Depois de todos aqueles planos, e daquele jeito leve que a gente tinha conseguido encontrar mesmo no meio do susto, eu precisei pesar o clima. Talvez aquele não fosse o momento exato. Talvez fosse mais sensato esperar um dia, dois, até a poeira assentar. Mas eu não conseguia mais carregar aquilo sozinho. Precisava pôr pra fora, precisava de uma opinião, e talvez, sem nem saber, precisasse de colo. A verdade é que eu confiava no Caio. Era uma confiança estranha, porque não tinha sido construída com os anos, como são as confianças de verdade. Eu, que aprendi cedo a guardar tudo dentro, a engolir sozinho o que doía, descobri naquele quarto que existia uma pessoa diante da qual eu não precisava ensaiar nada. E foi com essa certeza, que nem eu entendia direito, que eu contei a ele minha história, e o que tinha acontecido horas antes.
— Caio, preciso te contar uma coisa.
Ele virou o corpo todo na minha direção, sem nenhuma piada, sem nenhum comentário. Só esperou.
— Eu fui criado sem pai. — Minha voz já saiu mais fraca do que eu queria. — Minha mãe saiu daqui grávida, porque meu pai não me aceitou, não me quis. Ela foi pra longe, pra Teófilo Otoni, em Minas Gerais. Eu cresci numa fazenda, sozinho. O dono, o Sr. André, me tratava quase como filho, mas... nunca era a mesma coisa. Nunca foi.
Respirei fundo, tentando segurar.
— Eu nunca tive um pai pra me ensinar a jogar bola. Nem pra me explicar sobre mulher, sobre sexo, sobre as coisas que a gente aprende errado quando não tem ninguém pra ensinar certo. Passei a vida inteira achando que eu só tinha a minha mãe. E de longe, às vezes, eu via o Sr. André tratando o filho dele, até com raiva, até gritando, e os outros funcionários nem ligavam, e aquilo mexia comigo de um jeito que eu nunca soube explicar. Eu ficava pensando: porra, trocava de lugar com ele agora, mesmo com o grito.
A voz começou a falhar.
— Eu dizia pra mim mesmo que eu era sozinho, que nunca tive e nunca ia ter pai. Dizia pro Sr. André, dizia pra minha mãe, que eu nunca tinha feito questão. Mentira. — O primeiro soluço escapou antes que eu conseguisse impedir. — Era uma dor que eu cuidava sozinho, no meu quarto, no meu travesseiro, nas noites em que eu me sentia diferente de todo mundo. Uma dor que eu nunca tive coragem de contar pra ninguém.
E ali estava eu, abrindo isso pra um amigo, um grande amigo, chorando na frente dele sem conseguir parar. O Caio não falou nada. Só me puxou pra um abraço, apertado, firme, com a mão na minha nuca, e eu continuei falando contra o ombro dele, a voz abafada, molhada.
— E agora, saber que eu posso ser pai... que eu posso dar o que eu não tive... — Ri no meio do choro, sem graça. — Mas enfim, não vamos focar nisso. A verdade é que hoje eu descobri a verdade, e eu não sei como te explicar isso, Caio, mas...
Me afastei um pouco, limpando o rosto com as costas da mão.
— Meu pai é irmão do Sr. Alysson.
— O QUÊ? — Ele se levantou da cama num pulo. — Como assim? O Silas é seu pai?
— Você conhece ele?
— Ele quase não vem a Caicó, mas já vi umas vezes na fábrica. E porra, Rafael, você se parece mesmo com ele... — Ele passou as mãos na cabeça, andando de um lado pro outro. — Mas peraí, peraí. Como assim? Cara, você é rico pra caramba!
— Eu não sou rico, Caio.
— Você é um Carneiro! Você sabe o que isso significa? Sabe a quantidade de dinheiro que...
— Eu não ligo pra isso. — Minha voz saiu firme, mais firme do que eu esperava. — Nem penso nisso. Eu não tenho plano nenhum de conhecer ele. Ele não me quis, ele não sabe que eu estou vivo, ninguém sabe. Antes de vir pra cá, meu plano era ir embora de Caicó com a minha mãe. Largar a fábrica, tudo, ir pra longe, sem contato com ele nem com ninguém dessa família.
— E agora?
— Agora tudo mudou. É como se o destino mandasse eu ficar. Eu não posso abandonar um possível filho, Caio. Preciso de trabalho, de emprego. — Engoli em seco. — E eu não sei se eu tenho cara de olhar pro Alysson. Principalmente porque eu preciso te confessar mais uma coisa.
Ele me encarou, desconfiado.
— Quando eu viajei pra capital... eu transei com o Alysson.
— O QUÊ? MEU DEUS! — Ele levou as duas mãos à boca, depois ao cabelo, depois ao rosto, sem saber onde pôr. — Quanta revelação num dia só! Eu suspeitava que o Alysson curtia umas paradas com cara, mas nunca soube de nada, nunca vi nada. E porra, Rafael, ele é seu tio!
— Eu sei. Meu tio. E isso tá me deixando noiado.
— Calma, calma. — Ele respirou fundo, sentou de novo do meu lado e segurou meus ombros. — Isso não é tão grave quanto parece. Até é interessante, dependendo do ponto de vista. Mas não vamos falar de putaria agora, porque eu tô processando tudo ainda. A gente vai ser pai, você é um Carneiro, o gostoso do Alysson curte no sigilo... Cara, que novela. Mas você não pode fugir, tá me ouvindo?
— Eu sei, eu sei. Mas eu tô perdido.
— Calma. A gente vai encontrar uma solução. — Ele ficou pensativo por um segundo. — Você acha que existe alguma chance de o Alysson saber quem você é?
— Segundo minha mãe, não.
— Ele te contratou muito rápido. Agora, lembrando do seu primeiro dia na fábrica...
— Acho que ele não teria ficado comigo sabendo que eu sou sobrinho dele, né?
— Por que não? — Ele arqueou a sobrancelha, com um meio sorriso, e logo balançou a cabeça. — Mas faz sentido. Cara, que doideira. Eu nem sei o que dizer sobre tudo isso. Mas eu vou te apoiar. A única coisa que eu não vou fazer é te apoiar a ir embora. Se você quiser se afastar da fábrica, a gente dá um jeito, eu vejo outro emprego pra você. Mas saiba que você não tá sozinho. A gente vai resolver tudo isso junto. Você carrega uma metade, eu carrego a outra.
Foi a frase mais simples que alguém já tinha me dito. E foi a que mais me tocou. A conversa com o Caio me acalmou. Pela primeira vez naquele dia interminável, eu me senti seguro, protegido, como se alguém tivesse finalmente acendido uma luz num cômodo escuro. Eu poderia simplesmente ter agradecido com um abraço. Mas fiz o que o meu instinto mandou: puxei o Caio pra um beijo.
Ele correspondeu sem hesitar, as mãos subindo pelo meu rosto, os dois rindo baixinho entre um beijo e outro, ainda com o rosto molhado. Logo estávamos sem roupa, esquecendo tudo o que tinha acontecido nas últimas seis horas, deixando o mundo lá fora com seus pais, tios, segredos e dúvidas e ali, naquele quarto, era só eu, o Caio, e mais ninguém. Eu empurrei ele pra cama e subi por cima, beijando a boca, o queixo, o pescoço. As mãos desceram pelo peito dele, sentindo a pele quente, os músculos firmes. O corpo do Caio sempre me deixava meio tonto, ombros largos, peito definido sem ser exagerado, a cintura estreita que contrastava com as coxas fortes. Eu passei a língua por um mamilo, depois pelo outro, enquanto a mão descia até o pau dele.
Aquele pau absurdamente grosso. Curto, uns treze centímetros, grosso pra caralho. A grossura quase impossível de fechar os dedos em volta. Eu apertei a base e desci a mão até a cabeça já brilhando, sentindo as veias saltadas sob a palma.
— Porra, Caio… — murmurei contra a pele dele. — Esse pau grosso…
Ele soltou um gemido baixo e desceu as mãos pelas minhas costas até a bunda. Apertei. Forte. Os dedos afundaram na carne. Eu tenho uma bunda grande — sempre tive — e o jeito que ele apertava, puxava, espalmava, fazia eu gemer alto.
— Essa bunda… — ele rosnou, a voz rouca. — Grande pra caralho.
Eu virei o corpo por cima dele, ajoelhei de costas pro rosto dele e desci a boca no pau grosso. No mesmo segundo, Caio puxou minha bunda pra baixo e enterrou o rosto entre as nádegas. O 69 ficou quente e molhado rápido. Eu chupava a cabeça daquele pau grosso com dificuldade, a boca se abrindo ao máximo, saliva escorrendo pelo queixo enquanto tentava engolir o máximo possível. Lá embaixo, a língua dele entrava no meu cu, abria, chupava, os dedos apertando as nádegas e separando pra conseguir mais acesso.
Eu gemia em volta do pau dele, a vibração fazendo ele empurrar o quadril pra cima. Caio gemia também, a língua funda, a barba raspando na minha pele. Eu descia a boca o máximo que dava, engasgando na grossura, depois subia lambendo a veia debaixo enquanto ele chupava meu cu com vontade. Quando não aguentei mais só a boca, eu desci o corpo, virei de frente pra ele e montei. Segurei o pau grosso, posicionei na entrada e desci devagar. A grossura abriu tudo de uma vez. Eu soltei um gemido longo, a cabeça jogada pra trás, sentindo cada centímetro daquele pau curto e absurdo me invadir. Caio segurou minha bunda com as duas mãos, os dedos afundando, e puxou pra baixo até eu sentar completamente.
— Caralho… — ele gemeu, os olhos fechados. — Tão apertado…
Eu comecei a me mexer. Subia e descia, sentindo a grossura abrir e fechar, o pau dele latejando dentro de mim. Caio apertava minha bunda a cada descida, puxava, espalmava, gemendo baixo. Eu inclinava o tronco pra frente, beijava a boca dele, e ele respondia com língua e dente, as mãos nunca saindo da minha bunda grande. O ritmo foi ficando mais rápido. Eu brincava com força, o pau grosso batendo fundo, o som molhado enchendo o quarto. Caio ergueu o quadril pra encontrar cada estocada, metendo de baixo pra cima enquanto eu descia. O prazer subia rápido demais. Eu segurei o próprio pau e masturbei no mesmo ritmo, a outra mão apoiada no peito dele. Quando gozei, gozei em cima da barriga dele, o corpo inteiro tremendo, o cu se contraindo em volta daquela grossura. Caio segurou minha cintura com força e meteu de baixo algumas vezes ainda, fundo, até gozar dentro, quente, forte, o leite enchendo enquanto ele gemia meu nome. Eu desabei em cima dele, ofegante, o pau ainda latejando dentro de mim. Caio passou a mão pela minha bunda de novo, apertando de leve, e beijou meu ombro. Ali, naquele quarto, era só eu, o Caio, e mais ninguém.
Fui pra casa e resolvi deixar o assunto da Letícia só pro dia seguinte. Já tinha sido verdade demais pra uma noite só, e minha mãe, depois de abrir a ferida de vinte anos, merecia pelo menos uma madrugada de silêncio. Tentei estudar. Abri o livro, li a mesma página três vezes, e não entrou uma linha. Foi aí que eu fiz uma coisa que eu sabia que não devia fazer. Era 2014, e o Facebook ainda era o lugar onde as pessoas deixavam as portas meio abertas sem perceber. Peguei o computador e abri o perfil do Bernardo e fui descendo pela lista de amigos, devagar, com o coração batendo como se eu estivesse arrombando uma casa. Foi assim que eu achei o perfil da Sofia. A minha meia-irmã. A menina que não fazia ideia de que eu existia. O perfil era privado, mas deu pra ver algumas fotos. Ela era loira, a pele da mesma cor que a minha, os olhos cor de mel. Tinha aquele rosto bonito de quem ainda não terminou de decidir quem vai ser. Numa das fotos de capa, segurava uma medalha de olimpíada de matemática, com um sorriso de quem sabia exatamente o quanto tinha custado conquistar aquilo. Fiquei muito tempo olhando para aquela foto. Eu me procurei nela. E me achei, no desenho do queixo, na teimosia da sobrancelha. Depois, achei o perfil do Silas vulgo meu pai, também privado. Mas a foto de perfil bastava. Um homem de rosto forte, traços marcados, o olhar firme de quem está acostumado a ser ouvido. Era difícil admitir, mas, olhando com calma, ele se parecia comigo. Talvez o olhar. Talvez a maneira como a testa franzia. Era bonito, e isso, de algum jeito, doeu mais ainda. Médico nefrologista, sócio de um hospital, dono de uma clínica de hemodiálise. Vi umas fotos soltas: um congresso, a inauguração de uma sala nova, ele de jaleco ao lado de uma equipe sorridente. Ele cuidava dos rins dos outros. E eu tinha passado a vida inteira sem saber que ele existia.
Era o mesmo sonho. A Medicina. O sonho que ele realizou e que, por causa dele, minha mãe aprendeu a temer em mim. Foi impossível não imaginar como teria sido a minha vida se ele tivesse ficado. Se eu fizesse parte daquela casa, daqueles jantares, daqueles retratos de família. Eu, na mesa, ao lado da Sofia, reclamando da prova de matemática. Ele, me ensinando a jogar bola no quintal. Mas eu sabia que aquilo era impossível. Não havia chance nenhuma de eu participar daquela vida. E, no fundo, eu também não queria.
O que eu sentia era abandono. Era um aperto no peito que não tinha tamanho. Ele não me quis. Mandou minha mãe me abortar, nunca procurou saber nada sobre ela. Para ele, eu nunca existia. A diferença era que, agora, eu sabia que ele existia. E ia escolher guardar aquilo só pra mim: viver sabendo, talvez assistindo de longe uma família que era minha e, ao mesmo tempo, não era. Era estranho demais. Era como ter a chave de uma casa onde eu nunca poderia entrar. Fechei a tela do computador e fiquei olhando para o escuro do quarto até o sono vir, quase de madrugada.
Na manhã seguinte, contei à minha mãe e à minha tia sobre a Letícia, foi um choque. Um daqueles silêncios compridos de cozinha, com o cheiro de café no ar e ninguém tocando na xícara. Expliquei tudo, devagar: a noite da festa, a possibilidade de ser do Caio ou minha, o combinado de assumir juntos e fazer o exame depois do nascimento. Minha mãe me olhou muito tempo. Havia medo naquele olhar, o medo de quem já viu um filho crescer sem pai e não quer ver a história repetir. Mas, quando eu disse que não ia fugir, que ia assumir fosse como pai ou como padrinho, os olhos dela mudaram. Amoleceram.
— Eu sei o que é crescer sem ninguém — falei. — Ninguém vai fazer isso com uma criança por minha causa.
Ela apertou minha mão e não disse nada. Não precisava, aproveitei aquele momento pra contar a outra decisão que eu tinha tomado: ia me afastar da fábrica. Falei que não me sentia bem de estar por perto depois de tudo que tinha descoberto, que ia tentar outro trabalho, longe dos Carneiro. Minha mãe adorou. Praticamente suspirou de alívio. Minha tia Sônia, por outro lado, tentou argumentar que eu estava fazendo a coisa errada, que fugir não resolvia nada, que eu estava jogando fora uma oportunidade.
— Sônia — minha mãe cortou, sem levantar a voz. — Deixa o menino.
Olhei pra ela, depois pra minha tia, e escolhi ficar do lado da minha mãe. Eu não queria contato com aquela família. Meu plano era me afastar aos poucos, até que o nome Carneiro, o rosto do Bernardo, a voz do Alysson, fossem apenas uma lembrança boa que eu não precisasse mais carregar. Era essa a minha decisão. O Bernardo tinha me mandado mensagem de manhã, e eu nem abri.
Naquela mesma manhã, fui até a fábrica, caminhei pelo corredor que eu já conhecia de cor, passei pelo cheiro de leite e de poeira industrial, e entrei no RH. Pedi demissão. A moça atrás da mesa me olhou sem entender, perguntou se estava tudo bem, se eu tinha certeza. Respondi que sim e não expliquei nada. Assinei o papel, agradeci e saí. Na porta, olhei pra trás uma última vez. Era estranho: eu tinha passado tão pouco tempo ali, e a fábrica já tinha virado um pedaço de mim. Mandei mensagem pro Caio contando da decisão. Ele respondeu rápido: me apoiava, e ia me ajudar a tentar outro emprego.
Não demorou nada pro Alysson me ligar, não atendi. Ele ligou de novo. Não atendi. Então chegou a mensagem:
“Aconteceu alguma coisa, Rafael? Por que você pediu demissão? Foi por causa do que rolou entre a gente?”
Pensei em não responder. Mas não tive coragem de deixar o Alysson sem uma palavra. Digitei devagar:
“Não foi nada disso, Sr. Alysson. Apenas recebi outra proposta, que acho que vai ser melhor pra mim.”
A resposta veio na hora:
“Me atende. Quero falar com você. Eu cubro a proposta da outra empresa.”
Respirei fundo.
“Alysson, melhor não.”
O telefone tocou na mesma hora. Fiquei olhando para o nome dele na tela, o aparelho vibrando na minha mão, até que atendi.
— Alô.
— O que houve, Rafael? Onde você tá? Vamos conversar. Você conseguiu emprego onde?
— Sr. Alysson, muito obrigado por todas as oportunidades. Mas acho melhor eu seguir o meu rumo. — Tentei mentir usando o nome do Bernardo, a voz mais firme do que eu sentia. — Acho que não foi legal o nosso envolvimento, e tem o Bernardo também. Prefiro me afastar. Respeita a minha decisão.
Do outro lado da linha, o silêncio durou alguns segundos que pareceram muito mais.
— Rafael? — Ele falou baixo, a voz diferente de tudo que eu já tinha ouvido dele. — Você descobriu a verdade? É por isso que você quer se afastar?
Meu coração parou.
— Por favor — ele continuou. — Vamos conversar pessoalmente. Eu posso explicar.