[REBOT] ENTRE CAMINHOS E SEGREDOS ~ 08 UM LUGAR A MESA

Eu já tinha fechado a mala quando Alyson ligou, seu Geraldo estava no banheiro, e o pequeno avião que Bernardo me dera permanecia sobre a mesa de cabeceira. Peguei-o antes de atender, como se alguém pudesse entrar no quarto e descobrir alguma coisa apenas olhando para aquele objeto.

— Bom dia, Rafael. Já terminaram?
— Falta uma entrega. Seu Geraldo disse que depois seguimos para Caicó.
— Preciso que você fique mais um dia. Pode ser?
Olhei para a mala.
— Aconteceu algum problema?
— Não. Estou em Natal e vou visitar um imóvel à tarde. Quero que venha comigo.
— Um imóvel?
— Uma possibilidade para a empresa. Explico pessoalmente.
Eu ainda não queria ir embora. A oportunidade de ficar mais um dia pareceu um presente que vinha disfarçado de trabalho.
— Posso ficar, sim.
— Ótimo. A empresa resolve a hospedagem. Geraldo volta com o caminhão, e amanhã levo você.
— Certo.
— Busco você às duas.
Quando desliguei, seu Geraldo saía do banheiro enxugando o rosto.
— Mudança de planos?
— Vou ficar. Seu Alyson quer que eu acompanhe uma visita.
Ele pendurou a toalha.
— Então o mar ganhou mais um dia.
Guardei o avião no bolso da mochila.
— Acho que eu ganhei.

Concluímos a última entrega antes do almoço. Ajudei seu Geraldo a organizar os documentos que voltariam para a fábrica e me despedi junto ao caminhão.

— Obrigado pela praia.
— Já agradeceu.
— Não o suficiente.
Ele ajeitou o boné, um pouco constrangido.
— Quando estiver morando aqui, não esqueça de olhar para ela de vez em quando.
Assenti e depois que ele partiu, mandei uma mensagem para minha mãe avisando que ficaria a trabalho. Ela respondeu pedindo que eu me alimentasse direito e confirmasse o horário da volta. Caio foi menos objetivo.

Caio: Arrumou outro serviço ou outra desculpa?
Rafael: Alyson pediu para eu ficar. Vamos ver um imóvel para a empresa.
Caio: Já está escolhendo onde vai morar?
Rafael: Quem sabe um dia.
A resposta demorou.
Caio: Aproveita. Só lembra de voltar.

Fiquei olhando aquelas palavras. Comecei a escrever uma brincadeira, apaguei e respondi apenas que voltaria no dia seguinte. Às duas em ponto, Alyson estacionou diante da hospedagem. Entrei no seu carro uma SW4 branca e levei junto comigo um caderno e uma caneta que ele reparou.

— Trouxe material?
— Não sei o que o senhor vai precisar.
— Nem eu. Por isso estamos indo olhar.
Durante o caminho, explicou que parte das mercadorias vendidas em Natal ainda vinha de Caicó. As viagens custavam dinheiro, limitavam entregas e ocupavam funcionários que poderiam estar fazendo outras coisas.
— Estamos estudando produzir uma parte aqui — disse. — Mas estudar não é decidir. Antes de gastar, preciso saber se faz sentido.
— Uma segunda fábrica?
— Se tudo der certo.

Olhei para ele, até então, eu conhecia os negócios dos Carneiro como coisas prontas: a fazenda, o laticínio, os veículos com o nome da família. Era a primeira vez que via Alyson diante de algo que ainda não existia.

— Por que me chamou?
— Você acabou de fazer essa rota. Viu onde descarregamos, quanto tempo perdemos, o que os clientes pedem. Quero ouvir.
— Não entendo de montar fábrica.
— Não pedi que montasse uma. Pedi que olhasse comigo.

A resposta me deixou mais à vontade, o imóvel ficava numa rua de galpões e oficinas. Um corretor nos aguardava diante do portão. Cumprimentou Alyson e começou a falar antes mesmo de abrir. Por dentro, o espaço era amplo, com piso de cimento, algumas salas vazias e marcas de antigas divisórias nas paredes. O corretor descrevia possibilidades; Alyson fazia perguntas sobre documentação, instalações e reformas. Eu anotava. Em determinado momento, caminhamos até a entrada lateral.

— E aqui entrariam os caminhões — o corretor disse.
Olhei para a rua, depois para o portão.
— Com carro estacionado do outro lado, vai ser apertado para manobrar.
Os dois se voltaram para mim.

— Dá para entrar — acrescentei. — Mas ontem, numa entrega, seu Geraldo precisou esperar um homem aparecer para tirar o carro. Perdemos quase meia hora. Se isso acontecer todo dia… Alyson saiu até a calçada. O corretor o acompanhou, já explicando que existiam alternativas. Fiquei onde estava, receando ter falado demais. Quando retornou, Alyson olhou para o caderno.

— Anote isso.
Anotei, foi um detalhe pequeno, mas passei o restante da visita mais atento. Pela primeira vez desde que chegara a Caicó, não me sentia apenas aprendendo o trabalho. Tinha alguma coisa a oferecer. Na saída, o corretor entregou uma pasta a Alyson.

— A localização é excelente. Um negócio desses não fica disponível muito tempo.
Alyson recebeu os papéis.

— Negócio que precisa ser decidido correndo costuma dar trabalho depois.
Entramos no carro.
— Gostou? — ele perguntou.
— Do lugar?
— Da possibilidade.
Olhei novamente para o galpão.
— Gostei de imaginar funcionando.
Ele deu partida.
— Eu também.

No caminho de volta, o telefone de Alyson tocou. Ele atendeu pelo sistema do carro.
— Oi, Cláudia.
— Você vem jantar ou preciso mandar alguém buscar?
A voz dela era firme, mas havia humor.
— Vou. Estamos terminando.
— Estamos?
— Rafael está comigo.
Houve uma pausa curta.
— O amigo de Bernardo?
Olhei para a janela.
— O funcionário que veio nas entregas — Alyson respondeu.
— Esse mesmo. Bernardo me falou dele. Traga para jantar.
Virei o rosto imediatamente.
— Não precisa, dona Cláudia…
— Ele está ouvindo?
Alyson olhou para mim.
— Está.
— Então pronto. Rafael, venha. Meu filho disse que você quer estudar Medicina, e fiquei curiosa.
— Quero, sim. Mas não gostaria de atrapalhar.
— Aqui em casa já tem gente suficiente para fazer isso. Mais um não muda nada.
Alyson sorriu.
— Está vendo com quem sou casado?
— Estou ouvindo, Alyson.
— Era a intenção.
Ela combinou o horário e desligou. Permaneci alguns segundos em silêncio.

— Não trouxe roupa para jantar — falei.
Alyson me olhou de relance.
— Trouxe roupa para comer?
Ri, apesar do nervosismo.
— Trouxe.
— Então está resolvido.

Ele me deixou na hospedagem para que eu tomasse banho. Bernardo me buscaria mais tarde, assim que entrei no quarto, recebi uma mensagem.

Bernardo: Minha mãe acabou de me contar.
Rafael: Você podia ter me avisado que falava de mim em casa.
Bernardo: Quer que eu fale mal?
Rafael: Quero saber o que você contou.
Bernardo: Que você é inteligente, quer ser médico e precisa conhecer uma pessoa da família que conversa sobre outra coisa além de queijo.
Sentei na cama.
Rafael: Estou nervoso.
Bernardo: Com a minha mãe?
Rafael: Com o jantar.
Bernardo: Ela é cardiologista, Rafa. Se você passar mal, está em boas mãos.


A casa dos Carneiro não parecia uma casa onde eu entraria por vontade própria. Havia um jardim na frente, janelas grandes e uma porta de madeira que Bernardo abriu sem tocar a campainha. Entrei atrás dele, tomando cuidado para não esbarrar em nada.

— Pode respirar — ele murmurou.
— Estou respirando.
— Parece que está entrando para fazer uma prova.
Uma mulher apareceu no corredor, retirando os óculos.
— Dependendo da conversa, posso preparar uma.
Bernardo soltou uma risada.
— Mãe, esse é Rafael.

Cláudia se aproximou e me cumprimentou com um beijo no rosto. Usava uma blusa simples, calça escura e o cabelo preso de qualquer jeito. Tinha uma pequena marca no nariz deixada pelos óculos e uma expressão cansada que desaparecia quando sorria.

— Finalmente. Bernardo fez uma apresentação tão boa que agora você vai precisar sustentar a propaganda.
— Vou tentar não decepcionar.
— Já começou errado. Aqui você não precisa fazer entrevista.
Ela apontou para a sala.
— Entrem. Vou guardar o telefone antes que inventem outro problema para mim.
— Problema de paciente? — perguntei.
— De escala. Às vezes, organizar os médicos dá mais trabalho que qualquer outra coisa.

A naturalidade me surpreendeu. Eu havia imaginado uma mulher distante, acostumada a falar de assuntos que eu não compreenderia. Cláudia parecia alguém que queria terminar o dia, jantar e sentar por alguns minutos. Alyson estava na sala, lendo os papéis do imóvel. Levantou os olhos quando entramos.

— Conseguiu resolver o problema da roupa?
Bernardo olhou para mim.
— Que problema?
— Nenhum — respondi depressa.
Cláudia voltou a tempo de ouvir.
— Alyson, deixe o menino em paz.
— Não fiz nada.
— Essa frase nunca me tranquiliza.

Sentamos à mesa pouco depois. Esperei que todos escolhessem seus lugares. Bernardo puxou uma cadeira ao lado da dele, mas permaneci em pé até Cláudia notar.

— Rafael, pode sentar.
— Obrigado.
— E pode se servir também. Não vamos contar os pedaços.

Sorri, sentindo o rosto esquentar. Na fazenda onde cresci, conhecia cada armário da cozinha e cada pessoa que circulava pela casa. Ali, eu não sabia sequer onde colocar as mãos enquanto esperava a travessa chegar. Bernardo me passou o arroz sem comentar meu nervosismo. Foi um cuidado pequeno. Agradeci com os olhos.

— Como foram as entregas? — Cláudia perguntou.
Antes que eu respondesse, Alyson colocou o copo na mesa.
— Voltaram com tudo conferido. Teve um problema num recebimento e ele resolveu com Geraldo, sem precisar ficar ligando para a fábrica.
— Seu Geraldo ajudou bastante — expliquei.
— Ajudar é o trabalho dele. Fazer sua parte era o seu. Fez.

Alyson voltou a comer. O elogio me pareceu mais importante justamente porque terminou ali. Cláudia me perguntou sobre a primeira visita a Natal. Contei do mar, dos vídeos que assistia na fazenda e da surpresa do motorista. Ela sorriu.

— Passei perto da praia hoje e nem olhei.
— Seu Geraldo falou disso. De morar perto e acabar esquecendo.
— Ele tem razão.
— O Rafa quase foi embora sem conhecer direito a cidade — Bernardo disse.
— Agora já está avaliando galpão — Alyson comentou. — Conheceu até os lugares que ninguém põe no cartão-postal.

A conversa ficou mais leve. Consegui comer sem pensar em cada movimento. Quando Cláudia perguntou sobre Medicina, já não tive vontade de baixar os olhos.

— Você está fazendo cursinho?
— Ainda não. Estudo sozinho, com o que tenho. Terminei o ensino médio em Minas.
— E como organiza o tempo?
— À noite. Tem dia em que rende mais, tem dia em que abro o livro e acordo em cima dele.
Ela riu.
— Essa parte continua durante a faculdade.
— Não anima muito, mãe — Bernardo disse. — Ele acabou de chegar.
— Prefiro que venha sabendo.

Cláudia quis saber quais matérias eu gostava e onde tinha dificuldade. Falei de biologia, química e de alguns assuntos de matemática que precisaria retomar. Ela ouviu sem me interromper.

— Não deixe tudo para estudar quando sobrar tempo — disse depois. — Geralmente não sobra. Mesmo que consiga separar pouco, tente ter um horário que seja seu.
Assenti, guardando a frase.

— E a senhora sempre teve certeza?
— De Medicina?
— Da escolha.
Ela pensou antes de responder.
— Não todos os dias.
A sinceridade me surpreendeu.
— Achei que tivesse.
— Gostar de uma profissão não impede a gente de se cansar dela. Tem dia em que volto satisfeita. Tem dia em que gostaria que o telefone não tocasse nunca mais. Depois durmo, acordo e volto.
— Eu imaginava uma resposta mais bonita — Bernardo comentou.
Cláudia apontou o garfo para ele.
— Então devia ter jantado na casa de uma escritora.

Ri junto com os dois. Alyson aproveitou a pausa.

— O importante é ter direção. Rafael sabe o que quer e está correndo atrás.
Percebi Bernardo baixar os olhos antes mesmo da frase seguinte.

— Você podia aproveitar esse exemplo na faculdade.
O jantar pareceu perder um pouco do calor.
— Estou frequentando as aulas — Bernardo respondeu.
— Frequentar não é se interessar.
Cláudia pousou os talheres.
— Hoje não, Alyson.
— Só fiz um comentário.
Eu poderia ter ficado quieto. Talvez devesse.
— Acho que ter certeza também demora — falei.
Alyson voltou-se para mim.
— Você teve cedo.
— Tive. Mas não sei como seria se todo mundo já esperasse uma escolha minha.
Bernardo permaneceu olhando para o prato, não mencionei o hangar. Não olhei para ele pedindo aprovação. Aquele segredo continuava sendo dele.
Cláudia pegou a travessa.
— Alguém quer mais?
A pergunta ofereceu uma saída, e todos aceitaram, foi depois, quando a conversa já tinha voltado a assuntos comuns, que Cláudia perguntou pelos meus pais.
— Eles também ficaram em Caicó?
— Minha mãe ficou. Estamos na casa da minha tia.
— E seu pai?

Eu tinha uma resposta verdadeira. Poderia dizer que não o conhecia. Que minha mãe me criara sozinha. Que aquele assunto continuava sem solução havia vinte anos. Mas estava sentado numa casa onde um pai cobrava o futuro do filho, uma mãe discutia trabalho à mesa e os três discordavam sem deixar de pertencer uns aos outros. Não quis contar a minha falta.

— Meu pai morreu.
Bernardo virou o rosto. Vi o movimento pelo canto dos olhos e continuei olhando para Cláudia.
— Sinto muito — ela disse. — Você era pequeno?
— Eu não cheguei a conviver com ele.

Alyson parou de girar o copo entre os dedos. Até então, acompanhava a conversa com a atenção distraída de quem já havia passado o dia trabalhando. Agora me olhava diretamente.

— Sua mãe foi para Minas sozinha? — perguntou.
— Foi.
— Ela é daqui do estado?
— De Caicó. Saiu antes de eu nascer. Eu nasci em Belo Horizonte e depois fomos para a fazenda.
Ele permaneceu calado. Houve uma mudança pequena em sua expressão. A testa se contraiu, e seus olhos pareceram buscar alguma coisa no meu rosto. Na fábrica, ele já dissera que eu lembrava alguém. Por um instante, achei que estivesse tentando lembrar de novo.

— E agora ela está trabalhando? — Cláudia perguntou.
— Num restaurante.
— Deve ser puxado.
— Ela está acostumada. Trabalhou a vida inteira.

Minha resposta saiu mais firme do que eu pretendia. Cláudia assentiu, sem pena.

— Espero que esteja gostando da volta.
— Está se acostumando.

Alyson levou o copo à boca, mas não bebeu imediatamente. Eu não soube interpretar aquilo. Naquela noite, estava mais preocupado com a mentira que acabara de contar do que com o silêncio dele. Cláudia trouxe a sobremesa e retomou o assunto dos estudos.

— Bernardo comentou que falou de Silas para você.
— Falou da profissão dele.
— Nefrologia. Meu cunhado é sócio de um hospital com outros seis médicos e tem uma clínica de hemodiálise.
— Deve trabalhar muito.
— Trabalha — Alyson respondeu. — E ainda acha pouco.
— Se quiser conversar sobre a formação, posso perguntar quando ele tem um tempo — Cláudia ofereceu. — Sem compromisso. Às vezes ajuda a ouvir mais de uma experiência. A ideia me animou.

— Gostaria muito.
— Vou falar com ele.

Não prometeu uma vaga, uma bolsa nem uma solução para minha vida. Ofereceu uma conversa. Mesmo assim, pareceu mais do que eu tinha quando saíra de Caicó. Depois do jantar, Bernardo me chamou para ver o jardim. A porta da sala permaneceu aberta, e podíamos ouvir os pais conversando lá dentro. Ele esperou que chegássemos perto das plantas.

— Obrigado por não falar das aulas de aviação.
— Não era meu segredo para contar.
— Meu pai faz essas comparações sem perceber.
— Acho que percebe a comparação. Talvez não perceba o que ela faz.

Bernardo arrancou uma folha seca de um vaso. Ficamos em silêncio.

— Posso perguntar uma coisa? — disse.
Eu já sabia.
— Pode.
— Você nunca me disse que seu pai tinha morrido.
Olhei para a sala. Cláudia recolhia alguns copos enquanto Alyson guardava a pasta do imóvel.
— Porque ele não morreu.
Bernardo ficou imóvel.
— Não conheço meu pai — expliquei. — Ele não quis me assumir. Minha mãe nunca me contou direito quem é. Sua expressão mudou.

— Você podia ter dito isso.
— Eu sei.
— Minha mãe não ia…
— Eu sei, Bernardo. Ela não fez nada errado.
Apoiei as mãos no muro baixo.
— Só não quis contar essa história hoje.

Ele largou a folha no vaso, não perguntou por que eu não confiava nele. Não tentou descobrir o nome que eu também não sabia.

— Tudo bem.
Olhei para ele.
— Não está tudo bem mentir.
— Não estou dizendo isso. Estou dizendo que você não precisa me explicar tudo agora.
Respirei mais fundo. Por dentro da casa, Cláudia chamou:

— Bernardo, você vai levar Rafael?
— Vou, mãe.
Ele se voltou para mim.
— Da próxima vez, pode dizer que não quer falar. Comigo, pelo menos.
Assenti. Era uma frase simples. Mesmo assim, precisei de alguns segundos antes de conseguir responder.
— Está bem.

Alyson nos encontrou junto à porta.

— Amanhã saímos às oito — avisou.
— Estarei pronto.
— Busco você na hospedagem. Já falei com a fábrica.
Cláudia apareceu atrás dele.
— E não deixe os estudos desaparecerem no meio do trabalho, Rafael.
— Não vou deixar.
— Pode voltar quando estiver por aqui.
Agradeci pelo jantar. Ela tocou meu braço.
— Foi bom conhecer você.
No carro, Bernardo perguntou:
— Sobreviveu?
— Sua mãe é muito diferente do que imaginei.
— Menos assustadora?
— Bem menos.
— E meu pai?
Pensei no copo parado entre seus dedos.
— Seu pai observa muito.
Bernardo deu uma risada breve.
— Você não faz ideia.

Seguimos alguns quarteirões sem conversar. O pequeno avião estava no bolso da minha calça. Toquei nele enquanto olhava as luzes da cidade. Na véspera, Bernardo me mostrara um lugar onde escondia o futuro que desejava. Naquela noite, eu conhecera a casa onde esse futuro precisava ficar calado. E também tinha escondido uma parte de mim. Quando chegamos à hospedagem, ele desligou o carro.

— Me avisa quando chegar a Caicó amanhã.
— Aviso.
— E quando voltar para Natal.
— Também.
Bernardo sorriu.
— Vou cobrar.

Entrei no quarto e abri a mala para guardar a roupa do jantar. Antes, retirei o avião do bolso e o coloquei junto do caderno em que anotara os detalhes do galpão. Os dois objetos ficaram lado a lado. Passei a mão sobre a página. Havia uma observação sobre a entrada dos caminhões, medidas aproximadas e uma pergunta que eu escrevera durante a visita: “Quanto tempo até começar a funcionar?” Não sabia a resposta. Mas já queria estar ali quando acontecesse. Meu celular vibrou.
Alysson: Confirmado: oito horas. Deixe a mala pronta.
Respondi que sim, depois programei o despertador e coloquei o aparelho sobre a mesa. Eu tinha chegado a Natal para entregar mercadorias. Voltaria com um convite, um pequeno avião e uma mentira que Bernardo agora conhecia. E passaria a manhã seguinte ao lado do homem que ficara em silêncio quando eu dissera que meu pai estava morto.


Faca o seu login para poder votar neste conto.


Faca o seu login para poder recomendar esse conto para seus amigos.


Faca o seu login para adicionar esse conto como seu favorito.


Twitter Facebook



Atenção! Faca o seu login para poder comentar este conto.


Ultimos 30 Contos enviados pelo mesmo autor


273635 - [REBOT] ENTRE CAMINHOS E SEGREDOS ~ 07 ~ PLANOS DE VOO - Categoria: Gays - Votos: 0
273510 - [REBOT] ENTRE CAMINHOS E SEGREDOS ~ 06 O TAMANHO DO MUNDO - Categoria: Gays - Votos: 2
273441 - [REBOT] ENTRE CAMINHOS E SEGREDOS ~ 05 ~ FOGO, SEXO E PAIXÃO - Categoria: Gays - Votos: 2
273300 - [REBOT] ENTRE CAMINHOS E SEGREDOS ~ 04 ~ CONVERSAS - Categoria: Gays - Votos: 4
273156 - [REBOT] ENTRE CAMINHOS E SEGREDOS ~ 03 SINAIS - Categoria: Gays - Votos: 4
273027 - [REBOT] ENTRE CAMINHOS E SEGREDOS ~ 02 O NOME CARNEIRO - Categoria: Gays - Votos: 4
272863 - [REBOT] ENTRE CAMINHOS E SEGREDOS ~ 01 A ESTRADA DE VOLTA - Categoria: Gays - Votos: 3
268536 - Bernardo [03] ~ PRIMEIRO BEIJO - Categoria: Gays - Votos: 2
268513 - BERNARDO [02] - Categoria: Gays - Votos: 2
268296 - BERNARDO [01] ~ INICIO - Categoria: Gays - Votos: 4
254050 - FORA DO ESTOQUE [12] ~ LUKE NO GRINDR - Categoria: Gays - Votos: 2
253377 - FORA DO ESTOQUE [11] ~ MOTEL COM LUCAS E FELIPE - Categoria: Gays - Votos: 3
247023 - FORA DO ESTOQUE [10] ~ DE VOLTA AO CINE REX - Categoria: Gays - Votos: 2
246960 - FORA DO ESTOQUE [09] ~ VIVENDO NA FANTASIA - Categoria: Gays - Votos: 0
246511 - FORA DO ESTOQUE [08] ~ SEXO A3 COM O BERNARDO - Categoria: Gays - Votos: 2
246373 - FORA DO ESTOQUE [07] ~ MEU SOBRINHO - Categoria: Gays - Votos: 4
246288 - FORA DO ESTOQUE [06] ~ SEXO REAL - Categoria: Gays - Votos: 5
246226 - FORA DO ESTOQUE [05] ~ NO ESCRITORIO DO GERENTE! - Categoria: Gays - Votos: 2
246026 - FORA DO ESTOQUE [04] ~ BANHEIRÃO E MOTEL - Categoria: Gays - Votos: 2
245962 - FORA DO ESTOQUE [03] ~ Obsessão Doentia - Categoria: Gays - Votos: 3
245956 - FORA DO ESTOQUE [02] ~ O PASSADO DE LUCAS GABRIEL - Categoria: Gays - Votos: 1
245863 - FORA DO ESTOQUE [01] ~ SEXO NO CINE REX - Categoria: Gays - Votos: 3
245746 - GAROTO, EU ODEIO AMAR VOCÊ ~ [90] ~ FINAL - Categoria: Gays - Votos: 2
245744 - GAROTO, EU ODEIO AMAR VOCÊ ~ [89] ~ PENULTIMO CAPITULO - Categoria: Gays - Votos: 1
245505 - GAROTO, EU ODEIO AMAR VOCÊ ~ [88] ~ EU ESCOLHO VOCÊ - Categoria: Gays - Votos: 0
245479 - GAROTO, EU ODEIO AMAR VOCÊ ~ [87] ~ 15 MINUTOS PARTE 2 - Categoria: Gays - Votos: 1
245346 - GAROTO, EU ODEIO AMAR VOCÊ ~ [86] ~ 15 MINUTOS - Categoria: Gays - Votos: 1
245147 - GAROTO, EU ODEIO AMAR VOCÊ ~ [85] ~ ACORDOS - Categoria: Gays - Votos: 1
245119 - GAROTO, EU ODEIO AMAR VOCÊ [84] ~ 2021 DESPEDIDA DE SOLTEIRO - Categoria: Gays - Votos: 1
245034 - GAROTO, EU ODEIO AMAR VOCÊ [83] ~ 2020: Perdas, Amores e Recomeços - Categoria: Gays - Votos: 0

Ficha do conto

Foto Perfil contosdelukas
contosdelukas

Nome do conto:
[REBOT] ENTRE CAMINHOS E SEGREDOS ~ 08 UM LUGAR A MESA

Codigo do conto:
273747

Categoria:
Gays

Data da Publicação:
03/10/2026

Quant.de Votos:
0

Quant.de Fotos:
0