— Oi — falei, meio tímido, sem saber o que fazer com as mãos.
— Oi, sumido. — Ele sorriu, aquele sorriso de canto que eu conhecia bem demais. — Como é que tão as coisas? Você desapareceu.
— É... tô levando.
— Levando? — Ele riu baixo. — Você mandou uma mensagem dizendo que era melhor a gente não se ver e depois sumiu. Eu fiquei achando que tinha feito alguma coisa.
Eu tinha ensaiado aquela conversa umas dez vezes na cabeça. Em todas, eu era firme, frio, direto. Nenhuma tinha me preparado pra ficar a trinta centímetros dos olhos verdes dele, ou para reparar, contra a minha vontade, na boca que eu conhecia de cor.
— Bernardo, a gente precisa manter distância — soltei, rápido demais, sem olhar pra ele. — Eu não posso... eu não quero você na minha vida agora.
O sorriso dele foi sumindo devagar.
— Calma. O que aconteceu? Foi alguma coisa que eu fiz? Foi o que eu te falei depois da... — Ele hesitou. — Se foi aquilo, Rafael, eu já tava pensando em conversar contigo sobre isso.
— Não é isso. Não só isso.
— Então o quê?
Respirei fundo. Não havia jeito bonito de dizer aquilo.
— Eu sou filho do Silas. Seu tio.
Ele ficou me olhando. Esperei que ele risse, ou que dissesse alguma coisa. Mas o rosto dele ficou completamente vazio, como uma tela desligada.
— Como é que é? — falou, por fim, num fio de voz.
— É uma longa história. E eu não quero contar.
— Peraí. Peraí. — Ele passou a mão no cabelo, soltou uma risada nervosa que não tinha graça nenhuma. — Você é meu... primo? Você tem que me explicar isso. Vamos pra fazenda, a gente conversa com calma.
— Bernardo, não. Eu quero distância, já falei.
— Rafael, essa é a maior fofoca da história da minha família, e você acha que eu vou deixar passar? Você vai me contar.
— Não tem muito o que contar. — A voz saiu mais dura do que eu pretendia. — O Silas namorou a minha mãe, engravidou ela e não me quis. Minha mãe foi embora, sozinha, pra longe. Ele soube de mim o tempo todo, nunca me procurou, e ainda ficou achando que eu tinha voltado pra extorquir dinheiro dele. Mas não é isso. Enfim. Esse é o resumo. Satisfeito?
— Meu pai sabe disso?
— Sabe. Foi cúmplice.
Bernardo encostou a nuca no banco e fechou os olhos por um segundo.
— Eu tô em choque — murmurou. — De verdade. Mas, sei lá... eu acho que você tá exagerando um pouco. Por que isso tem que virar distância? Eu não tenho culpa de nada.
— Eu sei que não tem. Mas você é da família dele. E eu quero distância de tudo isso. — Hesitei, mas era melhor soltar tudo de uma vez. — E tem mais uma coisa. Provavelmente eu vou ser pai. Uma menina com quem eu fiquei tá grávida.
— HÃ? — Ele abriu os olhos de uma vez, sentou reto. — Meu Deus do céu. Eu fico alguns dias sem falar com você e quando volto virou novela mexicana! Me explica isso com calma, Rafael, pelo amor de Deus.
Eu quase ri. Foi um sorriso curto, involuntário, mas foi o primeiro em dias.
— Não vou conseguir explicar aqui dentro do carro.
— Então vamos pra fazenda. — Ele deu a partida antes que eu respondesse. — Aqui a gente não conversa direito mesmo.
Eu devia ter descido. Eu sabia disso. Mas fiquei, e ele não precisou insistir. Na fazenda, o Bernardo pediu dois cavalos. Eu montei sem pensar, e ele me olhou surpreso, porque eu subi com uma naturalidade que não combinava com o rapaz de Caicó que ele conhecia. Foi o Sr. André quem me ensinou, anos atrás, pensar nisso me deu um aperto no peito, e eu empurrei a lembrança pra longe. Cavalgamos uns vinte minutos por uma trilha de terra batida, entre cercas e mata baixa, até o Bernardo parar num ponto onde o mato se abria e se ouvia, de longe, um barulho de água.
— Pouca gente conhece aqui — disse, descendo do cavalo. — Já que você é um Carneiro, em breve irá conhecer as histórias dessa cachoeira.
Era uma cachoeira. Não era dessas cinematográficas, tipo Chapada Diamantina, de cartão-postal. Era menor, mais simples, uma queda de uns três metros caindo numa poça de água clara, cercada de vegetação. Mas tinha uma paz que eu não sentia havia dias. Sentamos numa pedra larga, perto da água, e ele esperou. Sem pressa, sem cobrar nada. E eu contei, contei devagar, com calma, tudo o que tinha acontecido: o dia em que minha mãe abriu a verdade, a conversa com o Alysson, a versão do Silas, a minha recusa em ter qualquer coisa a ver com ele. Falei da Letícia grávida, da possibilidade de ser pai, da decisão de assumir, Bernardo ouviu tudo sem interromper. Quando terminei, ficou um tempo calado, olhando a água.
— Meu pai me disse uma coisa uma vez — falou, por fim. — Que o Silas foi adotado. Meus avós criaram ele como filho, mas não tinha sangue. Nunca entendi muito bem por que isso importava tanto pra ele, mas ele sempre fez questão de dizer.
— O Alysson me falou isso também.
— Então a gente não é primo de verdade. — Ele me olhou de lado, com um sorriso pequeno. — Pelo menos não de sangue.
— Isso muda alguma coisa?
— Seria gostoso transar com meu primo de sangue. – Falou o Bernardo com um sorriso no rosto.
Eu ri, dessa vez de verdade. E foi estranho como aquela risada me soltou alguma coisa por dentro. Olhei pro Bernardo ali, naquela cachoeira, e vi tudo de novo, como se alguém tivesse aberto uma janela que eu mesmo tinha fechado.
Os olhos verdes, a pele branca, o sorriso, o jeito de falar com as mãos. Eu tinha me apaixonado por ele à primeira vista, no dia em que o vi na fazenda. A gente trocou mensagens, se aproximou, e acabou rolando. Era bom ficar com o Bernardo. Eu me sentia leve, como se existisse uma outra versão de mim que eu ainda não conhecia. Mas, depois do sexo, do jeito que ele me usou, do "quando der" dito com tanta calma, a raiva veio. Raiva da rejeição, raiva de mim mesmo por ter acreditado, e raiva também por tudo que o Caio tinha plantado na minha cabeça sobre ele.
Só que ali, naquela tarde, nada daquilo parecia existir. Era como se a raiva tivesse ficado na beira da estrada e eu tivesse seguido sem ela. O Bernardo me ouviu. Me aconselhou, sem me dizer o que fazer. Acalmou meu coração só com a presença. E eu me senti bem, de um jeito que há dias eu não sentia, como se tivesse esquecido todas as coisas ruins. Não existia Caio naquela equação. Não existia Silas, nem Alysson, nem dúvida de DNA. Era eu e o Bernardo, e mais ninguém. Ele me olhou, e eu olhei de volta. Ficamos assim por um tempo que pareceu longo.
Foi ele quem se aproximou primeiro, devagar, dando tempo pra eu recuar. Eu não recuei. O beijo veio manso, e depois menos manso. A língua dele entrou na minha boca com pressa, quente, o gosto de suor e água misturados. Nos abraçamos com força, o barulho da cachoeira cobrindo qualquer gemido baixo que escapasse. As mãos dele desceram pelas minhas costas até a aquela minha bunda grande, redonda, de jogador de futebol, que ele apertou com os dedos afundando na carne.
— Porra… — ele murmurou contra a minha boca. — Essa bunda…
Eu ri baixo, ainda beijando, e puxei a camisa dele. Em segundos estávamos pelados, a roupa jogada em qualquer lugar da pedra morna. O sol batia forte, a água da cachoeira espirrava de vez em quando nas nossas peles. Bernardo deitou de costas na pedra, o pau já duro. Era longo uns dezoito centímetros e não era tão grosso, mas bonito, com a cabeça bem marcada e as veias discretas. Eu desci a boca nele sem cerimônia. Chupei fundo, engolindo quase tudo, a língua pressionando a veia de baixo enquanto a mão masturbava a base. Ele gemiu alto, a mão no meu cabelo, o quadril subindo pra foder a minha boca.
Depois eu virei o corpo. Bernardo puxou minha bunda pra perto do rosto dele e enterrou a língua no meu cu. Abriu as nádegas com as duas mãos e chupou com vontade, a língua entrando e saindo, molhada, enquanto eu continuava chupando o pau longo dele. O barulho da água misturava com os gemidos e com o som molhado das bocas. A pedra estava quente nas costas dele, o sol queimava a minha pele.
Quando não aguentei mais só a boca, eu subi. Sentei de frente pra ele, segurei o pau dele e desci devagar no meu cu. Os dezoito centímetros entraram fundo, a cabeça batendo no fundo. Eu comecei a quicar, a bunda grande batendo nas coxas dele, o som da pele na pele ecoando entre as pedras. Bernardo segurou minha cintura e empurrou de baixo, metendo com força. A água da cachoeira espirrava nas nossas costas. Eu gemia alto, sem me importar se alguém ouvia. Depois de um tempo eu saí ofegante. Virei Bernardo de quatro na pedra, as mãos apoiadas na superfície morna e úmida. Cuspi no cu dele, passei a saliva com os dedos e enfiei de uma vez. Ele gritou baixo, a voz rouca. Eu segurei a cintura dele e meti forte, bruto, o pau entrando e saindo com o barulho molhado. A bunda dele tremia a cada estocada. Eu olhava a minha própria bunda no reflexo da água e sentia o tesão aumentar ainda mais.
Quando eu gozei, gozei dentro, fundo, o corpo inteiro travando. Bernardo gemeu, o cu apertando. Eu saí devagar, o leite escorrendo. Ele se virou, me empurrou de costas na pedra e subiu em cima de mim. Segurou minhas pernas abertas e enfiou o pau longo de novo no meu cu. Dessa vez ele meteu com vontade, sem pressa no começo e depois mais rápido. Os dezoito centímetros entravam inteiros. Eu segurava a bunda grande dele, apertando, enquanto ele me fodia na pedra, o sol queimando, a água espirrando, os gemidos se perdendo no barulho da cachoeira. Ele gozou dentro de mim, quente, o corpo tremendo. Ficamos assim por um tempo, ofegantes, suados, a pedra morna debaixo de nós e a água correndo ao lado. Ali, entre a água e o sol, foi só a gente.
O sexo com o Bernardo era bom. Aquela era a terceira vez que a gente se encontrava assim, e eu gostava do ritmo, do jeito que ele me tocava, de como o corpo dele parecia ter aprendido o meu mais rápido do que eu mesmo. Mas, quando voltamos pra fazenda, o clima mudou. O Alysson estava lá, na varanda, com um copo d'água na mão. Troquei com ele duas ou três palavras rápidas, educadas, quase frias. O olhar dele demorou meio segundo a mais no meu cabelo ainda úmido, na camisa amassada, no filho dele ao meu lado. Depois voltou ao normal, como se nada tivesse passado. O Bernardo me levou de carro até em casa. Foi no caminho que ele tocou num ponto sensível, mas que fazia sentido.
— Rafa — começou, os olhos na estrada —, você tem um filho a caminho. Que pode ser seu. E você precisa trabalhar. Precisa sustentar essa criança de alguma forma.
— Eu tô vendo um trabalho novo.
— Não é um trabalho novo que você precisa. — Ele falou devagar, como quem escolhe o tom. — É voltar pra fábrica. Meu pai vai abrir a unidade em Natal, e isso pode ser uma oportunidade enorme pra você. Ele já gostava de você antes de saber quem você era. Agora, sabendo, isso muda tudo. Você pode ter regalias, e isso é bom pra você.
— Bernardo...
— Pensa comigo. Imagina você trabalhando em outro lugar, o dia inteiro, ganhando pouco, com um bebê pequeno em casa. Criança tem muito gasto: fralda, remédio, consulta. Fora o tempo, que ninguém recupera. — Ele me olhou rapidamente. — Você devia reconsiderar. Meu pai não tem nada a ver com o que o Silas fez. Não foi ele que mandou sua mãe abortar. Ele só tentou ajudar. E eu acho que você devia enxergar por esse lado: você vai estar em casa, em família, mesmo que não queira.
— Eu não quero contato com o Silas.
— E não vai ter. O Silas vai continuar sendo um nada na sua vida. A diferença é que meu pai vai te ajudar de alguma forma, e você vai poder crescer como já vinha crescendo. Vai ter tempo pra estudar. — Ele suspirou. — Por que você não conversa com ele? Tenta se entender melhor com ele. Pensa com carinho. Trabalhar pouco e ganhar muito, ou trabalhar muito e ganhar pouco. A matemática é essa. E eu tô falando só de você trabalhar, porque, sendo filho de sangue do tio Silas, você nem era pra trabalhar na vida.
— Eu não quero nada desse cara. Já disse.
— Tudo bem. — Ele levantou uma das mãos do volante, num gesto de rendição. — Não tá mais aqui quem falou.
Não insistiu. E, talvez por isso mesmo, a conversa ficou comigo. Ele estacionou a uma rua da minha casa, como sempre. Demos um beijo curto, demorado só o suficiente pra eu esquecer por um segundo do que estava pensando.
— Vou pensar — falei, antes de descer.
— É tudo que eu peço.
Dentro de casa, deitado na cama, fiquei repassando cada palavra. O pior era que o Bernardo tinha razão. Eu ganhava bem na fábrica. Trabalhava muito, mas tinha minhas regalias. E, no fim das contas, quem ia me pagar era o Alysson, não o Silas. Eu não ia estar vivendo do dinheiro do homem que me abandonou. Tudo que o Bernardo falou fazia sentido, e fazia mais sentido ainda se eu comparasse com o conselho que o Caio tinha me dado, que, em outras palavras, só tinha servido pra me lembrar que eu era um herdeiro, e não pra me dizer o que fazer com isso.
Naquela noite, conversei com minha mãe e com minha tia. Expliquei que ia falar com o Alysson, que fazia sentido continuar trabalhando. Minha mãe, claro, não gostou. Foi contra, com os olhos cheios daquele medo antigo. A tia Sônia, por outro lado, me apoiou. Disse que eu estava pensando com a cabeça e não com o orgulho, e que isso ia ser importante pro meu filho. No dia seguinte, mandei mensagem pro Alysson pedindo pra conversarmos. Ele respondeu quase na hora: podia me buscar em vinte minutos. Me ajeitei rápido, e quando a SW4 branca parou na frente de casa, entrei com o rosto sério, de quem vai fechar um negócio. Mal fechei a porta, a mão dele pousou na minha coxa e apertou, devagar. Tirei a mão dele de lá com um olhar. Ele sorriu, sem culpa, e guardou a mão de volta no volante.
— E então, Rafael? O que você quer conversar?
— Estive com o Bernardo ontem. A gente conversou. E... bom. — Respirei fundo. — Acho que vou voltar a trabalhar na fábrica. Isso se ainda puder.
— Claro, Rafael. Claro que pode.
A rapidez da resposta quase me desconcertou.
— Tem mais uma coisa. Eu vou ser pai. Uma menina com quem eu fiquei tá grávida.
— Como assim? — Ele virou o rosto pra mim, os olhos arregalados.
— É uma longa história. O bebê pode ser meu ou do Caio. A gente fez um acordo, vamos assumir juntos e fazer o exame de DNA depois que nascer. E eu preciso de dinheiro, porque não vou fazer como o seu irmão, que largou uma mulher grávida.
O Alysson não reagiu à provocação. Ficou calado por um segundo, depois falou com uma suavidade que eu não esperava.
— Rafael, saiba que você pode contar comigo. Sempre que precisar. Você é família. Se você vai ser pai, a gente dá um jeito. Você não precisa se preocupar com nada.
— Tudo bem. Mas eu só quero o meu trabalho de volta.
— Quero viajar amanhã pra Natal. Resolver algumas coisas lá. Queria que você fosse comigo.
Aquela era a hora. Eu tinha ensaiado antes de entrar no carro.
— Tenho um pedido a fazer.
— Claro. Pode falar.
— O senhor disse que podia pagar a minha faculdade, se eu escolhesse administração, contábeis, essas coisas. Mas eu queria pedir outra coisa. Será que o senhor poderia pagar um curso de publicidade pro Caio? Ele se saiu muito bem com aquele cartaz. Ele é muito bom, falta só oportunidade. Acho que ele podia cuidar da parte de marketing da fábrica, ou pelo menos começar a trabalhar mais diretamente com isso.
O Alysson sorriu, devagar, e o sorriso dele dessa vez foi de quem tinha gostado de ouvir aquilo.
— Claro. Ele tem interesse? O Caio é um menino promissor. Pode ir com a gente pra Natal, já conhece a fábrica, a gente olha umas faculdades pra ele começar ano que vem. E dá pra ver a possibilidade de vocês dois morarem lá. Mas isso são detalhes que a gente organiza depois. O que eu quero é que você cuide de tudo. Que você seja a minha pessoa de confiança.
— Tá. Vou falar com ele. Mas acredito que ele topa, sim.
A conversa não durou mais que isso. Ficamos um tempo em silêncio, parados na frente da minha casa, nos olhando. Eu conhecia aquele silêncio. Sabia onde ele ia dar se eu deixasse. Mas não tive coragem de avançar, nem de deixar que ele avançasse. Resolvi me policiar. Me despedi, combinamos o horário da viagem, e saí do carro com o coração batendo mais rápido do que eu queria admitir. Quando cheguei no quarto, liguei pro Caio.
— Cara, falei com o Alysson. Resumindo: amanhã a gente vai pra Natal ver a fábrica nova e resolver umas coisas. E a fábrica vai pagar o seu curso de publicidade. E existe a possibilidade de a gente ir morar em Natal, eu e você.
— Como assim? — Ouvi um barulho do outro lado, ele provavelmente tinha se sentado de susto. — Quer dizer que o Rafael Carneiro já tomou posse da parte dele da fábrica?
— Idiota.
— Tô falando sério!
— Enfim. Você consegue viajar amanhã?
— Eu, você e o Alysson? Clarinho que sim que consigo. — Ele fez uma pausa dramática. — Será que vai rolar nós três?
— Deixa de ser safado, Caio.
— Oxente! Finalmente chegou a minha vez!
Eu ri, deitado na cama, olhando pro teto. Não contei pra ele sobre a cachoeira. Nem sobre o Bernardo. Aquele pedaço do dia ficou guardado só pra mim, e eu não soube, na hora, se fazia isso por proteção ou por covardia.