CAP. 01 — A estrada de volta
02 de julho de 2014
Meu pai pediu à minha mãe que desaparecesse antes mesmo de eu nascer, vinte anos depois, eu estava dentro de um ônibus rumo a Caicó, a cidade onde tudo havia começado. Eu não sabia o nome dele. Nunca tinha visto uma fotografia, ouvido sua voz ou recebido qualquer notícia sua. Sabia apenas o que minha mãe repetia desde que eu era criança: ele soube da gravidez, recusou-se a assumir o filho e mandou que ela fosse embora, eu tinha passado a vida inteira acreditando que não precisava saber mais.
Naquela viagem, comecei a desconfiar de que precisava,meu nome é Carlos Rafael, mas ninguém me chama de Carlos. Nunca gostei daquele nome, embora não soubesse explicar exatamente o motivo. Para minha mãe, eu sempre fui Rafael. Para as pessoas mais próximas, Rafinha, mas naquela manhã, porém, eu mal reconhecia o homem refletido no vidro do ônibus. Estava com os olhos vermelhos de cansaço, o cabelo amassado e a barba começando a nascer depois de quase dois dias de estrada. Minha cabeça vibrava com o barulho do motor, e minhas pernas já não encontravam uma posição confortável entre as poltronas apertadas.
Do lado de fora, a paisagem mudava lentamente. A vegetação ficava mais seca, o céu parecia maior e o sol surgia forte sobre as serras distantes. Quanto mais avançávamos pelo sertão, mais longe ficava tudo o que eu conhecia. Minha mãe dormia ao meu lado com a bolsa apertada contra o peito. Mesmo adormecida, parecia estar protegendo alguma coisa, ou se protegendo. Nós tínhamos saído de uma fazenda nos arredores de Teófilo Otoni, no interior de Minas Gerais. Nasci em Belo Horizonte, mas era pequeno demais quando minha mãe conseguiu trabalho na propriedade. Minhas primeiras lembranças pertenciam àquele lugar: o cheiro do curral ao amanhecer, o barulho dos animais, a poeira levantada pelos carros e a terra escura depois da chuva. Também foi ali que meu corpo deixou de ser o de um menino, e aos vinte anos, eu tinha os ombros largos, os braços firmes e as mãos ásperas de quem começara a trabalhar cedo. Não era um corpo construído em academia. Tinha sido moldado carregando sacos, consertando cercas, empurrando carroças atoladas e ajudando no manejo dos animais. O sol havia escurecido meus braços e meu rosto, deixando apenas algumas partes da pele protegidas pelas roupas. Eu parecia mais forte do que me sentia.
Na fazenda, minha mãe trabalhava na casa principal. Começou na cozinha, mas, com o passar dos anos, conquistou a confiança dos proprietários e passou a cuidar de quase tudo. Eu cresci circulando entre a casa, o curral e os alojamentos dos funcionários. Dona Lúcia me ensinou a ler e o senhor André me ensinou a sonhar, ele dizia que eu tinha inteligência demais para passar a vida inteira trabalhando na terra. Sempre que me encontrava estudando durante algum intervalo, sentava ao meu lado, folheava meus livros e fazia perguntas que quase nunca sabia responder.
— Você ainda vai ser doutor, Rafael.
Eu ria todas as vezes.
— Médico é coisa de gente rica, senhor André.
— Médico é coisa de quem estuda. Dinheiro a gente descobre depois.
Eu queria acreditar nele, o senhor André tinha cinquenta e poucos anos, cabelos grisalhos e a pele marcada pelo sol. Era alto, tinha braços fortes e costumava trabalhar com as mangas da camisa dobradas até os cotovelos. Não era como os outros proprietários rurais que eu conhecia. Colocava a mão no serviço, conversava com os empregados e raramente precisava levantar a voz para ser respeitado. Havia nele uma segurança que me deixava desconcertado. Foi observando o senhor André que comecei a compreender minha atração por homens mais velhos. Eu ainda era adolescente quando percebi que demorava mais do que deveria olhando seus braços, o peito aparecendo pela camisa aberta ou a barba molhada depois que ele lavava o rosto no fim do dia. Nunca aconteceu nada entre nós, infelizmente, hoje posso assumir. Ele me enxergava como um filho, e talvez essa fosse justamente a parte mais confusa do que eu sentia. Eu o admirava, desejava e buscava sua aprovação ao mesmo tempo. Como não sabia separar uma coisa da outra, guardei tudo em silêncio, guardar sentimentos era algo que eu fazia muito bem.
O filho mais velho do senhor André percebia a proximidade entre nós e não gostava. Ele aparecia poucas vezes na fazenda, quase sempre vindo da cidade, mas bastava chegar para o ambiente ficar diferente. Certa vez, encontrou o pai me ensinando a dirigir uma das caminhonetes.
— Engraçado — comentou, parado ao lado do veículo. — Comigo o senhor nunca teve essa paciência.
Senhor André soltou uma risada desconfortável.
— Você nunca teve paciência para aprender.
— Talvez porque estivesse ocupado demais ensinando ao filho dos outros.
Fingi não ouvir. Naquele momento, eu ainda não compreendia a dimensão do ressentimento que ele guardava. Compreendi que depois da morte do pai, o senhor André sofreu um infarto no final do ano anterior. Tudo aconteceu rápido demais. Em poucos dias, a casa ficou cheia de parentes que eu mal conhecia. Em poucas semanas, os filhos começaram a decidir o que fariam com a propriedade. Nenhum deles queria continuar com a fazenda.
O filho mais velho assumiu a frente das negociações. Mandou avaliar os animais, as máquinas, a terra e tudo o que pudesse ser vendido. Minha mãe tentou conversar com ele sobre nosso futuro, mas ele não demonstrou qualquer interesse.
— Meu pai ajudou vocês por muitos anos — disse. — Não podem esperar que isso continue para sempre.
Ajuda, foi assim que ele resumiu os anos de trabalho da minha mãe e tudo o que eu havia feito por aquela família, alguns dias depois, a fazenda foi vendida, na última noite, entrei sozinho no escritório do senhor André. O lugar ainda conservava o cheiro de café, madeira e couro que eu associava a ele. Sobre a mesa, encontrei o atlas de anatomia que ele havia comprado para mim meses antes. Na primeira página, havia uma dedicatória escrita com sua letra:
“Para o futuro doutor Rafael. Não deixe este lugar convencer você de que nasceu pequeno.”
O livro estava agora dentro da mochila aos meus pés, era uma das poucas coisas que eu fazia questão de levar, minha mãe se mexeu na poltrona e abriu os olhos.
— Ainda não dormiu?
— Dormi um pouco.
— Você passou a noite inteira acordado.
— A senhora também.
Ela ajeitou a bolsa no colo.
— Estou apenas cansada.
— É só cansaço?
Minha mãe olhou para mim por alguns segundos.
— O que mais seria?
Voltei minha atenção para a estrada. Algumas perguntas nos acompanhavam desde Minas, mas ela sempre encontrava uma maneira de evitá-las.
— A senhora não volta a Caicó desde que eu nasci?
— Desde antes.
— E nunca sentiu vontade?
— Não.
— Nem de ver tia Sônia?
— Algumas coisas ficam mais fáceis quando permanecem distantes.
Ela voltou a fechar os olhos, indicando que a conversa estava encerrada.
Não deixei.
— Meu pai ainda mora lá?
Minha mãe tornou a me olhar. Dessa vez, o cansaço desapareceu de seu rosto.
— Não sei onde ele mora.
— Mas ele era de Caicó.
— Era.
— Então alguém da família deve saber alguma coisa.
— Você não tem família naquela cidade além da sua tia.
— Eu tenho um pai.
— Pai é quem cria.
— Isso não significa que ele deixou de existir.
O maxilar dela endureceu, eu raramente insistia naquele assunto. Talvez por isso minha mãe não soubesse como reagir.
— O que você espera encontrar? — perguntou.
— Não estou procurando por ele.
— Então pare de fazer perguntas.
— Eu só quero saber o nome.
— Um nome não vai mudar nada.
— Talvez não mude para a senhora.
Ela ficou em silêncio, desde pequeno, eu percebia uma coisa estranha quando falávamos sobre meu pai. Minha mãe demonstrava raiva, mas não apenas raiva. Existia alguma coisa escondida por baixo dela. Algo que se parecia com vergonha ou, talvez, com uma dor que nunca havia cicatrizado.
— Ele sabia mesmo da gravidez? — perguntei.
— Sabia.
— E mandou a senhora embora?
— Mandou que eu desaparecesse.
— Por quê?
Minha mãe voltou a olhar para a janela.
— Porque homens como ele acreditam que podem escolher quais consequências desejam enfrentar.
— Ele era casado?
— Não.
— Então qual era o problema?
Ela demorou a responder.
— Eu era pobre. Para a família dele, isso bastava.
Aquelas palavras me fizeram imaginar um homem ainda mais desprezível do que aquele que eu havia construído durante a infância.
— E o meu avô expulsou a senhora de casa por causa dele?
— Seu avô me expulsou porque eu estava grávida e me recusei a dizer quem era o pai.
— Por que não contou?
— Porque não teria adiantado.
— Como sabe?
— Porque eu estava lá, Rafael. Você não.
O tom da voz dela encerrou a conversa, virei o rosto para a janela e observei o reflexo de nós dois no vidro. Minha mãe aparentava estar mais velha do que quando havíamos saído de Minas. Eu sempre disse que não sentia falta do meu pai. Não era exatamente mentira. Era impossível sentir saudade de alguém que nunca tinha feito parte da minha vida. O que eu sentia era outra coisa, raiva por ele ter decidido que eu não merecia existir em sua vida e curiosidade por não saber que parte de mim pertencia àquele homem. E medo de descobrir que carregava alguma coisa dele além do sangue.
Pouco depois, uma placa anunciou que estávamos chegando a Caicó, minha mãe endireitou o corpo na poltrona. A mudança nela foi imediata. Apertou novamente a bolsa, conferiu os cabelos e começou a olhar através da janela como se esperasse reconhecer alguém na beira da estrada. A cidade surgiu sob a luz forte do fim da manhã. Casas baixas, ruas movimentadas, motocicletas passando entre os carros e pessoas tentando escapar do sol caminhando perto das fachadas. Para alguém criado numa fazenda, Caicó parecia muito maior do que eu havia imaginado.
— É bonita — comentei.
Minha mãe não respondeu.
— A senhora não acha?
— Mudou muito.
Sua voz não carregava saudade. Parecia a voz de alguém retornando ao lugar onde havia deixado uma parte de si que preferia não encontrar. O ônibus entrou na rodoviária e estacionou. As pessoas se levantaram ao mesmo tempo, ocupando o corredor e puxando malas dos compartimentos superiores. Levantei primeiro e peguei nossa bagagem. O peso parecia pequeno depois de tantos anos de trabalho, mas minha mãe insistiu em carregar uma das bolsas e descemos. O calor me atingiu assim que pisei fora do ônibus, uma mulher aguardava perto da plataforma. Usava um vestido estampado e mantinha as mãos unidas diante do corpo. Reconheci minha tia Sônia pelas poucas fotografias que minha mãe ainda guardava. As duas ficaram imóveis por alguns segundos, vinte anos de silêncio separavam uma da outra, Sônia foi a primeira a se aproximar. Abraçou minha mãe com força, e percebi que as duas choravam antes mesmo que alguma delas dissesse qualquer coisa.
— Pensei que você nunca voltaria — minha tia murmurou.
— Eu também.
Quando se afastaram, Sônia voltou sua atenção para mim.
— Então esse é o Rafael.
— Sou eu.
Ela me abraçou como se já me conhecesse. Depois segurou meus braços e recuou para me observar melhor. O sorriso desapareceu lentamente de seu rosto. Minha tia examinou meus olhos, meu nariz e o formato do meu rosto. Por um instante, pareceu ter esquecido onde estava.
— Meu Deus… — sussurrou.
— O que foi?
Sônia olhou para minha mãe.
— Ele tem os olhos…
— Sônia — minha mãe a interrompeu.
As duas se encararam.
— Os olhos de quem? — perguntei.
Minha tia abriu a boca, mas minha mãe respondeu primeiro:
— Do seu avô.
Sônia baixou os olhos, foi um movimento pequeno, quase imperceptível, mas suficiente para que eu entendesse que aquela resposta não era verdadeira. Minha mãe pegou uma das malas e começou a caminhar em direção à saída da rodoviária. Minha tia permaneceu ao meu lado por alguns segundos.
— Seja bem-vindo a Caicó, Rafael.
Agradeci e a acompanhei, enquanto caminhava entre as duas, tive a sensação de que todos naquela cidade conheciam uma parte da minha história que havia sido escondida de mim. Eu tinha ido a Caicó procurando trabalho, uma oportunidade de estudar e uma maneira de começar a vida novamente. Ainda não sabia que, naquela cidade, cada novo caminho me levaria de volta ao mesmo segredo