[REBOT] ENTRE CAMINHOS E SEGREDOS ~ 07 ~ PLANOS DE VOO

Respondi à mensagem de Bernardo ainda com os pés molhados.
Rafael: A melhor parte da cidade não era o mar?
Bernardo: Não quando eu estou nela.
Sorri diante da tela.
Rafael: Convencido.
Bernardo: Realista. Posso buscar você agora?
Olhei para seu Geraldo, que já caminhava em direção ao caminhão. Ainda precisávamos encontrar a hospedagem, tomar banho e conferir os documentos para as entregas do dia seguinte.
Rafael: Hoje não consigo. Ainda estou trabalhando.
Bernardo: Amanhã?
Rafael: Depois das entregas.
Bernardo: Me avise onde está hospedado. Às seis eu passo lá.
Rafael: Nem perguntei para onde vamos.
Bernardo: Se eu contar, perde a graça.
Guardei o celular.
— Arrumou companhia? — seu Geraldo perguntou.
— Um conhecido de Caicó mora aqui.
— Conhecido ou conhecido?
— Qual é a diferença?
— A cara de quem conhece.
Entrei no caminhão tentando esconder o sorriso.
— Vamos para o hotel, seu Geraldo.
— Sim, doutor.
Durante o caminho, publiquei a fotografia que ele havia tirado na praia. A imagem mostrava um rapaz com os pés dentro da água e um sorriso grande demais para caber no rosto. Pela primeira vez, olhei para uma fotografia minha e enxerguei alguém vivendo, não apenas sobrevivendo.
Na manhã seguinte, acordamos cedo. Passamos boa parte do dia resolvendo entregas, conferindo mercadorias e recolhendo assinaturas. Seu Geraldo parecia decidido a testar se eu merecia a confiança que Alyson havia depositado em mim. Não reclamei. Pouco antes das cinco, finalizamos o último serviço.

— Pode ir encontrar seu conhecido — ele disse, guardando os documentos. — Só não apareça amanhã com cara de quem foi atropelado.
— Que horas saímos?
— Depois do almoço. Ainda temos uma entrega pela manhã.
— Estarei pronto.
— Sei.
Ele não acreditava, tomei banho e troquei de roupa. Escolhi uma camisa escura, calça jeans e passei mais perfume do que o necessário. Quando estava terminando de me arrumar, peguei o celular. Precisava avisar Caio, não porque devesse satisfação, mas porque havíamos prometido não esconder as coisas importantes.
Rafael: Bernardo vai me buscar.
A resposta demorou alguns minutos.
Caio: Imaginei.
Rafael: Quis te contar.
Caio: Obrigado.
Pensei que a conversa tivesse terminado. Depois, outra mensagem apareceu.
Caio: Só não deixa ele brincar com você.
Rafael: Sei me cuidar.
Caio: Eu também achava que sabia.

Não respondi, Bernardo chegou pouco depois das seis, desci e encontrei o mesmo carro que ele estava em Caicó, um HB20 prateado. Ele usava uma camisa azul-clara e parecia diferente do rapaz que eu havia conhecido na fazenda. Mais relaxado, em Caicó, Bernardo observava tudo ao redor antes de falar ou tocar. Na capital, seus movimentos pareciam menos calculados. Entrei.

— Pontual — comentei.
— Estava com saudade.
— Faz Seis dias.
— Foram dias longos.
Ele se inclinou e me beijou, não olhou para os lados, o beijo foi curto, mas a naturalidade me surpreendeu.

— Aqui você faz isso dentro do carro, no meio da rua? — perguntei.
— Em Caicó, qualquer pessoa conhece meu pai. Aqui, ninguém se importa comigo.
— Deve ser bom.
— É como respirar sem precisar pedir permissão.
Bernardo começou a dirigir.
— Para onde vamos?
— Conhecer a minha praia.
— Outra praia?
— Não tem água.
— Então não é praia.
— Tenha paciência.
Seguimos por avenidas que eu ainda não conhecia. Natal parecia diferente a cada novo caminho. Passamos por bairros movimentados, áreas comerciais e trechos onde os prédios davam lugar a terrenos maiores. Bernardo colocou uma das mãos sobre minha coxa.

— Gostou do mar?
— Mais do que imaginei.
— Pela foto, parecia uma criança.
— Talvez eu fosse. Pelo menos naquela hora.
— Quero ver você assim de novo.
Apertei sua mão.
— Você parece diferente aqui.
— Melhor ou pior?
— Mais leve.
O sorriso dele diminuiu.
— Em Caicó, eu preciso lembrar o tempo inteiro quem está olhando.
— E aqui?
— Aqui eu consigo esquecer por alguns minutos.

O carro entrou por um portão discreto. Alguns hangares apareceram adiante, acompanhados por uma pista e pequenas aeronaves estacionadas. Olhei para Bernardo.

— Onde estamos?
— Agora você vai conhecer o meu mar.

Estacionamos perto de um dos hangares, um homem mais velho cumprimentou Bernardo pelo nome e abriu uma passagem lateral. Ele parecia conhecê-lo bem.

— Trouxe visita? — perguntou.
— Um amigo de Caicó.
O homem olhou para mim e sorriu.
— Cuidado. Quando Bernardo começa a falar de avião, ninguém consegue fazer ele parar.
— É verdade? — perguntei.
— Calúnia — Bernardo respondeu.
Entramos no hangar, havia duas aeronaves pequenas. Uma delas estava parcialmente desmontada, enquanto a outra parecia pronta para voar. Bernardo caminhou em direção a ela com uma expressão que eu ainda não havia visto. Seus olhos brilhavam. Passou a mão pela fuselagem como se cumprimentasse alguém.

— Bonita, não é?
— Parece pequena.
— Para quem passou a vida no chão, qualquer avião parece pequeno. Quando está lá em cima, é o mundo que diminui.

Ele abriu a porta e me mostrou o interior.
— Pode entrar.
— Tem certeza?
— Não vai sair voando sozinho.
Sentei no lugar do piloto. Havia instrumentos, mostradores e comandos que eu não compreendia. Bernardo ocupou o assento ao lado.

— Isso controla o quê? — perguntei, apontando para um dos painéis.
Ele começou a explicar. Falava com entusiasmo, passando de um instrumento para outro. Contou como funcionavam alguns comandos, por que os pilotos precisavam conferir cada etapa antes da decolagem e como as condições do vento alteravam um voo. Eu não entendia metade. Mesmo assim, gostava de ouvi-lo. Bernardo deixava de ser o filho bonito do meu patrão, o antigo amor de Caio ou o rapaz misterioso da fazenda. Ali, ele era apenas alguém apaixonado por alguma coisa.

— Desde quando você gosta de avião?
— Desde criança. Meu pai me trouxe para ver uma exposição quando eu era menor. Passei a semana inteira perguntando como uma coisa tão pesada conseguia voar.
— Descobriu?
— Descobri que queria estar dentro.
— Você faz aulas?
Bernardo olhou para a entrada do hangar antes de responder.
— Algumas.
— Seu pai sabe?
— Não.
— Por quê?
Ele deixou o assento e saiu da aeronave. Acompanhei-o.
— Porque meu pai já decidiu o que vou fazer da vida.
— O quê?
— Administração.
— Você estuda Administração?
— Primeiro período.
— E não gosta?
— Não odeio. Só não é meu sonho.
Encostou-se na lateral do avião.
— Meu pai quer que eu conheça todos os negócios da família. A fábrica, as fazendas, as lojas. Para ele, Administração é o primeiro passo para eu assumir tudo.

— Muita gente gostaria de herdar tudo isso.
— Pode ficar com a minha parte.
— Aceito.
Bernardo riu.

— O problema não é a empresa. É passar o resto da vida cumprindo um plano que outra pessoa criou.
— Já falou isso para ele?
— Algumas vezes. Meu pai diz que aviação é perigosa, instável e indigna de alguém que tem um futuro garantido.
— Então você faz as aulas escondido.
— Junto dinheiro, invento despesas da faculdade e pago quando consigo.
— Seu pai não percebe?
— Ele passa mais tempo em Caicó do que aqui. Minha mãe acredita que venho estudar.
— E você vem.
— Tecnicamente.
Bernardo olhou para a pista.
— Quero ser piloto comercial. Viajar, conhecer outros países, acordar sem saber exatamente onde vou dormir no fim do dia.
— Parece cansativo.
— Parece liberdade.
Compreendi imediatamente.
— Eu sinto isso quando penso em Medicina.
Ele voltou-se para mim.
— Por que Medicina?
Demorei um pouco para responder.
— Na fazenda, quando alguém adoecia, tudo parecia distante. Médico, hospital, tratamento… Eu cresci vendo gente esperar até a dor ficar insuportável porque não tinha dinheiro ou transporte. Acho que comecei querendo entender como o corpo funcionava. Depois passei a querer ser a pessoa que sabia o que fazer.


Bernardo virou-se para mim.
— Você precisa conversar com a minha mãe.
— Por quê?
— Ela é médica.
Olhei para ele, surpreso.
— Sua mãe?
— Cardiologista. Cláudia. Acho que ainda não se conheceram, né?
Balancei a cabeça.
— Sabia que ela morava aqui, mas não sabia da profissão.
— Trabalha aqui também. Meu pai é que não consegue ficar longe de Caicó.
— E ela gosta? De ser médica?
Bernardo sorriu.
— Pergunte sobre o trabalho e veja se consegue fazer ela parar de falar.
— Igual a você com os aviões.
— A diferença é que a paixão dela tem aprovação da família.
Ri, mas ele continuou:
— Meu tio também é médico. Lá em casa, quando não estão falando de gado e queijo, estão falando de hospital.
— Irmão da sua mãe?
— Do meu pai. Silas Carneiro.
Guardei o nome, desde que minha mãe negara que Alyson fosse meu pai, eu tentava aceitar a resposta sem transformar cada conversa numa investigação. Mas ainda queria entender por que aquele sobrenome a assustava tanto.

— Ele também mora em Natal?
— Mora. É Neufrologista e dono de um hospital aqui, e também de uma clínica de hemodiálise.
— Dono?
Bernardo assentiu, como se possuir um hospital fosse uma informação comum.
Para mim, não era. Eu ainda fazia contas para comprar apostilas. A família dele possuía lugares onde as pessoas realizavam a profissão com que eu sonhava.

— E ele cuida das coisas da fazenda também?
— Não. Tio Silas nunca gostou muito daquela vida. Quando dividiram a herança, vendeu a parte dele ao meu pai.
— Tudo?
— A parte que tinha na fazenda, pelo que sei. Meu pai queria ficar com aquilo. Meu tio queria seguir a vida dele aqui. Acertaram entre os dois.
Olhei para a aeronave ao nosso lado.
— Então seu tio conseguiu sair.
Bernardo demorou um instante para responder.
— Conseguiu.
— E seu pai não entende que você também pode querer outra coisa?
Ele soltou uma risada curta.
— Entender quando é o irmão parece mais fácil.
Ficamos em silêncio por alguns segundos.
— Você sempre quis Medicina? — Bernardo perguntou.
— Faz tempo. Na fazenda, quando alguém adoecia, tudo era longe. Às vezes, a pessoa esperava piorar para procurar ajuda. Eu ficava pensando como seria bom saber o que fazer.
— Deve ser difícil.
— O curso?
— Ver alguém precisando de ajuda e não conseguir ajudar.
Olhei para ele.
— É. Acho que foi isso que ficou em mim.
Bernardo apoiou os braços na lateral do avião.
— Minha mãe ia gostar de ouvir você falando assim.
— Será?
— Tenho certeza.
— Queria perguntar um monte de coisas. Como ela estudou, como escolheu a especialidade… Se teve alguma hora em que achou que não ia conseguir.
— Pergunte.
— Você fala como se fosse fácil.
— Conversar com ela?
— Sim — Sorri.
— Já seria uma ajuda.
— Posso apresentar vocês. E meu tio também, quando aparecer uma oportunidade.
— Não quero incomodar ninguém.
— Rafa, você quer conversar sobre uma profissão. Não está pedindo um hospital de presente.
— Ainda bem. Não tenho onde guardar.
Bernardo começou a rir, gostei de fazê-lo rir daquele jeito. Sem provocação, sem Caio aparecendo no meio da conversa, sem precisar descobrir o que havia por trás.
— Seu tio tem filhos? — perguntei.
— Uma filha. Sofia, ela é a convicção de que consegue enganar todos os adultos da família.
— Consegue?
— Alguns. Comigo, ela nem tenta. Já chega pedindo ajuda.
— Vocês são próximos?
— Muito. Ela é minha prima, mas a gente se trata como irmão. Sabe das aulas de aviação, por exemplo.
— E guarda segredo?
— Guarda. Depois cobra favores.
— Que tipo de favor?
— Confirmar que ela estava comigo quando o pai pergunta. Escutar quarenta minutos sobre um menino e, no dia seguinte, descobrir que já é outro.
Ri.
— Seu tio deve ter trabalho.
— Na frente dele, ela é um anjo. Eu é que recebo os relatórios.
— E ela sabe sobre você e Caio?
O sorriso de Bernardo ficou menor.
— Sabe. Foi uma das poucas pessoas com quem consegui conversar quando tudo terminou.
Não insisti, Bernardo passou a mão pela fuselagem, distraído.
— Acho que você ia gostar dela.
— Você já está planejando me apresentar a quantas pessoas?
— Por enquanto, três.
— Você pretende contar ao seu pai sobre a aviação?
— Quando não precisar mais da autorização dele.
— E quando será isso?
— Quero fazer um curso fora do estado. Se tudo der certo, passo alguns meses longe no próximo ano.
Havia confiança naquele gesto, Bernardo havia me trazido ao lugar onde escondia a parte mais verdadeira de si. Eu ainda sabia pouco sobre ele, mas conhecia um segredo que nem o próprio pai sabia.
— Por que me trouxe aqui?
Ele se aproximou.
— Porque você me contou que nunca tinha visto o mar.
— O que isso tem a ver?
— Queria mostrar alguma coisa que também me faz sentir pequeno e livre ao mesmo tempo.
O barulho de uma aeronave surgiu ao longe. Ficamos observando enquanto ela se aproximava da pista e pousava.
Bernardo acompanhou todos os movimentos.
— Um dia vou estar lá dentro — disse.
— Tenho certeza.
— Você acredita?
— A forma como você olha para um avião é a mesma forma como olhei para o mar. Não acho que alguém consiga fingir isso.
Ele voltou os olhos para mim.
— E você vai ser médico.
— Não sei.
— Claro que vai
— Como?
— Porque você atravessou metade do país, conseguiu emprego em poucos dias e ainda estuda depois de trabalhar. Parece mais difícil impedir você do que ajudar.
Aquela confiança me atingiu. O senhor André havia sido a única pessoa a falar do meu sonho como se fosse possível. Escutar aquilo novamente, vindo de Bernardo, fez alguma coisa se abrir dentro de mim. Aproximei-me.
— Obrigado.
— Pode agradecer de outro jeito.
— Você nunca perde uma oportunidade.
— Tenho pouco tempo em Caicó. Preciso aproveitar quando você aparece na minha cidade.

Beijei-o, Bernardo segurou minha cintura e me encostou na lateral da aeronave. Sua boca tinha o mesmo gosto de menta do nosso encontro anterior. Dessa vez, porém, havia mais urgência. Suas mãos entraram por baixo da minha camisa, percorrendo minhas costas. Passei os dedos por seus cabelos e o puxei para mais perto. O beijo me fez esquecer por alguns instantes onde estávamos. Bernardo desceu a boca pelo meu pescoço e parou perto da marca deixada por Caio. O corpo dele ficou tenso.

— Foi ele?
Eu sabia que aquela pergunta chegaria.
— Foi.
Bernardo levantou o rosto.
— Vocês transaram?
— Transamos.
Ele se afastou.
— Então você saiu da cama dele e foi me beijar?
— Nós não temos nenhum compromisso.
— Eu sei.
— E você apareceu na minha vida tentando provocar seu ex.
— Não é a mesma coisa.
— Por quê? Porque foi você quem decidiu?
Ele ficou em silêncio.
— Se vamos continuar nos encontrando, não vou aceitar ser tratado como território — falei. — Nem seu, nem de Caio.
— Não estou fazendo isso.
— Está perguntando sobre meu corpo como se tivesse algum direito sobre ele.
Bernardo olhou para o chão.
— Tem razão.
A resposta me surpreendeu.
— Eu fiquei com ciúme — admitiu. — Mas não tenho direito de cobrar.
— Ainda não.
Ele ergueu os olhos.
— Ainda?
— Depende do que você quer.
Bernardo voltou a se aproximar, mas não me tocou.
— Quando vi você na fazenda, percebi que Caio estava interessado. No começo, quis entender por quê. Talvez também quisesse provocar.
— E agora?
— Agora estou com raiva porque ele chegou primeiro.
— Isso não responde.
— Eu penso em você quando Caio não está por perto. Responde?
— Não completamente, mas era um começo.
— Não quero ser usado para vocês continuarem uma briga antiga.
— Não vou fazer isso.
— Promete?
— Prometo tentar.
— Tentar é pouco.
— Então prometo.
Ficamos nos olhando.
— Posso beijar você de novo? — perguntou.
— Pode.

Bernardo me encostou novamente na aeronave, o beijo começou devagar, como um pedido de desculpas. Depois ganhou força. Ele segurou meu rosto, percorreu meu corpo e deixou a boca descer por meu pescoço e peito. Minhas mãos encontraram sua cintura. O desejo aumentou depressa. Bernardo respirou contra minha pele quando o puxei para mais perto. Seus dedos desceram pela minha barriga e pararam no botão da calça.

— Rafa…
— Que foi?
Ele me beijou outra vez antes de responder.
— Se eu continuar, não vou querer parar.
— Talvez eu não queira que pare.

Seus olhos escureceram e por um momento, pensei que finalmente atravessaríamos aquele limite. Bernardo apoiou a testa na minha.

— Não aqui.
— Está com medo de alguém aparecer?
— Também.
— E qual é o outro motivo?
Ele tocou a marca em meu pescoço.
— Quando acontecer, não quero que Caio “esteja” com a gente, mesmo sem estar presente.
— Ele não está.
— Está aqui agora.
Bernardo tinha razão. Parte daquela urgência ainda era disputa. Se transássemos naquele momento, nenhum de nós saberia quanto do desejo pertencia a nós e quanto era uma tentativa de vencer Caio. Afastei minha mão de sua cintura.

— Então não será hoje.
— Está decepcionado?
— Um pouco.
Ele sorriu.
— Bom.
— Por quê?
— Significa que vai querer me ver de novo.
Saímos do hangar quando já estava escuro, no carro, Bernardo continuou com uma das mãos sobre minha perna. Não havia mais tensão no toque. Apenas proximidade. Antes de me deixar na hospedagem, retirou do chaveiro um pequeno pingente em formato de avião. Separou-o da argola e colocou em minha mão.

— Não posso aceitar.
— Pode.
— É seu.
— Tenho outros.
— Mentira.
— Está bem, não tenho. Mas quero que fique com você.
Observei o pequeno avião de metal.
— Por quê?
— Para lembrar que sonhos impossíveis também decolam.
Fechei os dedos em torno do objeto.
— Um dia você vai pilotar um avião.
— E você vai estar em algum hospital desta cidade.
— Então nós dois só precisamos parar de viver a vida que escolheram para a gente.
Bernardo sorriu.
— Exatamente.
Ele me puxou para um último beijo.
— Quando volta para Caicó?
— Amanhã depois do almoço.
— Queria mais tempo.
— Você também pode voltar.
— Vou em breve.
— Promessa ou ameaça?
— As duas coisas.
Desci do carro e antes de entrar, olhei para trás. Bernardo continuava parado, esperando que eu atravessasse a porta. No quarto, seu Geraldo já dormia. Deitei sem acender a luz e coloquei o pequeno avião sobre a mesa ao lado da cama. Meu celular tinha uma mensagem de Caio.
Caio: Chegou bem?
Respondi que sim, logo depois, outra mensagem apareceu.
Bernardo: Boa noite, futuro doutor.
Segurei o avião entre os dedos. Caio conhecia meu corpo, minhas brincadeiras e as partes de mim que perdiam o controle. Bernardo começava a conhecer meus sonhos. Naquela noite, descobri que ser desejado era bom. Ser enxergado era muito mais perigoso.


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Ficha do conto

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Nome do conto:
[REBOT] ENTRE CAMINHOS E SEGREDOS ~ 07 ~ PLANOS DE VOO

Codigo do conto:
273635

Categoria:
Gays

Data da Publicação:
02/10/2026

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