Depois de dez anos a viver em Portugal, nós (Anna e Paulo) já conheciamos aquele ritual de cor. As manhãs começavam na Praia de Mira (distante 4 km da cidade de Mira), com o Atlântico ainda frio a desafiar os primeiros mergulhos, seguiam por caminhadas na marginal de madeira e terminavam, quase invariavelmente, numa mesa do restaurante de Francisco.
Não era uma escolha gastronómica.
Pelo menos, já não era apenas isso.
Quando descobriram o pequeno restaurante mediterrânico, três anos antes, tinham sido conquistados pelos pratos simples e pela carta de vinhos que parecia infinita. Francisco conhecia cada garrafa como quem apresentava velhos amigos. Falava de castas, terroirs e colheitas com um entusiasmo quase académico, corrigindo fornecedores, clientes e até enólogos quando julgava necessário. Havia quem o considerasse pretensioso.
Talvez fosse.
Mas havia algo naquela confiança quase insolente que, curiosamente, nunca soava desagradável. Era um homem que parecia confortável na própria pele.
Com cerca de um metro e setenta e oito, corpo magro, definido apenas o suficiente para revelar horas regulares de ginásio, Francisco movimentava-se entre as mesas com uma elegância natural. O rosto barbeado deixava transparecer um sorriso rápido, quase provocador, que surgia sempre no momento exato. Sabia ouvir, mas sabia ainda melhor responder. E, quando queria, fazia qualquer pessoa sentir que era a única na sala.
Solteiro. Sem filhos. E sem namorada, desde que finalizou um noivado.
"Casado com o restaurante", dizia sempre, encolhendo os ombros.
Anna achava graça à resposta.
Paulo fingia não reparar.
— Vieram queimados do sol outra vez... — comentou Francisco, pousando uma garrafa de branco bem fresco sobre a mesa, sem sequer lhes entregar a carta.
— Já nem perguntas o que queremos? — perguntou Paulo.
— Se perguntasse, era só para confirmar que iam escolher pior do que eu.
Anna soltou uma gargalhada.
— Continuas convencido de que sabes tudo.
— Não tudo. Só sobre comida... vinho... e pessoas que me interessam.
Ao dizer a última palavra, deixou o olhar repousar um segundo mais do que o habitual sobre os dois.
Foi um instante.
Curto o suficiente para poder ser ignorado. Longo o suficiente para não ser esquecido.
Anna sentiu-o primeiro.
Talvez porque sempre tivesse sido mais atenta às entrelinhas. Ou talvez porque, aos cinquenta e três anos, já soubesse distinguir um simples olhar de um olhar carregado de intenção.
Paulo também reparou. Não comentou. Mas, enquanto Francisco descrevia as notas minerais de um Encruzado da Bairrada, percebeu-se a observá-lo mais do que ouvia as explicações. Os gestos seguros, a forma como segurava o copo pelo pé, a facilidade com que sorria apenas com um dos cantos da boca.
Quando Francisco se afastou para atender outra mesa, Anna inclinou-se sobre a toalha de linho.
— Ele anda diferente, charmoso do jeito dele como sempre, mas eu diria um pouco mais ousado...sei lá.
— Não sei... olha mais para nós.
Paulo sorriu discretamente.
— Ou somos nós que olhamos mais para ele.
Ela ficou em silêncio. Era possível.
Nos últimos meses, quase sem conversarem sobre isso, algo mudara entre os dois. Anna e Paulo sempre tiveram a fantasia de uma menáge, mas somente agora após os filhos estarem adultos e independentes, que começaram a aventar, nas fantasias noturnas essa possibilidade. Depois de mais de vinte e cinco anos de casamento, descobriram que o desejo nem sempre desaparecia; às vezes apenas mudava de forma. Passava a viver na curiosidade, na imaginação, na cumplicidade de comentários interrompidos antes de chegarem ao fim.
Nunca tinham ultrapassado nenhuma fronteira. Nem sequer a tinham definido. Mas ambos se excitam com a possibilidade da sedução, amizade e algo a mais a três.
Mas, naquela tarde quente de julho, regressados da praia com a pele salgada e os cabelos ainda húmidos, ambos perceberam que havia um jogo silencioso a nascer entre os três.
Francisco voltou com os pratos.
Ao pousar o de Anna, os seus dedos tocaram de leve na mão dela. Sem pressa. Sem desculpas.
Depois fez o mesmo com Paulo, sustentando-lhe o olhar apenas o tempo suficiente para tornar impossível saber se fora um acaso... ou um convite.
— Espero que tenham fome — disse, com aquele sorriso enviesado que parecia guardar sempre um segredo. — Tenho a impressão de que este verão ainda nos vai surpreender.
E mais, tenho vontade de voltarmos a ir a praia os três, como antigmente. É sempre um prazer estar com o meu casal de amigos preferidos.
Paulo comentou que sim e, que seria um prazer para ele e para Anna, além das boas conversas que sempre tiveram ao passar a tarde nas praias mais tranquilas e com menos turistas europeus que participam ness época balnear.
Vamos marcar sim...e vamos aguardar o teu contato, quando estiveres dispoível.
Francisco sorriu com o canto dos lávios e os olhos brilhantes, mas de forma bem diferente do usual.
Continua...
ps: Essa é uma história real