo e se surpreenderam por ainda possuir bateria. Tiraram a foto dela como quem estivesse apenas brincando e a máquina imprimiu seu rosto. Foi a única vez que viu sua imagem exposta em algum lugar diferente da de um espelho. Seus pais guardaram essa foto com eles até o fim. Mas ela nunca pôde pegar aquele item.
Agora havia uma imagem dela por aí? Impossível.
Os dois assobios então foram dados novamente. O líder do grupo saiu com sua mulher e num timing perfeito, assim que os snipers chegaram próximo dele, Kiara agora pôde ouvir as instruções.
- Atenção! Quero que vocês e os guardas façam uma varredura do lugar. Todos vocês viram a mercadoria. E quero ela intacta se acharem. Procurem por todos os lugares que forem possíveis num raio de até 5 quilômetros. Os Falesianos não iriam vir tão longe para falar sobre uma mulher que irritou seu líder. Ainda mais uma tão bonita. Mas fiquem de olho atento pois não se sabe ao certo se ela é Continental ou Soberana. Ela atende pelo nome de Kiara!
- Se for Soberana, nos entregue! - disse um dos Soberanos, que ouvia a conversa não tão distante.
- Se for Soberana entreguem a ele imediatamente. Já tivemos uma antes de encontrarmos eles e são extremamente difíceis de lidar. Desobedientes, tentam responder a tudo e não fazem nada, nem mesmo pra transar servem. A última que tivemos era muito linda, mas ficamos tão mal falados pelos grupos que negociávamos que tivemos que matá-la. Assim que eles receberem, estaremos com nosso acordo selado e poderão seguir seu caminho.
- Obrigado, Lorde! - respondeu o Soberano.
- Agora se organizem, estamos perdendo muito tempo. Amanhã faremos comércio pela manhã e partiremos após o almoço. Recarreguem os jarros de água, dêem o que for possível para nossas mercadorias porque o próximo trajeto vai ser bem longo e precisaremos caçar mais mulheres.
Kiara agora tinha certeza que além dos Falesianos, os comerciantes também sabiam de sua existência e estariam à sua caça. Ela então se rastejou mais rápido enquanto os homens iam se organizando em grupo para iniciar as buscas. Retornaria à sua gruta e iria para o lugar mais profundo possível. Sabia que mesmo que algum dos guardas passasse pelo pequeno buraco, jamais a notaria graças ao efeito que a escuridão faria por lá somada às lanternas e fogo que poderiam se utilizar. Ficar em campo aberto é que não daria para ficar.
Nas proximidades de sua gruta certificou-se de não deixar passos ou marcas de alguém que teria passado por lá. Fez toda a camuflagem possível sem fazer muito barulho. Tudo isso rápido, enquanto os guerreiros dos comerciantes se ajeitavam.
Já se enfiando no buraco, ouviu um grupo numeroso se aproximar da região. Eram os Falcões. Assim que entraram no campo de visão dos comerciantes eles pararam e seu líder, juntamente com os três Soberanos que Kiara já tinha visto saíram sinalizando algo. Ela então voltou a sair para se aproximar e ver o que poderia estar acontecendo.
Um dos guerreiros comerciantes se aproximou dos Falcões. Eles queriam saber o motivo da visita pela madrugada quando os Soberanos passaram a conversar sobre a ideia de poder sobre o continente e mudança de comportamentos. Sabiam bem persuadir lendo a mente dos Continentais. As ideias eram tão atraentes que até o líder dos comerciantes e sua mulher se deslocaram até eles.
Os Falcões sabiam que era preciso ter recursos e o grupo mais poderoso e mais bem treinado eram os que compunham a defesa dos Comerciantes. Prometeram que a ideia ficava em torno de auxiliar na defesa deles e preservar o comércio, desde que a liderança fosse do Falcão líder. A vantagem de ter os Soberanos é que além das impressões era possível enxergar por eles até onde cada um queria chegar. O encontro, por isso, foi amistoso.
Pouco depois, um dos Soberanos que estavam com os comerciantes chegou lendo as mentes de todos percebendo convergência. Quando estava para alertar para os riscos daquele possível acordo, captou a presença de Soberanos Falcões, que sorriram para ele discretamente. Embora não fosse possível ler a cabeça de outro Soberano, o comerciante apenas sinalizou um joinha.
Kiara não sabia o tamanho do poder que um Soberano tinha sobre a cabeça dos demais, mas percebeu que os grupos agiam de forma coletiva, mesmo aqueles em que os membros não se viam mais. Percebendo o risco das buscas voltarem assim que eles entrassem em um acordo iminente, Kiara retornou à sua gruta. Não quis mais saber de nada. Em sua solidão, na verdade, ela ficou triste por saber que tantas pessoas estavam a sua procura por ela não ter feito absolutamente nada. E agora também não podia contar com o apoio de ninguém, nem mesmo para conversar, nem mesmo para compartilhar estratégias.
Com poucos mantimentos e alimentos, Kiara se sustentou no fundo daquele buraco como se estivesse criando raízes com a Natureza. Esqueceu por um instante de tudo. Perdeu a noção do tempo e quando a luz que invadia o espaço que ficou transcendeu ficando mais forte, notou que os raios solares a convidavam para sair. Não havia mais ninguém do lado de fora, apenas os resquícios do que foi um acampamento alguns dias atrás. Ela tinha passado cinco dias em estado profundo de ligação terrestre.
Ela passou pelo que sobrou do acampamento e ainda buscou alguns pedaços de madeira, restos de corda e metais pequenos. Colocou em um saco improvisado e retomou seu caminho. Metros depois, buscando orientação dos astros, percebeu que estava numa fronteira perigosa.
Se avançasse por onde os Comerciantes tinham vindo, se afastando deles, que desceram o morro para ficarem mais próximos do litoral, ela iria passar por uma região mais fria e muito mais perigosa. Ao ponto de tornar os comerciantes em santos. Se percorresse lateralmente para um lado, encontraria o que foi o Mar Mediterrâneo, numa região em que era raríssimo encontrar pessoas por conta da Massa de Ar Tóxica passar por lá alguns meses atrás.
Se fosse para o outro sentido, poderia sair da zona de influência dos Falesianos, mas também passaria por um trecho repleto de pequenos vilarejos que, se encontrasse uma mulher solitária, a tornariam em escrava sexual no mesmo instante. E descer por onde os Comerciantes passaram significava o risco de ser notada por algum guarda costas do grupo ou ainda encontrar com os cavaleiros ou grupos que tinham tido a notícia de que ela estaria sendo procurada por eles. E se havia uma imagem delas entre os Comerciantes, estaria em toda a parte que reunisse um grupo de pessoas por aquele quadrante.
Kiara pensou: retornar atrás dos Comerciantes não fazia sentido. A não ser que chegasse ao entroncamento que passava entre os vilarejos e os Falesianos. Área que ela conhecia bem por ser rota dos Astros. Seria interessante porque mais adiante era possível pegar o trecho para a Antiga Lisboa. Mas o risco era elevado porque ela era o alvo de um grande grupo.
Descer pelo Mediterrâneo poderia ser mortal. E nem precisaria encontrar alguém. Bastaria entrar em uma gruta com pequenas porções de gás tóxico e tchau. A vida estava difícil, mas ela não iria desistir. Não tão fácil. Sobraria o acesso aos Vilarejos para dar a volta e encontrar a Antiga Lisboa - que também não tinha grandes notícias - ou seguir em frente para o interior dos Continentes passando pela região do que um dia foi a França, Alemanha e outros países.
Ela sabia que depois deles havia um enorme deserto de um lado e as Florestas da Sibéria, que tinham se alastrado para a região da antiga Ucrânia e ainda continha grande quantidade de mata, animais, alimentos e tecnologia. As histórias mais positivas vinham dessa região, mas também haviam relatos absurdos de uma comunidade que se definhava entre a França e Alemanha. Ir pela antiga Áustria, Suíça ou Itália também era sentença de morte devido às baixas temperaturas e inexistência de água ou alimentos por centenas de quilômetros.
Por fim, dividida, o que a fez decidir foi seu desejo de vingança. Os Soberanos ainda tinham que pagar pelo que fizeram aos Astros. Seguir pelo interior do continente poderia colocar ela de frente a outras ordas de Comerciantes ou de Pilhadores. Ela então adentrou pela lateral em direção aos Vilarejos, para ultrapassá-los era preciso apenas camuflar. Não tinha mistério.
Continua...

