[REBOT] ENTRE CAMINHOS E SEGREDOS ~ 14 PAI

As primeira palavras dessa minha historia foi sobre o meu pai, quando comecei a escrever não sei se vc leitor vai lembrar mais comecei a contar minha historia assim:


“Meu pai pediu à minha mãe que desaparecesse antes mesmo de eu nascer, vinte anos depois, eu estava dentro de um ônibus rumo a Caicó, a cidade onde tudo havia começado. Eu não sabia o nome dele. Nunca tinha visto uma fotografia, ouvido sua voz ou recebido qualquer notícia sua. Sabia apenas o que minha mãe repetia desde que eu era criança: ele soube da gravidez, recusou-se a assumir o filho e mandou que ela fosse embora, eu tinha passado a vida inteira acreditando que não precisava saber mais.”


Pai, uma palavra de três letras para uma responsabilidade que parecia maior do que tudo que eu havia desejado até ali. Eu tinha vinte anos. Alguns dias antes, minhas maiores preocupações eram o trabalho, o vestibular e a confusão que havia criado em torno de Caio e Bernardo. Quando eu era menor, eu não perguntava muito. Via os outros meninos correndo ao encontro dos pais na saída da escola, ouvia histórias sobre pescarias, castigos e viagens em família, mas fingia que aquilo não me fazia falta. Eu tinha minha mãe. Dizia a mim mesmo que ela bastava. E, na maioria dos dias, bastava mesmo.
Minha mãe foi duas pessoas durante toda a minha infância. Era quem me acordava para estudar e quem voltava cansada depois de trabalhar o dia inteiro. Era a mão que corrigia meus deveres, mesmo sem saber todas as respostas, e o colo em que eu me escondia quando alguma coisa doía. Ela nunca me deixou faltar comida, ainda que às vezes faltasse no prato dela. Nunca me deixou perceber quando o dinheiro terminava antes do mês. Nunca permitiu que eu me sentisse um peso. Hoje entendo que há mães que passam a vida inteira escondendo o próprio cansaço para que os filhos possam chamar aquilo de infância. Ainda assim, existiram momentos em que a ausência dele aparecia.
Na primeira vez que precisei fazer um trabalho escolar sobre minha família, desenhei apenas eu e minha mãe. A professora perguntou se eu havia esquecido alguém. Respondi que não. Quando um menino da escola disse que eu não tinha pai porque ninguém havia me querido, dei um soco nele. Voltei para casa com o lábio cortado e disse que havia caído. Minha mãe soube que eu estava mentindo. Ela sempre sabia. Não perguntou nada. Apenas limpou o sangue e me abraçou por mais tempo do que o necessário. Talvez também estivesse abraçando a si mesma. O senhor André foi o homem que chegou mais perto de ocupar aquele espaço. Nunca o chamei de pai. Ele também nunca pediu. Entre nós existia uma linha que nenhum dos dois atravessava. Eu era o filho da empregada; ele era o dono da fazenda. O carinho diminuía a distância, mas não apagava a realidade.
Mesmo assim, foi ele quem me ensinou a montar, quem colocou ferramentas na minha mão e quem percebeu que eu gostava de estudar. Lembro-me de um aniversário em que ganhei dele um atlas. Era um livro grande, pesado para minhas mãos de menino, com mapas coloridos de lugares que eu não sabia pronunciar. Passei semanas folheando aquelas páginas. O senhor André sentou-se ao meu lado numa tarde e apontou para o mapa do Brasil.


— O mundo é maior do que esta fazenda, Rafael.
— Eu sei.
— Saber e acreditar são coisas diferentes.
Ele passou a mão sobre minha cabeça e ficou alguns segundos me observando. Havia momentos em que o olhar do senhor André parecia atravessar meu rosto, como se procurasse em mim uma pessoa que conhecera muito antes de eu nascer.


— Você ainda vai longe — disse.
— Mais longe que Minas?
Ele sorriu.
— Muito mais.


Guardei aquele atlas durante anos. Quando as páginas começaram a se soltar, colei-as com fita. Quando a capa rasgou, encapei novamente. Não era apenas um livro. Era a primeira vez que alguém havia colocado o mundo inteiro diante de mim e dito que eu tinha o direito de desejá-lo. Talvez ser pai fosse isso, não entregar o mundo pronto a um filho, mas fazer com que ele acreditasse que também havia um lugar para ele dentro do mundo.
O senhor André pagou meus estudos, deu trabalho à minha mãe e nos ofereceu uma casa. Ensinou-me coisas que carrego até hoje. Porém, mesmo com todo o carinho, eu nunca deixei de ser o filho da empregada, e era essa a sensação que eu tinha.
Ali, naquela sala, com minha mãe à minha frente de um jeito que eu nunca tinha visto, tensa, com as mãos entrelaçadas no colo como se precisasse segurar alguma coisa pra não desabar eu sabia que estava prestes a entender toda a verdade. Todo aquele fantasma que eu carregava desde criança, sem nome, sem rosto. Talvez todas as respostas que eu nunca tive coragem de procurar finalmente estivessem ali, naquela mesa, esperando. O porquê de minha mãe ser contra eu trabalhar na fábrica. O porquê de ela odiar os Carneiro com uma intensidade que eu sempre achei desproporcional pra quem nunca tinha, até onde eu sabia, cruzado o caminho deles. Tinha chegado o meu momento.


— Rafael, eu nem sei por onde começar... — ela respirou fundo, os olhos já marejados antes mesmo da primeira frase sair inteira. — Eu tinha dezoito anos quando conheci ele. A gente morava aqui em Caicó, numa casa pequena perto da saída da cidade. Seu avô era servente da prefeitura, e quando aparecia serviço, trabalhava de pedreiro. O dinheiro quase nunca dava. Sua avó lavava roupa pra algumas famílias.
Era a primeira vez que eu ouvia minha mãe falar da própria juventude com tanto detalhe. Normalmente ela cortava esse assunto rápido, como quem fecha uma porta antes que o vento entre.
— Eu não tinha muitos sonhos — continuou. — Ou talvez nem soubesse que podia ter. Naquele tempo, pra uma menina como eu, o futuro já vinha quase todo escolhido: arrumar um trabalho, casar com alguém da mesma vida, ter filho, envelhecer devagar sem nunca sair daqui. — Ela fez uma pausa, os olhos perdidos em algum lugar atrás de mim, num tempo que eu não conseguia enxergar. — Então ele apareceu.
O rosto dela mudou. Por trás de toda a dor que eu já sentia naquela sala, ainda restava ali, viva, a sombra da menina que um dia tinha se apaixonado de verdade.
— Ele era diferente de todos os rapazes que eu conhecia. Falava de Medicina, de Natal, de universidade, como se aquelas palavras fossem naturais, como se o mundo inteiro já fosse dele por direito. Carregava livro pra todo canto até pra festa, imagina. Quando começava a explicar alguma coisa que tinha aprendido, os olhos dele brilhavam de um jeito que eu nunca tinha visto em ninguém. Eu não entendia metade do que ele falava. Mas gostava de ouvir. Gostava só de ficar olhando ele falar.
A semelhança comigo me incomodou de um jeito físico, quase doeu.
— Como vocês se conheceram? — perguntei, baixinho, com medo da resposta e, ao mesmo tempo, incapaz de não perguntar.
Ela fechou os olhos por um segundo, como se precisasse se preparar pra entrar naquela lembrança de novo.
— Foi na Festa de Sant'Ana. — A voz dela baixou, quase um sussurro, como se estivesse contando um segredo que guardava havia vinte anos e nunca tinha tido coragem de dizer alto. — Eu estava com sua tia Sônia e umas amigas, perto da fogueira. De repente, uma delas cutucou meu braço e falou baixinho: "os Carneiro chegaram". E eu olhei. Só olhei, por curiosidade, pra ver quem era aquele povo que todo mundo comentava tanto.
Ela parou. Os olhos ficaram marejados de um jeito diferente agora — não de dor, ainda não, mas de uma saudade que parecia doer mais do que qualquer mágoa.
— E os olhos dele encontraram os meus.
Silêncio.
— Foi assim, Rafael. Simples desse jeito e, ao mesmo tempo, nada simples. Não teve conversa, não teve aproximação com desculpa. Foi só aquilo — um olhar atravessando o meio da festa, o barulho da música sumindo, as pessoas ao redor virando só vulto. Eu tinha dezoito anos e nunca tinha sentido nada parecido antes. Achei, naquele instante, que o mundo tinha decidido parar só pra mim ver aquele rapaz.
Minha garganta ficou apertada, meu corpo ficou em alerta total só de esperar o nome.
— Alysson?
— Não — ela balançou a cabeça, devagar. — Silas. O irmão do Alysson.
O nome caiu na sala como uma pedra num poço fundo, o eco demorando pra parar de reverberar dentro de mim.
— Naquela noite a gente ficou — ela continuou, a voz tremendo agora. — Foi um beijo que, se eu fechar os olhos até hoje, eu me teletransporto para aquele momento, pra aquela noite. O Silas fez meu coração disparar de um jeito que eu nunca mais senti na vida. Me puxou pra dançar no meio de todo mundo, sem vergonha nenhuma, como se não ligasse pro que iam pensar. Foi uma noite mágica, eu diria. E, a partir daquele dia, a gente começou a se ver escondido, a se falar. Ele me contava sobre os estudos dele, os sonhos, sobre tudo. E eu fui me apaixonando por aquele homem que eu tinha certeza, absoluta certeza, que era o amor da minha vida.
Ela segurou minha mão, com força.
— Ele foi meu primeiro amor — confessou, a voz quebrando de vez. — E também foi o primeiro homem com quem eu estive.
Não tinha vergonha naquela voz. Tinha luto. Um luto de vinte anos que nunca tinha sido enterrado direito.
— Eu me entreguei porque acreditava que existia um futuro pra gente — ela disse. — Ele falava que, quando entrasse na faculdade, ia dar um jeito de me levar pra Natal com ele. Dizia que a gente ia construir outra vida lá, longe de tudo isso.
— E a senhora acreditou.
— Com tudo que eu tinha. Com a alma inteira.
Ela apertou minhas mãos mais forte ainda.
— Quando descobri que estava grávida, fiquei com medo. Mas, Rafael, eu juro que fiquei feliz também. Achei que aquele bebê ia provar que nosso amor era sério, que ia selar tudo. Fiquei grávida de você e fiquei sem rumo, sem saber o que fazer mas não contei pra ninguém antes. Fui direto contar pro Silas. Fui atrás dele achando, na minha cabeça boba de dezoito anos, que ele ia me pedir em casamento ali mesmo. Que a gente ia construir família, ser feliz pra sempre, desses jeitos que só existem em cabeça de menina apaixonada.
Ela sorriu — um sorriso torto, amargo, que doía só de ver.
— Eu era muito ingênua.
— O que ele fez? — perguntei, já sentindo a raiva crescer dentro de mim, quente, subindo pela garganta.
Minha mãe desviou o olhar.
— Primeiro ficou calado. Olhando pra mim sem dizer nada, um tempo que pareceu durar uma vida inteira. Depois perguntou se eu tinha certeza de que era dele.
— Filho da...
— Rafael.
— Desculpa.
— Eu chorei. Disse que nunca tinha ficado com nenhum outro homem antes. Ele sabia disso — sabia muito bem. Mesmo assim, passou dias me evitando, sumindo, inventando desculpa pra não me ver. Quando finalmente conseguimos conversar, ele já não era a mesma pessoa que tinha dançado comigo naquela festa.
Ela voltou a chorar, mas continuou, como se precisasse arrancar aquilo pra fora de uma vez, antes que perdesse a coragem.
— Ele disse que não tava preparado. Que tinha passado anos tentando construir uma saída daqui, uma chance de estudar em Natal, virar médico, nunca mais depender da fazenda nem de ninguém da família. — A voz dela endureceu, pela primeira vez, num misto de dor e raiva. — Cada palavra que ele disse naquele dia parecia pensada só pra doer o máximo possível.
Cada palavra também parecia familiar demais pra mim. Eu também queria estudar Medicina. Também sonhava com Natal. Também desejava construir uma vida maior do que a que tinham escolhido pra mim desde o berço. Minha mãe percebeu meu silêncio.


— Foi por isso que eu tinha tanto medo toda vez que você falava dos seus sonhos — ela revelou, a voz baixa.
— A senhora achava que eu ia ser igual a ele?
Ela começou a negar, mas parou no meio do gesto.
— Às vezes.
Aquela resposta doeu mais do que eu esperava.
— Então era por isso que a senhora nunca acreditava em mim de verdade.
— Eu acreditava na sua capacidade, Rafael. O que me apavorava era sua ambição. — Ela apertou meus dedos. — Quando você disse que ia embora daqui, eu ouvi a voz dele. Quando você falava em Medicina, eu via os olhos dele brilhando do mesmo jeito. Você nem imagina quantas vezes uma frase sua me jogou de volta pra aquela conversa, pra aquele dia.
— Mas eu não sou ele, mãe.
— Eu sei. — Ela limpou o rosto com as costas da mão, tentando se recompor. — Hoje eu sei.
— O que ele disse exatamente, naquele dia?
Ela respirou fundo, como quem se prepara pra mergulhar fundo demais numa água fria.
— Disse que eu não fazia parte da vida que ele tinha planejado. Que uma gravidez ia destruir tudo que ele vinha construindo. Que ele não podia carregar, segundo as palavras dele, "uma mulher sem estudo e uma criança" enquanto tentava entrar na faculdade. Falou que eu precisava "resolver o problema" e desaparecer.
— Resolver como?
Ela não respondeu. Não precisava.
— Ele pediu pra senhora me tirar? — a pergunta saiu arranhando, quase sem voz.
Minha mãe cobriu o rosto com as duas mãos e começou a chorar de verdade, aquele choro que vem de um lugar fundo demais pra ser contido. Levantei e fui até ela, me ajoelhando do lado da cadeira.
— Mãe...
— Eu nunca pensei em fazer isso — ela disse, entre soluços. — Nem por um segundo, Rafael, eu juro. Quando ele falou aquilo, eu coloquei a mão na barriga, na hora, sem nem pensar. Eu ainda nem sabia se você era menino ou menina. Mas naquele momento eu entendi uma coisa: se o mundo inteiro te rejeitasse, você ainda ia ter a mim.
Abracei minha mãe. Ela chorou contra o meu peito, e pela primeira vez na vida eu consegui enxergar, de verdade, a menina de dezoito anos que tinha enfrentado tudo aquilo sozinha. Não a mulher forte que sempre me criou com a espinha ereta. Não a mãe que sempre tinha resposta pronta pra qualquer problema meu. Só uma garota pobre, grávida, abandonada pelo homem que ela tinha certeza absoluta de que era seu príncipe encantado.


— Eu não contei pro seu avô quem era o pai — ela continuou, a voz ainda embargada. — Sabia que ele ia atrás da família, que ia tentar extorquir dinheiro, ou pior, usar você pra conseguir alguma vantagem. Ele não ia pensar no neto. Ia pensar só no que podia ganhar com o neto.
— Mesmo sem saber quem era, ele expulsou a senhora?
— Disse que eu tinha envergonhado a família toda. Colocou minhas roupas numa sacola plástica e mandou eu sair de casa antes que os vizinhos começassem a desconfiar.
Fechei os olhos, sentindo o peso daquela cena que eu nunca tinha visto, mas que agora eu carregava comigo como se tivesse presenciado.
— E a tia Sônia?
— Era nova, dependia dele pra tudo. Tentou me ajudar do jeito que dava, escondido. Me deu um pouco de dinheiro, umas roupas, e o contato de uma amiga que tava indo pra Natal.
— Então a senhora fugiu.
— Primeiro fui pra Natal. Dormi uns dias na casa dessa amiga, dividindo colchão no chão. Depois apareceu uma oportunidade em Belo Horizonte. Uma mulher precisando de ajuda em casa, que aceitava uma moça grávida trabalhando pra ela. Parecia bom demais pra ser verdade.
Meu corpo se arrepiou inteiro.
— Como essa oportunidade apareceu, mãe?
— A amiga de uma conhecida soube de alguma forma. Até hoje eu não sei direito de onde veio. Só sei que, quando liguei, a dona Lúcia já sabia meu nome. Disse que eu não precisava me preocupar nem com passagem, nem com hospedagem, que já tava tudo resolvido.
— Quem pagou?
— Ela.
Minha mãe assentiu, confirmando o próprio silêncio.
— Na época, eu não achei estranho. Tava desesperada demais pra questionar uma porta que se abria na minha frente, e Belo Horizonte era longe de Caicó e dos Carneiros. Eu tinha medo do Silas descobrir que você estava vivo e fazer algum mal, então eu resolvi fugir sem olhar para trás.
Aquele detalhe ficou preso na minha cabeça, girando, recusando-se a fazer sentido.
— Eu trabalhei com a dona Lúcia até você nascer. Uns meses depois, ela disse que o senhor André precisava de gente na fazenda, que a gente podia morar lá. Foi assim que fomos.
— Quando chegamos na fazenda, o senhor André já estava nos esperando na porteira. — Minha mãe olhou pra um ponto qualquer na parede, como se estivesse vendo a cena de novo, ali, na nossa frente. — Isso sempre me pareceu estranho, porque a gente nem sabia a hora certa que o ônibus ia chegar. A dona Lúcia colocou você nos braços dele. Você devia ter uns poucos meses de vida.
— O que aconteceu?
Ela me olhou com uma expressão distante, de quem revisita uma memória antiga demais pra ainda doer do mesmo jeito, mas ainda dói.
— Ele ficou parado, só olhando pro seu rosto. Muito tempo. Depois perguntou seu nome completo.
— E a senhora disse.
— Disse. Quando ele ouviu, fechou os olhos. Parecia emocionado. Na hora, eu achei que fosse pena.
Meu coração começou a bater mais rápido, cada palavra encaixando num quebra-cabeça que eu ainda não conseguia ver inteiro.
— Teve outra vez, quando você era pequeno e ficou muito doente — ela continuou. — Precisou de exame, remédio caro. Eu não tinha como pagar nada daquilo. O senhor André disse pra eu não me preocupar, que alguém tinha uma dívida antiga com ele e que, finalmente, tava pagando.
— Quem?
— Nunca soube.
As peças se acumulavam na minha frente, mas eu ainda não conseguia montar o desenho inteiro.
— Ele sempre cuidou muito de você — minha mãe falou, baixinho. — Mais do que os próprios filhos dele achavam justo. Foi por isso que sempre teve tanto ciúme. Às vezes, nem eu entendia o motivo.
Lembrei dos olhares do André. Do atlas. Das fotografias que ele tirava nos meus aniversários, sem falta, nenhum ano. De como ele guardava cópia dos meus boletins numa gaveta trancada do escritório, como quem guarda alguma coisa valiosa demais pra deixar à vista.


— Quando eu dizia que queria ser médico, ele ficava estranho — comentei, a voz quase um fio.
— Eu lembro.
— Uma vez ele falou que eu tinha puxado a alguém.
Minha mãe assentiu, devagar, como se aquela frase também tivesse ficado presa nela todos esses anos.
— Depois que o senhor André morreu, tudo desabou — continuou. — Os filhos venderam a fazenda, a dona Lúcia foi morar com parente, e eu não tinha dinheiro pra recomeçar em outro lugar. A única pessoa que me restava era a Sônia.
— Por isso voltamos pra cá.
— Sim.
— Mesmo sabendo que ele podia estar por perto.
— Procurei notícia antes de vir. Descobri que ele tinha ido embora, que morava em Natal, que quase nunca aparecia em Caicó. Achei que a gente ia ficar segura.
— Segura de quê, mãe?
Ela me encarou, os olhos ainda vermelhos, mas firmes agora, como quem finalmente solta um peso que carregava fazia tempo demais.
— Da família dele.
— Os Carneiro.
Ela confirmou com a cabeça, devagar.
— Por isso a senhora não queria que eu trabalhasse pro Alysson.
— Sim.
— E não era porque a senhora achava eles ricos demais pra gente.
— Rafael, seu pai me machucou. Na real, "genitor" é a palavra certa — ele não é pai de ninguém, nunca foi. — A voz da minha mãe saiu mais dura agora, como se aquele ódio guardado há vinte anos finalmente tivesse encontrado uma porta pra sair. — Eu tenho medo de alguém descobrir a verdade. Eu não queria você em Natal. Não queria você trabalhando pro seu tio. Eu tenho medo, Rafael. Fugi daqui, fugi pra longe de tudo isso, com medo. Mas você merece saber a verdade. Você tem vinte anos, é homem feito. Pode querer encontrar ele, conhecer ele. Só que, sei lá, eu acho que ele nem vai querer saber quem você é. Ele é um monstro. Me usou, me abandonou como se eu fosse lixo. Essa gente não presta, Rafael. Tem fome de poder, fome de dinheiro, e não enxerga nada além disso.
Fiquei em silêncio por um instante, tentando organizar na cabeça tudo aquilo que tinha acabado de desabar em cima de mim.
— O Alysson nunca soube de nada? — perguntei, por fim.
— Provavelmente não. O Silas sempre foi muito reservado, guardava as coisas só pra ele.
Respirei fundo, sentindo o coração acelerar antes mesmo de eu terminar de formular a pergunta seguinte.
— Não sei se a senhora sabe, mas ele tem uma filha. O Bernardo me contou.
— Uma filha? — Os olhos da minha mãe se arregalaram, um misto de surpresa e alguma coisa mais funda, mais difícil de nomear.
— Não sei os detalhes. Quando jantei na casa do Sr. Alysson, o Bernardo comentou sobre ela. Sofia, o nome. Mas não sei mais nada.
Minha mãe ficou um tempo calada, os olhos perdidos, processando aquilo.
— O Silas deve ter seguido em frente. Deve ter montado uma família, uma vida inteira — disse, por fim, a voz carregada de uma amargura que não tentava esconder. — Ele teve a oportunidade que eu nunca tive, Rafael. Mas saiba de uma coisa: essa é a verdade. Toda ela, do jeito que ela é, sem enfeite.


A conversa com minha mãe foi intensa, foi tensa, e um turbilhão de coisas passou pela minha cabeça ao mesmo tempo, atropelando qualquer tentativa de pensar com calma. Porque, enquanto ela falava, uma certeza foi se formando dentro de mim, fria e definitiva: eu tinha me envolvido — de corpo, de desejo, de sentimento — com o Alysson e com o Bernardo. E eles eram minha família. Meu tio. Meu primo.
Minha mãe chorou mais um pouco, me abraçou com uma força que eu não sentia dela desde que eu era criança, como se quisesse, só com aquele abraço, apagar vinte anos de silêncio de uma vez. Depois foi pro quarto, exausta, deixando atrás de si o peso inteiro daquela verdade. E eu fiquei sozinho, sentado naquela sala, o som da televisão da tia Sônia ainda baixinho vindo do outro cômodo, refletindo sobre tudo que acabara de ouvir.
Eu finalmente descobria uma parte de mim que eu nunca soube que existia. Eu tinha um pai. Sabia o nome dele agora. Tinha um tio. Tinha um primo. Tinha, em algum lugar do mundo, talvez até uma meia-irmã chamada Sofia que nem sabia da minha existência.
Mas ninguém — absolutamente ninguém daquela família — sabia que eu existia.
E talvez fosse assim que eu devesse levar aquela informação dali pra frente: guardada, escondida, enterrada no mesmo lugar onde minha mãe tinha enterrado a própria dor por vinte anos. Continuar seguindo minha vida como se nada tivesse mudado. Talvez me afastando do Alysson, do Bernardo, de tudo — porque não era justo com eles, carregar aquele segredo tão perto, tão perigosamente perto do que já tínhamos feito juntos.
A verdade é que eu estava perdido. Completamente perdido, sem saber que direção tomar, sem saber se aquilo que eu sentia agora era nojo, era medo, ou era só o peso de descobrir, de uma vez, que o mundo inteiro que eu vinha construindo em Caicó tinha uma raiz podre que ninguém nunca tinha me mostrado.


Fiquei ali, sentado sozinho na sala, o silêncio da casa pesando sobre mim feito um cobertor molhado. Tentava organizar aquele turbilhão, o nome do Silas, o rosto que eu nunca tinha visto, o Alysson que agora era meu tio de sangue, o Bernardo que agora era meu primo, a tal Sofia que talvez fosse minha irmã sem nem saber que eu respirava no mesmo mundo que ela. Cada pensamento vinha, crescia, e logo era empurrado por outro ainda mais pesado, numa fila que não parecia ter fim.
Eu tinha passado a vida inteira desejando saber quem era meu pai. E agora que sabia, descobria que teria sido mais fácil continuar sem saber. Foi nesse exato momento quando eu já achava que não tinha mais espaço dentro de mim pra absorver nenhuma notícia a mais naquele dia que o celular vibrou em cima da mesa, era uma mensagem do Caio.
Peguei o aparelho quase sem vontade, ainda meio anestesiado por tudo que tinha acabado de ouvir. E foi ler aquela tela que o chão, que já estava instável, terminou de sumir debaixo de mim:
"Fudeu, a Letícia tá grávida, e não sabe se é meu ou seu."
Fiquei olhando pra aquelas palavras um tempo que pareceu não ter fim, como se repeti-las dentro da cabeça fosse mudar o que elas diziam. Num mesmo dia, eu tinha descoberto quem era meu pai, e descoberto que, talvez, em poucos meses, eu também fosse descobrir o que era ser um.


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Ficha do conto

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Nome do conto:
[REBOT] ENTRE CAMINHOS E SEGREDOS ~ 14 PAI

Codigo do conto:
274230

Categoria:
Gays

Data da Publicação:
09/10/2026

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