[REBOT] ENTRE CAMINHOS E SEGREDOS ~ 03 SINAIS



Minha mãe não falou comigo naquela manhã, quando entrei na cozinha, ela estava de costas, preparando café. Tia Sônia permanecia à mesa, ainda de camisola, observando as duas pessoas mais teimosas da casa fingirem que a outra não existia, sentei e peguei um pedaço de pão.

— Vai mesmo? — minha mãe perguntou sem se virar.
— Vou.
— Ainda pode ligar e dizer que mudou de ideia.
— Não mudei.

Ela colocou a garrafa de café sobre a mesa com força suficiente para fazer as xícaras tremerem.

— Você chegou a Caicó há menos de uma semana, Rafael. Não conhece ninguém naquela fábrica.
— É justamente por isso que preciso começar.
— Existem outros empregos.
— Onde? Porque passei o dia inteiro procurando e não encontrei.

Minha mãe finalmente se virou.

— Eu só estou tentando proteger você.
— Continuo sem saber de quê.

Sônia respirou fundo.

— Se existe algum motivo para ele não trabalhar lá, talvez você devesse contar.

Minha mãe lançou um olhar duro para a irmã.

— Isso não diz respeito a você.
— Ele está morando na minha casa. Alguma coisa já diz respeito a mim.
— Não quero que vocês briguem por minha causa — interrompi. — Vou trabalhar, fazer o que preciso e voltar. Não estou entrando para a família Carneiro.

As duas permaneceram em silêncio, peguei minha mochila e me levantei.

— Volto no fim da tarde.

Quando alcancei a porta, minha mãe chamou meu nome.

— Rafael.
Olhei para trás e por um instante, pensei que finalmente explicaria o que havia entre ela e aquela família.

— Tenha cuidado — pediu.
— Com o trabalho?

Ela demorou a responder.

— Com tudo.

Saí sem compreender, cheguei à fábrica alguns minutos antes das sete. Caio me esperava perto dos vestiários, encostado na parede e bebendo café num copo descartável.

— Pensei que o protegido do chefe fosse chegar atrasado.
— Pensei que meu nome fosse mineiro.
— Agora você tem dois apelidos.

Ele me entregou um uniforme dobrado.

— Esse deve servir.

Entramos no vestiário. Alguns funcionários terminavam de trocar de roupa, conversando sobre futebol e reclamando do horário. Escolhi um armário vazio e retirei a camisa, quando me virei para pegar o uniforme, encontrei Caio olhando para mim, não para meu rosto.

— Perdeu alguma coisa? — perguntei.

Ele levou o copo à boca.

— Estou conferindo se seu Alyson fez uma boa contratação.
— E dá para saber olhando?
— Algumas qualificações, sim.

Vesti a camisa do uniforme. Ela ficou ajustada nos ombros e nos braços, mas ainda confortável. O problema apareceu quando coloquei a calça, consegui fechá-la, porém o tecido ficou apertado demais atrás, e foi o suficiente para Caio soltar uma risada.

— Que foi?
— Acho que errei o tamanho.
— Na cintura ficou bom.
— Na cintura, ficou.

Virei-me para conferir no pequeno espelho preso à parede. A calça marcava meu corpo mais do que eu gostaria. Caio aproximou-se e puxou de leve o cós nas minhas costas.

— Aqui também sobra espaço.
— Então qual é o problema?

Ele baixou os olhos.

— O problema está mais embaixo.
Empurrei a mão dele.

— Deixa de ser besta.
— A culpa não é minha se você tem bunda de jogador de futebol.
— Passei a vida carregando peso.
— Carregou tudo atrás, pelo visto.
Tentei não rir, mas não consegui, na fazenda, comentários sobre meu corpo eram comuns. Sempre fui mais baixo que os outros homens, com pouco mais de um metro e setenta e oito, mas o trabalho havia alargado meus ombros, endurecido meus braços e desenvolvido minhas pernas. Minha pele tinha adquirido um tom avelã por causa dos anos sob o sol, interrompido apenas pelas marcas mais claras deixadas pelas roupas. Minha bunda, porém, atraía mais comentários do que todo o resto.

— Tem uma calça maior? — perguntei.
— Deve ter no depósito.
— Então pega.

Caio inclinou a cabeça, fingindo avaliar.

— Talvez depois. Primeiro quero ver se essa aguenta o turno.
— E se rasgar?
— Aí o primeiro dia vai ser inesquecível.

Um funcionário passou por nós e ouviu o final da conversa.

— Caio, deixa de namorar o rapaz e leva ele para trabalhar!

Os outros riram, Caio não pareceu incomodado.

— Está com ciúme, Damião? Para você eu arrumo uma calça apertada também.

Saímos do vestiário ainda rindo, Caio começou a me ensinar o trabalho na área de recebimento. A produção daquele dia estava intensa, e os caminhões chegavam carregados desde cedo. Em pouco tempo, eu já ajudava a descarregar caixas, conferia os recipientes e acompanhava o controle do leite. Damião, o funcionário que havia brincado no vestiário, observava cada movimento meu.

— Quero ver se o menino bonito do patrão aguenta até o almoço.
Apoiei uma caixa no chão.
— Menino bonito do patrão?
— Nunca vi seu Alyson contratar alguém depois de cinco minutos de conversa.
— Talvez os outros candidatos fossem ruins.
— Ou talvez você tenha mostrado alguma habilidade que não colocou no currículo.

Alguns homens riram, mas não respondi. Na primeira hora, Damião me entregou os trabalhos mais pesados. Carreguei tudo sem reclamar. Quando uma válvula começou a vazar e os outros demoraram a identificar o problema, consegui interromper o fluxo antes que perdessem parte da produção.

— Já aconteceu na fazenda — expliquei.

Depois, ajudei um dos motoristas a organizar a carga e percebi que algumas caixas estavam distribuídas de maneira errada. Perto do almoço, ninguém mais me chamava de menino bonito.Apenas de Rafael. Caio se aproximou enquanto eu lavava as mãos.

— Está querendo humilhar os funcionários antigos?
— Estou querendo continuar empregado.
— Damião passou a manhã tentando fazer você pedir demissão.
— Percebi.
— Por que não falou nada?
— Na fazenda, aprendi que discutir cansa mais do que trabalhar.
— E eu achando que mineiro era devagar.
— Sou mineiro, não morto.
Caio riu e apoiou uma das mãos em meu ombro.
— Vem. Vou apresentar você à melhor parte da fábrica.
— Qual?
— O almoço.

O refeitório era simples, com mesas compridas e ventiladores que pareciam apenas espalhar o calor. Caio sentou ao meu lado. À nossa frente estava uma garota que eu ainda não conhecia. Ela tinha os cabelos presos num rabo de cavalo alto e usava o mesmo uniforme dos funcionários da embalagem. Seus olhos passaram por mim com curiosidade.

— Então esse é o famoso contratado pessoalmente por Alyson?
— A fofoca corre rápido — comentei.
— Aqui o queijo demora mais para ficar pronto do que uma fofoca.

Caio apontou para ela.

— Essa é Larissa. Não conte nada da sua vida perto dela.
— Conte tudo — ela corrigiu. — Principalmente se for comprometedor.
— Rafael — apresentei-me.
— Eu sei. A fábrica inteira já sabe.

Ela olhou por baixo da mesa.

— E a história da calça também é verdadeira.
— Caio!
— Eu não contei nada — ele se defendeu. — Damião espalhou.

Larissa segurou o riso.

— Seja bem-vindo. Há meses essa fábrica precisava de alguma novidade.
— Achei que vocês produzissem queijo.
— Produzimos. Diversão é que estava em falta.

Gostei dela imediatamente, Larissa conversava com a mesma facilidade de Caio, mas havia menos mistério em suas intenções. Quando me olhava, eu sabia exatamente o que estava pensando. Com Caio, eu nunca tinha certeza.

— Rafael. – A voz de Alyson atravessou o refeitório.
Todos ficaram mais quietos, ele permanecia perto da porta, novamente com as mangas da camisa dobradas. Os olhos encontraram os meus antes de percorrerem o restante do meu corpo.

— Quando terminar, passe na minha sala.
— Algum problema?
— Vamos descobrir.

Alyson saiu, e então Larissa arqueou as sobrancelhas.

— Primeiro dia e já foi chamado pelo dono.
— Eu falei que ele era o protegido — Caio disse.
— Talvez ele tenha descoberto que menti no currículo.
— Sobre o quê?
— Disse que tinha paciência.

Terminei de comer, lavei o prato e segui até a área administrativa. A porta da sala de Alyson estava entreaberta, bati duas vezes.

— Entre.
Ele estava sentado atrás de uma mesa grande. Havia papéis organizados diante dele, um telefone e uma fotografia da família num porta-retratos. Não consegui observar os rostos com atenção.

— Feche a porta — pediu.

Obedeci, Alyson apontou para a cadeira à sua frente.

— Disseram que você evitou um prejuízo hoje.
— Só fechei uma válvula.
— Damião trabalha aqui há quatro anos e não percebeu o vazamento.
— Talvez estivesse ocupado tentando me fazer desistir.
Um sorriso surgiu no rosto de Alyson.
— Ele faz isso com todo funcionário novo.
— Deveria escolher alguém menos teimoso.
— Sua mãe nunca reclamou da sua teimosia?
A pergunta me surpreendeu.
— Todos os dias.
— Ela é de Caicó?
Senti o corpo ficar alerta.
— É.
— Qual é a família?
— Ela saiu daqui muito nova.
Alyson esperou mais informações. Quando percebeu que eu não as daria, mudou de assunto.
— Você trabalhou bem.
— Obrigado.
— Mas não precisa tentar provar tudo no primeiro dia. Seu corpo vai cobrar amanhã.
Seu olhar desceu para meus braços e permaneceu por alguns segundos sobre a calça apertada.
— O uniforme ficou pequeno — expliquei.
— Percebi.

A resposta veio baixa, acompanhada de um sorriso quase invisível. O silêncio entre nós mudou de tom. Alysson recostou-se na cadeira sem desviar os olhos dos meus, e de forma natural levou uma das mãos ao meio das pernas, ajeitando o volume por cima da calça com um aperto firme e rápido — o tipo de gesto que qualquer homem faria sem pensar duas vezes. Só que o olhar dele permaneceu fixo no meu, pesado, e algo naquela troca silenciosa fez o ar da sala parecer mais denso. Meu corpo reagiu antes que eu conseguisse organizar o pensamento: um calor subiu pela nuca, a respiração ficou curta, e eu me peguei lembrando exatamente de como o Sr. André apertava o pau dele na minha frente, deixando minha boca se encher d’água. Por um segundo absurdo, a vontade de esquecer que eu conhecia o Sr. Alysson há menos de vinte e quatro horas e simplesmente me ajoelhar ali foi tão forte que me assustei. Meu Deus, o que eu estou me tornando? Nunca fui assim…
Alysson observou meu desconforto com uma satisfação quieta, quase contida, e eu senti o peso do desejo dele atravessando o espaço entre nós como se fosse tangível. Não era só o aperto, era o modo como os olhos dele demoraram no meu, como se estivesse testando até onde eu aguentava sem desviar o olhar. Eu desviei primeiro, o coração batendo forte demais para um gesto tão simples, e ainda assim o eco daquela troca ficou pairando na sala, quente e perigoso.

— A calça atrapalhou o trabalho? — perguntou.
— Não.
— Então não vejo urgência em trocar.

A aliança ainda estava em sua mão, eu deveria ter olhado para ela.
Não olhei.

— Mais alguma coisa? — perguntei.
— Por enquanto, não.

Levantei-me, e quando alcancei a porta, ele voltou a falar:

— Rafael.
Olhei por cima do ombro.
— Espero que goste de trabalhar aqui. – E piscou o olho para mim.
Saí da sala com o coração acelerado, Caio estava encostado na parede do corredor.

— Estava me esperando?
— Coincidência.
— Você trabalha do outro lado da fábrica.
— Coincidências acontecem em todos os setores.
Passei por ele, Caio me acompanhou.
— O que seu Alyson queria?
— Saber como foi meu primeiro dia.
— De porta fechada?
— A sala tem ar-condicionado.
— E por que você saiu suando?
— Eu avisei que algumas qualificações dava para perceber olhando.
— Você fala demais.
— E você fica vermelho muito fácil.

Ele passou a mão pela minha cintura ao desviar de um carrinho que cruzava o corredor. O toque durou pouco, mas não era necessário. Naquele momento, compreendi que trabalhar no Laticínio Carneiro talvez fosse mais complicado do que minha mãe imaginava. Por motivos completamente diferentes. Nos dias seguintes, encontrei uma rotina. Acordava cedo, tomava café com minha mãe e Sônia e seguia para a fábrica. Minha mãe continuava sem gostar do meu emprego, mas parou de insistir para que eu desistisse. Em troca, eu não fazia perguntas sobre os Carneiro. Era um acordo silencioso e frágil.
Na fábrica, conquistei meu espaço rapidamente. Aprendi as rotas de entrega, os horários das coletas e o funcionamento da produção. Damião deixou de me testar e passou a pedir minha ajuda. Larissa sempre encontrava uma desculpa para almoçar na mesma mesa que eu. Caio não precisava de desculpa, em menos de duas semanas, já passávamos quase todo o tempo juntos. Ele me apresentou alguns lugares da cidade, ensinou os caminhos mais rápidos e começou a me mandar mensagens à noite por motivos cada vez menos relacionados ao trabalho. Às vezes, eram piadas, em outras, fotografias sem importância ou convites para sair. Descobri que tinha dezenove anos, um a menos que eu, embora a segurança fizesse com que parecesse mais velho.

— Você ficou decepcionado? — perguntou quando falei isso.
— Achei que tivesse uns vinte e cinco.
— Por causa da maturidade?
— Por causa da cara cansada.

Caio me deu um empurrão, a intimidade entre nós crescia através das brincadeiras. Ele tocava meus ombros, apertava meus braços e, às vezes, apoiava a mão em minha perna durante o almoço como se não percebesse. Eu percebia, mas Caio também flertava com Larissa e com outras mulheres da fábrica. Fazia comentários sobre todas, porém nunca parecia realmente interessado em nenhuma. Alyson era diferente, ele não me procurou novamente, mas eu sentia seus olhos sempre que aparecia na produção. Às vezes, passava perto demais. Em outras, fazia uma pergunta que poderia dirigir a qualquer funcionário, mas escolhia fazer a mim, nada acontecia. Ainda assim, alguma coisa estava sendo construída entre nós. Algo que não precisava de palavras. Certa noite, encontrei minha mãe e Sônia conversando sobre casas para alugar. Havia um jornal aberto sobre a mesa e três endereços circulados.

— Vão se mudar? — perguntei.
— Assim que conseguirmos um lugar — minha mãe respondeu.
Sônia fechou o jornal.
— Não precisam procurar.
— Já ficamos tempo demais — disse minha mãe.
— Duas semanas não são tempo demais.
— Você tem sua vida.
— Que vida? Meu filho está estudando na capital e essa casa passa a maior parte do ano vazia. Desde que vocês chegaram, tenho com quem tomar café e brigar pela televisão.
Minha mãe tentou protestar, mas Sônia levantou a mão.
— Se a preocupação é dinheiro, ajudem com as despesas. Mas não vou deixar minha irmã procurar aluguel enquanto tenho dois quartos vazios.
— Eu posso pagar parte da luz e da comida — ofereci.
Sônia olhou para minha mãe.
— Pronto. Resolvido.
— Você sempre decide tudo sozinha? — minha mãe perguntou.
— Quando espero você decidir, preciso aguardar vinte anos.

As duas se encararam, depois, minha mãe começou a rir, foi a primeira vez que a vi rir desde que chegamos a Caicó. Permanecemos na casa de Sônia. Enquanto nossa vida começava a encontrar algum equilíbrio, a cidade se preparava para a Festa de Sant’Ana. As ruas receberam bandeiras, barracas começaram a ocupar alguns espaços e o movimento aumentou. Pessoas que moravam fora voltavam para visitar a família, e os hotéis recebiam turistas. Na fábrica, a produção cresceu.

— Você escolheu a melhor época para chegar — Larissa comentou durante o almoço. — Caicó fica irreconhecível na festa.
— Minha mãe nunca falou muito sobre isso.
— Sua mãe saiu daqui querendo esquecer a cidade — Caio disse. — Não deve ter levado as lembranças boas.
Olhei para ele.
— Como sabe?
— Cidade pequena. Todo mundo percebe quando alguém volta depois de vinte anos.
Antes que eu pudesse perguntar mais, Larissa mudou de assunto:
— Você vai ao Arrastão de Sant’Ana?
— Que arrastão?
— Um trio elétrico que inventaram para o sábado — Caio explicou. — Não faz parte da programação religiosa. É uma desculpa dos comerciantes para colocar uma cantora de axé em cima de um trio eletrico e vender cerveja.

— Parece bom.
— Parece? — Larissa repetiu. — Vai ser o melhor dia da festa.
Caio aproximou a cadeira da minha.
— Vou fazer um esquenta lá em casa.
— Quem vai?
— Alguns amigos. Larissa, se ela prometer não beber tudo.
— Não prometo.
— Você pode dormir lá — Caio continuou, olhando para mim. — A casa vai estar vazia.
— E por que eu precisaria dormir?
— Porque pretendo fazer você beber até esquecer o caminho de volta.
— Isso é um convite ou uma ameaça?
— Depende do que acontecer depois.
Larissa olhou de um para o outro.
— Estou atrapalhando alguma coisa?
Caio pegou o copo.
— Está sempre.

A princípio, pensei que o arrastão seria a maior novidade daquela semana. Estava enganado. Dois dias antes da festa, um dos funcionários responsáveis pela coleta apresentou um atestado. Alyson apareceu no setor ainda cedo, procurando alguém para substituí-lo.
— Caio, você vai até a fazenda.
— Sozinho?
Os olhos de Alyson encontraram os meus.
— Leve Rafael. Ele precisa conhecer a propriedade.
Caio pegou as chaves da caminhonete.
— Sim, chefe.
Antes de sairmos, Alyson se aproximou de mim.
— A estrada tem alguns trechos ruins. Cuidado.
— Caio vai dirigir.
— Foi com você que eu falei.
O olhar dele desceu rapidamente até minha cintura.
Caio viu.
Quando entramos na caminhonete, jogou as chaves no meu colo.
— Pode dirigir.
— Alyson mandou você.
— Mas está preocupado com você.
— Está com ciúme?
Caio ligou o rádio.
— De velho casado? Tenho mais o que fazer.

Assumi o volante, durante o caminho, conversamos sobre a festa. Caio prometeu que me faria aproveitar cada dia, mesmo que precisasse me arrastar para fora de casa.

— Só quero beber e me divertir — avisei.
— Comigo, as duas coisas estão garantidas.
— Larissa vai?
— Vai. Ela está louca para ficar com você.
— Não estou interessado.
— Exigente.
— Não gosto de iludir ninguém.
Caio olhou pela janela.
— Às vezes, a pessoa sabe que está sendo iludida e aceita mesmo assim.
A frase pareceu mais séria do que o restante da conversa.
— Está falando por experiência própria?
— Estou falando da Larissa.
— Sei.
Estendi a mão para aumentar o volume do rádio.
Caio segurou meu pulso.
— Cuidado com essa mão perto da minha perna.
— Está com medo de quê?
— De você se animar.
— Não se preocupe. Não gosto dessa fruta.
— Você fala muito de fruta para quem trabalha numa fábrica de queijo.
Ele riu, quando parei a caminhonete diante de uma porteira, Caio se inclinou para alcançar o controle preso perto do painel. No movimento, colocou a mão sobre minha coxa. Em vez de retirá-la, deslizou os dedos por cima da calça até alcançar meu volume e apertou rapidamente. Meu corpo inteiro se contraiu.
— Caio!
Ele abriu a porteira eletrônica e se afastou, rindo.
— Só conferindo se estava acordado.
— Se ficar duro, a culpa é sua.
— Com essa calça, eu perceberia.
— Mais fácil eu usar em você.
Caio ergueu as sobrancelhas.
— Só se for troca-troca.
— Você não disse que não gostava dessa fruta?
— Tem coisa que a gente só prova para ter certeza.

Por alguns segundos, nenhum dos dois riu. Caio desviou os olhos primeiro.
— Anda logo, mineiro.
Atravessei a porteira, a fazenda dos Carneiro era diferente daquela onde eu havia crescido. Tudo parecia mais organizado, maior e mais impessoal. Havia máquinas novas, galpões bem conservados e funcionários uniformizados. Estacionamos perto da casa principal. Enquanto Caio conversava com um dos trabalhadores, desci para verificar a carga. Foi então que vi alguém caminhando em nossa direção. O rapaz aparentava ser mais novo do que nós. Tinha a pele clara, os cabelos negros e um rosto que parecia deslocado daquele cenário rural. Usava uma camisa leve, bermuda e óculos escuros. Quando os retirou, revelou olhos esverdeados. Durante alguns segundos, esqueci o que estava fazendo. Não era apenas bonito. Havia alguma coisa em sua presença que me desorganizou por dentro. Ele olhou primeiro para Caio, o sorriso desapareceu de seu rosto. Caio também mudou. O rapaz descontraído que havia passado o caminho inteiro me provocando fechou a expressão e cruzou os braços.

— E aí, Caio? — o desconhecido cumprimentou.
— E aí, Bê.
O apelido saiu com intimidade demais para duas pessoas que pareciam desconfortáveis uma diante da outra.
— Não sabia que você vinha hoje.
— Estou trabalhando.
— Percebi.
Os dois permaneceram se olhando como se continuassem uma conversa interrompida muito tempo antes.
Então ele voltou a atenção para mim.
— Quem é?
Caio demorou a responder.
— Rafael. Funcionário novo.
A apresentação me incomodou mais do que deveria.
O rapaz estendeu a mão.
— Bernardo Carneiro.
Ao ouvir o sobrenome, compreendi que era filho de Alyson.
Apertei sua mão.
— Prazer.
Bernardo sustentou meu olhar.
— Você não é daqui.
— Cheguei há pouco tempo.
— De onde?
— Minas.
— E já arrumou emprego com meu pai?
— Parece que sim.
Um sorriso apareceu no canto de sua boca.
— Meu pai deve ter gostado de você.
Caio interrompeu:
— A gente precisa carregar o leite.
Bernardo ignorou o comentário.
— Vai ficar para a festa?
— Vou.
— Então a gente se encontra no arrastão.
— Talvez — respondi.
— Com certeza — ele corrigiu.
Caio pegou uma das caixas com força desnecessária.
— Você não tem mais o que fazer, Bernardo?
O sorriso de Bernardo desapareceu.
— Tenho. Inclusive algumas conversas atrasadas.
Ele olhou diretamente para Caio.
O ar entre os dois ficou pesado.
— Me manda uma mensagem depois — pediu Bernardo. — Vou passar a semana em Caicó.
— Se eu tiver tempo.
— Você sempre arruma.
Bernardo voltou para a casa, acompanhei-o com os olhos até ele desaparecer.

— Fecha a boca — Caio disse.
— O quê?
— Está quase babando.
— Só estava olhando.
— Pois pare.
— Por quê?
Caio colocou outra caixa na caminhonete.
— Porque Bernardo Carneiro é problema.
— Pareceu simpático.
— Ele sempre parece.
Terminamos o trabalho quase sem conversar. Na volta, Caio permaneceu olhando para a estrada. A leveza havia desaparecido. Tentei falar sobre a festa, a fábrica e qualquer assunto que recuperasse o humor anterior, mas ele respondia apenas o necessário. O celular vibrou sobre o painel. A tela acendeu antes que Caio o pegasse.
Bernardo: A gente precisa conversar.
Caio apagou a notificação.

— Vocês eram amigos? — perguntei.
— Já fomos.
— Aconteceu alguma coisa?
— Não quero falar sobre isso.
— Ele parecia querer.
Caio virou o rosto para mim.
— Vou te dar um conselho, Rafael.
— Qual?
— Fique longe do Bernardo.
— Por quê?
— Porque ele não sabe o que quer. E quando descobre, já destruiu alguém no caminho.

Não perguntei quem Bernardo havia destruído, pela maneira como Caio falou, eu já conhecia a resposta, foi a primeira vez que ele me pediu para ficar longe de Bernardo. Deveria ter escutado. Mas avisos feitos com ciúme raramente afastam alguém. Na maioria das vezes, apenas tornam o perigo mais interessante.


Faca o seu login para poder votar neste conto.


Faca o seu login para poder recomendar esse conto para seus amigos.


Faca o seu login para adicionar esse conto como seu favorito.


Twitter Facebook



Atenção! Faca o seu login para poder comentar este conto.


Ultimos 30 Contos enviados pelo mesmo autor


273027 - [REBOT] ENTRE CAMINHOS E SEGREDOS ~ 02 O NOME CARNEIRO - Categoria: Gays - Votos: 1
272863 - [REBOT] ENTRE CAMINHOS E SEGREDOS ~ 01 A ESTRADA DE VOLTA - Categoria: Gays - Votos: 1
268536 - Bernardo [03] ~ PRIMEIRO BEIJO - Categoria: Gays - Votos: 2
268513 - BERNARDO [02] - Categoria: Gays - Votos: 2
268296 - BERNARDO [01] ~ INICIO - Categoria: Gays - Votos: 4
254050 - FORA DO ESTOQUE [12] ~ LUKE NO GRINDR - Categoria: Gays - Votos: 2
253377 - FORA DO ESTOQUE [11] ~ MOTEL COM LUCAS E FELIPE - Categoria: Gays - Votos: 3
247023 - FORA DO ESTOQUE [10] ~ DE VOLTA AO CINE REX - Categoria: Gays - Votos: 2
246960 - FORA DO ESTOQUE [09] ~ VIVENDO NA FANTASIA - Categoria: Gays - Votos: 0
246511 - FORA DO ESTOQUE [08] ~ SEXO A3 COM O BERNARDO - Categoria: Gays - Votos: 2
246373 - FORA DO ESTOQUE [07] ~ MEU SOBRINHO - Categoria: Gays - Votos: 4
246288 - FORA DO ESTOQUE [06] ~ SEXO REAL - Categoria: Gays - Votos: 5
246226 - FORA DO ESTOQUE [05] ~ NO ESCRITORIO DO GERENTE! - Categoria: Gays - Votos: 2
246026 - FORA DO ESTOQUE [04] ~ BANHEIRÃO E MOTEL - Categoria: Gays - Votos: 2
245962 - FORA DO ESTOQUE [03] ~ Obsessão Doentia - Categoria: Gays - Votos: 3
245956 - FORA DO ESTOQUE [02] ~ O PASSADO DE LUCAS GABRIEL - Categoria: Gays - Votos: 1
245863 - FORA DO ESTOQUE [01] ~ SEXO NO CINE REX - Categoria: Gays - Votos: 3
245746 - GAROTO, EU ODEIO AMAR VOCÊ ~ [90] ~ FINAL - Categoria: Gays - Votos: 2
245744 - GAROTO, EU ODEIO AMAR VOCÊ ~ [89] ~ PENULTIMO CAPITULO - Categoria: Gays - Votos: 1
245505 - GAROTO, EU ODEIO AMAR VOCÊ ~ [88] ~ EU ESCOLHO VOCÊ - Categoria: Gays - Votos: 0
245479 - GAROTO, EU ODEIO AMAR VOCÊ ~ [87] ~ 15 MINUTOS PARTE 2 - Categoria: Gays - Votos: 1
245346 - GAROTO, EU ODEIO AMAR VOCÊ ~ [86] ~ 15 MINUTOS - Categoria: Gays - Votos: 1
245147 - GAROTO, EU ODEIO AMAR VOCÊ ~ [85] ~ ACORDOS - Categoria: Gays - Votos: 1
245119 - GAROTO, EU ODEIO AMAR VOCÊ [84] ~ 2021 DESPEDIDA DE SOLTEIRO - Categoria: Gays - Votos: 1
245034 - GAROTO, EU ODEIO AMAR VOCÊ [83] ~ 2020: Perdas, Amores e Recomeços - Categoria: Gays - Votos: 0
244924 - GAROTO, EU ODEIO AMAR VOCÊ ~ [82] ~ O ANO DO RECOMEÇO - Categoria: Gays - Votos: 2
244859 - GAROTO, EU ODEIO AMAR VOCÊ ~ [81] ~ SEGUNDAS CHANCES? - Categoria: Gays - Votos: 1
244805 - GAROTO, EU ODEIO AMAR VOCÊ ~ [80] ~ A CARTA DA CHANEL - Categoria: Gays - Votos: 2
244771 - GAROTO, EU ODEIO AMAR VOCÊ [79] ~ Fechando Ciclos e Abrindo Portas - Categoria: Gays - Votos: 2
244753 - GAROTO, EU ODEIO AMAR VOCÊ ~ [78] ~ O ESPELHO - Categoria: Gays - Votos: 1

Ficha do conto

Foto Perfil contosdelukas
contosdelukas

Nome do conto:
[REBOT] ENTRE CAMINHOS E SEGREDOS ~ 03 SINAIS

Codigo do conto:
273156

Categoria:
Gays

Data da Publicação:
25/09/2026

Quant.de Votos:
1

Quant.de Fotos:
0