Backstage — 2026 2
Quarenta e um anos. Às vezes parece uma eternidade. Em outras, basta uma fotografia para que tudo aconteça novamente em questão de segundos.
Fechei a gaveta do armário onde guardava minhas lembranças, mas não consegui me afastar daquela fotografia.
Voltei a abri-la.
Ali estava eu, sentado à mesa do Diagonal, cercado por alguns amigos. Eu tinha dezoito anos e ainda não sabia que aquela fotografia registrava muito mais do que uma noite entre amigos. Atrás daquele sorriso havia um rapaz que estava prestes a conhecer o primeiro grande amor de sua vida, Louis.
Passei o dedo sobre a fotografia, como se pudesse atravessar o papel e tocar novamente aquele tempo.
Ele nunca voltou; eu, porém, voltei.
Em 2026, depois de tantos anos, estava novamente no Rio de Janeiro.
Não sabia exatamente o que procurava.
Talvez o Baixo Leblon que havia ficado preso na minha memória. Talvez o rapaz que eu tinha sido. Ou talvez alguma coisa que nem eu sabia nomear.
Desci pela Dias Ferreira numa tarde de domingo, caminhei devagar.
O bairro estava diferente. Algumas fachadas haviam desaparecido, outras surgiram no lugar. Restaurantes mudaram de nome, bares fecharam, prédios foram reformados. O movimento também era outro. Mas havia coisas que o tempo não conseguia apagar.
O cheiro do mar, o calor do fim da tarde.
Aquela sensação de que, a qualquer momento, alguém conhecido poderia surgir na esquina.
Parei por alguns segundos e olhei para o lugar onde tantas vezes havia passado em 1984 e 1985.
Foi estranho. Eu estava ali novamente, mas ninguém me reconhecia.
Talvez porque ninguém tivesse obrigação de reconhecer um homem de sessenta anos como o rapaz que um dia atravessava aquelas mesmas ruas com uma camiseta no ombro, cabelos ao vento e o coração cheio de expectativas.
Sorri sozinho.
— Você está procurando alguma coisa?
A voz veio atrás de mim.
Virei-me, era um homem que eu nunca tinha visto. Ou, pelo menos, que eu acreditava nunca ter visto.
Tinha pouco mais de cinquenta anos, cabelos grisalhos nas laterais e um sorriso tranquilo. Usava uma camisa clara, jeans e carregava uma pequena sacola na mão.
— Não sei — respondi.
Ele sorriu. — Essa foi uma resposta bastante sincera.
— Estou procurando um lugar que talvez nem exista mais.
— Aqui no Leblon isso é bastante comum.
Rimos.
Nós apresentamos
- Meu nome é Rafael, mas pode me chamar de Rafa.
- O O meu nome é André, mas meus amigos me chamavam aqui de Deco.
Começamos a conversar.
Não havia nada de extraordinário naquela conversa. E talvez justamente por isso ela tenha me chamado tanto a atenção.
Ele não queria saber quem eu era.
Não estava interessado no que eu tinha feito da vida. Não conhecia minha história.
Para ele, eu era simplesmente um homem parado numa esquina, tentando lembrar de alguma coisa. E aquilo me fez bem.
Conversamos durante quase uma hora.
Quando nos despedimos, ele perguntou:
— Você vai ao Rock in Rio?
Olhei para ele, surpreso.
— Elton John?
— Exatamente.
Sorri.
— Acho que sim.
Ele hesitou por alguns segundos antes de perguntar:
— Também vou, podemos ir juntos?
Naquele instante, senti uma coisa que não experimentava havia muito tempo.
Não era exatamente paixão, era possibilidade.
E talvez fosse ainda mais perigoso.
Naquela noite, sozinho no nosso antigo apartamento da Rua Aristides Espínola, tirei novamente a fotografia do bolso.
Olhei para o rosto jovem que havia sido meu.
Depois pensei no Rafael, que tinha acabado de conhecer.
E, pela primeira vez em quarenta e um anos, perguntei-me se Louis realmente tinha sido o amor da minha vida, ou apenas o primeiro.
No dia do show, entrei na área VIP com Rafael, que conhecera poucos dias antes.
Ao nosso redor havia gente famosa, empresários, músicos e convidados.
Tudo aquilo me lembrou imediatamente 1985.
A diferença é que, naquela época, eu estava atrás do palco procurando Louis.
Agora eu estava ao lado de alguém que segurava discretamente minha mão.
As luzes se apagaram. O público começou a gritar.
E, quando Elton John apareceu no palco, senti um arrepio percorrer meu corpo.
Olhei para o Rafa ao meu lado.
Ele percebeu minha emoção.
— Está tudo bem?
Demorei alguns segundos para responder.
— Está. É só que… há quarenta e um anos eu estive aqui por causa de uma pessoa.
Ele apertou minha mão.
— E hoje?
Olhei para o palco, depois para ele.
— Hoje acho que estou aqui por causa de outra.
Elton continuava no palco.
As primeiras notas de uma música conhecida fizeram a multidão reagir imediatamente. Olhei para Rafael ao meu lado e percebi que ele me observava mais do que ao palco.
Até então, eu o conhecia havia poucos dias. Sabia que era bonito, que tinha um sorriso fácil e que parecia não se intimidar com os silêncios. Mas, naquela noite, comecei a perceber que havia muito mais nele.
Tinha quarenta e dois anos, trabalhava com produção cultural e possuía uma curiosidade quase infantil por tudo o que o cercava. Não era o tipo de pessoa que apenas assistia a um show. Queria saber como as luzes funcionavam, quem havia escolhido determinada música, por que um músico entrava no palco por um lado e não pelo outro. Prestava atenção aos detalhes.
Durante o show, havia comentado baixinho sobre a iluminação, sobre a maneira como Elton conduzia a banda e sobre como uma canção podia fazer milhares de pessoas respirarem no mesmo ritmo.
Eu gostava de ouvi-lo.
— Você está mesmo emocionado — disse ele.
— Estou.
— Por causa da música?
Pensei antes de responder. Senti a garganta apertar, como se uma resposta simples pudesse abrir uma porta que eu vinha mantendo fechada havia décadas.
— Por causa de tudo.
Rafael não perguntou mais nada. Apenas entrelaçou os dedos nos meus.
Era um gesto simples, talvez banal para quem olhasse de fora, mas aquela mão segurando a minha me comoveu profundamente. Rafael tinha esse jeito de fazer as coisas sem transformá-las em acontecimentos. Não fazia discursos, não tentava parecer corajoso. Apenas agia.
Em 1985, eu vivera tudo escondido: o desejo, o medo, a paixão, Louis. Naquela época, até telefonar para alguém exigia planejamento. Não havia mensagens instantâneas, fotografias digitais ou localização em tempo real. Quando alguém desaparecia da sua vida, podia simplesmente desaparecer.
Foi exatamente o que aconteceu comigo.
Agora, quarenta e um anos depois, eu estava diante de milhares de pessoas, segurando a mão de um homem que conhecera havia poucos dias, e ninguém parecia se importar. Talvez o mundo tivesse mudado. Ou talvez eu finalmente tivesse mudado com ele.
Rafael apertou meus dedos.
— Você está pensando em alguma coisa triste?
— Não exatamente.
— Em alguma coisa antiga?
Olhei para ele.
— Isso.
Ele sorriu de lado.
— Então me conta quando quiser.
Não havia cobrança em sua voz. Apenas uma disponibilidade tranquila, que me surpreendeu. Rafael não tentava arrancar de mim aquilo que eu ainda não conseguia oferecer. Sabia esperar.
Mesmo assim, suas palavras ficaram dentro de mim. Quando quiser.
A frase parecia simples, mas carregava uma espécie de ameaça involuntária. Porque eu sabia que, se continuasse ao lado dele, em algum momento teria de contar. E contar significava retirar Louis do lugar secreto onde eu o mantivera protegido durante quarenta e um anos. Significava permitir que outra pessoa tocasse naquela história, fizesse perguntas, talvez enxergasse nela coisas que eu mesmo ainda não conseguia encarar.
Depois do show de Elton, resolvemos circular pela área reservada. Rafael conhecia algumas pessoas e cumprimentava quase todos pelo nome. Parava para ouvir histórias, perguntava pelos filhos, lembrava-se de detalhes que eu jamais conseguiria guardar. Em poucos minutos, percebi que ele não era apenas sociável. Era atento.
Ele fazia as pessoas se sentirem importantes.
De repente, reconheci o universo que havia marcado minha juventude: músicos, produtores, fotógrafos, gente correndo de um lado para outro, credenciais penduradas no pescoço e aquela mistura de música, ansiedade e expectativa que me transportava imediatamente a 1985.
O passado não voltou como uma lembrança distante. Voltou como uma presença física.
Senti o estômago se contrair. O ar pareceu mais quente. Por alguns segundos, procurei Louis entre as pessoas. Quase ri de mim mesmo, mas o riso morreu antes de chegar à boca. Era absurdo que, quarenta e um anos depois, eu ainda procurasse aquele homem no meio de uma multidão. Mais absurdo ainda era a parte de mim que continuava esperando encontrá-lo.
— O que foi? — Rafael perguntou.
— Nada.
Minha voz saiu baixa demais.
— Você está procurando alguém?
Olhei para ele. Por um instante, pensei em dizer a verdade. Pensei em pronunciar o nome de Louis ali mesmo, entre as luzes, os seguranças e o ruído das pessoas. Mas o nome ficou preso atrás dos dentes. Parecia pesado, quase vivo.
— Talvez.
Rafael não insistiu. Apenas acompanhou meu olhar por alguns segundos, como se entendesse que aquela resposta escondia mais do que eu estava disposto a dizer.
Agradeci em silêncio. E, ao mesmo tempo, senti uma pontada de culpa. Eu estava ao lado de Rafael, segurando sua mão, permitindo que ele se aproximasse de mim, mas ainda havia outro homem ocupando um espaço que eu nunca conseguira esvaziar.
Antes que pudesse explicar, ouvimos uma movimentação mais à frente. Rafael apontou.
— Olha quem está ali.
Reconheci imediatamente: Gilberto Gil.
Fiquei parado por alguns segundos. Era impossível não pensar no que aquela figura representava para a música brasileira e, principalmente, para a minha memória daquele Rio. Aproximei-me com cuidado, sem querer parecer um daqueles fãs que invadem a intimidade de um artista.
Foi quando percebi que José Gil também estava entre as pessoas próximas. Ele acabou facilitando o encontro.
* — Oi, Dr. Andre, que bom que aproveitou o convite que te ofereci. Você conhece meu pai?
Sorri.
— Conhecer é uma palavra complicada. Digamos que eu conheça a música dele há muito tempo.
José riu.
— Isso já conta bastante. Venha aqui.
Segurou-me pelo meu braço e nos conduziu a presença de seu Pai, e nos apresentou.
* Pai, este é o Dr. Andre, que te falei lá de São Paulo.
Gil foi muito educado e simpático.
Começamos a conversar e, em determinado momento, mencionei que estivera no primeiro Rock in Rio.
José abriu os olhos.
— Você esteve lá?
— Estive.
— Como?
Olhei para Rafael e depois para Gil e José. O simples movimento fez meu peito apertar. Rafael estava ali, tão perto, e eu sabia que cada detalhe daquela noite parecia conduzir inevitavelmente à pergunta que eu ainda tentava evitar.
— É uma história longa.
Gil sorriu, — As melhores são.
Contei apenas uma parte: falei dos bastidores, da produção, de como conseguira uma credencial e de como aquele festival fora muito mais do que música para mim.
Enquanto falava, escolhi cada palavra com cuidado. Evitei datas específicas, lugares, nomes. Transformei minha própria vida em uma versão editada, limpa, quase impessoal. Era estranho perceber como eu ainda sabia esconder Louis com tanta facilidade.
Não contei sobre ele. Ainda não.
Era uma história que eu não conseguia dividir com qualquer pessoa. Talvez porque, ao pronunciá-la, eu tivesse de admitir que nunca deixara Louis completamente para trás. Talvez porque uma parte de mim ainda se sentisse traída por ele, enquanto outra parte continuava defendendo-o. Eu o odiava por ter ido embora. Sentia falta dele. Odiava sentir falta.
Rafael permaneceu ao meu lado, atento, mas sem interromper. De vez em quando, fazia uma observação curta ou lançava uma pergunta que demonstrava que estava realmente ouvindo. Não tentava ocupar o centro da conversa. Preferiria compreender.
Gil comentou sobre a apresentação e sobre como era curioso participar de um festival que, décadas antes, já fazia parte da história musical do país. Falamos também dos Gilsons, e foi impossível não me sentir transportado novamente para aquela época.
Em 1985, eu circulava pelos bastidores tentando entender aquele universo. Em 2026, conversava com uma nova geração de músicos que havia herdado parte daquela história. A coincidência me emocionou mais do que eu esperava.
— Engraçado — falei.
— O quê? — José perguntou.
— Em 1985, eu achava que estava vendo o futuro.
José sorriu.
— E agora?
Olhei ao redor, — Agora percebo que estava vendo o passado nascer.
Ele ficou alguns segundos em silêncio e depois apertou minha mão.
— Gostei dessa.
Rafael, que acompanhava a conversa, sorriu, — Ele tem umas frases dessas de vez em quando.
— De vez em quando? — respondi. — Estou tentando impressionar vocês.
Todos riram.
Rafael tinha uma risada bonita, aberta, que fazia com que as pessoas ao redor também sorrissem. Era uma das coisas que eu já havia notado nele: não ria para parecer simpático. Ria porque realmente achava graça.
Foi então que alguém chamou Gil e José. Eles se viraram, mas, antes de sair, Gil apontou para nós.
— Aproveitem a noite.
Rafael respondeu: — Vamos tentar.
Gil e José desapareceram no meio da movimentação. Fiquei olhando por alguns segundos, embora já não soubesse se observava a direção em que eles haviam ido ou se apenas precisava de tempo para reorganizar os pensamentos.
— Você gostou dele — disse Rafael.
— Gostei.
— Você está diferente.
— Diferente como?
Ele aproximou o rosto do meu.
— Mais leve.
Não respondi. Talvez estivesse certo.
Rafael tinha esse efeito sobre mim. Não apagava minhas lembranças, não fingia que o passado não existia. Apenas fazia com que eu não precisasse viver dentro dele o tempo todo.
Caminhamos alguns metros até que ele parou.
Meu corpo percebeu antes de mim. O estômago se fechou novamente. A mão que segurava a dele ficou úmida. Senti o pulso acelerar, uma batida irregular contra a pele. Rafael não havia feito nada além de parar, mas alguma coisa dentro de mim entendeu que aquele momento seria diferente.
— Quero te perguntar uma coisa.
A voz dele era calma. A minha respiração, não.
— Pergunte.
Rafael me encarou por alguns segundos. Talvez estivesse me dando a chance de recuar. Talvez já soubesse que eu recuaria se pudesse.
— Quem era Louis?
O nome atravessou o espaço entre nós.
Senti o corpo inteiro ficar imóvel. Não foi apenas uma surpresa. Foi como se alguém tivesse aberto uma janela para um quarto que eu mantivera trancado durante décadas. O som da multidão diminuiu, as luzes perderam o foco e, por um instante, só consegui ouvir o próprio coração.
Louis.
O nome que eu não pronunciava em voz alta. O nome que ainda existia em cartas guardadas, fotografias escondidas e lembranças que eu fingia não revisitar.
Minha boca ficou seca. Tentei respirar, mas o ar parou no meio do peito. A primeira reação foi negar. Dizer que não era ninguém. Inventar uma história qualquer. Eu poderia fazer isso. Havia passado a vida inteira aprendendo a fazer isso.
Mas Rafael continuava olhando para mim.
Não havia acusação em seu rosto. Nem ciúme. Apenas uma atenção cuidadosa que tornava a mentira ainda mais difícil.
— Meu primeiro amor.
As palavras saíram quase sem som.
Depois que as pronunciei, senti uma espécie de vertigem. Era apenas uma frase, mas parecia ter alterado a temperatura do mundo. Louis agora existia entre nós. Rafael sabia que ele existira. E eu não podia mais fingir que aquela parte da minha vida não tinha nome.
Rafael não demonstrou ciúme nem fez a expressão que eu temia. Apenas esperou.
O silêncio dele me deu espaço, mas também me obrigou a continuar.
— Foi aqui — falei, sentindo a garganta arder. — No Rio, em 1985.
— No Rock in Rio?
Assenti.
O movimento foi pequeno, mas me deixou tonto. Eu queria olhar para qualquer outro lugar. Para o palco, para as pessoas, para as luzes. Não consegui. Permaneci preso aos olhos de Rafael, como se desviar o olhar fosse uma forma de voltar a esconder tudo.
— Ele trabalhava na produção internacional. Eu tinha dezoito anos. Ele tinha trinta e seis.
Ao dizer a idade dele, senti uma antiga vergonha subir pelo corpo. Não porque eu acreditasse que o que vivemos tivesse sido errado, mas porque, durante muito tempo, temi que os outros reduzissem aquela história à diferença entre nós. Como se Louis fosse apenas um homem mais velho e eu apenas um garoto impressionável. Como se o amor pudesse ser invalidado pela maneira como começou.
As lembranças vieram de uma vez: o Baixo Leblon, a Pizzaria Guanabara, o Diagonal, o cheiro do mar, o apartamento, a correria dos bastidores, Freddie Mercury no palco e Louis.
O rosto dele apareceu com uma nitidez dolorosa. O sorriso torto. A voz baixa. A mão pousada na minha nuca. A promessa de que voltaria.
Meu peito se contraiu.
— E o que aconteceu? — Rafael perguntou.
Por um instante, senti raiva dele por perguntar. Não uma raiva justa, mas uma reação instintiva, quase infantil. Como se Rafael tivesse invadido um lugar que não lhe pertencia. Logo depois, a raiva se voltou contra mim, porque eu sabia que fora eu quem permitira que ele chegasse até ali.
— Ele foi embora.
— Para onde?
— Londres.
A palavra pareceu fria. Distante. Mas, dentro de mim, Londres ainda era uma porta se fechando, um aeroporto, uma despedida interrompida e a certeza absurda de que alguns meses não significavam abandono.
— E vocês terminaram?
Sorri tristemente. O sorriso doeu no rosto.
— Não houve exatamente um término.
Rafael franziu levemente a testa.
— Então, o que houve?
Olhei para ele. A resposta verdadeira era longa demais: houve promessas, medo, cartas, telefonemas que não aconteceram, esperas, desculpas inventadas e uma esperança que se recusava a morrer mesmo quando já não tinha motivo para existir.
— A vida.
Assim que falei, percebi como aquela resposta era insuficiente. Durante anos, eu a usara para encerrar conversas. A vida. Como se a vida fosse uma força neutra, inevitável, e não uma sucessão de escolhas feitas por pessoas que poderiam ter ficado.
Rafael ficou quieto.
O silêncio dele me fez querer preencher o espaço.
— Ele prometeu voltar — continuei. — Não voltou.
Minha voz falhou na última palavra. Baixei os olhos, envergonhado pela emoção. Senti os dedos de Rafael se moverem junto aos meus, mas não tive coragem de apertá-los.
— Você esperou?
A pergunta atingiu um lugar mais profundo do que eu esperava.
Pensei por alguns segundos. Na verdade, pensei por quarenta e um anos. Lembrei-me de todas as vezes em que olhei para uma porta, ouvi um telefone tocar ou reconheci um sotaque estrangeiro na rua. Lembrei-me de como eu dizia a mim mesmo que não estava esperando, apenas lembrando.
— Durante muito tempo.
Rafael respirou fundo.
— E depois?
Engoli em seco.
— Depois aprendi a viver sem esperar.
Mas a frase não soou verdadeira nem para mim. Eu aprendera a trabalhar, a amar outras pessoas, a construir uma vida. Aprendera a não perguntar por ele. Aprendera a não procurar seu nome. Mas viver sem esperar não era o mesmo que deixar de esperar. Talvez eu apenas tivesse escondido a espera tão bem que ela se tornara parte da minha personalidade.
Rafael se aproximou.
— Talvez seja por isso que você esteja aqui.
Senti os olhos arderem. Quis acreditar nele. Quis que aquela noite tivesse um sentido, que o passado tivesse me conduzido até ali para finalmente me libertar. Mas também tive medo. Medo de transformar Rafael em uma resposta para uma pergunta que ele nunca fizera. Medo de usar sua presença para provar a mim mesmo que eu havia sobrevivido.
— Talvez.
Ficamos em silêncio. O barulho da multidão continuava ao nosso redor, mas parecia distante. Meu corpo ainda estava tenso. Eu sentia o coração bater depressa, a respiração curta e uma pressão incômoda no peito.
Rafael segurou meu rosto com delicadeza.
O toque me assustou. Por um segundo, não vi Rafael. Vi, Louis. A mesma proximidade, a mesma mão, a mesma promessa silenciosa de que eu estava seguro. Afastei-me quase imperceptivelmente, e Rafael percebeu.
Ele não retirou a mão de imediato. Esperou até que eu voltasse a olhar para ele.
— Eu não sou Louis.
A frase me atingiu com uma precisão dolorosa.
— Eu sei.
— E não quero ser.
Fechei os olhos por um instante. Havia alívio naquela declaração, mas também uma tristeza inesperada. Porque uma parte de mim ainda queria que alguém fosse capaz de ocupar aquele lugar, embora eu soubesse que isso seria injusto. Louis não podia ser substituído. Rafael também não deveria ser.
Sorri, mas o sorriso saiu trêmulo.
— Ainda bem.
— Então não me compare com ele.
Passei a mão pelo rosto dele. Minha palma estava fria.
— Não estou comparando.
— Tem certeza?
A pergunta me obrigou a encarar o que eu vinha evitando desde que o conhecera. Eu comparava, sim. Não os rostos, nem as vozes, nem os gestos. Comparava a sensação de estar perto de alguém e o medo de perder novamente. Comparava o modo como Rafael esperava com o modo como Louis prometera. Comparava a presença de um com a ausência do outro.
Mas aquilo não significava que Rafael fosse Louis.
Olhei diretamente para seus olhos.
— Tenho.
Dessa vez, a verdade veio acompanhada de dor, mas veio. Rafael não era Louis. Eu não o queria porque ele me lembrava o passado. Eu o queria apesar do passado.
Pela primeira vez naquela noite, percebi que estava dizendo a verdade.
Rafael não era Louis e não precisava ser. Louis pertencia a 1985; Rafael pertencia a 2026. Talvez fosse justamente essa diferença que eu precisasse aprender a aceitar.
Rafael não tinha chegado à minha vida para substituir ninguém. Ele não carregava promessas antigas, não conhecia os meus medos de juventude e não fazia parte das feridas que eu havia passado décadas tentando esconder.
Ele era apenas Rafael.
Interessante, atento, paciente e vivo de um jeito que me fazia querer conhecê-lo melhor.
E isso, naquele momento, era suficiente.
Ainda assim, quando ele voltou a segurar minha mão, senti uma pontada de medo. Não o medo de que Rafael fosse embora naquela noite, mas o medo de que eu pudesse começar a esperar por ele. A espera era o que mais me assustava. Eu conhecia o seu peso, a sua lentidão, a maneira como ela transformava cada dia em uma pergunta.
Rafael apertou meus dedos.
— Está tudo bem?
Olhei para nossas mãos unidas.
— Ainda não sei.
Ele não tentou me tranquilizar com uma promessa. Não disse que ficaria, que seria diferente, que eu podia confiar. Apenas permaneceu ali.
E, pela primeira vez, isso pareceu mais seguro do que qualquer promessa.
Antes de irmos embora, olhei uma última vez para o palco. As luzes ainda iluminavam a Cidade do Rock.
Pensei em Freddie Mercury, em Louis e naquele rapaz de dezoito anos que um dia acreditara que aquele amor duraria para sempre.
Senti uma dor antiga se mover dentro de mim, mas ela já não parecia capaz de me destruir.
Sorri.
Ele não sabia que estava errado, mas também não sabia que, quarenta e um anos depois, ainda teria a oportunidade de descobrir algo novo.
Rafael segurou minha mão.
— Vamos?
Olhei para ele. Por um instante, a pergunta pareceu maior do que uma simples despedida. Era um convite para sair dali, mas também para avançar sem saber exatamente para onde.
Respirei fundo.
— Vamos.
Dessa vez, não olhei para trás.
Rafael me convidou para ir até seu apartamento para tomarmos um vinho, mesmo inseguro, aceitei. O apartamento ficava a poucos minutos do meu. Ao entrarmos, Rafael acendeu apenas algumas luminárias, e o espaço se encheu de uma luz morna, suave. Havia livros espalhados pelas estantes, fotografias de viagens e o perfume amadeirado de algum incenso já quase apagado. Ele abriu uma garrafa de vinho enquanto eu me aproximava da janela. Lá embaixo, a cidade brilhava em manchas de vermelho, branco e dourado; o rumor do trânsito subia abafado, como uma respiração contínua.
— Bonita vista.
— Gosto dela.
Rafael me entregou uma taça. Nossos dedos se tocaram, e um arrepio breve percorreu minha mão.
Sentamos no sofá. Primeiro falamos do show, de Elton, da música e do encontro com José Gil. A conversa avançava sem esforço, acompanhando o vinho, até que os assuntos se tornaram mais íntimos.
Rafael queria saber quem eu era além daquela noite. Dessa vez, não tentei me esconder tanto. Contei sobre a juventude, o apartamento na Aristides Espínola, a praia, os amigos e as noites compridas no Baixo Leblon, quando o amanhecer parecia sempre distante.
Por fim, falei de Louis.
Não entrei em todos os detalhes. Não era preciso. Bastaram o amor, a partida e a promessa que nunca fora cumprida.
Rafael me ouviu sem interromper. Quando terminei, o silêncio entre nós não pareceu vazio.
— Você ainda o ama?
A pergunta me atingiu de surpresa. Baixei os olhos para o vinho, cuja superfície tremia levemente na taça.
— Não sei. Acho que, durante muito tempo, amei mais a lembrança dele do que o homem que realmente foi.
Rafael permaneceu calado por alguns instantes. A luz da sala desenhava uma sombra suave em seu rosto.
— Talvez isso aconteça com alguns amores.
— Talvez.
Ele pousou a taça sobre a mesa e se aproximou. Não me beijou. Apenas ficou ali, perto o bastante para que eu sentisse o calor de seu corpo, esperando que a decisão fosse minha.
Era justamente aquela espera que eu começava a gostar nele.
Aproximei-me primeiro.
Nosso beijo começou devagar, quase cauteloso. Não havia a urgência desesperada que eu lembrava de 1985, nem a sensação de que precisávamos vencer o tempo antes que ele nos separasse. Era diferente: mais maduro, mais atento, construído no intervalo entre uma respiração e outra.
Coloquei a mão sobre seu peito. Sob a camisa, seu coração batia depressa.
Rafael sorriu contra meus lábios.
— Está nervoso?
— Muito.
— Eu também.
Ri, surpreso.
— Você?
— Acha que eu não tenho medo?
Voltei a beijá-lo, agora sem a mesma hesitação. Suas mãos envolveram minha cintura, e o calor de seu corpo se misturou ao meu. O vinho deixava um gosto frutado em sua boca; do lado de fora, uma buzina soou distante e desapareceu no trânsito.
Por alguns segundos, tudo o que existia era aquele instante.
Louis ficou longe. 1985 também. O tempo perdido, os anos acumulados, as perguntas sem resposta — tudo se dissolveu na proximidade de Rafael.
Ele se afastou ligeiramente.
— Tem certeza?
A pergunta era simples, mas carregava um cuidado que me comoveu. Eu poderia dizer não. Poderia ir embora, voltar para o meu apartamento e guardar aquela noite como mais uma lembrança. Talvez até como uma lembrança bonita.
Mas não queria partir.
— Tenho.
Rafael me beijou outra vez.
Fomos nos aproximando entre beijos, carícias e risadas nervosas, como dois homens que ainda aprendiam a reconhecer os limites um do outro. Havia delicadeza nos gestos, mas também uma confiança crescente, uma espécie de abandono tranquilo.
Estávamos inebriados, não só pela bebida, mas pelo contato do carinho e do sexo que estava acontecendo entre nós. Tiramos todas as nossas roupas, sem falar nenhuma palavra, o tesão nos controlava.
Colamos nossos corpos. Eu sentia o calor do corpo dele junto ao meu. Era uma sensação diferente de tudo que já tinha sentido há anos. Tinha coragem, tesão, sentimentos.
Roçávamos o pau um no outro, a barriga e os nossos lábios juntos, como se fosse nosso primeiro beijo na vida. Nossas ereções foram se despontando e eu sentia o cacete duro e quente dele no meu. A força dos seus braços era de um conforto uterino.
Caímos na poltrona e continuamos a nos beijar, sem palavras.
Segurávamos o pau um do outro. Começamos a nos masturbar e continuamos com os beijos intensos.
Ele pegou em minha mão e conduziu-me até seu quarto, colocou de quatro na cama e começou a lamber a entrada do meu cuzinho, que involuntariamente começou a piscar na ponta de sua língua a cada lambida.
Ele mordiscava toda a minha bunda , a cada mordida, eu soltava um gemido.
Voltou a penetrar sua língua no meu buraquinho e eu me retorcia todo. Por algum tempo, ficou alisando meu requinho com a ponta do dedo.
Lubrificou com a própria saliva minha entrada e, aos poucos, foi introduzindo seu dedo indicador.
Eu só rebolava e gemia.
Logo levantou e começou a pincelar sua pica em torno de meu rabo.
Não aguentando mais de tesão e querendo ser possuída por ele, coloquei minha mão para trás e conduzi sua rola para a minha entrada . Mostrando a urgência de ser penetrado.
Não falávamos, mas nos entendíamos por meio dos gestos e ações, como verdadeiros amantes.
Aproximou a cabeça do seu pau do meu cuzinho e forçou a entrada.
Sua rola era muito grossa e, no primeiro toque, retrai-me de dor , precisava de mais lubrificação, o que ele entendeu. Voltou a lamber meu cozinho e deixá-lo mais lubrificado, retornando em seguida a investir na penetração.
Agora sim, com mais cuidado, abriu bem minhas adegas e empurrou devagar; senti minhas pregas cederem. Ele foi devagarinho introduzindo sua rola.
Era uma sensação indescritível, sua rola era quente como um ferro em brasa. Ela me preenchia, me dando muito prazer.
Logo senti minha bunda encostar nos seus pelos pubianos fartos. Levantou meu corpo , em um abraço por trás, e beijou meu pescoço .
Em seguida, deitou-me sobre a cama e começou a bombar, penetrando toda sua rola.
Tudo era delicioso, ele sabia dar prazer. Mais uma vez mudou de posição.
Fui colocado de costas na cama, na posição de frango assado e voltou a me penetrar. Começou a sugar meus mamilos e a lamber todo meu corpo, sem para de bombar. O tesão era tanto que cravei minhas unhas nas suas costas e ele delirava de prazer.
Ele continuava socando. Eu gemia em um misto de dor e prazer, mas pedia para não parar.
Gozou em uma explosão de tesão dentro do meu rego. Neste momento, colei meus lábios nos dele, invadi sua boca com a minha língua.
Levados pelo momento, nos beijamos loucamente .
Acabei gozando abraçado a ele , melando nossos corpos.
Não pensei em Louis, no Rock in Rio de 1985 ou no rapaz de dezoito anos que eu havia sido. Não pensei no que aquela noite significaria, nem no que poderia acontecer depois.
Pensei apenas em Rafael.
Não houve promessas. Nenhuma declaração grandiosa, nenhum juramento feito sob o efeito do vinho ou da madrugada. E talvez fosse justamente essa ausência de garantias que tornasse tudo tão verdadeiro.
Depois, permanecemos deitados lado a lado, enquanto a cidade continuava desperta além das janelas. O ar-condicionado murmurava baixo. Em algum ponto da rua, uma motocicleta acelerou; depois, tudo voltou a se aquietar.
Rafael procurou minha mão debaixo do lençol e entrelaçou os dedos nos meus.
Fiquei olhando para o teto.
Durante quarenta e um anos, acreditara que aquela parte da minha vida havia terminado naquela despedida. Talvez não tivesse terminado. Talvez tivesse apenas esperado, em silêncio, até que eu estivesse pronto para reconhecê-la de novo.
Virei o rosto para Rafael.
Ele estava adormecendo, o rosto relaxado, a respiração lenta. A luz da cidade atravessava a cortina e pousava sobre sua pele em faixas pálidas.
Sorri.
Pela primeira vez em muitos anos, não senti saudade de 1985.
Senti curiosidade pelo dia seguinte.




