— Não tenha pressa. Você acabou de chegar.
Eu tinha escutado variações daquela frase durante toda a vida, não pense tão grande, não espere demais, não tenha pressa. Geralmente, eram conselhos oferecidos por pessoas que já haviam desistido de alguma coisa.
— Quanto mais tempo eu ficar parado, mais tempo vamos depender da senhora — respondi.
— Você não está incomodando.
— Eu sei. Mas quero ajudar.
Minha mãe colocou uma xícara de café diante de mim.
— Primeiro precisamos arrumar nossa própria casa.
— E vamos pagar aluguel como?
— Eu vou trabalhar.
— Eu também.
— Você podia aproveitar esse tempo para pensar no que realmente quer fazer.
— Eu já sei o que quero.
Ela compreendeu imediatamente.
— Medicina não é um plano, Rafael.
— É o quê, então?
— Um sonho.
— E qual é a diferença?
— Um plano precisa caber na vida da gente.
Peguei a xícara, embora já não tivesse vontade de beber o café.
— Então vou aumentar a minha vida até caber.
Tia Sônia escondeu um sorriso. Minha mãe não achou graça.
— Seu problema é achar que tudo depende apenas de esforço.
— E o problema da senhora é achar que nada depende.
O silêncio caiu sobre a mesa, arrependi-me assim que terminei de falar, mas não pedi desculpas. Minha mãe também não respondeu. Apenas recolheu a bolsa e saiu para a entrevista, tia Sônia esperou a porta fechar.
— Você puxou essa teimosia de alguém.
— Dela?
Minha tia levou a xícara à boca.
— Com certeza.
Havia algo em seu sorriso que me fez desconfiar de que ela pensava em outra pessoa, mas não perguntei. Naquela manhã, coloquei alguns currículos dentro de uma pasta e saí caminhando por Caicó. Eram folhas simples, impressas na papelaria da esquina, com poucas informações que pareciam ainda menores quando organizadas no papel:
Ensino médio completo.
Experiência em atividades rurais.
Conhecimento básico de máquinas e manejo de animais.
Carteira de habilitação.
Nenhum registro profissional.
Eu tinha começado a trabalhar ainda adolescente, mas a maior parte do que sabia fazer não cabia num currículo. Não existia espaço para explicar que eu sabia consertar uma cerca antes do gado escapar, reconhecer quando um animal estava doente ou dirigir por uma estrada de terra de madrugada sem atolar a caminhonete. Na fazenda, essas coisas faziam de mim alguém necessário. Na cidade, faziam de mim um rapaz sem experiência comprovada. Passei por lojas, mercados, depósitos e restaurantes. Em alguns lugares, aceitaram meu currículo sem sequer olhar para meu rosto. Em outros, disseram que não estavam contratando. Perto do meio-dia, o calor parecia subir do chão. Minha camisa já grudava nas costas quando parei diante de um prédio onde funcionava um cursinho preparatório. Havia cartazes colados na fachada com fotografias de jovens sorrindo, acompanhadas dos nomes das universidades para as quais haviam sido aprovados. Dois deles cursariam Medicina. Fiquei olhando por tempo suficiente para imaginar meu rosto em um daqueles cartazes, o futuro doutor Rafael, ouvi a voz do senhor André dentro da minha cabeça e voltei a caminhar, entrei em um mercadinho para comprar água. Enquanto esperava no caixa, reparei em uma folha presa perto da porta:
LATICÍNIO CARNEIRO CONTRATA AUXILIAR
Logo abaixo, em letras menores:
Desejável experiência com atividades rurais.
Arranquei uma das tiras de papel com o endereço.
— É um pouco longe daqui — avisou a mulher do caixa. — Indo a pé, você vai cozinhar nesse sol.
— Tem ônibus?
— Tem, mas só daqui a uma hora.
Olhei o horário e guardei o endereço no bolso.
— Vou andando.
Depois de quase quarenta minutos, encontrei a fábrica, o prédio era maior do que eu esperava. Dois caminhões estavam estacionados na lateral, enquanto funcionários descarregavam caixas perto de uma entrada coberta. O nome Carneiro aparecia em letras grandes na fachada, acompanhado pelo desenho de uma cabeça de gado. Entrei pela recepção e entreguei meu currículo à mulher atrás do balcão.
— Vim por causa da vaga de auxiliar.
Ela examinou a folha.
— As entrevistas aconteceram pela manhã.
— No anúncio não tinha horário.
— O encarregado já selecionou algumas pessoas.
— Ele já contratou alguém?
A mulher levantou os olhos.
— Ainda não.
— Então posso falar com ele.
— Você pode deixar o currículo. Se houver interesse, nós ligamos.
Observei a pilha de papéis sobre a mesa. Meu currículo desapareceria no meio deles antes que eu alcançasse a porta.
— Eu vim andando do centro até aqui.
— Sinto muito, mas…
— Precisa falar comigo só por cinco minutos. Se depois disso não tiver interesse, eu vou embora.
Ela pareceu dividida entre a irritação e a pena.
— O encarregado está ocupado.
— Então posso esperar.
— Algum problema, Márcia?
A voz surgiu atrás de mim, virei-me, o homem que caminhava em nossa direção devia ter quarenta e muitos anos. Vestia calça escura e uma camisa social clara com as mangas dobradas até os antebraços. Alguns fios grisalhos apareciam perto das têmporas, contrastando com o cabelo escuro. Era alto, tinha o corpo firme e se movimentava com a segurança de quem não precisava perguntar se podia entrar em algum lugar. Havia uma aliança em sua mão esquerda, meus olhos permaneceram nela por menos de um segundo antes de subirem novamente para o rosto dele, ainda assim, ele percebeu.
— Esse rapaz veio por causa da vaga — explicou a recepcionista. — Eu disse que as entrevistas já terminaram.
O homem estendeu a mão.
— Alyson Carneiro.
— Carlos Rafael.
Seu aperto foi firme.
— Carlos ou Rafael?
— Rafael.
— Então por que falou Carlos primeiro?
— Está nos meus documentos.
Um sorriso discreto apareceu no rosto dele.
— E você costuma se apresentar pelo nome de que não gosta?
— Quando estou procurando emprego, tento parecer mais sério.
Alyson riu.
— Funcionou?
— Ainda não sei.
Ele tornou a olhar meu currículo, enquanto lia, aproveitei para observá-lo melhor. Alyson não se parecia fisicamente com o senhor André, mas havia alguma coisa semelhante na presença dos dois. Talvez fosse a idade, a segurança ou a maneira como ocupavam o espaço ao redor. Meu corpo reconheceu aquela sensação antes da minha cabeça, era atração, era tesão por um homem mais velho. A mesma curiosidade silenciosa que eu aprendera a esconder ainda adolescente. Alyson ergueu os olhos e me pegou encarando, em vez de se incomodar, sustentou meu olhar por um instante. Depois voltou ao currículo, como se já estivesse acostumado a despertar aquele tipo de atenção.
— Experiência em atividades rurais — leu. — Que tipo de atividade?
— Um pouco de tudo. Trabalhei numa fazenda desde adolescente. Já cuidei de gado, acompanhei ordenha, carreguei produção e fiz entrega.
— Sabe dirigir caminhonete?
— Sei.
— Tem habilitação?
— Tenho.
Senhor André havia pago as aulas quando completei dezoito anos. Na época, disse que ninguém saía do interior sem saber dirigir legalmente. O filho dele não gostou do presente.
— Conhece armazenamento de leite? — Alyson continuou.
— Conheço o básico. Temperatura, higiene, transporte. Não trabalhava diretamente na produção, mas ajudava quando precisava.
— E por que saiu da fazenda?
— O dono morreu. Os filhos venderam a propriedade.
Alyson tornou a me observar, dessa vez, seu olhar demorou mais. Desceu pelos meus ombros, passou por meus braços e voltou ao meu rosto. Não era exatamente um olhar profissional, era um olhar de quem queria devorar uma presa, e eu não podia mentir para mim mesmo, que ali naquele instante eu queria ser devorado pelo Allyson, ou talvez eu apenas quisesse que não fosse, estava tentando criar uma fantasia sexual em menos de cinco minutos que havia conhecido tal homem? O que estava acontecendo comigo? Me perguntei enquanto meus olhos passavam por todo o seu corpo, até que sai do transe em que eu estava quando ouvi sua voz grossa:
— Você é daqui? — perguntou.
— Nasci em Belo Horizonte, mas fui criado perto de Teófilo Otoni. Cheguei a Caicó há poucos dias.
— Veio sozinho?
— Com a minha mãe.
— Tem família na cidade?
— Uma tia.
Ele esperou, como se quisesse que eu dissesse o nome dela. Não disse, Alyson entregou o currículo à recepcionista.
— Trinta dias de experiência.
A mulher arregalou os olhos.
— Mas o encarregado…
— Avise que já preenchi uma das vagas.
Demorei um pouco para compreender.
— Estou contratado?
— Ainda não. Está sendo testado.
— Quando começo?
— Amanhã, às sete.
— Estarei aqui.
Alyson estendeu a mão novamente, quando nossos dedos se tocaram, ele inclinou um pouco a cabeça e me observou com uma expressão estranha. Por um instante, pensei que fosse dizer alguma coisa.
— Já nos conhecemos? — perguntou.
— Acho que não.
— Você me lembra alguém.
Meu coração acelerou sem qualquer motivo lógico.
— Alguém bom?
Alyson sorriu de lado.
— Ainda não decidi.
Antes que eu pudesse responder, ele olhou para os funcionários que passavam perto da recepção.
— Caio!
Um dos rapazes parou e veio em nossa direção, Caio era alto, provavelmente alguns centímetros maior do que eu, tinha a pele morena e os olhos castanhos. A camisa do uniforme parecia pequena nos braços, e seu sorriso surgiu antes mesmo de ele saber o que Alyson queria.
— Diga, chefe.
— Mostre a fábrica ao Rafael. Ele começa amanhã.
Caio me examinou dos pés à cabeça sem qualquer tentativa de disfarçar.
— Contratação nova?
— Período de experiência.
— Pensei que as entrevistas tivessem acabado.
— E acabaram.
Alyson lançou um último olhar em minha direção antes de se afastar pelo corredor, Caio esperou que ele estivesse longe.
— Que história é essa?
— Que história?
— Seu Alyson dispensou três candidatos hoje de manhã e contratou você em cinco minutos.
— Talvez eu seja mais qualificado.
Caio olhou para meus braços.
— Qualificado você parece.
Não soube se aquilo era uma provocação, um elogio ou apenas uma brincadeira. Caio não me deu tempo de decidir.
— Vem, mineiro. Vou mostrar onde você se meteu.
— Meu nome é Rafael.
— Para mim, agora é mineiro.
— Eu nem fui criado em Belo Horizonte.
— Veio de Minas?
— Vim.
— Então é mineiro.
Segui Caio pela fábrica, ele conhecia todos e falava com cada pessoa de um jeito diferente. Brincava com os funcionários da produção, provocava os motoristas e cumprimentava as mulheres do setor de embalagem como se fossem amigas antigas. Em menos de dez minutos, entendi por que todos pareciam gostar dele, Caio também parecia gostar de ser observado.
— Aqui chega o leite — explicou, apontando para uma área isolada. — Depois passa pelo controle, vai para a produção e começa a virar dinheiro no bolso dos Carneiro.
— E no nosso?
— No nosso vira salário atrasado.
Olhei para ele, Caio começou a rir.
— Estou brincando. Eles pagam direito. Se tem uma coisa que ninguém pode falar dos Carneiro é que são maus patrões.
— E o que podem falar?
— Muita coisa. Mas você acabou de chegar. Precisa conquistar o direito de ouvir as fofocas.
Continuamos andando, ele me mostrou o depósito, a área de carregamento, os vestiários e o espaço onde os funcionários almoçavam. Durante o percurso, fez perguntas sobre Minas, a fazenda e minha vida em Caicó.
— Tem namorada?
A pergunta surgiu com naturalidade demais.
— Não.
— Deixou alguém em Minas?
— Também não.
— Então começou bem.
— Por quê?
— Cidade nova, emprego novo e nenhuma mulher para vigiar seus passos.
— E você? Tem namorada?
Caio abriu a porta do vestiário.
— Tenho juízo.
— Isso não responde.
— Era para não responder mesmo.
Ele sorriu novamente, havia alguma coisa em Caio que me deixava à vontade e desconfiado ao mesmo tempo. Talvez fosse a facilidade com que se aproximava. Ou a maneira como suas brincadeiras pareciam sempre esconder uma segunda intenção, antes de eu ir embora, ele anotou o número dele no verso de um papel.
— Se você se perder amanhã ou quiser desistir antes de começar, me avise.
— Por que eu desistiria?
— Não sei. Seu Alyson pode ter te contratado pelos braços, mas quem vai descobrir se você trabalha de verdade sou eu.
— Pode ficar tranquilo.
— Não estou preocupado.
Caio olhou novamente para meu corpo, dessa vez, eu tive certeza de que não havia sido por acaso. Guardei o papel no bolso e me despedi, quando passei pela recepção, avistei Alyson através da parede de vidro de uma sala. Ele conversava ao telefone, mas seus olhos acompanharam minha saída. Caminhei de volta ao centro com uma sensação estranha. Eu havia conquistado um emprego sozinho, poucos dias depois de chegar à cidade. Deveria estar pensando no salário, na possibilidade de ajudar minha mãe ou no dinheiro que poderia guardar para o vestibular. Em vez disso, pensava no sorriso de Caio, e no olhar de Alyson Carneiro, ao chegar à casa da tia Sônia, encontrei as duas preparando o jantar. Minha mãe havia conseguido o trabalho no restaurante e começaria naquela mesma semana.
— Tenho uma notícia — anunciei.
Sônia foi a primeira a sorrir.
— Encontrou emprego?
— Começo amanhã.
Minha mãe interrompeu o movimento da faca sobre a tábua.
— Onde?
— Numa fábrica de queijos.
— Qual?
Tirei o papel com o número de Caio do bolso. No outro lado, estava impresso o nome da empresa.
— Laticínio Carneiro.
A faca bateu contra a madeira, minha mãe ficou imóvel, tia Sônia também parou de mexer a panela, as duas trocaram o mesmo olhar que haviam trocado na rodoviária.
— Você não vai trabalhar lá — minha mãe declarou.
Meu entusiasmo desapareceu.
— Por quê?
— Porque não.
— Isso não é resposta.
— Procure outro emprego.
— Passei o dia inteiro procurando. Foi o único lugar que me deu uma oportunidade.
— Eu disse que você não vai.
— E eu perguntei o motivo.
Minha mãe largou a faca.
— Conheço essa família.
— De onde?
— Caicó não é uma cidade tão grande.
— Isso aconteceu antes de a senhora ir embora?
Ela não respondeu.
— Eles fizeram alguma coisa contra a senhora?
— Não interessa.
— Se não interessa, não pode decidir onde vou trabalhar.
— Eu sou sua mãe.
— E eu não sou mais criança.
Tia Sônia tentou interferir:
— Talvez vocês possam conversar com mais calma.
— Não existe conversa — minha mãe respondeu. — Ele não vai trabalhar para os Carneiro.
— O dono me tratou bem. Nem me conhecia e me deu uma oportunidade.
— Qual deles?
A pergunta saiu rápido demais.
— Alyson.
Minha mãe perdeu a cor do rosto.
— Foi Alyson quem contratou você?
— Foi. Por quê?
Ela apoiou as mãos na bancada.
— Você precisa ligar para lá e dizer que desistiu.
— Não vou fazer isso.
— Rafael…
— Durante toda a viagem, a senhora disse que precisávamos recomeçar. Agora consegui um emprego sozinho e, em vez de ficar feliz, quer que eu desista por causa de uma história que se recusa a contar.
— Estou tentando proteger você.
— De quê?
O silêncio respondeu por ela, peguei minha mochila e fui para o quarto antes que dissesse alguma coisa da qual pudesse me arrepender, fechei a porta, mas não completamente. Sentei na cama e retirei o atlas de anatomia da mochila. Abri na página da dedicatória do senhor André e passei os dedos sobre as palavras:
“Não deixe este lugar convencer você de que nasceu pequeno.”
A voz das duas surgiu na cozinha. Falavam baixo, mas a casa era pequena.
— Você sabia que isso poderia acontecer — tia Sônia disse.
— Não tão depressa.
— Devia contar a verdade.
— Não.
— Ele vai descobrir.
— Só se você abrir a boca.
— Não depende apenas de mim. Você viu o rosto dele. Se Alyson olhar com atenção…
— Faz vinte anos.
— Algumas coisas não mudam em vinte anos.
Houve alguns segundos de silêncio.
— Alyson não sabe quem ele é — minha mãe afirmou.
— Ainda.
Ouvi passos e me afastei da porta antes que alguma delas aparecesse no corredor.
Sentei novamente na cama, com o coração acelerado. Até aquela manhã, Carneiro era apenas o sobrenome escrito num anúncio de emprego. Agora parecia uma ameaça. No dia seguinte, eu voltaria à fábrica, não apenas porque precisava daquele trabalho, sim porque eu queria descobrir o que Alyson Carneiro enxergaria se olhasse para mim com atenção.