[REBOT] ENTRE CAMINHOS E SEGREDOS ~ 13 SONHOS E PLANOS



Era inegável que eu desejava o senhor André. E ter transado com o Alysson imaginando que era ele quem me possuía foi uma sensação que eu nunca vou saber descrever direito, um tesão que não cabia só no corpo, que parecia alimentar alguma coisa muito mais antiga em mim, lá no fundo, desde a época em que eu ainda tava aprendendo a entender meus próprios desejos. Foi quase como reencontrar a primeira vez que percebi o que eu queria de verdade, só que agora, anos depois, com um corpo adulto em cima do meu, fingindo pra mim mesmo que era outro rosto, outra boca, outra mão.
É engraçado como o desejo funciona assim, por camadas. A gente pode querer alguém de verdade, o calor da pele, o peso do corpo, o jeito que certas mãos sabem exatamente onde tocar, e ainda assim, descobrir que esse querer carrega dentro dele um querer ainda maior, guardado, represado, esperando qualquer brecha pra escapar. Foi isso que aconteceu comigo naquele motel de beira de estrada: o corpo do Alysson me dando prazer de verdade, enquanto a minha cabeça insistia em trocar o rosto por outro, o rosto do André, que eu nunca tinha tocado, nunca tinha beijado, mas que já morava em algum canto da minha imaginação havia mais tempo do que eu queria admitir.
Durante os dois dias que se seguiram, conseguimos resolver tudo. O Sr. Alysson fechou o negócio com a imobiliária e já começou a desenhar o processo de montar a fábrica em Natal, um processo que ainda levaria um bom tempo até funcionar de verdade, cheio de licença, reforma e contratação. Mas foi na última noite que eu entendi o real motivo de ele ter me chamado para aquela viagem. Claro que, nos intervalos livres, a gente transou várias vezes, de várias formas, enquanto comemorávamos o negócio fechado, depois de um sexo demorado e bom, que o Alysson finalmente falou o que vinha guardando.


— Sabe por que te trouxe aqui? — perguntou, ainda deitado, a respiração se acalmando.
— Porque queria me foder? — respondi, meio de brincadeira, mordendo o canto do lábio.
Ele riu, um riso baixo, satisfeito.
— Esse é um dos motivos. Mas eu tenho planos pra você, Rafael. — A voz dele mudou de tom, ficou mais séria, quase como num escritório. — Sou uma pessoa boa, e quero te ajudar de verdade. Quando a fábrica estiver funcionando, vou precisar de alguém de confiança aqui em Natal. E você, no pouco tempo que a gente trabalha junto, já mostrou que é um rapaz íntegro, determinado. Além disso, aqui você vai ter chance de estudar, talvez até fazer um cursinho preparatório pro Enem.
— Nossa, Sr. Alysson... — engoli em seco, sem saber bem o que dizer. — Eu nem me imagino morando aqui, na capital.
— Pois comece a se imaginar — ele disse, com um sorriso de quem já tinha decidido tudo sozinho. — Porque seus dias em Caicó estão contados.
— Sobre os cursos... medicina sempre foi meu sonho. Tô estudando pro Enem, mas sei que é um curso difícil de entrar. Com certeza, se eu vier morar aqui, vou ter acesso a cursinhos bem melhores do que os que tenho lá.
— Sei que seu sonho é medicina — ele continuou, mais cauteloso agora. — Mas, se você preferir administração, contábeis, ou qualquer outro curso, eu faço questão de pagar. Porque aí você estaria, digamos, "trabalhando" pra mim, e como eu não tenho nenhum hospital, ficaria estranho demais eu bancar uma faculdade de medicina pra você. Minha esposa e meu filho iam achar esquisito.
Fiquei em silêncio por um momento, sentindo o peso daquilo, a generosidade misturada com o cálculo, tudo no mesmo pacote.


— Obrigado... — falei, por fim, e depois, juntando coragem: — Posso te fazer uma pergunta?
— Claro.
— Você sempre fica com homens? Como é esse lance? Pergunto porque sei que você é casado, com filho e tudo.
Ele se ajeitou na cama, cruzando os braços atrás da cabeça, parecendo gostar da pergunta.


— Eu gosto de curtir uma putaria com homem de vez em quando. Não é sempre, e sou discreto, em Caicó, fico com pouca gente, quase ninguém, depende muito do momento. — Ele me olhou, os olhos descendo pelo meu corpo. — Fiquei vidrado em você desde a primeira vez que te vi. Queria te possuir, te foder por inteiro, do jeito que a gente fez esses dias.
— O fato de eu ser o... "namorado" do seu filho não te faz sentir remorso, ou alguma coisa parecida? A gente nunca namorou de verdade, mas acho que você entendeu o que eu quis dizer.
— Eu não vejo por esse lado, Rafael. — A voz dele saiu firme, sem hesitação nenhuma. — Pra mim, isso aqui é putaria, é sexo, é entrega. O fato de você transar com meu filho não muda nada pra mim, eu enxergo como sexo, só isso. Eu não vou largar a Cláudia por você, nem nada parecido, se é que você me entende. O lance é que transar com homem é bom. Um carinha novo como você, homem chupam melhor que mulher, não tem toda aquela frescura. Então, pra mim, é uma coisa mais carnal do que sentimental. Não vejo problema nenhum. Claro que me dá um tesão a mais saber que você fica com meu filho, que já transou com ele, isso me excita, eu admito, mas não carrego peso na consciência por causa disso. O Bernardo, é claro, jamais admitiria uma coisa dessas. Acho que ele ainda não tem a maturidade que eu tenho.
— Entendi... — falei, devagar, ainda processando cada palavra. — Acho que tô começando a entender. Eu nunca tive uma vida gay "ativa" como venho tendo desde que cheguei em Caicó. E tô gostando. Tô me sentindo mais livre, eu diria.


Ele sorriu, satisfeito, e se aproximou mais um pouco, ainda trocamos algumas confissões naquela noite. O Alysson me contou alguns casos antigos, eu contei alguns fetiches meus, e ele voltou a falar dos planos pra mim com calma, com detalhe, quase como se estivesse me ensinando coisas básicas da vida que eu nunca tinha tido oportunidade de aprender com ninguém. Contei a ele sobre a conversa que eu tinha tido com o Bernardo, sobre o jeito que ele agiu, sobre como parecia que ele só queria sexo comigo, nada além disso. O Alysson me puxou pra um beijo devagar, e disse, baixinho, contra a minha boca:


— Eu sei muito bem por que meu filho só quer foder com você, você é um puto de um gostoso Rafael.


Chegamos de Natal e eu já fui direto pra fábrica. Tinha acontecido um problema, e o Alysson seguiu direto pra lá antes mesmo de passar em casa, me dizendo que, depois de resolver aquilo, eu podia tirar uns dias de folga. Quando chegamos, descobrimos qual era o problema. Um mercado de outra cidade tinha concordado em fazer uma promoção com os produtos da Carneiro, mas o material de divulgação que o escritório enviou voltou cheio de críticas. Segundo o gerente, o cartaz estava confuso, os preços pequenos demais, as embalagens com cara antiga.
O Alysson reuniu o encarregado e dois funcionários administrativos no escritório. Eu estava ali porque tinha participado do contato com o mercado. O Caio entrou só pra entregar umas notas fiscais, mas parou diante da mesa quando viu o cartaz rejeitado largado ali. Era uma folha carregada de informação, fotografias pequenas dos produtos, tipos de letra diferentes brigando por espaço.


— Isso tá feio — ele comentou.
Todo mundo olhou pra ele.


— Obrigado pela delicadeza, Caio — respondeu o encarregado.
— Desculpa, mas tá. Tem tanta coisa que a pessoa nem sabe pra onde olhar.
— Você entende de divulgação agora? — perguntou um dos funcionários.
— Não precisa entender muito pra perceber que ninguém vai parar pra ler isso.


O Alysson ficou calado, observando, o Caio se aproximou da mesa e apontou pro papel.


— O nome da fábrica quase não aparece. A foto do queijo tá escura e colocaram cinco preços do mesmo tamanho. Se tudo chama atenção, nada chama atenção.


— E o que você faria? — o Alysson perguntou.
O Caio pareceu surpreso por estar sendo levado a sério.


— Colocaria uma foto grande do produto principal, o nome da promoção e só o preço que a gente realmente quer destacar. O resto fica menor.
— Só isso?
— Também mudaria a frase.
O Alysson pegou o cartaz.
— "Qualidade e tradição para sua família." O que tem de errado?
— Nada. Esse é o problema.
Alguns dos presentes riram. O Caio ficou um pouco nervoso, mas continuou:


— Todo mundo usa "tradição", "qualidade", "família". Parece propaganda de qualquer coisa. Podia ser queijo, sabão ou funerária.
Dessa vez, até o Alysson sorriu.
— E qual frase você usaria?
O Caio olhou pras fotografias.
— "O sabor do Seridó na sua mesa."
O escritório ficou em silêncio.
— É simples — ele completou. — A pessoa sabe o que é, de onde vem, e entende que tá levando uma coisa da nossa região.
O Alysson se encostou na cadeira.
— Você já trabalhou com isso?
— Não profissionalmente. Já fiz uns cartazes de festa, convite, umas artes pra um primo meu. Ele se mete com política e sempre precisa de alguém pra ajeitar essas coisas.
— Sabe mexer em programa de computador?
— Sei mexer um pouco no CorelDRAW. Também sei criar página no Facebook.
— A fábrica já tem uma página.
O Caio fez uma cara desconfiada.
— Tem, mas parece que morreu em 2012.
Tive que segurar o riso.
O Alysson cruzou os braços.
— Faça uma proposta.
— Como assim?
— Pega esse material e mostra como você faria. Se ficar melhor, a gente manda pro mercado.
O Caio olhou pra mim, como se precisasse confirmar que tinha entendido direito.
— Posso fazer hoje à noite.
— Não precisa ter pressa. Quero bem-feito.
— Amanhã cedo tá na sua mesa.
Ao sair do escritório, o Caio parecia outra pessoa. O desconforto dos últimos dias tinha sumido, substituído por uma energia que eu ainda não conhecia nele.
— Você sabe mesmo fazer isso? — perguntei.
— Agora vou ter que saber.
— Falou com tanta certeza que achei que você fosse especialista.
— Publicidade é metade ideia, metade convencer os outros de que você sabe o que tá fazendo.
— E você pretende fazer o quê agora?
— Vou passar na casa do meu primo. Ele tem computador e uns programas. Depois refaço tudo.
— Quer ajuda?
O Caio parou e me olhou.
— Você entende de design?
— Não.
— Sabe mexer nesses programas?
— Também não.
— Então pode levar alguma coisa pra eu comer.
Sorri.
— Isso eu sei fazer.
Naquela noite, fui até a casa do primo do Caio com uns sanduíches que a tia Sônia tinha preparado. Encontrei ele na frente do computador, testando cor, escolhendo foto, mudando tamanho de letra. Nunca tinha visto ele tão concentrado.
O Caio, que vivia fazendo brincadeira e parecia levar pouca coisa a sério, analisava cada detalhe ali como se fosse a tarefa mais importante do mundo.
— O que acha? — perguntou.
Na tela, tinha uma foto grande de um queijo sendo cortado. Acima, o nome da fábrica aparecia com clareza. No centro, a frase:
O SABOR DO SERIDÓ NA SUA MESA.
— Parece profissional.
— Tá falando sério ou porque eu trouxe comida?
— Tô falando sério.
— Ainda quero melhorar a embalagem.
— A embalagem também?
— Olha isso, Rafael. Tem informação demais, e o desenho parece coisa da época do meu avô. Se a fábrica quiser vender pra outros estados um dia, precisa ter uma cara que as pessoas reconheçam.
— Você já tá pensando em outros estados?
— Por que não?
O Caio ampliou o desenho na tela.
— Um produto pode ser ótimo, mas, se ninguém desejar antes de experimentar, ele vai ficar parado na prateleira. Primeiro a gente vende uma ideia. Depois o queijo prova que valeu a pena.
Fiquei observando ele, até aquele momento, eu pensava no Caio como o rapaz divertido da fábrica, o amigo que me apresentou a cidade, o homem com quem eu descobri desejos que nem sabia nomear direito ainda. Naquela noite, enxerguei outra coisa. O Caio tinha ambição. Não a ambição de possuir pessoas essa eu já conhecia, mas a de construir um lugar pra si no mundo.


— Você devia estudar isso — falei.
— Isso o quê?
— Publicidade.
Ele riu.
— Faculdade é cara.
— Tem bolsa. Vestibular. Você pode tentar.
— Agora você quer que todo mundo estude porque sonha em ser médico?
— Quero que você perceba que você é bom nisso.
O Caio ficou quieto, olhando pro cartaz.
— Já pensei algumas vezes — confessou. — Meu primo diz que eu levo jeito pra campanha política. Sei criar frase, observar o que as pessoas querem ouvir...
— Isso pode ser perigoso.
— Ou lucrativo.
— Principalmente perigoso.
Ele sorriu.
— Primeiro vou tentar vender queijo. Depois penso em vender candidato.


Na manhã seguinte, o Alysson aprovou o material sem fazer nenhuma alteração. O mercado fez a promoção no fim de semana, e os produtos enviados esgotaram antes do previsto. Na segunda-feira, o Alysson chamou o Caio de novo ao escritório.
— O gerente quer repetir mês que vem — informou. — E elogiou o cartaz.
O Caio tentou esconder a satisfação.
— Que bom.
— A partir de agora, quando o escritório preparar algum material, quero que você dê uma olhada antes de enviarmos.
— Eu?
— Você. Evidentemente, sem deixar suas outras obrigações de lado.
— Claro.
— E vamos conversar sobre pagar alguma coisa a mais pelo trabalho.
O Caio saiu do escritório tentando manter a postura. Assim que a porta se fechou, segurou nos meus ombros.


— Ele vai me pagar!
— Eu ouvi.
— Por uma coisa que eu fiz no computador!
— Também ouvi essa parte.
— Você entende o que isso significa?
— Que agora você pode comprar os próprios sanduíches.
Ele me empurrou de leve, rindo.


— Significa que talvez eu consiga fazer isso de verdade.


O brilho nos olhos dele era diferente de tudo que eu já tinha visto quando ele falava de festa, de sexo, de qualquer outra aventura daquelas. Naquele momento, o Caio não precisava de mim, do Bernardo, nem da aprovação de ninguém pra existir. Ele tinha encontrado uma porta. E pretendia atravessar ela.
Três semanas se passaram, e duas coisas aconteceram que marcaram profundamente minha vida, digo isso porque vieram uma seguida da outra, quase sem me dar tempo de respirar entre elas. Mas vamos por etapas.
Eu não tinha contado a ninguém sobre os planos do Alysson de me levar pra trabalhar na fábrica de Natal. Resolvi guardar só pra mim até ter certeza plena de que ia acontecer. Mas numa noite em que estávamos em casa, pedimos pizza, e enquanto comia junto com minha mãe e minha tia Sônia, resolvi soltar o assunto.


— Mãe, talvez eu tenha a oportunidade de a gente ir morar em Natal. O que a senhora acha?
Ela parou o garfo no ar, o rosto mudando na hora.
— Hã? Como assim, meu filho?
— O Sr. Alysson comprou aquela fábrica que a gente foi ver. E ele quer que eu trabalhe lá. Disse que pode me ajudar com meus estudos também. Basicamente, seria mudar pra lá.
Minha mãe largou o garfo no prato, o barulho soando mais alto do que devia naquele silêncio repentino.
— Carlos Rafael, eu já te disse que quero você longe desse povo. Desses Carneiro. — A voz dela saiu tensa, mais tensa do que eu esperava pra um assunto de trabalho. — Onde já se viu você ir morar em Natal, trabalhar na fábrica dele? Você nem tem três meses de carteira assinada e o Alysson já confia tanto assim em você?
— Mãe, eu sou responsável. E o Alysson confia em mim, sim. Qual é o problema?
— O problema, Rafael, é que ele é um Carneiro. Eu não gosto desse povo.
Alguma coisa na forma como ela falou aquilo, não com raiva de patrão explorador, mas com um peso mais antigo, mais pessoal — me fez sentir que tinha algo ali que eu não estava enxergando. Foi minha tia Sônia quem quebrou aquele silêncio esquisito que se formou na mesa.
— Irmã, por que você não conta a verdade pro Rafael? Vai ser melhor ele saber por você do que por outra pessoa.
— Como assim? — perguntei, olhando de uma pra outra, o coração já começando a acelerar sem eu entender direito o motivo.
— Vou deixar vocês conversarem — minha tia disse, se levantando da mesa, evitando meu olhar. — Siga meus conselhos, irmã.
E saiu, me deixando sozinho com minha mãe, eu sabia, naquele instante exato, que a hora da verdade finalmente tinha chegado. O verdadeiro motivo e talvez a origem que eu mais temia de quem era o meu pai, e qual a história real por trás de tudo aquilo que vinha acontecendo comigo desde que pisei naquela cidade pela primeira vez. Minha mãe respirou fundo, olhou pra mesa, pra pizza esfriando, pra qualquer lugar que não fosse meu rosto.
— Rafael... — começou, a voz já tremendo antes mesmo da primeira frase inteira.


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Ficha do conto

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Nome do conto:
[REBOT] ENTRE CAMINHOS E SEGREDOS ~ 13 SONHOS E PLANOS

Codigo do conto:
274127

Categoria:
Gays

Data da Publicação:
08/10/2026

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