[REBOT] ENTRE CAMINHOS E SEGREDOS ~ 04 ~ CONVERSAS



Bernardo me encontrou antes que eu decidisse se queria ser encontrado, na noite seguinte à nossa visita à fazenda, eu estava deitado no quarto quando recebi uma solicitação de amizade no Facebook. Reconheci imediatamente a fotografia: os cabelos negros, os olhos esverdeados e aquele sorriso seguro de quem nunca precisava pedir licença para entrar na vida de alguém.Fiquei alguns segundos olhando para a tela, e aceitei. A mensagem chegou quase no mesmo instante:
Bernardo: Caio sempre manda as pessoas ficarem longe de mim?
Demorei a responder.
Rafael: Só as pessoas que ele conhece há duas semanas.
Bernardo: Então ele está mais preocupado do que deveria.
Rafael: Preocupado comigo ou com você?
Os três pontos indicando que ele digitava apareceram e desapareceram algumas vezes.
Bernardo: Pergunta a ele.
Rafael: Perguntei. Ele não respondeu.
Bernardo: Caio nunca responde quando a verdade deixa ele desconfortável.
Havia alguma coisa estranha naquela conversa. Bernardo parecia falar comigo, mas cada palavra era destinada também a Caio.
Rafael: Como encontrou meu perfil?
Bernardo: Caicó é pequena e você não é difícil de encontrar.
Rafael: Isso foi um elogio?
Bernardo: Você quer que seja?
Sorri sozinho.
Rafael: Ainda não decidi.
Bernardo: Decide até sábado. A gente se vê no arrastão.

Antes que eu respondesse, ele ficou offline, passei alguns minutos observando sua fotografia. Bernardo estava numa praia, usando óculos escuros e sorrindo para alguém fora da imagem. Parecia pertencer a uma vida diferente da minha. Uma vida de viagens, universidade e escolhas que nunca dependeram do preço de uma passagem ou da necessidade de trabalhar no dia seguinte, mesmo assim, alguma coisa nele me atraía. Talvez justamente a distância. No outro dia, Caio percebeu que havia algo diferente antes mesmo do almoço. Eu estava perto da área de carregamento, conferindo uma mensagem de Bernardo, quando ele surgiu atrás de mim.

— Está sorrindo para quem?
Bloqueei o celular.
— Para ninguém.
— Ninguém manda muita mensagem.
— E você está curioso demais.
Caio estendeu a mão.
— Deixa eu ver.
Guardei o aparelho no bolso.
— Não.
O sorriso dele diminuiu.
— É Bernardo?
Não respondi, Caio então soltou uma risada sem humor.
— Vocês se conhecem há cinco minutos.
— Tempo suficiente para ele descobrir meu nome.
— Ele faz isso.
— Isso o quê?
— Se interessa por alguma coisa só porque alguém pediu que não tocasse.
Aproximei-me um pouco.
— Você pediu para ele não tocar em mim?
Caio desviou os olhos.
— Estou falando de maneira geral.
— Claro.
Passei por ele, mas Caio segurou meu braço.
— Rafael, estou falando sério.
— Eu também. Se existe algum motivo para eu ficar longe dele, conte.
— Nem tudo precisa de explicação.
— Precisa quando você quer decidir com quem eu posso conversar.
Ele soltou meu braço.
— Faça o que quiser.
— Pretendo.

Trabalhamos o restante da manhã quase sem trocar palavras, no refeitório, Caio sentou do outro lado da mesa, em vez de ocupar o lugar ao meu lado. Larissa percebeu a mudança imediatamente.

— Vocês brigaram?
— Não — respondemos ao mesmo tempo.
Ela olhou de um para o outro.
— Parecem um casal.
Caio quase engasgou com a comida.
— Deus me livre.
— Também não precisa se ofender — provoquei.
— Não me ofendi.
— Parece que sim.
Larissa começou a rir, Caio levantou-se com o prato ainda pela metade.
— Perdi a fome.

Acompanhei-o com os olhos até sair, Larissa se inclinou sobre a mesa.
— O que você fez?
— Conversei com Bernardo.
— Filho de Alyson?
— Você conhece?
— Todo mundo conhece. Ele estudou aqui antes de ir para a capital.
— E Caio?
— O que tem?
— Eles eram próximos?
Larissa pensou por alguns segundos.
— Eram inseparáveis. Estudaram juntos durante anos. Depois Bernardo foi embora, conheceu outras pessoas e os dois se afastaram. Coisa normal.
Coisa normal, para Larissa, provavelmente eram dois amigos de infância que haviam crescido, seguindo caminhos diferentes e perdido o contato. Uma história repetida em qualquer cidade. Mas quem aprende a desejar outro homem num lugar onde certos desejos precisam permanecer escondidos também aprende uma segunda linguagem. Uma linguagem feita de pausas, desvios e gestos que parecem insignificantes para os outros. Eu conhecia aquela linguagem. Conhecia o excesso de brincadeiras sobre mulheres. Os toques disfarçados de provocação. A raiva desproporcional quando alguém se aproximava demais. A necessidade de diminuir aquilo que, em segredo, tinha sido importante. Para quem estava do lado de fora, Caio e Bernardo eram apenas dois antigos amigos que haviam se afastado. Para mim, o silêncio entre eles tinha a intimidade de um término. Não precisava saber exatamente o que havia acontecido para compreender que existira alguma coisa. Eu apenas ainda não sabia quanto.

No sábado, cheguei à casa de Caio pouco depois das cinco da tarde. Levava uma mochila com uma muda de roupa, uma toalha e tudo o que precisaria para dormir lá. A música já estava alta, e algumas pessoas bebiam na calçada. Larissa conversava com dois rapazes da fábrica. Outros rostos eu conhecia apenas de vista. Caio abriu a porta.
Usava uma camisa preta ajustada ao corpo, bermuda e um perfume forte que senti antes mesmo de entrar.

— Pensei que não viesse.
— Eu disse que vinha.
— Você também disse que faria o que quisesse.
— E eu quis vir.
Ele abriu espaço para que eu passasse.
— Sua mochila?
— Onde deixo?
— No meu quarto.

Segui Caio pelo corredor. A casa estava vazia além dos convidados. Entramos no quarto, e ele fechou parcialmente a porta para diminuir o barulho. Coloquei a mochila perto da cama, quando me virei, Caio estava me observando.

— Que foi?
— Nada.
— Você sempre olha desse jeito quando não é nada?

Ele aproximou-se, eu havia escolhido uma camisa vinho que marcava meus ombros e uma calça mais escura. Caio passou os dedos pela gola, ajeitando uma dobra que não existia.

— Está arrumado demais para quem só quer beber.
— Não posso ficar bonito?
— Pode. A questão é para quem.
— Talvez para mim mesmo.
— Você nunca se acha tão bonito sozinho.

A mão dele desceu da gola até meu peito, meu corpo ficou imóvel.

— Está com ciúme, Caio?
— De quê?
Meu celular vibrou dentro do bolso, os olhos dele desceram imediatamente.
— Atenda.
— É só uma mensagem.
— Dele?
— Você ainda não respondeu à minha pergunta.
— Qual?
— Se está com ciúme.
Caio deu mais um passo. Estávamos perto o suficiente para que eu sentisse sua respiração.
— Se eu estivesse, o que você faria?
A porta se abriu.
— Vocês vão beber escondidos? — Larissa perguntou.
Caio afastou-se rapidamente.
— Rafael estava guardando a mochila.
Larissa olhou para a cama, depois para nós.
— Deve ser uma mochila muito complicada.
— Quer alguma coisa? — Caio perguntou.
— Quero cerveja. E vocês estão demorando.
Ela saiu, Caio passou a mão pelo cabelo.
— Vamos.

Antes de acompanhá-lo, retirei o celular do bolso. Era Bernardo:
Bernardo: Espero que tenha escolhido uma roupa bonita para mim.

Guardei o aparelho sem responder, o esquenta durou pouco mais de duas horas. Caio circulava entre todos, distribuía bebidas e fazia questão de manter a música alta. Sempre que eu conversava com alguém, ele encontrava uma maneira de se aproximar. Quando Larissa sentou ao meu lado, Caio apareceu com cerveja. Quando um rapaz perguntou se eu estava solteiro, Caio respondeu por mim, quando meu celular vibrou, ele olhou.

— Você está insuportável hoje — comentei.
— Estou recebendo mal os convidados?
— Está vigiando um deles.
— Não se ache tão importante.
— Então pare de me olhar.
Caio bebeu sem responder, saímos juntos em direção ao local de concentração do Arrastão de Sant’Ana. A cidade parecia outra. As ruas estavam tomadas por gente, vendedores ambulantes e barracas. O som do trio elétrico já podia ser ouvido de longe. Embora o evento aproveitasse o movimento da festa, não tinha qualquer relação com a programação religiosa. Era uma criação dos comerciantes: uma cantora de axé, um trio elétrico e milhares de pessoas dispostas a transformar a devoção da semana em ressaca no domingo.
Larissa segurou minha mão para não se perder do grupo.

— Se eu desaparecer, diga à minha mãe que fui uma boa filha.
— Ela acreditaria?
— Nem um pouco.
Caio caminhava à nossa frente. Duas garotas se aproximaram para cumprimentá-lo, e ele parou para conversar. Uma delas o abraçou pela cintura com intimidade. Larissa inclinou-se em minha direção.

— Ele conhece metade da cidade.
— E já beijou a outra metade?
— Fala muito mais do que faz.

Olhei para Caio, ele estava sorrindo para a garota, mas seus olhos procuraram os meus por cima do ombro dela. Larissa tinha razão, o arrastão ainda não havia começado quando avistei Alyson. Ele estava numa área próxima ao trio, conversando com comerciantes e algumas figuras conhecidas da cidade. Vestia uma camisa branca com os primeiros botões abertos e uma calça escura. Não usava gravata nem qualquer roupa formal, mas havia nele a mesma autoridade da fábrica. Alyson cumprimentava todos pelo nome. Apertava mãos, abraçava idosos e sorria para fotografias. Parecia conhecer exatamente o papel que precisava representar diante de cada pessoa. Em algum momento, seus olhos encontraram os meus. O sorriso social permaneceu no rosto, mas o olhar mudou. Alyson interrompeu a conversa e veio em nossa direção.

— Rafael.
— Senhor Alyson.
— Fora da fábrica, pode esquecer o “senhor”.
— Não sei se consigo.
— Pode tentar.
Ele cumprimentou Larissa e Caio, mas voltou sua atenção para mim. Seus olhos percorreram minha camisa, desceram pelo meu corpo e retornaram ao meu rosto sem qualquer pressa.
— Quase não reconheci você sem o uniforme.
— Mas reconheceu.
— Algumas coisas são difíceis de não reconhecer.

Por causa do barulho, Alyson aproximou-se para falar. Uma de suas mãos tocou minhas costas e deslizou até minha cintura. O gesto poderia parecer apenas uma tentativa de me conduzir para mais perto. Eu sabia que não era, os dedos pressionaram meu corpo por cima da camisa, e o polegar encontrou uma pequena faixa de pele perto do cós da calça. Arrepiei.

— Está gostando da cidade? — perguntou junto ao meu ouvido.
— Mais do que imaginei.
— Caicó costuma surpreender quem chega.
— A fábrica também.
Alyson recuou apenas o suficiente para olhar meu rosto.
— Espero que tenha sido uma boa surpresa.

O olhar que ele me lançava me laçava por dentro. Meu corpo enrijecia, a respiração mudava e o sangue parecia correr mais quente sob a pele. Não havia nada de inocente naquela troca. Alyson não apenas percebia meu desejo; alimentava-o. Com o senhor André, eu havia aprendido a desejar de longe. Passei anos imaginando o que nunca aconteceria, observando um homem que jamais me olhou da mesma maneira. Alyson olhava. Essa diferença transformava uma fantasia antiga numa possibilidade perigosa.
Eu já tinha vivido experiências com outros homens. Sabia o peso de um corpo masculino, o gosto do segredo e a pressa de encontros que precisavam terminar antes que alguém percebesse. Mas Alyson despertava outra coisa, diante dele, eu não queria controlar a situação. Queria me entregar, havia algo em sua idade, em sua segurança e na maneira como parecia acostumado a possuir tudo ao redor que fazia meu sangue ferver. Parte de mim desejava descobrir até onde aquele homem iria. Outra parte já sabia que, se Alyson estendesse a mão, eu iria com ele. Talvez aquela fosse a oportunidade de realizar a fantasia que havia começado com o senhor André. A ideia deveria ter me assustado, em vez disso, fez meu corpo tremer, Alyson retirou a mão da minha cintura.

— Se precisar de uma carona depois, me procure.
— Achei que fosse beber.
— Tenho motorista.
Caio surgiu ao meu lado.
— Rafael vai dormir lá em casa.
Alyson olhou para ele e depois para mim.
— Então está bem acompanhado.
— Estou — respondi.
Alyson sorriu, mas havia uma promessa silenciosa em seus olhos.
— Aproveitem a festa.
Ele voltou para o grupo de comerciantes.
Caio esperou que se afastasse.
— Que intimidade foi essa?
— Ele é meu patrão.
— Meu patrão nunca pegou na minha cintura daquele jeito.
— Talvez você não seja o tipo dele.
Caio fechou a cara.
— Cuidado com ele.
— Você manda eu ter cuidado com todo mundo.
— Talvez o problema seja você não perceber quando está entrando numa confusão.
— Ou talvez você fique incomodado quando alguém demonstra interesse por mim.
Caio abriu a boca para responder, mas uma voz surgiu atrás de nós.
— Ele sempre foi ciumento.

Bernardo, ele usava uma camiseta clara e uma calça escura. Os cabelos estavam levemente bagunçados, como se tivesse acabado de passar as mãos por eles. Dois rapazes e uma garota permaneciam alguns passos atrás, provavelmente os amigos da capital. Bernardo cumprimentou Caio com um movimento curto de cabeça. Depois olhou para mim.

— Escolheu uma roupa bonita.
Caio voltou-se imediatamente.
— Vocês estão se falando?
— Boa noite para você também — Bernardo respondeu.
— Fiz uma pergunta.
— E eu não devo mais respostas a você.
A tensão entre os dois era forte o bastante para alterar o ar ao redor. Larissa aproximou-se e abraçou Bernardo.
— Quanto tempo!
— Você continua igual.
— Isso é elogio?
— Ainda não decidi.
Reconheci a frase e olhei para ele. Bernardo sorriu.
— Vamos pegar uma bebida? — perguntou.
— Vamos.
Caio segurou meu braço.
— O trio vai sair.
— A gente alcança.
— Rafael…
Bernardo observou a mão dele sobre mim.
— Ele não vai fugir, Caio.
Caio soltou meu braço. Acompanhei Bernardo até uma barraca. Seus amigos seguiram em direção ao trio, deixando-nos sozinhos.
— Então — ele começou — Gostando da festa?
— Até agora sim.
— Vai beber o que? Caipirinha ou cerbeja?.
Olhei para Bernardo.
— Cerveja!
— Duas por favor, deixa que eu pago.

Bernardo pediu duas cervejas.
— Principalmente.
Recebi uma das garrafas.
— O que aconteceu entre vocês?
— O que ele contou?
— Que vocês foram amigos e você mudou depois que foi morar na capital.
Bernardo riu.
— Claro que foi isso.
— Não foi?
— Caio gosta de contar histórias em que ele sempre é abandonado.
— E qual é a sua versão?
Bernardo bebeu antes de responder.
— Minha versão é que algumas pessoas pedem para você ficar e, quando chega a hora de demonstrar isso, fazem exatamente o contrário.
— Isso continua sem explicar nada.
— Talvez eu não queira explicar tudo no nosso segundo encontro.
— Mas quer que eu ignore o conselho dele.
— Quero que tire suas próprias conclusões.

O trio começou a se movimentar, e a multidão avançou. Bernardo segurou minha mão para que não nos separássemos. Quando alcançamos o restante do grupo, não soltou imediatamente. Caio percebeu. Durante a primeira música, Bernardo permaneceu perto de mim. Dançava sem preocupação e parecia se divertir com a irritação de Caio. Em alguns momentos, colocava a mão em meu ombro para falar ao meu ouvido. Em outros, encostava o corpo no meu quando a multidão apertava. Não sabia quanto daquele interesse era verdadeiro e quanto era provocação. O problema era que eu gostava das duas possibilidades. Caio reagiu da única maneira que parecia conhecer. Aproximou-se da garota que havia encontrado antes e começou a dançar com ela. Pouco depois, beijou-a. Bernardo viu. Seu sorriso desapareceu por apenas um instante. Depois se virou para mim e continuou dançando como se não tivesse se importado. Mas se importou. Eu reconheci porque Caio também olhou imediatamente para conferir se Bernardo estava vendo. Os dois não estavam se divertindo. Estavam conversando numa língua que ninguém ao redor parecia compreender.

— Eles sempre foram assim — Larissa comentou quando Bernardo se afastou para atender uma ligação.
— Assim como?
— Estranhos um com o outro. Quando eram mais novos, viviam juntos. Caio praticamente morava na casa dos Carneiro. Depois Bernardo foi estudar na capital, fez outras amizades e sumiu. Acho que Caio nunca perdoou.
— Você acha que foi só isso?
Larissa olhou para os dois.
— O que mais seria?
Balancei a cabeça.
— Nada.
Ela não enxergava. Caio beijando uma garota parecia ciúme comum de um amigo abandonado. Bernardo dançando comigo parecia apenas provocação. A raiva entre eles podia ser explicada como o fim de uma amizade. Era assim que os segredos sobreviviam em cidades como Caicó. As pessoas enxergavam exatamente aquilo que estavam preparadas para enxergar. Um abraço demorado virava brincadeira, um toque escondido virava acidente, uma separação dolorosa virava apenas dois amigos que seguiram caminhos diferentes. Quem estava dentro do segredo sabia distinguir. A raiva de Caio não era a raiva de alguém que havia perdido um amigo. Era a raiva de quem ainda desejava aquilo que dizia desprezar. Bernardo voltou pouco depois. Não olhou para Caio, mas também não conseguiu permanecer perto de mim por muito tempo. Bebeu rapidamente, entregou a garrafa vazia a um vendedor e atravessou a multidão.

— Aonde ele vai? — perguntei.
Larissa apontou, Caio havia se afastado segundos antes, esperei um minuto… Depois dois.

— Vou ao banheiro — avisei.
Larissa segurou meu pulso.
— Rafael.
— Que foi?
— Deixe os dois resolverem.
— Resolverem o quê?
— Sei lá. Essa amizade mal resolvida.
Ela realmente acreditava naquela explicação, retirei delicadamente sua mão.
— Volto já.

Segui na direção em que os dois haviam desaparecido. Afastei-me do trio e entrei numa rua lateral, onde o som ainda era alto, mas a multidão diminuía. Encontrei Caio e Bernardo perto do muro de um estabelecimento fechado.

— Você não tinha o direito de fazer isso — Caio dizia.
— Fazer o quê? Conversar com ele?
— Você sabe exatamente o que está fazendo.
— Nem tudo gira em torno de você.
— Desde que voltou, só faz tentar me provocar.
Bernardo riu sem qualquer humor.
— Engraçado você falar de provocação depois de beijar aquela garota olhando para mim.
Caio avançou um passo.
— Você não pode aparecer depois de tanto tempo e agir como se nada tivesse acontecido.
— Fui eu que agi como se nada tivesse acontecido?
— Você foi embora.
— E você me mandou ir.
— Eu nunca disse isso.
— Não precisou. Você fez questão de deixar claro que só me queria quando ninguém estava olhando.
Caio agarrou a camisa de Bernardo.
— Fale baixo.
— Está com medo de quê? Que alguém descubra ou que o Rafael descubra?

Foi então que Bernardo olhou por cima do ombro de Caio, e me viu, Caio acompanhou seu olhar e soltou a camisa dele imediatamente. Durante alguns segundos, nenhum dos três falou. Eu não precisava mais de uma explicação. Todas as peças estavam diante de mim: as brincadeiras, os ciúmes, o ressentimento, a mensagem apagada, o beijo usado como arma e a intimidade escondida dentro da raiva. Caio e Bernardo não haviam sido apenas amigos. Bernardo ajeitou a própria camisa.

— Pronto — disse, olhando diretamente para mim. — Agora pergunta ao seu amigo o que a gente fazia quando ninguém estava vendo.
Caio empalideceu, e, pela primeira vez desde que o conheci, não encontrou nenhuma brincadeira para usar como resposta.


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Ficha do conto

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Nome do conto:
[REBOT] ENTRE CAMINHOS E SEGREDOS ~ 04 ~ CONVERSAS

Codigo do conto:
273300

Categoria:
Gays

Data da Publicação:
27/09/2026

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