[REBOT] ENTRE CAMINHOS E SEGREDOS ~ 10 A VERSÃO DO CAIO

Passei o fim de semana em casa, trancado com os livros, tentando recuperar o tempo que tinha perdido em Natal. Faltavam poucos meses pro Enem, e aquele sonho, sair de Caicó, cursar o que eu sempre quis, pesava mais do que qualquer coisa que tivesse acontecido naquela viagem. Ou pelo menos eu tentava me convencer disso.
Falei com o Bernardo algumas vezes, mensagens curtas, boa noite, bom dia, nada que entregasse o tanto que eu tinha pensado nele, e no pai dele, desde que cheguei. O Caio me chamou pra sair no sábado, bateu na porta de casa até com aquela cara de quem não aceita não como resposta, mas eu disse que estava cansado da viagem, que precisava estudar. Não era mentira, só não era a verdade inteira.

— Tá estranho, Rafael — ele falou, antes de ir embora — O Bernardo te disse alguma coisa? Ou você tá mudando que nem ele mudou?

Eu tranquilizei ele como dava, disse que estava tudo bem, que no domingo a gente saía e conversava com calma. Ele pareceu aceitar, mas eu vi a dúvida ficar ali, atrás dos olhos dele, antes de sair. A verdade é que eu não sabia nem por onde começar a explicar o que estava acontecendo comigo. Como ia dizer pro meu amigo que, no meio de uma viagem de carro, o pai do cara que eu tava ficando tinha segurado minha perna e prometido terminar uma foda que a gente nem tinha começado direito?
Meu pensamento voltava pra isso o tempo todo. Pro toque do Alysson. Pra promessa dele, pendurada no ar como alguma coisa que ainda ia cair. Pro desejo que eu não conseguia mais fingir que não existia. Mas também pensava no Bernardo. E isso era o mais estranho de tudo, porque não era um pensamento que brigava com o outro, não do jeito que eu esperava. Era inegável que eu estava gostando dele também, de verdade. O Bernardo tinha um jeito diferente, doce, leve, um jeito que me trazia uma paz que eu não sabia que precisava. A gente ainda não tinha ido além de uns beijos e umas mãos bobas pelo carro, nada de sexo, mas eu estava gostando da forma como aquele "relacionamento" nosso ia tomando corpo, devagar, sem pressa. Era confuso sentir duas coisas tão diferentes ao mesmo tempo, e saber que as duas eram verdadeiras.
Domingo, como eu tinha prometido, fui encontrar o Caio. Ele morava sozinho desde que os pais foram passar uns tempos na casa da irmã, em Assú, e aquilo significava que a gente ia ter a tarde inteira livre. Cheguei e o encontrei sentado na calçada, usando uma bermuda velha e uma camiseta sem manga, duas cervejas geladas do lado.

— Pensei que não viesse — ele comentou, com aquele sorriso de sempre.
— Eu disse que vinha.
— E desde quando você cumpre o que promete?
— Desde nunca — respondi, sentando ao lado dele.

Ele me entregou uma das cervejas. Ficamos ali um tempo, sem pressa, vendo a rua: uma senhora que passou e cumprimentou, dois meninos de bicicleta, o som baixo de uma TV vindo de alguma casa vizinha. Por alguns minutos, parecia que nada tinha mudado entre a gente desde meu envolvimento com Bernardo. Foi aí que ele reparou no chaveiro que eu tinha tirado do bolso, sem nem perceber, só girando entre os dedos daquele jeito que eu fazia quando estava distraído, o aviãozinho pequeno, de metal.

— Onde conseguiu isso? — ele perguntou, olhando pro objeto.
— Ganhei.
— Eu sei que ganhou. Perguntei de quem.
Havia seriedade demais naquela pergunta.
— Do Bernardo.
Caio baixou os olhos, respirou fundo e bebeu um gole da cerveja.
— E ele te levou no aeroclube.
Não era uma pergunta.
— Levou.
Caio riu sem humor, passou a língua pelos lábios.
— Claro que levou.
— Por que "claro"?
— Porque é o lugar preferido dele.
— Como você sabe disso?
— Todo mundo sabe que ele gosta de avião.
— Não, Caio. Todo mundo sabe que ele estuda Administração. O sonho de ser piloto ele esconde até do pai.
Caio ficou em silêncio. A resposta estava diante de mim.
— Você conhecia esse sonho — continuei. — Conhecia uma parte dele que quase ninguém conhece.
— Rafael, vamos entrar. Sol tá quente.
Levantou sem esperar resposta, e eu o segui até o quarto. Ele deixou a porta aberta, ligou o ventilador e se sentou na cama. Fiquei encostado na cômoda.
— Pode perguntar — disse ele, finalmente, como se tivesse decidido alguma coisa no caminho da sala até ali.
— Você e Bernardo namoraram?
Caio soltou uma risada curta.
— Direto assim?
— A gente já perdeu tempo demais dando volta.
Ele apoiou os cotovelos nos joelhos e encarou o chão.
— Namoramos do jeito que dois garotos como a gente conseguiam namorar aqui. Escondidos. Sempre.
Sentei na outra ponta da cama, deixando um espaço entre nós.
— Há quanto tempo?
— A gente se conhece desde novo. Estudamos juntos durante anos. Primeiro éramos só amigos mesmo. Depois começou a ficar diferente.
— Diferente como?
— Ciúme, vontade de ficar perto, raiva quando aparecia alguma menina... Essas coisas que ninguém entende até acontecer.
A voz dele tinha perdido o tom de deboche de sempre. Pela primeira vez, Caio falava de Bernardo sem raiva. Ou talvez a raiva estivesse só cansada demais pra se defender.
— Ele foi o primeiro homem que você beijou? — perguntei.
— Foi.
Um sorriso pequeno, quase involuntário.
— Foi uma porcaria.
— O beijo?
— Horrível. A gente bateu os dentes, ele começou a rir e eu fiquei com raiva. Disse que nunca mais faria aquilo.
— E fez?
— No mesmo dia.
Nós dois rimos, mas o sorriso dele sumiu rápido.
— Depois disso, começamos a inventar desculpa pra ficar sozinhos. Estudar, andar de bicicleta, ir na fazenda... Pra todo mundo, a gente continuava sendo os mesmos amigos de sempre.
— E ninguém desconfiava?
— Talvez algumas pessoas. Em cidade pequena, todo mundo desconfia de tudo, mas finge que não vê enquanto ninguém obriga eles a enxergar.
Aquela frase ficou pairando entre a gente.
— Vocês chegaram a assumir alguma coisa, um pro outro?
— Entre nós, sim. Bernardo dizia que me amava. Eu também dizia.
— Então foi sério.
— Pra mim, foi.
A forma como ele destacou aquelas duas palavras me chamou atenção.
— E pra ele?
Caio pegou a cerveja, mas não bebeu.
— Você deveria perguntar a ele.
— Tô perguntando a você.
— No começo, achei que fosse sério pros dois. Bernardo fazia planos. Dizia que, quando saísse daqui, ia dar um jeito de me levar junto. Falava que a gente ia morar numa cidade onde ninguém nos conhecesse e não precisasse ficar olhando pros lados antes de se beijar.
— O que aconteceu?
— Ele foi pra Natal.
— Só isso?
— No começo, ele me ligava todo dia. Depois começou a ligar menos. As mensagens ficaram curtas. Quando vinha pra Caicó, tava sempre cansado ou ocupado. Fez amigo novo, conheceu gente...
— Você sabe se ele ficou com alguém?
Caio desviou o olhar.
— Vi uma foto.
— Que foto?
— Ele abraçado com um cara numa festa.
— Abraçado como?
— Próximo demais.
— Isso não significa necessariamente que eles tavam ficando.
— Na época significou pra mim.
Percebi que tinha uma parte daquela história que Caio não tinha orgulho de contar.
— O que você fez?
Ele coçou a nuca.
— Mandei umas mensagens.
— Que tipo de mensagens?
— Mensagens de alguém com raiva.
— Caio.
— Eu disse que ele tinha virado um filhinho de papai metido, que tinha vergonha de mim, que podia ficar com os amigos ricos dele.
— E o que o Bernardo respondeu?
— Disse que eu tava sendo injusto. Depois pediu um tempo.
— E você deu?
Caio finalmente bebeu a cerveja.
— Não.
— O que você fez?
— Fui atrás dele quando voltou pra Caicó. A gente discutiu. Eu queria que ele escolhesse.
— Escolhesse entre o quê?
— Entre a vida nova dele e o que a gente tinha.
— Isso não era uma escolha justa.
Caio levantou os olhos pra mim.
— Eu tinha dezessete, Rafael. Não tava tentando ser justo. Tava tentando não perder a única pessoa por quem eu já tinha me apaixonado.
A voz dele falhou, de leve, na última palavra. Naquele momento, toda a arrogância sumiu. Não tinha o Caio das brincadeiras, o Caio que parecia ter certeza de tudo, o cara que usava provocação pra parecer forte. Diante de mim só tinha um garoto que tinha se sentido abandonado ou que acreditava ter sido.
— E foi assim que terminou? — perguntei.
— Ele disse que não conseguia mais viver com aquela cobrança. Que já era difícil esconder tudo da família e que eu fazia ele se sentir culpado por tentar construir a própria vida dele. Depois voltou pra Natal.
— Vocês nunca mais conversaram?
— Conversamos algumas vezes. Ou tentamos. Sempre terminava em briga, beijo, ou nas duas coisas.
Meu estômago apertou.
— Até quando?
Caio percebeu a pergunta escondida dentro da pergunta.
— Antes de você chegar.
— Quanto tempo antes?
— Uns meses.
— Vocês ainda ficavam?
— Às vezes.
A resposta me incomodou mais do que devia. Eu ainda não tinha compromisso nenhum com o Bernardo. Nem sequer tínhamos transado. Mesmo assim, descobrir que o Caio continuava envolvido com ele até pouco antes de eu chegar me fez sentir um invasor.
— Foi por isso que você mudou quando viu o Bernardo na fazenda?
— Foi.
— E por isso tentou me afastar dele?
— Eu sabia que você ia se encantar.
— Como podia saber?
— Porque todo mundo se encanta com o Bernardo no começo.
— Isso parece ciúme.
— Talvez fosse.
Caio se levantou e foi até a janela.
— Pra você, ele é novidade. É bonito, educado, filho do patrão, e aparece com esse jeito de quem tá esperando alguém salvar a vida dele. Pra mim, Bernardo é uma história que passei muito tempo tentando esquecer.
— E conseguiu?
Ele continuou de costas.
— Não sei. Só sei que ainda dói.
A sinceridade me desarmou. Levantei e parei atrás dele.
— Por que você não me contou antes?
— Porque não queria que você olhasse pra mim desse jeito.
— Que jeito?
— Com pena.
— Eu não tô com pena.
— Tá sim.
— Tô tentando entender.
Caio se virou. Os olhos estavam úmidos, mesmo sem nenhuma lágrima ter caído.
— E conseguiu?
— Consegui entender por que você sente raiva. Ainda não sei se entendi o que realmente aconteceu.
Ele soltou uma risada amarga.
— Tá achando que eu tô mentindo?
— Não. Tô achando que você contou a história do jeito que sentiu. O Bernardo provavelmente vai contar do jeito que ele sentiu também.
— E você vai acreditar nele.
— Não decidi em quem acreditar.
— Mas quer ficar com ele.
A pergunta veio carregada de medo, não de acusação.
— Quero conhecer ele.
— Isso não responde.
— Porque eu não tenho resposta.
Caio se aproximou.
— Você tá apaixonado por ele?
Pensei no hangar, no mirante, nos olhos verdes, no chaveiro que eu carregava no bolso. Pensei na calma que eu sentia quando o Bernardo falava dos sonhos dele.
— Talvez eu tô começando a ficar.
Caio engoliu em seco.
— Rápido assim?
— Sentimento não olha calendário.
— Bonito. Ensaiou durante a viagem?
— Não tô brincando.
— Nem eu.
O silêncio cresceu entre a gente. Caio tava tão perto que eu sentia a respiração dele. Ele tocou meu rosto com a ponta dos dedos, como se quisesse se certificar que eu continuava ali.
— E eu? — perguntou.
— O que tem você?
— O que você sente por mim?
Eu podia ter escolhido uma resposta fácil. Podia ter falado de amizade, ou de desejo, e encerrado o assunto ali. Mas o Caio tinha sido sincero comigo. Eu devia o mesmo a ele.
— Você me confunde.
— Isso é bom ou ruim?
— Os dois. Com você, tudo parece mais intenso. Quando a gente tá junto, eu esqueço o resto. Só que eu ainda não sei o que fica quando o fogo passa.
Ele aproximou o rosto do meu.
— A gente pode descobrir.

Caio me beijou, não foi um beijo desesperado como os outros que já tínhamos trocado. Não tinha disputa, nem provocação, nem pressa. Os lábios dele tocaram os meus com uma delicadeza que contrastava com tudo que eu conhecia dele, e por alguns segundos, essa delicadeza me desarmou. Segurei a cintura dele, puxei o corpo dele contra o meu e senti as mãos dele deslizando pelas minhas costas, apertando, descendo até a bunda. O beijo aprofundou. A língua dele entrou na minha boca devagar, quente, insistente. Eu respondi com a mesma intensidade, gemendo baixo quando ele roçou o quadril no meu. Foi aí que eu senti, o pau grosso dele, já duro, pressionando contra a minha coxa por cima da bermuda. Aquele volume absurdo, curto e grosso pra caralho, latejando contra mim. Eu apertei a bunda dele com mais força e empurrei o quadril para frente, sentindo a grossura roçar no meu próprio pau. Caio soltou um som baixo na minha boca, quase um gemido, e apertou minha cintura com as duas mãos, puxando-me ainda mais perto. O beijo ficou mais intenso, mais molhado. Eu conseguia sentir o calor dele, o cheiro da pele, a maneira como o pau grosso pulsava entre nós, pedindo mais. Por um momento eu quis ceder. Quis descer a mão, abrir a calça dele, sentir aquela grossura na palma de verdade. Quis esquecer de tudo e só sentir. Então me lembrei da pergunta que ainda permanecia sem resposta. Afastei-me, respirando pesado.

— O que foi? — ele perguntou, a voz rouca, os olhos escuros de desejo.
— Eu vim aqui para conversar.
— A gente já conversou.
— Não. Você abriu uma ferida e agora quer esconder debaixo da cama.
Caio abaixou as mãos.
— Não estou escondendo nada.
— Está. Toda vez que alguma coisa fica séria, você tenta transformar em sexo.
Ele se afastou como se eu tivesse tocado em um ponto dolorido.
— E desde quando você é especialista em mim?
— Não sou. Mas estou começando a conhecer você.
— Talvez eu não queira ser conhecido.
— Então pare de reclamar quando as pessoas vão embora.
Caio me encarou, ferido. Arrependi-me imediatamente.
— Desculpa. Eu não deveria ter falado assim.
— Mas falou.
— Falei porque você não pode dizer que todo mundo abandona você enquanto faz de tudo para ninguém chegar perto de verdade.
Ele caminhou até a cama e se sentou novamente.
— Bernardo dizia a mesma coisa.
— Talvez ele tivesse razão nisso.
— Está defendendo ele agora?
— Não estou defendendo ninguém. Só quero que você pare de tratar tudo o que sente como se fosse uma fraqueza.
Sentei ao seu lado.
— Você pode ser meu amigo, Caio. De verdade. Não precisa me seduzir toda vez que estiver com medo de me perder.
— E se eu quiser mais do que amizade?
Olhei para ele.
— Aí você vai precisar descobrir se quer a mim ou se só está tentando vencer o Bernardo.

Ele ficou ali, parado na minha frente, pensando numa resposta que não tinha coragem de dar na hora. E a verdade é que meu corpo não ajudava nem um pouco a pensar direito. Porque o Caio tinha um jeito de me olhar que mexia comigo de um jeito quase físico, visceral. O mesmo tipo de fogo que eu sentia quando o Alysson segurava minha perna no carro, ou quando aproximava o rosto do meu naquele banheiro de posto. Meu corpo gritava pelo Caio do jeito que gritava pelo Alysson: sem pedir licença, sem pensar em consequência, só querendo. Tinha uma parte de mim, e eu não ia mentir pra mim mesmo sobre isso, que queria deixar aquele beijo continuar, ver até onde ia, esquecer por uma tarde inteira tudo que eu devia estar pensando. Mas o coração é mais teimoso que o corpo. E o meu, por mais confuso que estivesse, não parava de chamar pelo Bernardo. Pelo jeito doce dele, pela calma que eu sentia quando a gente ficava em silêncio e não precisava preencher o silêncio com nada. Isso não era desejo, ou não era só desejo. Era outra coisa, mais devagar, mais funda, que não se apagava só porque um corpo bonito estava encostado no meu.
Eu estava começando a entender, ali, naquele quarto, que desejo e sentimento não são a mesma língua, mesmo que às vezes usem as mesmas palavras para se expressar. Eu conseguia desejar o Caio e, ainda assim, não querer ele. Conseguia sentir falta do Bernardo mesmo estando longe dele havia só alguns dias. E conseguia, ao mesmo tempo, entender o Caio, a dor dele, o motivo de tanta raiva guardada, sem que isso significasse escolher ficar com ele.
Porque por trás de toda aquela sedução, daquele jeito provocador que o Caio usava como armadura, eu enxergava uma coisa que ele talvez nem tivesse coragem de admitir pra si mesmo: ele ainda amava o Bernardo. Ou pelo menos ainda gostava, do jeito que a gente nunca para de gostar de quem foi o primeiro. Primeiro amor não sai da gente fácil assim. Ele fica guardado em algum canto, e às vezes some, às vezes some incompleto e aparece de novo, com a cara de ciúme, de provocação, de beijo roubado numa tarde de domingo.
Foi naquele quarto que entendi algo importante: eu pensava estar dividido entre dois homens, mas a verdade era mais complicada. Eu havia entrado em uma história que começara muito antes da minha chegada a Caicó. Antes dos olhares na fábrica, antes da festa, antes do primeiro beijo. Eu não era o início daquele triângulo, era apenas a pessoa que havia feito os dois olharem novamente para uma ferida que nunca fechou.


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Ficha do conto

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Nome do conto:
[REBOT] ENTRE CAMINHOS E SEGREDOS ~ 10 A VERSÃO DO CAIO

Codigo do conto:
273915

Categoria:
Gays

Data da Publicação:
05/10/2026

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