[REBOT] ENTRE CAMINHOS E SEGREDOS ~ 06 O TAMANHO DO MUNDO



Na segunda-feira, descobri que uma festa podia terminar para a cidade e continuar viva dentro de uma fábrica, bastou atravessar o portão para perceber os olhares. Alguns funcionários comentavam os shows. Outros discutiam quem havia bebido mais, brigado ou desaparecido acompanhado. Damião me viu entrando e abriu um sorriso.

— Olha quem sobreviveu.
— Por pouco.
— Ouvi dizer que o mineiro aproveitou bem a festa.
— Caicó inteira trabalha aqui?
— Não. Mas quem não trabalha conhece alguém que trabalha.

Passei por ele sem responder, Larissa me esperava perto dos vestiários. Estava com os braços cruzados e uma expressão que misturava curiosidade e diversão.

— Letícia chegou em casa quase de manhã.
— Que bom que chegou bem.
— Chegou sorrindo.
— Melhor ainda.
— Disse que gostou muito dos seus amigos.
— Amigos?
Larissa olhou para Caio, que se aproximava pelo corredor.
— No plural.
Caio ouviu e parou ao nosso lado.
— Sua prima fala demais.
— E vocês fizeram demais.
— Está com ciúme? — ele perguntou.
— De vocês? Tenho amor à minha saúde.

Larissa se afastou rindo, Caio acompanhou-a com os olhos. Quando ficamos sozinhos, olhou para a marca em meu pescoço.

— Minha mãe viu? — perguntou.
— Viu.
— E você sobreviveu?
— Por pouco, parte dois.
O sorriso dele durou apenas alguns segundos.
— Fez alguma coisa ontem?
Eu sabia exatamente o que Caio queria perguntar.
— Trabalhei muito no sábado. Precisava descansar.
— Não foi isso que perguntei.
— Então pergunte direito.
Ele olhou ao redor. Alguns funcionários passavam perto demais.
— Depois a gente conversa.

Entramos no vestiário, ao trocar de camisa, percebi que Caio me observava pelo espelho. Não era o olhar atrevido dos outros dias. Havia insegurança nele.

— Está doendo? — perguntou.
— O quê?
— Ontem.
— Estou bem.
— Tem certeza?
Virei-me.
— Você já perguntou isso três vezes.
— Posso perguntar de novo.
— Não precisa.
Caio se aproximou e tocou discretamente minha cintura.
— Não me arrependi.
— Nem eu.
Ele pareceu relaxar.
— Então está tudo certo.
— Quase.
— O que falta?
Olhei para os outros funcionários.
— Privacidade.

Durante a manhã, trabalhamos como se nada tivesse mudado. Caio brincava com os colegas, Larissa reclamava do cansaço e Damião dramatizava a ressaca. Para qualquer pessoa observando de fora, éramos os mesmos. Mas toda vez que Caio passava por mim, encontrava uma maneira de tocar meu braço ou minhas costas. E, sempre que estávamos longe dos outros, seu olhar lembrava o que havia acontecido. Perto do horário do almoço, ele me chamou para ajudá-lo no depósito. Assim que entramos, fechou a porta.

— Fale.
— Bernardo me procurou ontem.
O rosto dele se fechou.
— Eu sabia.
— Como?
— Ele sempre faz isso.
— Isso o quê?
— Quer alguma coisa só porque acha que é minha.
— Eu não sou seu.
Caio recuou como se tivesse recebido um golpe.
— Eu sei.
— Ele me levou para um mirante.
— Vocês transaram?
— Não.
Caio soltou o ar.
— Mas nos beijamos.
O alívio desapareceu.
— Mais de uma vez?
— Isso importa?
— Para mim, importa.
— Por quê? O que aconteceu entre nós não virou um namoro durante a madrugada.
— Eu não disse que virou.
— Então não pode me cobrar como se tivesse virado.
Caio passou as mãos pelo rosto.
— Eu avisei para você ficar longe dele.
— E eu pedi um motivo. Você preferiu mentir.
— Não menti.
— Disse que vocês eram amigos.
— Eu não estava pronto para contar.
— Não estava pronto ou tinha vergonha?
Ele desviou os olhos, a pergunta o havia atingido.
— É mais fácil para Bernardo — disse. — Ele mora na capital, tem dinheiro e pode voltar para lá sempre que as coisas ficam difíceis. Eu continuo aqui.
— Isso não transforma o que vocês viveram em amizade.
— Você acha que não sei?
— Então pare de agir como se soubesse o que é melhor para todo mundo.
Caio permaneceu em silêncio.
— Você gosta dele? — perguntou depois.
— Conheço Bernardo há poucos dias.
— Isso não foi resposta.
— Foi a única que tenho.
— E nós?
A pergunta saiu baixa.
— O que você quer que a gente seja?
Ele aproximou-se.
— Não quero perder meu amigo.
— Você não vai.
— E quero continuar fazendo o que fizemos.
— Então continuamos.
— Sem compromisso?
— Sem mentiras.
Caio sustentou meu olhar.
— Mesmo quando a verdade incomodar?
— Principalmente.
— Certo.
Ele segurou minha nuca e me beijou, foi rápido, mas intenso o suficiente para fazer meu corpo lembrar da noite anterior. Quando tentou aprofundar, afastei-o.
— Estamos no trabalho.
— Você que falou que faltava privacidade.
— Isso aqui é um depósito.
— Está privado.
— Caio.
Ele sorriu.
— Está bem. Depois.
Abriu a porta e antes de sair, virou-se.
— Só uma coisa.
— O quê?
— Se você transar com Bernardo, não quero descobrir por outra pessoa.
— Não vai.
— Promete?
— Prometo contar a verdade.
Caio assentiu, talvez aquele tenha sido o começo da nossa amizade de verdade. Não quando começamos a trabalhar juntos, nem quando bebemos ou transamos, mas quando aceitamos que continuaríamos próximos mesmo sabendo que algumas verdades poderiam nos machucar.
Alyson apareceu na área de produção pouco depois do almoço, cumprimentou os funcionários, conversou com o encarregado e verificou algumas caixas. Quando passou por mim, seus olhos pararam na marca do meu pescoço.Não disse nada, apenas continuou andando. Minutos depois, uma funcionária avisou que ele queria falar comigo. Encontrei-o sozinho no escritório.

— Mandou me chamar?
— Feche a porta.
Obedeci.
Alyson permanecia em pé perto da janela. Sem a mesa entre nós, sua presença parecia maior.
— Como foi a festa?
— Boa.
— Imagino.
Seu olhar voltou ao meu pescoço, levei a mão até a marca sem perceber.
— Está tão feio assim?
— Não disse que estava feio.
Alyson aproximou-se. O corpo inteiro ficou atento. Ele tocou o colarinho da minha camisa e o afastou cuidadosamente. O polegar passou sobre a marca deixada por Caio. O contato foi leve e ainda assim, precisei controlar a respiração.

— Parece recente — comentou.
— É.
— Quem fez?
— Alguém.
— Isso eu imaginei.
Seus dedos continuaram sobre minha pele.
— Se eu perguntasse direito, você contaria?
— Depende de como o senhor perguntasse.
Os olhos de Alyson encontraram os meus.
— Eu já disse para esquecer o “senhor” fora da formalidade.
— Estamos no seu escritório.
— Com a porta fechada.
A frase permaneceu entre nós, Alyson retirou lentamente a mão. O polegar percorreu meu maxilar antes de se afastar por completo. Durante alguns segundos, tive certeza de que ele faria alguma coisa, mas infelizmente ele não fez. Voltou para trás da mesa e abriu uma pasta.

— Preciso que acompanhe uma entrega em Natal esta semana.
Demorei a entender a mudança de assunto.

— Eu?
— O funcionário que costuma organizar a rota está afastado. Caio não pode ir porque preciso dele aqui.
— Quantos dias?
— Dois, talvez três. Depende das entregas.
— Posso ir.
— Nem quer saber o que precisa fazer?
— Quero. Mas a resposta continua sendo sim.
Alyson sorriu.
— Gosto da sua disposição.
Seus olhos desceram novamente pelo meu corpo.
— Apresente-se aqui na quinta-feira às cinco e meia. Seu Geraldo vai dirigir o caminhão.
— Certo.
— E Rafael…
Parei perto da porta.
— Aproveite para conhecer a capital. Talvez você goste.
— Pretendo morar lá um dia.
— Pretende?
— Quero estudar Medicina.
Alyson pareceu surpreso.
— Isso é um plano ou um sonho?
Reconheci a pergunta.
— Um plano que ainda parece sonho.
— Então faça parecer menos.
Saí do escritório com o coração acelerado, no corredor, encontrei Caio encostado na parede.
— Você tem o costume de esperar na porta?
— Coincidência.
— De novo?
— O que ele queria?
— Mandar que eu viaje para Natal.
Caio franziu a testa.
— Quando?
— Quinta-feira.
— Quantos dias?
— Três.
— Sozinho?
— Com seu Geraldo.
Ele pareceu aliviado, mas tentou esconder.
— Bernardo está em Natal.
— Eu sei.
— Claro que sabe.
— Foi Alyson quem me mandou. Não pedi a viagem.
Caio olhou para a porta do escritório.
— Você está colecionando os Carneiro?
Ri.
— Não diga besteira.
Naquela época, a frase pareceu apenas mais uma provocação. Eu ainda não sabia o quanto ela estava próxima da verdade.
Nos dias que se seguiram, a Festa de Sant’Ana começou a desaparecer das ruas. As barracas foram desmontadas, os visitantes voltaram para suas cidades e Caicó recuperou o ritmo habitual. Dentro de mim, porém, nada parecia disposto a voltar ao normal. Caio cumpriu nosso acordo. Continuou sendo meu amigo, companheiro de trabalho e, sempre que encontrávamos privacidade, alguma coisa a mais. Não colocávamos nome na relação. Talvez porque dar um nome também significasse impor limites, e nenhum dos dois queria descobrir quais seriam. Bernardo voltou para Natal, passamos a trocar mensagens todas as noites. Ele perguntava sobre meu trabalho, meus estudos e minha vida em Minas. As vezes, falávamos até tarde. Em outras, apenas trocávamos provocações. Letícia mandou uma mensagem agradecendo pela noite e prometendo repetir quando voltasse a Caicó. Depois, seguiu sua vida. Para mim, tudo o que havia acontecido durante a festa parecia pertencer a uma realidade distante. Até minha mãe começar a fazer perguntas sobre a viagem.

— Por que escolheram você? — perguntou quando contei.
— Porque faço meu trabalho direito.
— Você chegou agora.
— Alyson confia em mim.
O nome provocou nela a reação de sempre.
— Ele vai junto?
— Não. Vou com o motorista.
Minha mãe mexeu a panela com mais força.
— Não gosto de você com contato com esse Alysson
— Por quê?
— Porque não gosto horas.

Tia Sônia, sentada à mesa, baixou os olhos, observei as duas, a reação na rodoviária. A proibição de trabalhar na fábrica. O medo de que Alyson me reconhecesse. Os segredos. O nome Carneiro aparecendo sempre que minha mãe tentava me afastar de alguma coisa. Uma possibilidade começou a se formar dentro de mim. Era absurda. Quanto mais pensei, menos absurda pareceu.

— Alyson é meu pai?
A colher caiu dentro da panela, minha mãe virou-se lentamente.
— O quê?
— É isso que a senhora está escondendo?
— De onde tirou essa ideia?
— Da senhora.
— Rafael…
— Sônia disse que Alyson poderia me reconhecer. A senhora entrou em pânico quando comecei a trabalhar na fábrica. Agora não quer que eu me aproxime do Alysson..
Olhei para minha tia.
— Alyson é meu pai?
Sônia abriu a boca, mas minha mãe respondeu:
— Não.
Foi a primeira resposta direta que recebi sobre meu passado. Ainda assim, não senti alívio completo.

— Então por que tanto medo?
— Porque conheço essa família.
— Conheceu como?
— Cresci na mesma cidade.
— Não é suficiente.
Minha mãe tentou voltar para o fogão e então segurei seu braço.

— Então quem é meu pai?
O silêncio retornou.

— Não posso.
— Não quer.
— Você não entende.
— Porque ninguém me explica!

Minha voz atravessou a casa. Minha mãe deu um passo para trás. Seus olhos estavam cheios de lágrimas.

— Existem verdades que não devolvem a vida que você tinha antes.
— Eu já não tenho a mesma vida. Desde que chegamos, todo mundo sabe alguma coisa sobre mim, menos eu.
Sônia aproximou-se.

— Ele tem direito de saber.
— Não se meta — minha mãe respondeu.
— Até quando vai fazer isso?
— Eu disse para não se meter!

A discussão terminou quando minha mãe saiu da cozinha e fechou a porta do quarto. Permaneci parado.Sônia recolheu a colher que havia caído.

— Você sabe quem ele é — falei.
Minha tia continuou de costas.
— Sei que sua mãe sofreu muito.
— Não foi o que perguntei.
— Algumas respostas precisam vir dela.
— Todo mundo diz isso porque é mais fácil do que falar a verdade.

Talvez você pense que minha primeira reação diante daquela possibilidade tenha sido curiosidade. Não foi, foi medo, se Alyson fosse meu pai, o que aquilo dizia sobre o desejo que eu sentia por ele? Sobre a maneira como meu corpo reagia aos seus olhares, aos seus toques e àquela voz baixa que parecia sempre esconder um convite? Eu tinha desejado meu próprio pai? A simples ideia me causava vergonha. Não porque eu tivesse feito alguma coisa sabendo da verdade, mas porque o corpo não entende aquilo que a cabeça desconhece. Meu corpo reagia a Alyson antes que eu soubesse qualquer coisa sobre ele. E havia Bernardo, se Alyson fosse meu pai, Bernardo seria meu irmão. Eu havia beijado meu próprio irmão mais de uma vez. Tinha tocado seu corpo, desejado avançar e passado horas imaginando como seria quando finalmente ficássemos sozinhos sem interromper o que havia começado.
Quem já precisou esconder os próprios desejos sabe que certos medos não podem ser divididos com qualquer pessoa. Eu não podia simplesmente chegar diante da minha mãe e dizer que precisava saber a verdade porque estava dividido entre o desejo pelo possível pai e o começo de uma paixão pelo possível irmão. Ela nem sequer sabia que eu me relacionava com homens. A pergunta queimava dentro de mim, mas eu teria de fazê-la escondendo justamente a parte que a tornava tão urgente. Eu precisava saber se Alyson era meu pai. Não apenas para descobrir de onde eu vinha, mas para compreender se os caminhos que eu começava a percorrer estavam me levando a alguma coisa proibida. Naquele momento, percebi a crueldade dos segredos: mesmo quando desconhecemos a verdade, ainda podemos sofrer as consequências dela. Depois de algum tempo em silêncio, olhei novamente para a paisagem pela janela.

Fui para o quarto. A mala aberta sobre a cama parecia pequena para todas as perguntas que eu queria levar comigo. Na quinta-feira, cheguei à fábrica antes do amanhecer. Seu Geraldo já verificava o caminhão. Era um homem de pouco mais de cinquenta anos, barriga saliente e bigode grisalho. Tinha a tranquilidade de quem havia percorrido aquela estrada centenas de vezes.

— Bom dia, doutor — cumprimentou.
— Por que doutor?
— Seu Alyson disse que você quer fazer Medicina.
Aquilo me surpreendeu.
— Ele comentou?
— Comentou.
Antes que eu perguntasse mais, Alyson apareceu. Vestia uma camisa clara, calça jeans e carregava uma pasta com os documentos da entrega.

— Tudo pronto? — perguntou.
— Quase — seu Geraldo respondeu.

Peguei minha mala para colocá-la atrás dos bancos. Alyson segurou a alça ao mesmo tempo. Nossas mãos se encontraram. Ele não soltou imediatamente.

— Eu levo — falei.
— Não duvido que consiga.

Alyson ergueu a mala e a colocou no caminhão. Ao passar por mim, segurou minha cintura para abrir espaço. O gesto durou pouco. O efeito permaneceu.

— Traga tudo o que estou enviando assinado — orientou.
— Pode deixar.
— E volte inteiro.
— Está preocupado comigo?
Alyson sustentou meu olhar.

— Com meu funcionário.
— Claro.
Seu polegar pressionou discretamente minha cintura antes de se afastar.
— Boa viagem, Rafael.
Subi no caminhão, enquanto deixávamos a fábrica, olhei pelo retrovisor. Alyson continuava parado no mesmo lugar. Observando.
A paisagem começou a mudar enquanto avançávamos pela estrada. Seu Geraldo gostava de conversar. Contou histórias de entregas, caminhões quebrados e noites passadas em postos. Perguntou sobre Minas, a fazenda e minha mudança para Caicó.

— E você quer mesmo ser médico?
— Quero.
— Então por que está carregando queijo?
— Porque a universidade ainda não aceita pagamento em sonho.
Ele riu.
— Resposta boa.
Algum tempo depois, perguntou se eu já conhecia Natal.
— Seu Geraldo, quando a gente estiver chegando a Natal, dá para ver o mar da estrada?
Ele me olhou rapidamente.
— Depende do caminho. Por quê?
— Sempre tive curiosidade.
— Curiosidade de ver o mar?
— Vontade mesmo. Nunca tive oportunidade.
Seu Geraldo diminuiu um pouco o volume do rádio.
— Você nunca viu?
— Nunca. Só pela televisão e pela internet.
— Nem quando era criança?
— Nasci em Belo Horizonte e depois fui criado na fazenda. A gente nunca tinha dinheiro nem motivo para viajar. Praia sempre pareceu uma coisa muito distante da minha vida.
Ele continuou dirigindo, mas percebi que prestava atenção.
— Às vezes, eu coloco uns vídeos no YouTube só para ver as ondas — confessei. — Tem uns que ficam horas mostrando o mar. Quando não consigo dormir, deixo o som tocando e tento imaginar como deve ser estar lá.
— E o que você imagina?
— Que é enorme. Que deve dar um pouco de medo quando a gente vê pela primeira vez. Também tenho curiosidade para saber qual é o cheiro. Todo mundo fala no cheiro do mar, mas ninguém consegue explicar direito.
Seu Geraldo sorriu.
— Porque não dá para explicar. Tem que sentir.
— A água é tão salgada quanto falam?
— Se engolir um gole, nunca mais faz essa pergunta.
Ri.
— O senhor acha bobo?
— Bobo é quem mora perto do mar e deixa de reparar que ele existe.
Voltei a olhar pela janela.
— Será que a gente consegue passar numa praia?
— Se terminarmos as entregas cedo, eu levo você.
— Mesmo?
— Nem que seja por alguns minutos.
— Então vou organizar essas entregas mais rápido do que o senhor já viu.
Seu Geraldo riu e aumentou novamente o volume do rádio.
— Calma, doutor. O mar esperou vinte anos por você. Aguenta mais algumas horas.
A promessa me deixou ansioso durante o restante da viagem, quando começamos a entrar na capital, grudei os olhos na janela. Natal parecia enorme. Avenidas largas, prédios, ônibus, lojas e pessoas caminhando em todas as direções. Tudo se movia depressa. Pela primeira vez, Caicó pareceu realmente pequena. Perguntei onde ficavam as universidades. Seu Geraldo apontou algumas direções, explicou bairros e falou sobre hospitais conhecidos. Eu tentava guardar tudo, embora soubesse que esqueceria metade. Imaginei-me vivendo ali. Acordando para estudar, pegando ônibus. Entrando numa universidade com livros debaixo do braço. Usando um jaleco branco. O sonho de Medicina ainda parecia distante, mas, naquela cidade, deixou de parecer impossível.
Passamos o dia cumprindo entregas. Em cada parada, conferi documentos, organizei caixas e recolhi assinaturas. No início da noite, ainda faltava resolver um problema num dos estabelecimentos. Quando finalmente terminamos, já estava escuro.
— E a praia? — perguntei.
Seu Geraldo olhou o relógio.
— Hoje não vai dar.
Tentei esconder a decepção.
— Tudo bem. Conheço numa próxima vez.
— Ainda temos trabalho amanhã.
— Sem problema.
Ele ligou o caminhão e começou a dirigir. Depois de alguns minutos, percebi que não seguíamos para a hospedagem.

— O hotel não fica para o outro lado?
— Fica.
— Então a gente está indo para onde?
— Você pergunta demais.

Seu Geraldo continuou dirigindo, a cidade foi mudando ao nosso redor. Aos poucos, senti alguma coisa diferente entrando pelas janelas abertas. Um cheiro úmido, fresco, salgado e antes de enxergar, escutei, o som era distante no início, parecido com vento forte. Depois cresceu e ganhou ritmo. Seu Geraldo estacionou.

— Só temos meia hora — avisou.
Desci do caminhão, e o mar estava diante de mim, durante alguns segundos, não consegui me mover. Era maior do que qualquer coisa que eu já havia visto. Não existiam cercas, árvores ou montanhas marcando onde terminava. A água escura avançava até se encontrar com o céu, enquanto as ondas quebravam na areia sob a iluminação da orla.

— E aí? — seu Geraldo perguntou.
Não respondi, tirei os sapatos, a areia afundou sob meus pés enquanto caminhava. Quando a primeira onda me alcançou, a água fria tocou minhas pernas e me fez recuar. Depois veio outra, dessa vez, permaneci, comecei a rir sozinho. Não havia um motivo específico. Talvez fosse o cansaço, a surpresa ou a sensação de que o mundo acabava de se tornar muito maior. Seu Geraldo me observava de longe.

— Quer uma foto? — gritou.
Entreguei meu celular, fiquei de costas para o mar, com os pés dentro da água e um sorriso que não consegui controlar. Ele tirou algumas fotografias. Naquele instante, pensei no senhor André. “Não deixe este lugar convencer você de que nasceu pequeno.”
Passei a vida cercado por porteiras, estradas de terra e horizontes interrompidos por morros. Diante do mar, compreendi que talvez eu nunca tivesse sonhado grande demais. Talvez apenas tivesse conhecido pouco do mundo. O cheiro de sal entrou pelos meus pulmões. Natal tinha movimento, universidades, hospitais e aquele horizonte sem fim. Era uma cidade onde eu poderia estudar, crescer e descobrir quem seria longe dos segredos da minha mãe. Ali, com os pés molhados, tomei uma decisão: Um dia eu moraria em Natal.
Ainda não sabia como pagaria uma faculdade, onde trabalharia ou quanto tempo levaria. Não importava. Eu encontraria um caminho, pedi meu celular de volta e publiquei uma das fotografias no Facebook. A legenda tinha apenas três palavras:
Minha primeira vez.
Seu Geraldo começou a rir.

— Desse jeito vão pensar outra coisa.
— Deixe pensarem.

O celular vibrou antes mesmo de voltarmos ao caminhão, era uma mensagem de Bernardo.
Bernardo: Você está em Natal e não ia me contar?
Olhei para o mar uma última vez e depois para a tela.
Rafael: Cheguei hoje a trabalho.
A resposta veio imediatamente.
Bernardo: Então ainda dá tempo de conhecer a melhor parte da cidade.
Rafael: Acabei de conhecer o mar.
Bernardo: Eu não estava falando do mar.
Natal já representava tudo o que eu desejava para o futuro. Agora, também havia alguém me esperando no presente.


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Ficha do conto

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Nome do conto:
[REBOT] ENTRE CAMINHOS E SEGREDOS ~ 06 O TAMANHO DO MUNDO

Codigo do conto:
273510

Categoria:
Gays

Data da Publicação:
29/09/2026

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