Lucas tinha dezenove anos e aprendera cedo que alguns sonhos custavam caro.
Morava com a mãe e a irmã mais nova numa casa pequena, espremida entre outras tantas numa rua inclinada da periferia de São Paulo. Pela manhã, o bairro acordava com ônibus lotados, portões metálicos subindo, vendedores abrindo suas pequenas lojas e o cheiro de café atravessando as cozinhas.
Lucas quase nunca tinha tempo de reparar em nada disso. Às seis e quinze já estava de pé. Tomava café rapidamente, conferia a mochila e saía.
Na mochila havia duas coisas que ele tratava como se fossem frágeis demais para serem colocadas junto das outras: seus cadernos da faculdade e uma pequena escova de dentes que carregava para poder escovar os dentes depois do almoço.
Odontologia.
Só de pensar na palavra, sentia uma mistura de orgulho e medo.
Conseguirá uma bolsa parcial depois de muito esforço. Ainda precisava pagar uma parte da mensalidade, além de transporte, alimentação e material. O salário do trabalho era dividido quase matematicamente.
Uma parte para a casa, outra para a faculdade. O restante precisava durar até o fim do mês. Não sobrava quase nada, mas sobrava um sonho.
Lucas gostava da faculdade. Gostava especialmente das aulas práticas. Havia alguma coisa fascinante em observar como um problema aparentemente pequeno podia alterar completamente a vida de uma pessoa. Gostava também da ideia de, um dia, olhar para alguém sentado numa cadeira de dentista e dizer:
— Pode ficar tranquilo. Eu vou cuidar disso.
Talvez fosse por isso que suportasse uma rotina que deixaria qualquer pessoa exausta. Trabalhava durante o dia e estudava à noite.
Até que o gerente começou a prestar atenção demais nele.
No começo, Lucas achou que era apenas simpatia.
O gerente começou a chamá-lo pelo nome com uma frequência que parecia desnecessária.
— Lucas, vem aqui um minuto.
Era quase sempre assim.
Uma pergunta que poderia ser feita na frente dos outros acabava sendo feita a portas fechadas.
— Você está estudando o quê mesmo?
— Odontologia.
— Bonito. Combina com você.
Lucas sorria sem graça e voltava ao trabalho. Depois vieram os comentários sobre sua aparência.
— Você devia usar uma camisa mais justa.
— Por quê?
— Porque tem um corpo bonito.
Lucas riu, sem saber como responder.
Preferiu fingir que não tinha ouvido.
Dias depois, recebeu a primeira mensagem fora do horário de trabalho.
“Você é sempre tão sério assim?”
Ele respondeu apenas:
“Estou em casa. Amanhã conversamos.”
A resposta veio imediatamente.
“Poderíamos conversar em outro lugar.”
Lucas não respondeu.
Na manhã seguinte, encontrou o gerente esperando por ele perto do vestiário.
— Ficou bravo comigo?
— Não.
— Então por que não respondeu?
— Porque não achei necessário.
O gerente sorriu.
— Você é difícil.
Lucas entrou para trabalhar.
A partir daquele momento, começou a tomar cuidado.
Passou a evitar ficar sozinho com ele. Quando precisava entrar numa sala, deixava a porta aberta. Quando o gerente se aproximava demais, Lucas dava um passo para trás.
Mas o gerente parecia interpretar cada recuo como um desafio.
Certa tarde, chamou Lucas para uma sala nos fundos.
— Fecha a porta.
— Prefiro deixar aberta.
— Qual é o problema?
— Nenhum.
— Então fecha.
Lucas permaneceu parado.
O gerente se aproximou.
— Você sabe que eu posso facilitar muito sua vida aqui, não sabe?
Lucas sentiu o estômago apertar.
— Eu só quero trabalhar.
— Eu sei.
A mão do homem tocou seu braço.
Lucas imediatamente se afastou.
— Não encosta em mim.
O gerente ficou alguns segundos em silêncio.
Depois sorriu.
— Calma. Você está exagerando.
Lucas saiu da sala.
Naquela noite, recebeu outra mensagem.
“Não precisava ser grosso comigo.”
Lucas apagou.
No dia seguinte, o gerente passou a encontrar defeitos em tudo.
Uma tarefa feita corretamente precisava ser refeita. Um atraso de dois minutos virou advertência verbal.
Uma folga previamente combinada passou a ser questionada.
E, quando Lucas reclamou, ouviu:
— Talvez você esteja esquecendo quem decide quem continua aqui.
Foi naquele momento que Lucas entendeu que não se tratava mais apenas de assédio.
Era uma ameaça.
Durante alguns dias tentou suportar.
Precisava daquele salário, para pagar a faculdade e ajudar a mãe.
Toda manhã dizia para si mesmo que conseguiria aguentar mais uma semana.
Até que, numa sexta-feira, o gerente o chamou novamente.
Dessa vez fechou a porta antes que Lucas pudesse impedir.
— Você está fugindo de mim.
— Estou trabalhando.
— Poderia estar ganhando muito mais.
Lucas permaneceu em silêncio.
— Você sabe o que eu quero.
— E eu já disse que não quero.
O gerente aproximou-se.
Lucas recuou.
— Então talvez seja melhor você procurar outro lugar.
Lucas olhou para ele.
Não respondeu. Saiu da sala.
Na segunda-feira, entregou o pedido de demissão.
Quando atravessou o portão da empresa pela última vez, sentiu uma espécie de liberdade.
Mas, alguns minutos depois, parado na calçada, percebeu o preço daquela liberdade. Ele não tinha mais emprego.
E não sabia como continuaria na faculdade.
Pela primeira vez desde que conseguira a bolsa, pensou seriamente em abandonar o curso.
E foi então que um amigo lhe apresentou uma alternativa.
— Você é bonito, cara. Tem homem que paga muito dinheiro.
O amigo havia falado da sauna como quem fala de um emprego qualquer.
— Você entra, conversa com os caras, escolhe o que aceita e ganha dinheiro. É simples.
Lucas não achava que fosse simples.
Mas também não conseguia enxergar outra saída.
Naquela noite, ficou alguns minutos parado diante da entrada, olhando o letreiro iluminado.
— Vai ficar aí fora?
Lucas respirou fundo.
— Não sei se consigo.
— Você não precisa decidir nada antes de entrar.
Era justamente isso que o preocupava.
Entrou.
O primeiro impacto foi o ambiente.
A luz era baixa, a música vinha abafada de algum lugar e havia um movimento constante de homens entrando e saindo dos corredores. Alguns conversavam tranquilamente, outros observavam quem chegava.
Lucas percebeu imediatamente que estava sendo observado. Tentou não demonstrar.
O amigo o conduziu até os armários.
— Fica tranquilo. Guarda suas coisas e pega uma toalha. Se alguém perguntar alguma coisa, você responde o que quiser. E, se não quiser, diz não.
Lucas assentiu.
Abriu o armário e começou a guardar a mochila. Quando chegou a hora de tirar a roupa, hesitou. O gesto, que parecia simples, tornou-se difícil sob os olhares ao redor.
Envolveu-se rapidamente na toalha, tentando cobrir o corpo o máximo possível. O tecido era pequeno demais para lhe dar a segurança de que precisava. Bastava um movimento mais brusco para que ele sentisse que tudo poderia ficar exposto.
Ao levantar os olhos, percebeu que quase todos circulavam pelo vestiário de maneira parecida: homens usando apenas toalhas, alguns enrolados com cuidado, outros com uma naturalidade que o deixava ainda mais deslocado. Ninguém parecia tão preocupado quanto ele em esconder o desconforto.
Lucas sentiu o rosto esquentar.
Não era apenas a nudez parcial. Era a sensação de que, naquele lugar, seu corpo havia deixado de ser uma questão privada. A toalha minúscula parecia marcar sua presença, lembrando-o a cada passo de que estava vulnerável e sendo avaliado.
— Está tudo bem? — perguntou o amigo.
— Estou tentando me acostumar.
— Você não precisa fazer nada que não queira.
Lucas assentiu, embora ainda se sentisse exposto.
Seguiu pelo corredor até a área dos chuveiros. O vapor, o som da água e a movimentação constante tornavam o ambiente ainda mais difícil de interpretar. Alguns homens tomavam banho sem se preocupar com a privacidade, enquanto outros conversavam em pequenos grupos, como se estivessem em qualquer lugar público.
Lucas desviou o olhar.
Não queria parecer curioso, mas também não sabia para onde olhar. A cada vez que passava por alguém completamente nu sob o chuveiro, sentia o corpo enrijecer e apertava a toalha contra si, como se pudesse desaparecer atrás dela.
Mais adiante, havia um bar. Alguns rapazes estavam sentados às mesas, conversando e bebendo. A atmosfera parecia casual, mas Lucas percebeu que certos gestos eram deliberados: pessoas que se posicionavam de modo a chamar atenção, olhares prolongados e sorrisos que pareciam convites.
Alguns garotos de programa estavam sentados nas cadeiras do bar, usando apenas toalhas ou deixando o corpo parcialmente descoberto de propósito. A exposição parecia calculada, uma forma de anunciar disponibilidade sem precisar dizer nada.
Lucas sentiu o rosto queimar.
Tentou olhar para o balcão, para os copos, para qualquer coisa que não fossem aqueles gestos. Ainda assim, tinha a impressão de que todos percebiam sua hesitação.
— É sempre assim? — perguntou em voz baixa.
— Alguns fazem isso para chamar atenção — respondeu o amigo. — Mas você não precisa responder a nenhum convite.
Lucas tentou se concentrar na respiração.
— E se alguém insistir?
— Sai de perto. Procura um funcionário ou vem falar comigo.
A resposta pareceu simples demais, mas ajudou.
Um homem de meia-idade aproximou-se.
Olhou para Lucas durante alguns segundos.
— Primeira vez?
Lucas hesitou.
— É.
— Dá para perceber. O homem sorriu.
— Quanto você cobra?
Lucas ficou desconcertado.
O amigo havia explicado os valores antes, mas, naquele momento, todos pareciam ter desaparecido da cabeça.
— Eu ainda estou vendo.
— Então vem comigo que a gente conversa.
Lucas percebeu que o homem já estava tentando conduzi-lo pelo braço.
Ele retirou o braço.
— Prefiro ficar aqui.
O homem o encarou por alguns segundos.
— Você está aqui para isso.
Lucas sentiu o rosto esquentar ainda mais. A toalha parecia menor do que antes, e ele teve vontade de voltar correndo ao vestiário e vestir a roupa.
— Eu sei para que estou aqui.
— Então não precisa fazer charme.
O homem saiu.
Lucas olhou para o amigo.
— É sempre assim?
— Alguns são.
— E você acha normal?
O amigo deu de ombros.
— Você aprende a lidar.
Lucas não respondeu.
Pouco depois, outro homem se aproximou.
Mais jovem, parecia mais tranquilo.
Conversou com Lucas durante alguns minutos e fez perguntas sobre idade, faculdade e onde morava.
Lucas respondeu apenas o necessário.
Então veio a proposta.
Lucas recusou.
O homem insistiu.
— Pago mais.
— Não.
— Muito mais.
— Eu disse não.
O sorriso do homem desapareceu.
— Você veio aqui para ganhar dinheiro.
Lucas sentiu um frio na barriga.
— E isso não significa que eu aceite qualquer coisa.
O homem ficou olhando para ele.
Depois se afastou.
Lucas respirou fundo. Aquela frase ficou na cabeça:
Não significa que eu aceite qualquer coisa.
Era simples.
Mas parecia precisar repeti-la para si mesmo.
Mais tarde, enquanto caminhava por um corredor, ouviu uma voz atrás dele.
— Você é novo, não é?
Virou-se.
Era outro homem.
— Sou.
— Bonito.
Lucas agradeceu, sem saber o que fazer com o comentário.
O homem se aproximou.
— Quer conhecer um lugar mais tranquilo?
— Não.
— Por quê?
— Porque não quero.
— Você nem sabe o que estou propondo.
— Mesmo assim.
O homem riu.
— Você vai perder dinheiro desse jeito.
Lucas não respondeu, continuou andando, mantendo uma das mãos presa à toalha.
Quando chegou a uma área mais movimentada, sentiu-se um pouco mais seguro, mas percebeu que não conseguia relaxar.
Cada aproximação o deixava em alerta.
Cada olhar parecia uma avaliação.
Cada conversa começava com uma pergunta sobre preço.
Não havia nada parecido com o que Lucas imaginara.
Não havia simplesmente pessoas negociando um serviço.
Havia poder, pressão e homens que confundiam pagamento com direito.
E havia ele, tentando descobrir até onde conseguiria ir sem deixar de reconhecer a si mesmo.
Foi no bar que conheceu Daniel.
Daniel parecia ter pouco mais de quarenta anos. Comportava -se de maneira discreta e não tinha a pressa dos outros homens.
Sentou-se ao lado de Lucas.
— Posso conversar com você?
Lucas assentiu.
— Primeira vez?
Lucas deu um pequeno sorriso.
— Sim.
Daniel percebeu a resposta.
— E não está sendo boa,
Lucas olhou para ele, surpreso.
— Como sabe?
— Porque você está olhando para a porta a cada trinta segundos.
Lucas riu pela primeira vez naquela noite.
— Estou mesmo.
Conversaram durante alguns minutos.
Daniel perguntou sobre a faculdade.
Lucas respondeu.
— Odontologia.
— Você gosta?
— Muito.
— Então por que está aqui?
Lucas hesitou.
Dessa vez não inventou uma história.
Contou apenas uma parte.
— Preciso de dinheiro para continuar estudando.
Daniel ficou em silêncio.
— Você quer realmente fazer isso?
Lucas olhou para o copo que segurava.
— Não sei.
— Essa é uma resposta importante.
Lucas levantou os olhos.
Daniel continuou:
— Se você não quiser, não precisa fazer nada comigo.
Lucas não esperava aquilo.
Estava acostumado a ouvir perguntas sobre preço, disponibilidade e limites como se limites fossem apenas obstáculos para uma negociação.
Daniel parecia estar perguntando outra coisa. O que Lucas queria.
— Eu preciso do dinheiro — respondeu.
— Eu perguntei o que você quer.
Lucas demorou.
— Quero ser dentista.
Daniel sorriu.
— Então talvez esse seja o problema.
Lucas franziu a testa.
— Qual?
— Você está tentando resolver um problema financeiro fazendo uma coisa que não sabe se consegue suportar.
Lucas ficou em silêncio.
Depois de algum tempo, Daniel perguntou:
— Quer sair daqui comigo?
Lucas ficou tenso.
— Para onde?
— Para algum lugar onde possamos conversar sem todo mundo olhando.
— Eu não quero…
— Tudo bem.
Daniel não insistiu. A simplicidade daquela resposta surpreendeu Lucas.
Depois de alguns segundos, Lucas perguntou:
— E se eu quiser?
Daniel levantou-se.
— Então você decide.
Foram para um espaço reservado.
Lucas entrou ainda nervoso.
Daniel percebeu.
— Você pode mudar de ideia a qualquer momento.
Lucas assentiu. O silêncio que se seguiu foi diferente de tudo que havia experimentado até então.
Não havia pressa. Não havia mãos tentando conduzi-lo, não havia alguém lembrando quanto estava pagando.
Havia apenas duas pessoas tentando entender até onde Lucas conseguia ir.
Por alguns minutos, Lucas conseguiu relaxar, riram e conversaram.
Houve proximidade.
Um beijo.
Lucas fechou os olhos por alguns segundos, mas a ansiedade voltou.
As contas, faculdade, mãe, o gerente e aquela sauna.
Tudo se misturou dentro dele.
Ele se afastou.
— Desculpa.
Daniel imediatamente recuou.
— Não precisa pedir desculpa.
Lucas passou a mão pelo rosto.
— Eu achei que conseguiria.
— Você conseguiu dizer que não queria continuar.
Lucas olhou para ele.
— Você não está bravo?
Daniel balançou a cabeça. — Não.
Sentou-se ao lado dele.
— Lucas, você não me deve nada.
A frase atingiu o rapaz com uma força inesperada.
Lucas ficou alguns segundos olhando para o chão.
— Eu preciso muito do dinheiro.
— Eu sei.
— E eu não sei o que vou fazer.
Daniel respirou fundo.
— Então vou te dar um conselho que talvez você não queira ouvir.
Lucas olhou para ele.
— Saia daqui.
— O quê?
— Saia daqui antes que você comece a acreditar que não existe outra maneira.
Lucas ficou quieto.
Daniel continuou:
— Você está tentando pagar uma faculdade para se tornar dentista. Você tem dezenove anos. Está aqui porque perdeu o emprego e ficou desesperado. Isso não significa que você tenha escolhido essa vida.
Lucas sentiu os olhos se encherem.
— E se eu não conseguir outra coisa?
— Vai conseguir alguma coisa.
— Como você sabe?
Daniel sorriu.
— Não sei.
A resposta surpreendeu Lucas.
— Então por que está dizendo?
— Porque você precisa ouvir alguém dizendo isso.
Lucas abaixou a cabeça.
Depois de alguns minutos, levantou-se.
— Obrigado.
Daniel estendeu a mão.
E colocou na sua mão uma nota de cem reais.
— Cuide-se.
Lucas quis recusar, Daniel insistiu.
Lucas apertou sua mão.
Antes de sair, perguntou:
— Você sempre ajuda assim as pessoas?
Daniel sorriu.
— Não. Só quando percebo que alguém está prestes a tomar uma decisão contra si mesmo.
Lucas saiu.
Dessa vez, não sentiu vergonha.
Sentiu tristeza.
Mas também uma estranha sensação de alívio.
Depois de poucos minutos, encontrou o amigo.
— Vou embora.
— Já?
— Já.
— Você não ganhou nada.
Lucas pegou a mochila. Não teve coragem de dizer sobre Daniel.
— Eu sei.
— Então por que veio?
Lucas ficou alguns segundos em silêncio.
— Porque achei que precisava escolher entre passar por isso e abandonar a faculdade.
O amigo não respondeu.
Lucas continuou:
— Agora eu acho que talvez exista uma terceira opção.
— Qual?
— Ainda não sei.
Saiu.
No vestiário, vestiu-se depressa, evitando os olhares e tentando recuperar a sensação de privacidade que perdera ao entrar. Guardou a toalha, fechou o armário e acompanhou o amigo até a saída.
Do lado de fora, a noite de São Paulo o recebeu com seus ruídos habituais. Ônibus passando, buzinas, gente caminhando pelas calçadas, o cheiro de comida vindo de algum restaurante próximo.
Lucas ficou parado alguns segundos na porta.
Respirou profundamente.
Sentiu vergonha.
Não apenas por ter entrado.
Nem por ter tentado.
Sentiu vergonha de ter ficado nu, ainda que coberto por uma toalha pequena demais, cercado por homens que pareciam não sentir qualquer constrangimento em expor o próprio corpo. Sentiu vergonha de ter apertado o tecido contra si enquanto outros circulavam com naturalidade, tomavam banho sem se esconder e usavam a própria nudez como convite.
Sentiu vergonha por ter acreditado que talvez aquela fosse a única maneira de continuar estudando.
Pegou o celular.
Abriu o aplicativo do banco.
O saldo continuava praticamente o mesmo.
A mensalidade continuava vencendo.
A mãe continuava esperando que ele encontrasse uma solução.
Nada estava resolvido.
Mas, enquanto caminhava pela avenida, Lucas percebeu que pelo menos uma coisa havia ficado clara.
Ele não venderia aquilo que não queria vender.
Nem por dinheiro.
Nem por desespero.
Naquela noite, pela primeira vez desde que perdera o emprego, começou a pensar que talvez ainda pudesse encontrar outro caminho.
No dia seguinte, comprou com os cem reais que Daniel lhe deu um isopor pequeno e algumas garrafas de água.
Começou a trabalhar nos semáforos.
Era humilhante algumas vezes e cansativo quase sempre, mas era honesto.
E, naquele momento, honestidade era uma das poucas coisas que ainda conseguia oferecer a si mesmo.
Numa tarde particularmente quente, Lucas estava parado entre dois carros quando ouviu alguém chamá-lo.
— Lucas?
Ele congelou.
Virou-se. Do outro lado da janela de um carro estava um homem que conhecia muito bem.
Professor Augusto. Seu antigo professor de clínica odontológica.
Por alguns segundos, nenhum dos dois falou.
Augusto desligou o rádio, encostou o carro e abriu a janela.
— O que você está fazendo aqui?
Lucas baixou os olhos.
— Trabalhando.
— E a faculdade?
Lucas respirou fundo.
— Eu saí.
Augusto ficou em silêncio. — Por quê?
Lucas tentou responder que era complicado. Não conseguiu.
Talvez porque estivesse cansado demais de esconder tudo.
Contou sobre o emprego, o gerente, a demissão e a falta de dinheiro.
Sem mencionar a sauna, contou da tentativa frustrada de encontrar outra saída.
A faculdade ficando cada vez mais distante.
Augusto ouviu sem interromper.
Quando Lucas terminou, esperou uma reação.
Ela não veio. O professor apenas perguntou:
— Você ainda quer ser dentista?
Lucas levantou os olhos.
— Mais do que qualquer coisa.
Augusto assentiu.
— Então talvez ainda não seja hora de desistir.
— Eu não tenho dinheiro para continuar.
— Eu não perguntei sobre dinheiro.
Lucas franziu a testa.
Augusto abriu a porta do passageiro.
— Entre.
— Para quê?
— Para conversarmos.
Naquele dia, Lucas conheceu a clínica de Augusto. Era pequena, elegante e silenciosa, escondida numa rua arborizada nos Jardins. Tinha paredes claras, madeira, plantas e grandes janelas por onde entrava uma luz suave.
Lucas olhou tudo com atenção.
— Preciso de alguém para me ajudar aqui — disse Augusto.
— Como assistente?
— Sim.
— Mas eu ainda não sou formado.
— Eu sei.
— Então por que eu?
Augusto sorriu discretamente.
— Porque eu já vi você trabalhar.
Foi assim que Lucas voltou a ter uma oportunidade.
Não foi fácil.
Ele continuou estudando, trabalhando e
ajudando a família.
Mas agora tinha uma porta aberta.
E, pouco a pouco, outra coisa começou a acontecer.
Augusto passou a enxergar Lucas além do aluno que conhecera na faculdade.
Lucas passou a descobrir o homem por trás do professor.
Havia noites em que fechavam a clínica juntos.
Conversavam sobre pacientes, livros, música, política, família.
Às vezes ficavam simplesmente em silêncio.
O silêncio entre eles nunca era desconfortável.
Um dia, depois de uma noite particularmente difícil, Lucas ficou parado junto à janela da clínica.
— Professor?
Augusto olhou para ele.
— Não me chama mais assim.
Lucas sorriu. — Então, como eu chamo?
Augusto demorou um pouco para responder.
— Augusto.
Foi a primeira vez. E alguma coisa mudou.
Não aconteceu de repente. Não houve declaração cinematográfica.
Foi acontecendo nos pequenos detalhes.
Um olhar que demorava um segundo a mais. Um café deixado sobre a mesa.
Uma conversa que continuava mesmo depois de o assunto acabar.
A preocupação quando um dos dois demorava a responder uma mensagem.
Até que, certa noite, depois de fechar a clínica, ficaram frente a frente na calçada.
A cidade passava ao redor deles.
Carros, ônibus, motocicletas e gente apressada.
São Paulo nunca parava.
Augusto olhou para Lucas.
— Você sabe que isso pode complicar as coisas.
Lucas sabia.
— Sei.
— Você ainda é muito jovem.
— Eu sei.
— E eu fui seu professor.
Lucas respirou fundo.
— Foi.
Augusto deu um passo para trás.
Lucas, porém, segurou sua mão.
— Mas hoje você não é meu professor.
Augusto olhou para a mão dele.
Depois, para seu rosto.
E sorriu.
O primeiro beijo aconteceu naquela calçada, sob o ruído interminável da cidade.
O beijo terminou devagar.
Lucas permaneceu perto de Augusto, ainda com os olhos fechados, como se precisasse de alguns segundos para entender o que acabara de acontecer.
Augusto não tentou beijá-lo novamente.
Apenas ficou ali. — Tudo bem? — perguntou.
Lucas abriu os olhos. — Tudo.
Augusto sorriu.
Depois de alguns segundos, voltaram para a clínica.
Augusto fechou a porta e deixou as chaves sobre a mesa da recepção. Por alguns instantes, ficaram apenas olhando um para o outro, como se nenhum dos dois soubesse exatamente o que fazer depois daquele primeiro beijo.
Lucas deu um pequeno sorriso.
— Então… foi mesmo um beijo.
Augusto riu. — Foi.
Lucas se aproximou novamente.
Dessa vez não houve hesitação. Beijaram-se outra vez, primeiro de maneira delicada, depois com a intimidade de quem já não precisava perguntar o que o outro queria. Entre um beijo e outro, caminhavam lentamente pela clínica, até pararem junto à porta do consultório.
Lucas olhou ao redor.
O lugar que, durante tantos meses, havia representado trabalho, estudo e uma oportunidade de recomeçar parecia diferente naquela noite. Era como se, de repente, também guardasse um segredo dos dois.
Augusto tocou seu rosto.
Lucas fechou os olhos e voltou a beijá-lo.
Ficaram assim por algum tempo, esquecidos do relógio e do movimento da cidade do lado de fora.
Entre um beijo e outro, conversaram.
Lucas contou coisas que nunca havia contado a ninguém naquele ambiente. Falou da faculdade, da mãe, da preocupação com dinheiro e do quanto tinha medo de fracassar.
Augusto, ouviu, sem pressa.
Quando a noite avançou, Lucas percebeu que não queria ir embora.
Ficaram juntos durante horas.
Houve carinho, abraços, beijos e uma intimidade que Lucas ainda estava aprendendo a compreender.
Em determinado momento, Augusto perguntou: — Tem certeza?
Lucas ficou alguns segundos em silêncio.
Depois respondeu: — Tenho.
Daniel ainda esperou.
— Se mudar de ideia, você me fala.
Lucas sorriu. — Eu sei.
Augusto o puxou novamente para perto de seu corpo forte e ele sentiu o calor viril daquele homem. Naquela hora ele apenas queria ser daquele homem, se entregar àquele sentimento que pulsava dentro dele e corria por todo o seu corpo juvenil. Olhou nos olhos de Augusto e sentiu o brilho do desejo. Não era o protetor, era um macho com desejo que o olhava.
Sentiu as mãos firmes percorrendo seu corpo e logo suas roupas foram sendo tiradas, peça por peça. Num instinto febril, aspirou o perfume que emanava da pele do homem que lhe apalpava com fome e pressa, desejo e ternura, e lambeu o tórax firme, deixando sua língua passear ao redor dos mamilos, arrancando um gemido rouco de Augusto.
— Assim, meu menino! Sente o sabor do seu homem. Eu queria muito isso. Eu estou louco para te sentir por inteiro.
Augusto disse isso e foi conduzindo sua boca para baixo, em direção ao seu pênis grande e duro como uma estaca pronta para pegar fogo.
Ele lambeu a cabeça do pau de seu companheiro, ouvindo os gemidos de prazer que ele soltava baixinho, como se só os dois merecessem ouvir aquele som. Mesmo sem muita experiência, em segundos estava engolindo todo o membro de Augusto, como se já tivesse feito isso antes. O desejo com afeto pode definir os caminhos e as ações, era isso que sentia.
Augusto segurou em sua cabeça e começou um movimento de entra e sai, fodendo sua boca como se fosse uma boceta úmida e ávida por aquilo. Ele sentia um prazer imenso, sentia seu pau pingando o pregozo, tamanha era sua excitação. Depois de algum tempo mamando aquele cacete potente, ele sentiu as mãos de Augusto o puxando pra cima.
— Vem cá! Me deixa sentir o teu sabor também. – Augusto disse isso o apoiando em pé na maca, se ajoelhou e tomou seu membro em sua boca, retribuindo o mesmo gesto, arrancando-lhe gemidos altos. Lucas sentia seu pau sumir por inteiro na boca de Augusto e se contorcia de prazer.
— Continua Augusto! Isso tá bom demais! – Gemeu.
— Vou continuar meu menino, vou te fazer viajar no espaço de tanto tesão. - Augusto disse isso e o virou de costas, deixando-o curvado sobre a maca, abriu suas nádegas e afundou a cara entre elas, tocando seu cuzinho com a ponta da língua. Ele sentiu como se uma corrente elétrica passasse pelo seu corpo. Sua pele toda se arrepiou e seu corpo estremeceu.
A língua de Augusto trabalhava em seu orifício com uma maestria que o fazia delirar. Sentia a ponta da língua quase lhe penetrar e, naqueleinstante, se abriu para receber seu macho.
Augusto se levantou, abriu uma gaveta ao lado da mesa, e Lucas sentiuo toque gelado do gel lubrificante em sua pele. Seu cuzinho piscou ao sentir o dedo de Augusto sendo introduzido, lubrificando-o por dentro. Em seguida sentiu a cabeça quente do pau de Augusto roçando sua entradinha, forçando passagem. Abriu as pernas, se empinou inteiro e apenas pediu:
— Vai com calma. É minha primeira vez. – Augusto o abraçou com carinho e firmeza.
— Relaxa e se entrega para seu homem. Eu não vou te machucar. Ele relaxou, sabia que não tinha volta e nem queria. Sentiu uma dor forte quando a cabeça do pau escorregou para dentro de seu cuzinho virgem, mordeu o antebraço e aguentou firme a penetração. Em alguns minutos estava sentindo um prazer que se misturava com a dor, sempre que seu macho se movimentava, entrando e saindo firme de dentro dele.
— Ah Augusto! Tá gostoso! Não para! Eu nunca pensei em sentir um prazer assim. – Sussurrou enquanto sentia as estocadas firmes de seu homem. Naquele momento sabia que tinha feito a coisa certa. Depois de meter muito naquela posição, Augusto jogou o colchão da maca no chão e o colocou de frango assado, posição em que os dois ficariam cara a cara.
— Quero te beijar e olhar em seus olhos, enquanto te possuo. – Augusto falou, já totalmente alojado dentro dele novamente. Com as pernas apoiadas nos ombros de Augusto, ele foi fodido com força, vigor, mas também com carinho e desejo. Augusto beijou sua boca intensamente, enquanto metia o pau fundo em seu cuzinho e ele não resistiu. O seu gozo jorrou forte, molhando seu peito e quase atingindo o rosto de seu macho fodedor.
— Eu estou gozando, meu amor! Continua, eu estou gozando. – Era quase um desespero o prazer que sentia. Pela primeira vez chamava alguém de meu amor. Saiu espontâneo.
— Também vou gozar, meu menino! Eu vou gozar. – O pau de Augusto pulsava dentro dele, enquanto seu leite quente invadia suas entranhas. Em seguida ele caiu em cima dele, beijando-o com muito desejo, quase lhe tirando o ar.
Para Lucas, foi diferente de tudo que havia imaginado. Não havia pressa.
Não havia negociação, não havia a sensação de que seu corpo pertencia a outra pessoa porque alguém havia colocado dinheiro sobre a mesa.
Havia só confiança.
Quando tudo se acalmou, Lucas permaneceu deitado ao lado de Augusto, olhando para o teto.
Durante alguns minutos, nenhum dos dois falou.
Augusto perguntou: — Arrependido?
Lucas virou o rosto: — Não.
Pensou um pouco.
— Acho que, pela primeira vez desde que perdi meu emprego, eu consegui esquecer das contas por algumas horas.
Augusto sorriu.
— Isso é bom.
Lucas ficou olhando para ele.
— Sabe o que é estranho?
— O quê?
— Eu vim aqui para ganhar dinheiro.
Augusto não respondeu.
Lucas sorriu.
— E acabei encontrando alguém.
Augusto segurou sua mão.
— Talvez você tenha encontrado mais do que isso.
Lucas entrelaçou os dedos nos dele.
Naquela noite, quando saiu dali, alguma coisa havia mudado.
Não porque Augusto tivesse resolvido seus problemas. A faculdade continuava ameaçada. O dinheiro continuava faltando.
A família continuava dependendo dele.
Mas Lucas já não se sentia completamente sozinho. E, sem perceber, começava a descobrir que talvez o amor pudesse nascer justamente quando a vida parecia ter fechado todas as portas.
Agradecimento
Este conto é de minha autoria, mas não foi construído sozinho.?Quero deixar aqui meu agradecimento especial ao Tito, que colaborou na construção de algumas cenas e na revisão do texto. Sua participação ajudou a aprimorar momentos importantes da história e contribuiu para que o conto chegasse à forma que apresento agora.




