— Rafael, me explica o que aconteceu — disse, por fim, com uma voz firme, mas que não escondia o esforço.
— Qual é a verdade que eu descobri? — devolvi, olhando no fundo dos olhos dele, sem piscar.
Ele sustentou o olhar por um instante e depois desviou.
— Rafael... eu não sei nem por onde começar. E, sinceramente, nem sei se estamos falando da mesma coisa. — Ele passou a mão pelo rosto. — Mas eu não quero ter essa conversa aqui, dentro do carro. Prefiro um lugar mais reservado.
Ele deu a partida, o silêncio dentro daquele carro tinha um peso que eu nunca tinha sentido, nem na viagem de volta de Natal, nem nas noites de motel. Ele dirigia calado, como se ensaiasse cada frase antes de dizê-la. E eu fazia o mesmo. Tinha mil perguntas queimando na garganta, mas, ao mesmo tempo, uma pontinha de esperança teimosa me dizia que talvez fosse tudo um mal-entendido. Minha mãe tinha sido clara: o Silas nunca soube de mim, só mandou que ela sumisse e pronto. Então talvez o Alysson também não soubesse de nada. Talvez ele estivesse só assustado com a minha demissão. Talvez eu estivesse prestes a fazer a maior bobagem da minha vida, minha cabeça era um nó.
Alguns minutos depois, o carro entrou numa rua larga do centro de Caicó e parou em frente a um portão alto. A casa de dois andares do Alysson. A família Carneiro era muito rica, e eu sabia disso, mas nunca tinha parado pra juntar as peças de uma vez só: ele era dono da fábrica, tinha a fazenda principal, com as vacas e as plantações, tinha algumas lojas alugadas, tinha a propriedade em Natal onde o Bernardo e a Cláudia moravam. Mesmo assim, Alysson passava a maior parte do tempo na fazenda, e aquela casa do centro, por dentro, tinha o cheiro de lugar pouco habitado.
Era grande, bem arrumada, com um sofá imenso numa sala de decoração cara e impessoal. Me sentei na ponta, com as costas retas. O Alysson sentou na minha frente, a mesa de centro entre nós dois como uma trincheira.
— Quer beber alguma coisa? — perguntou.
— Não. Vamos acabar logo com isso.
— Me fala por que você quer sair da fábrica. O que ficou sabendo?
— Quero que o senhor fale primeiro.
— E se existir a possibilidade de não ser o mesmo assunto? De não ser a mesma coisa? — ele disse, e naquele momento percebi que ele tinha tido, durante todo o caminho, exatamente o mesmo pensamento que eu.
Aquilo me irritou mais ainda. Estávamos os dois nos defendendo, jogando xadrez com a verdade.
— Acho melhor eu ir embora, Alysson. Vai ser melhor assim.
— Espera, Rafael. A gente vai conversar, eu já disse.
Levantei. Mas antes de dar o primeiro passo, uma ideia me veio, rápida, fria.
— Fala um nome.
— Como?
— Fala um nome. O que o senhor acha que eu descobri. Aí eu digo se é a mesma coisa.
Ele ficou imóvel. Vi o pomo de adão subir e descer. Vi os olhos dele irem para o chão, para a janela, para o teto, procurando alguma coisa. Alysson pensou por um longo tempo e, por fim, falou:
— Bernardo.
Fiquei sem entender. Mas, ao mesmo tempo, entendi tudo, eu tinha aprendido a ler aquele homem. Tinha aprendido nos olhares trocados na fábrica, nas conversas na estrada, nas poucas noites em Natal. Ele demorava quando mentia. Aquele nome saiu da boca dele devagar demais, ensaiado demais, como uma carta jogada na mesa só pra ganhar tempo, e ele estava mentindo e eu sabia.
— Não tenho mais nada pra falar aqui … Vou embora.
Dei as costas e caminhei até a porta. Não cheguei a abri-la. A mão do Alysson fechou no meu braço, firme, quente, e me virou de volta.
— Silas.
O nome saiu baixo, quase um sussurro. Mas ecoou na sala inteira, fiquei parado, olhando pra ele, sem conseguir respirar. Era aquele o nome. O nome que eu tinha descoberto havia menos de vinte e quatro horas, o nome que minha mãe tinha cuspido entre lágrimas, o nome que eu tinha procurado no Facebook até de madrugada. Ele sabia. Ele sempre soube. E agora ia me explicar, claro que foi um choque. Por alguns segundos, meu corpo inteiro travou, e eu não soube se corria, se gritava ou se desabava ali mesmo.
— Então o senhor sempre soube — consegui dizer, a voz falhando. — Ele sempre soube?
— Rafael, eu não sei o que você sabe. — Ele soltou meu braço, devagar. — Mas toda história tem dois lados.
Foi a frase errada na hora errada.
— Dois lados? — A raiva me explodiu no peito, e a voz subiu antes que eu pudesse controlar. — O senhor acha que eu não vou acreditar na minha mãe? Uma mulher que largou tudo pra me criar sozinha, que dormiu sem comer pra eu comer? Me poupe, Alysson. Sinceramente, eu não quero saber de nada. Não quero saber dele, nem de ninguém da família de vocês.
— Rafael, calma. Eu vou te contar o que eu sei.
— Só me responde uma coisa. — Cheguei mais perto, o dedo quase tocando o peito dele. — O senhor sabia quem eu era desde o primeiro dia que me viu?
— Não. Eu juro pra você, não. — Ele levantou as duas mãos, num gesto quase de rendição. — Mas, quando você foi contratado, eu pedi pra olhar os seus documentos. Vi o nome da sua mãe. Vi que você era de Minas. E você é muito parecido com o Silas, Rafael. Tão parecido que me deu um calafrio no primeiro dia. Eu juntei os pontos. Só não falei nada porque fiquei analisando. Não sabia se você sabia, se queria alguma aproximação, se estava planejando alguma coisa.
— Planejando alguma coisa? — repeti, cortando ele, sem acreditar. — O senhor achou o quê? Que eu ia vir atrás de dinheiro?
— Calma, estou falando a verdade, me deixa terminar. — A voz dele tinha endurecido, mas ainda tremia por baixo. — Foi só depois daquele jantar lá em casa, quando você contou que seu pai tinha morrido, que eu entendi. Você não fazia a menor ideia de quem eu era, nem de quem era a minha família.
— Pronto. — Soltei uma risada seca, amarga. — Agora que o senhor já sabe que eu não vou extorquir dinheiro da sua família, eu já posso ir embora. Não quero mais saber de nada, nem do senhor, nem de ninguém. Só quero ter a minha vida normal, como eu sempre tive.
— Rafael, eu ainda nem comecei a contar.
— Eu não quero saber, Alysson! — gritei, e minha voz rachou no meio. — O senhor tem noção do que aconteceu? O senhor me fodeu sabendo que eu era seu sobrinho? Seu sangue? Isso é normal pra você?
O silêncio que veio depois foi pior do que qualquer grito. Alysson baixou os olhos, e por um instante, só um instante, eu vi o homem de cinquenta anos desaparecer e sobrar um garoto pego em falta.
— Eu sabia — admitiu, baixinho. — Mas existem várias diferenças que você não conhece. O meu lance com homens sempre foi tesão como te falei, foi coisa de momento, e na minha família, isso nunca foi tão incomum quanto você imagina.
Meu corpo gelou.
— Na sua família? — perguntei, assustado.
— Rafael, vamos por etapa. Por favor.
— Eu acho melhor eu ir embora.
— O Silas não é meu irmão de sangue.
A frase me parou na hora, com a mão já na maçaneta.
— Se isso ajuda você a ficar, saiba disso — ele continuou, mais rápido agora, como quem joga a última carta. — Mas essa é outra história, complicada, que eu não vou explicar agora. Então, se o seu remorso é por ter ido pra cama com o seu "tio" — ele fez aspas com os dedos, num gesto cansado — de sangue, pode ficar tranquilo. Agora senta. Eu vou te contar o lado dessa história que eu conheço.
Confesso que fiquei um pouco aliviado ao saber que o Alysson não era meu tio de sangue. E confesso também que fiquei curioso, de um jeito quase doente, com aquela revelação de mais uma camada naquela família que parecia feita só de camadas. Larguei a maçaneta. Voltei até o sofá e me sentei devagar, o coração ainda disparado, se era pra ouvir, que fosse agora. O lado do Silas, o tão esperado lado da história que eu nem sabia se queria saber.
Alysson respirou fundo e passou as duas mãos pelo rosto, como quem tenta ganhar coragem. Quando falou, a voz saiu mais baixa, mais lenta, sem nada do homem que dava ordens numa sala de reunião.
— Rafael, eu não sei nem por onde começar. Porque essa parte da história não diz respeito a mim. Diz respeito ao seu pai.
— Eu não tenho pai — cortei.
Ele aceitou o golpe sem reagir.
— Tudo bem. Desculpa. Então vou dizer como é. — Ele engoliu em seco. — Eu só soube o que de fato aconteceu anos depois. Se eu soubesse de tudo na época, eu não teria deixado meu irmão tomar as decisões que tomou.
Me ajeitei no sofá, os braços cruzados com força, como se pudesse me proteger de uma coisa que ainda nem tinha chegado.
— Faz alguns anos, o Silas teve uma crise muito grande. Uma depressão que ninguém via crescendo, até que um dia não dava mais pra esconder. Precisou ficar internado um tempo. E foi nesse período, dentro daquele quarto de hospital, que ele me contou tudo. Tudo que tinha escondido a vida inteira. Como namorou sua mãe. Que pediu pra ela abortar. Que trocou ela e o filho pela vida que ele queria, a Medicina.
Cada palavra caía dentro de mim como uma pedra. Eu já sabia de tudo aquilo, minha mãe tinha me contado chorando. Mas ouvir pela boca de outra pessoa, de alguém do outro lado, tornava tudo mais real, mais sujo.
— Anos depois do término, ele tentou procurar notícias da sua mãe. Queria se aproximar, ajudar de alguma forma. Já estava casado com a Ivete, que estava grávida da Sofia, e isso mexeu com ele. Ele queria reparar o erro. Foi aí que descobriu que a Tereza morava em Teófilo Otoni. E que tinha um filho.
Ele parou um segundo.
— Foi só então que ele entendeu que sua mãe não tinha abortado. Que tinha mantido a gravidez, sozinha, contra tudo. Isso tirou o sono dele. Ele não sabia o que fazer. Por um lado, estava feliz, porque tinha um filho. Por outro, estava morrendo de medo.
Senti a mandíbula travar.
— Ele viajou até lá. Decidido a falar com a sua mãe, a achar uma solução. Ficou alguns dias na cidade, meio que investigando, descobrindo as coisas. Me contou que te viu pela primeira vez saindo da escola.
Alguma coisa se partiu dentro de mim, bem fundo, num lugar que eu não sabia que existia.
— Ele disse que foi um dos dias mais felizes da vida dele. E que chegou a falar com você uma vez, na cidade, algo rápido, uma pergunta qualquer. Você era novo, devia achar que era só mais uma pessoa na rua.
Eu não lembrava. Foi a primeira coisa que pensei, e foi a que mais doeu: eu não lembrava. Em algum dia da minha infância, o meu pai tinha parado na minha frente, tinha ouvido a minha voz, e eu tinha seguido caminho sem saber.
— A verdade, Rafael, é que ele foi covarde. Não teve coragem de falar com a sua mãe. Não teve coragem de falar com você. Teve medo. Decidiu deixar tudo como estava. A Tereza nunca o tinha procurado, então ele resolveu deixar essa parte no passado. Mas pelo menos uma vez por ano ele viajava e ficava escondido, te vendo crescer de longe. Um encontro anual.
Fechei os olhos. Eu não queria imaginar. Mas imaginei, sem poder evitar: um homem de longe, dentro de um carro, ou na rua, na saída da escola, na praça, na festa junina, me olhando como quem olha uma coisa que não tem direito de tocar.
— Numa dessas viagens, ele não aguentou. A culpa pesou demais. Ele se sentiu um lixo por nunca ter tido coragem de falar com você nem com ela. E já vinha com outros problemas na família, na profissão... foi se acumulando. — A voz do Alysson falhou. — Então ele tentou se matar, mas graças a Deus a Ivete chegou a tempo. Depois, ele ficou uns meses internado. E, desde que teve alta, decidiu deixar pra lá. Sabia que nada que fizesse ia dar certo. Colocou um ponto final.
Ele olhou pro chão.
— O Silas nunca mais foi o mesmo. Perdeu o brilho, o sorriso. A culpa ainda carrega ele nas costas todo dia. Ele tinha notícias suas, não sei como. Soube quando vocês se mudaram de Teófilo Otoni pra Caicó, e me contou. Pediu pra eu ficar de olho, "pastorar" o movimento.
Aquela palavra ficou girando no ar.
— Eu me senti culpado por não ajudar. Mas o Silas é cabeça dura. Tentei aconselhar ele a procurar a Tereza. Falei diversas vezes, até desistir. Ele não ia mudar. Eu sei que isso não inocenta ele. Sei que não apaga nada. Mas queria que você visse o outro lado da história.
Eu dei uma risada. Uma risada pequena, seca, patética, que me surpreendeu até a mim mesmo.
— Nossa. Eu já não queria conhecer ele, e agora, depois disso, tenho plena certeza de que quero ele longe da minha vida, como sempre esteve. Então ele sempre soube? E nunca nem me procurou? Nunca teve coragem de pedir desculpa pra minha mãe? Ele é um ser humano desprezível.
— Rafael, não é assim.
— Não é assim, Alysson? — Me levantei, a voz subindo sem controle. — Esse cara me dá nojo. Ele não passa de um covarde de merda.
— Eu entendo todo o seu ódio. Mas, infelizmente, é isso. Como eu disse, é uma história que não é minha.
— Tudo bem. Posso ir embora?
— Rafael, eu não quero que você largue a fábrica. Não quero você distante.
Parei, com a mão no encosto do sofá. Alguma coisa naquela frase soou errada, ou talvez só soasse certa demais.
— Eu não faço parte da sua família. Não quero nada de vocês. Pode dizer isso pro seu irmão. Porque, pelo que eu entendi nas entrelinhas, a maior preocupação dele deve ser essa, não é? Mandar o senhor pastorar os movimentos do filho que ele não teve coragem de criar.
— Rafael, não é isso. Para.
— O convite pra morar em Natal, a faculdade que o senhor ia pagar, a viagem só nós dois... tudo isso foi coisa dele? Foi a mando dele?
Alysson abriu a boca. Por uma fração de segundo, só uma, vi alguma coisa passar no rosto dele, rápida demais pra eu nomear. Depois, a máscara voltou.
— Não. Eu te juro que não.
Eu queria acreditar. Não consegui.
— Alysson, pra mim já deu essa história toda. Eu não quero saber de ninguém dessa família. Nem de ninguém ligado a ele. Obrigado pela oportunidade que o senhor me deu, mas eu vou seguir minha vida sem ele, sem o senhor, só eu e a minha mãe, como sempre fomos. A diferença é que, hoje, eu sei quem é o cara que usou a minha mãe e sumiu. E ele não passa de um covarde, um rico mimado e egoísta. Eu quero distância. Adeus, Sr. Alysson.
Peguei a mochila e saí, sem olhar pra trás. Ele não me seguiu. A porta bateu atrás de mim com um estalo seco, e o sol de Caicó caiu em cima do meu rosto como um tapa. Caminhei sem rumo por algumas ruas, sem ver nada, sem ouvir nada. Foi só quando cheguei na praça, e me sentei num banco debaixo de uma árvore, que o corpo todo começou a tremer. Eu tinha passado a vida inteira construindo um ódio simples. Era um ódio bom, limpo, fácil de carregar: meu pai era um canalha que me largou, e pronto. Dava pra viver com isso. Dava pra dormir com isso. Mas agora aquele ódio tinha rachaduras, e por elas entravam coisas que eu não queria sentir. Um homem que me viu sair da escola. Um homem que, uma vez por ano, atravessava o país só pra me olhar de longe.
Eu pensei em todos os meus aniversários. Nos dias de formatura, nas festas da escola, em todas as vezes que olhei pra plateia procurando um rosto que não estava ali. E se ele estava? E se, em alguma daquelas vezes, ele estava atrás de uma coluna, num canto escuro, a dois metros de mim, chorando sem fazer barulho? E eu ali, sozinho no meio de todo mundo, sem saber que alguém “me amava” do jeito mais covarde possível? Não, eu não ia sentir pena. Eu me recusava. Não ia dar a ele aquele alívio. Quem escolhe olhar de longe escolhe não ser pai, e ponto. Amor que não chega perto não é amor, é só remorso com o nome trocado. Eu repetia isso pra mim, em voz baixa, como uma reza.
Mas a verdade é que ouvir tudo aquilo me deixou com um tipo de raiva que não tinha onde pousar. Odiar um monstro é fácil. Odiar um homem quebrado, que também sofreu, que também chorou, é uma outra coisa. É uma raiva que não alivia. Fica ali, azeda, no fundo da boca. Pensei na minha mãe, dormindo na casa da minha tia, sem saber que o homem que a destruiu também se destruiu. Pensei no atlas do Sr. André, nas páginas coladas com fita. Pensei na Sofia, com a medalha na mão, sem fazer ideia de que o pai dela guardava um filho escondido no peito. E pensei, sem conseguir evitar, na criança que talvez estivesse crescendo na barriga da Letícia.
Foi ali, naquele banco, com o suor escorrendo pelas costas e os olhos ardendo, que eu fiz um juramento silencioso. Não importava de quem fosse aquele filho. Eu ia ser o pai que apareceu. Eu ia estar na plateia, na porta da escola, na beira da cama. Eu ia olhar de perto, até quando doesse. Nunca, em hipótese nenhuma, eu ia ser um homem que ama escondido. Porque agora eu sabia o preço disso. E o preço é alto demais pra quem é amado e nunca soube. Fiquei ali vendo o tempo passar, e depois me levantei, limpei o rosto com a barra da camisa e fui pra casa. Era hora de voltar pra minha mãe, pra minha vida de antes, pro mundo pequeno e seguro que eu conhecia. O que eu ainda não sabia era que aquele mundo já tinha deixado de existir