A mesa do terraço era um pretexto, como tantas outras vezes. Pão rasgado à mão, queijo a derreter, presunto escuro, tomates sumarentos a brilhar com azeite e orégãos. Paulo abriu o tinto; os três copos pareciam reclamar o seu lugar cativo.A fome daquela noite, porém, não era de comida. Estava na voltagem dos olhares. Após um dia inteiro colados uns aos outros, as palavras tornaram-se dispensáveis. O silêncio pesava, denso, carregado de uma eletricidade quase palpável.Francisco recostou-se, os dedos longos acariciando a haste do copo, rodando o líquido escuro lentamente. No movimento, o seu joelho esbarrou no de Anna por baixo da mesa. Não se afastou. Manteve a pressão suave, firme.— Posso fazer-vos uma pergunta? — a voz dele saiu mais grave, rasgando a quietude.Anna sorriu, um brilho cúmplice nos olhos, sentindo o calor do toque oculto.— Vindo de ti, isso nunca é só uma pergunta.— Provavelmente não. — Francisco fixou primeiro Paulo. Depois, demorou-se em Anna. — Vocês... depois de tantos anos na mesma cama... ainda conseguem ler os pensamentos mais obscuros um do outro? Ainda se surpreendem?A pergunta flutuou como fumo denso entre eles. Paulo mediu o corpo de Anna com o olhar. Estendeu a mão pela mesa e tocou-lhe no pulso, o polegar acariciando a pele fina onde a pulsação dela denunciava a pressa.— Acho que sim... mas o jogo mudou. Já não temos trinta anos.Anna inclinou-se para a frente, a pele iluminada pela luz fraca, a perna ainda colada à de Francisco.— Hoje, o que nos incendeia é a audácia da confiança, não o choque do novo. É saber que ele conhece os meus limites e, mesmo assim, sabe como me desarmar.Francisco assentiu lentamente, sem quebrar o contacto visual com ela.— Curioso...— Porquê? — desafiou Paulo, a voz baixa, os dedos deslizando agora pelo braço de Anna.— Sempre achei que a rotina roubava o mistério. Que deixávamos de ser segredos um para o outro.Anna abanou a cabeça, os lábios entreabertos.— Não. O conforto da rotina pode ser muito erótico se souberes usá-lo. O verdadeiro perigo é quando perdes o apetite de decifrar o que o outro esconde na mente. Quando assumes que já viste tudo.Francisco silenciou, deixando a tensão psicológica subir. O espaço entre os três parecia mais curto, as respirações mais audíveis. O joelho de Francisco moveu-se milímetros, num roçar deliberado.— E vocês... ainda guardam segredos um do outro? Ou partilham os mesmos desejos confessionais?Paulo sorriu, um sorriso de quem guarda mistérios partilhados. Olhou para o copo de Francisco e depois para o da mulher.— Mais agora do que há dez anos.— Mesmo ao fim de um quarto de século?— Principalmente por causa disso. Dos anos.Anna olhou para o marido, um carinho possessivo e maduro na expressão, a mão livre subindo até à nuca de Paulo, os dedos embrenhando-se no cabelo dele num gesto de posse que Francisco testemunhou sem desviar os olhos.— Quando somos novos, despimos a fantasia do que o outro pode ser. Agora, despimo-nos sabendo exatamente os medos e as fantasias que o outro carrega na cabeça. E queremos mais.Francisco não desviava os olhos dos lábios dela.— Isso é perigoso. Entrar na mente de alguém sem pedir licença.— É cru — sussurrou ela.O vinho voltou a correr, quente. A conversa perdeu o filtro. Ficou psicológica, despida, sem espaço para mentiras. Francisco pousou o copo, a respiração ligeiramente mais curta, e deixou a mão cair sobre a mesa, a poucos centímetros da mão de Paulo.
Paulo sorriu, mas o olhar já não era o de um mero anfitrião. A mão dele, que antes acariciava o braço de Anna, escorregou pela mesa e pousou firme sobre o pulso de Francisco. Um toque pesado, de cumplicidade antiga, de quem conhece o amigo mais jovem há anos, mas agora impõe uma nova regra ao jogo.— O vinho está a acabar. E esta mesa já ficou pequena para o que estamos aqui a fazer — disse Paulo, a voz num registo mais grave, desarmando a subtileza do ambiente. — Vamos para dentro. Há um filme que ando a querer mostrar-te, Francisco.O convite não era para ver televisão; era uma transição consentida.Na sala, a penumbra acolheu-os. O sofá de pele era profundo. Paulo sentou-se num dos cantos, os calções subindo ligeiramente pelas coxas. Com um gesto firme, puxou Anna pela cintura. Ela não ofereceu resistência. Deixou-se guiar para o centro, o seu vestido de de algodão fino e quase transparente era bem propício para aquela noite pós praia, tão leve que parecia flutuar, moldando-se ao corpo. Francisco, também de calções e com o peito a subir ritmadamente, sentou-se logo a seguir, fechando o espaço.Anna ficou no meio. O tecido fluido do vestido não oferecia qualquer barreira. De um lado, a pele da sua coxa colou-se à perna despida de Paulo; do outro, o calor do joelho de Francisco pressionava o seu quadril.O ecrã da televisão iluminava a sala com flashes azuis e cinzentos, mas ninguém olhava para as imagens. Francisco quebrou o silêncio, a voz quase num sussurro, os olhos fixos na perna de Anna.— Isto... isto já não é só uma conversa honesta, pois não? Estou a sentir uma vertigem que nunca senti antes convosco. Quase sinto que estou a invadir um templo.Paulo soltou uma risada curta, o braço estendido por trás dos ombros de Anna, os dedos tocando de leve na nuca da mulher, mas o olhar fixo no amigo.— Não estás a invadir nada, Francisco. Tu sempre foste o nosso espelho mais novo. Mas esta noite, ver o modo como olhas para a Anna... e como ela te responde... acordou algo em mim que a rotina tinha adormecido. Eu quero ver até onde vai a tua audácia. E quero que vejas o quanto eu confio em ti para te deixar chegar perto.Anna respirou fundo. O peito subiu, fazendo o decote do vestido leve mover-se. Ela olhou primeiro para o marido, depois para o homem mais jovem. As suas mãos espalharam-se pelas coxas de ambos — a mão esquerda na perna firme de Paulo, a mão direita na pele quente de Francisco.— Eu sinto-me despida por dentro — confessou Anna, a voz trémula, mas sem medo. — Vocês estão a desmantelar todas as minhas defesas com estes olhares. Francisco, a tua juventude traz uma urgência que me assusta e me atrai. E tu, Paulo... ver o teu desejo misturado com essa generosidade... deixa-me completamente vulnerável. Eu quero os dois. E sei que vocês também se querem decifrar um ao outro através de mim.Francisco engoliu em seco. Sentindo a mão de Anna subir lentamente pelo seu calção, ele arriscou o seu movimento mais ousado: inclinou-se para a frente, cruzando o espaço de Anna, e olhou diretamente nos olhos de Paulo, enquanto os seus dedos roçavam, por cima do vestido, o ventre dela.— E agora? — perguntou Francisco.
O ecrã da televisão continuava a lançar flashes de luz pela sala escura, mas o verdadeiro foco estava no centro daquele sofá. Anna era o íman, o elo absoluto que unia a cumplicidade de dois homens que se respeitavam, mas que agora partilhavam a mesma fome.Francisco quebrou a distância que faltava. Inclinou-se e os seus lábios procuraram os de Anna. Foi um beijo lento, carregado da urgência da juventude que ela mencionara, mas moldado pelo respeito ao espaço que partilhavam. A mão de Francisco subiu pela nuca dela, os dedos emaranhando-se no cabelo, enquanto a sua coxa nua pressionava a dela por baixo do vestido leve. Anna soltou um suspiro morno contra a boca dele, entregando-se ao ritmo.Paulo assistiu a tudo a centímetros de distância. Não havia posse irritada no seu olhar, apenas o fascínio de um homem que via a sua mulher ser adorada pelo seu grande amigo. Com um movimento firme, Paulo puxou o rosto de Anna na sua direção, interrompendo o contacto com Francisco apenas o suficiente para reclamar a sua parte. Os lábios de Paulo encontraram os dela com a autoridade de mais de vinte e cinco anos de história, um beijo profundo, carnal, que fez o corpo de Anna arquear-se contra o dele. O tecido fluido do vestido deslizou pela pele dela, acumulando-se na cintura à medida que as mãos de Paulo lhe acariciavam os flancos.Presa entre os dois, a respiração de Anna era um eco rápido na penumbra. Ela procurou os dois ao mesmo tempo e sentiu que ambos estavam com os paus duper duros sob os calções, assim como, ela sentia a buceta bem molhada por entrar entre os dois. Olhou para Francisco, depois para Paulo, os olhos brilhantes de desejo.— Não me façam escolher — sussurrou ela, a voz sumida contra os lábios de Paulo. — Quero o peso de um e a vertigem do outro.Foi então que o espaço se extinguiu por completo. Paulo avançou ao mesmo tempo que Francisco se aproximava outra vez. Anna guiou-os com as mãos nas nucas de ambos. Os lábios dos dois homens encontraram o rosto dela ao mesmo tempo — Paulo na comissura esquerda da sua boca, Francisco na direita, fundindo-se os três num beijo partilhado, húmido e intenso, onde a boca de Anna era o centro de gravidade absoluto. A respiração de Paulo misturava-se com a de Francisco na pele dela, os bigodes e as barbas roçando na face macia de Anna.Por baixo do vestido leve, as mãos dos dois homens encontraram-se na pele despida das coxas de Anna. Não competiam; moviam-se em sintonia, explorando os contornos dela, enquanto Anna se entregava àquela adoração dupla, sentindo o calor dos calções de linho de ambos a prenderem-na num abraço inevitável.
Continua...lembrando que é uma história real...aqui em Mira, Coimbra, Portugal