A segunda-feira terminou com a habitual azáfama no restaurante, mas Francisco já tinha a terça-feira inteiramente desenhada na cabeça.
Pouco depois das nove da noite, pegou no telemóvel e ligou para Anna.
— Olá, Francisco! — atendeu ela, reconhecendo imediatamente a voz.
— Espero não estar a interromper o jantar.
— De todo. Estávamos precisamente a acabar.
— Ainda bem. Estava a pensar... amanhã o restaurante fecha, como sempre. E lembrei-me de uma praia de que nunca vos falei, uma vez que vocês estão em férias estes dias.
Anna sorriu.
— Isso soa a convite. É exatamente isso. Com este calor, podíamos aproveitar o dia. Antes da Praia da Tocha (Coimbra) há um areal enorme. Não é segredo, mas também não aparece em muitos guias. Quem conhece vai para lá porque há espaço, sossego... e ninguém anda em cima de ninguém.
Paulo aproximou-se, curioso. É o Francisco? Anna colocou o telefone em alta voz.
— Estamos os dois a ouvir.
— Então repito. Amanhã, praia. Sem horários, sem reservas, sem clientes a fazer perguntas sobre vinho. Só mar e conversa.
— Parece-nos um excelente plano — respondeu Paulo.
— Passo por vossa casa às nove?
— Combinado.
Na manhã seguinte, o céu apresentava aquele azul intenso que apenas parecia existir nos dias mais quentes de julho.
Às nove em ponto, o automóvel de Francisco estacionou em frente à casa do casal.Quando Anna saiu, trazia um vestido leve sobre o biquíni, um chapéu de palha e uns óculos escuros que mal escondiam o sorriso. Paulo apareceu logo atrás, de calções, t-shirt branca e uma mochila às costas.
— Vamos num só carro, como combinado.
— Menos combustível, menos estacionamento... mais conversa e, mais proximidade — comentou Francisco com um sorriso tímido habitual.
— Claro que havia uma teoria para isso — brincou Anna.
— Há sempre.
Os três riram.
A viagem decorreu entre música, histórias do restaurante e pequenas provocações que, nos últimos meses, tinham passado a fazer parte da linguagem entre eles. Francisco implicava com Paulo por este insistir em beber cerveja antes do almoço. Paulo respondia dizendo que Francisco era capaz de transformar um simples tomate numa palestra de meia hora. Anna limitava-se a assistir, divertida, sabendo que aquela troca constante de provocações escondia uma cumplicidade crescente.
Depois de tantos anos de amizade, já não existiam formalidades entre eles.
Francisco conhecia os hábitos de Anna e Paulo quase tão bem quanto conhecia a própria carta de vinhos do restaurante. Sabia que Anna precisava de alguns minutos ao sol antes de entrar no mar. Sabia que Paulo nunca resistia a um mergulho logo à chegada, independentemente da temperatura da água. Eram pequenas rotinas que se tinham construído ao longo de vários verões.
O que mudara não era a amizade. Era a forma como, havia alguns meses, cada gesto começara a adquirir um significado novo e mais gostoso para todos eles.
Enquanto montavam o corta-vento, Francisco segurava uma das hastes quando Anna se aproximou para prender a lona. As mãos dos dois encontraram-se por um instante sobre a mesma peça de alumínio. Nenhum deles recuou imediatamente.
— Assim fica melhor... — disse ela, sem desviar o olhar.
— Também acho.
As palavras eram banais. O silêncio que veio depois, não, pois, na realidade não veio silêncio e sim uma troca gostosa de olhares.
Paulo observou a cena enquanto terminava de prender a última estaca na areia. Em vez do habitual comentário bem-humorado, limitou-se a sorrir, percebendo que também ele já fazia parte daquele jogo silencioso que nenhum dos três ousava nomear.
Pouco depois, Anna retirou a saída de praia e dobrou-a cuidadosamente sobre a mochila. Francisco, que conversava com Paulo, interrompeu a frase por uma fração de segundo ao vê-la aproximar-se para se sentar entre os dois e disse, com to respeito ao meu amigo Paulo, a Anna está exatamente como um vinho, melhor a cada ano que passa da nossa amizade. Ela percebeu. Não disse nada. Apenas cruzou as pernas com naturalidade, apoiando uma das mãos na areia, tão perto da de Francisco que os dedos quase se tocavam. E isso era bom...era gostoso.
Francisco sorriu discretamente.
— Acho que o verão vos faz bem.
— A nós? — perguntou Paulo.
— Aos dois.
— Isso foi um elogio?
— Foi uma observação.
— Claro... — respondeu Anna, divertida. — Tu nunca elogias. Fazes observações, Francisco. Tu és quase 15 anos mais novo do que, mas pareces um velhote rabugento às vezes.
Ele riu.
— É deformação profissional.
Quando Paulo regressou do primeiro mergulho, gotas de água escorriam-lhe pela barba. Sacudiu os cabelos ainda molhados antes de se deixar cair sobre a toalha ao lado dos outros dois. Sem reparar, o seu braço encostou ao de Francisco. Nenhum dos dois fez menção de afastá-lo. Continuaram a conversar como se aquele contacto fosse apenas consequência do espaço reduzido. Anna estava entre os dois e colocou a mão sobre a coxa direita do Francisco, como a dizer que a água estava fria demais. Francisco riu e disse-lhe, podes deixar que te protejo desse meu amigo velhote troglodita. Os três riram muito.
Mas ambos tinham consciência dele. Anna acompanhava a cena em silêncio, escondida atrás dos óculos escuros, porém arrepiada ao tocar à perna do Francisco, que certamente sentiu e gostou do toque das maos dela.
Mais tarde, caminharam junto à água, lado a lado. Anna entre Paulo e Francisco...sempre os três e agora a praia mais deserta...
A maré subia lentamente, obrigando-os a aproximarem-se uns dos outros sempre que uma onda chegava mais longe.
Num desses momentos, Anna perdeu ligeiramente o equilíbrio ao sentir a areia ceder sob os pés. Francisco segurou-lhe o antebraço por reflexo.
Ela levantou os olhos para ele e agradeceu. A mão dele permaneceu a segurar ela pela cintura e a mão de Paulo também a segurou.
De verdade, sinto-me completamente protegida entre os dois...e que venham mais ondas...riu Anna discretamente mas cheia de desejos.
E, pela primeira vez desde que os três se conheciam, ninguém parecia ter vontade de fingir que não os tinha sentido.
A parter desse dia, nasceu algo mais forte e íntimo, com estes pequeno toques que atria os três.
Voltaram para casa e já era noite, visto que no verão o sol se põe por volta das 22:00h. E Francisco foi convidado para jantar com eles. Aceitou sem pestanejar, mas ainda iriam preparar o jantar...nada de gastronomia de chefe, mas uma boa sandes, tinto e boas conversas...agora mais gostosas ainda.
Continuará na parte 3.
Tá tudo muito intrigante votado