[REBOT] ENTRE CAMINHOS E SEGREDOS ~ 11 ~ A VERSÃO DO BERNARDO

Quando cheguei em casa, tinha uma mensagem do Bernardo: estou indo pra Caicó esse final de semana, quero te ver. Sorri lendo aquilo, perguntei quando ele chegava, trocamos mais algumas mensagens e segui minha vida. A semana passou voando, a troca de olhares com o Alysson continuava forte, intensa, impossível de ignorar, e eu e o Caio ficamos um tanto estranhos um com o outro depois daquela tarde no quarto dele. Eu ia aproveitar a vinda do Bernardo pra tentar entender tudo o que estava acontecendo: entre eu e ele, entre ele e o Caio. Porque a sensação que eu tinha era de estar sendo usado pelos dois, cada um à sua maneira. E, como eu disse, eu já estava começando a gostar do Bernardo de verdade. Isso só deixava tudo mais complicado.
Quando duas pessoas têm uma história mal resolvida, quem chega depois corre o risco de virar parte da briga. Às vezes, sem nem perceber. Essas palavras ficaram comigo o resto do expediente na sexta. Quando a hora de sair se aproximou, guardei minhas coisas devagar, tentando segurar a ansiedade. Eu queria ouvir o Bernardo. Mas também tinha medo de que a versão dele mudasse a imagem que eu vinha construindo nele, pedaço por pedaço, desde aquele aeroclube em Natal.
A verdade é que não existe jeito seguro de conhecer alguém. As pessoas não chegam até a gente prontas, organizadas, livres do passado. Carregam promessas antigas, ressentimentos, amores que juram ter superado e versões de si mesmas que prefeririam esquecer. O Bernardo estava prestes a me mostrar uma dessas versões. Ao sair da fábrica, encontrei o carro dele estacionado do outro lado da rua. Ele estava encostado na porta, de camisa azul-clara, aquele sorriso de sempre, mas dessa vez com um quê de nervosismo que eu não reconhecia nele. O Caio saiu logo depois de mim.
Os dois se olharam de longe. Nenhum acenou, nenhum disse nada. Ainda assim, dava pra sentir que uma conversa inteira tinha acontecido naquele cruzamento de olhares, um tipo de conversa que eu não tinha vocabulário pra entender ainda.

— Vamos? — o Bernardo perguntou, abrindo a porta do carona.

Entrei sem responder. Antes de ele dar a partida, olhei pela janela, o Caio continuava parado na frente da fábrica, tentou sorrir quando percebeu que eu olhava, mas não conseguiu sustentar. O Bernardo acelerou, nos primeiros minutos, ficamos quietos. A cidade passando na janela, o rádio desligado, só o barulho do vento entrando pelo vidro semiaberto.

— Posso te fazer umas perguntas? — quebrei o silêncio.
— Pode. É pra isso que eu vim.
— Você amou o Caio?
Ele não hesitou nem um segundo, o que, de alguma forma, me surpreendeu mais do que se tivesse gaguejado.
— Amei. Com a intensidade que só se ama uma vez na vida, antes de aprender a se proteger.
Achei bonito o jeito como ele disse aquilo. Bonito demais, talvez — como se já tivesse ensaiado a frase antes.
— Ainda ama?
— Uma parte de mim sempre vai gostar do menino que ele foi. Mas isso não é a mesma coisa que querer voltar.
— O Caio contou que vocês cresceram juntos. Que namoraram escondido, que você fazia plano de levar ele embora um dia.
— Fazia. — Um sorriso triste. — Eu era imaturo e achava que amor resolvia qualquer logística.
— E não resolveu.
— Meu pai decidiu que eu ia estudar Administração em Natal. Eu não tive coragem de dizer não. Quando percebi, já estava numa cidade nova, tentando ser o filho que ele esperava e mantendo um namoro escondido por telefone.
Reparei que ele contava aquilo com uma calma quase ensaiada, como quem já tinha repetido essa história pra si mesmo tantas vezes que ela tinha virado verdade de tanto repetir.
— O Caio disse que, no começo, vocês se falavam todo dia. Depois você sumiu.
— Eu não sumi. Eu me distraí. — Ele deu de ombros, um gesto leve demais pro peso da frase, conheci gente nova, uma vida nova, pessoas que falavam abertamente sobre quem eram. Em Caicó, eu achava que só existia eu e ele no mundo inteiro. Em Natal, descobri que existia muito mais.
— E isso valia o que você machucou pra chegar lá?
Ele ficou quieto por um instante longo demais.
— Eu não soube lidar direito com os dois lados. Isso eu admito.
Não era exatamente uma resposta. Mas segui.
— Teve uma foto. Com um cara chamado Vinícius.
Dessa vez, ele sorriu de leve, sem constrangimento nenhum, o que me incomodou mais do que qualquer confissão envergonhada teria incomodado.
— A gente tinha brigado. Eu bebi, beijei ele numa festa. Nada que durasse.
— O Caio achou que significava mais.
— Significava o que ele precisava que significasse, pra ter motivo de terminar comigo sem culpa.
Aquela frase me parou. Porque até ali, o Bernardo vinha se descrevendo como alguém que tinha errado por covardia, por medo, mas naquele momento, pela primeira vez, pareceu que a culpa já tinha sido redistribuída inteira pros ombros do Caio.
— Ele disse que você tinha vergonha dele. Que soltou a mão dele no meio da rua, na Festa de Sant'Ana, porque tinha medo de alguém ver.
— E tinha mesmo. Meu pai é o dono da fábrica, minha mãe conhece todo mundo da cidade... Eu era e sou dependente dos meus pais, e isso seria como se o mundo inteiro fosse desabar se alguém descobrisse.
— Isso é covardia ou sobrevivência?
Ele me olhou de um jeito que parecia genuinamente surpreso com a pergunta.
— As duas coisas, eu acho. Mas prefiro chamar de sobrevivência, se não for pedir demais.
Fiquei calado um tempo, tentando entender por que aquela conversa, que devia me deixar mais perto da verdade, só me deixava mais longe de saber em quem confiar.
— E as recaídas? — perguntei, por fim. — Ele falou que vocês ainda se beijavam e brigavam, de vez em quando, até pouco antes de eu chegar.
— É verdade.
— Quem procurava quem?
— No começo, eu. Depois, ele. — Ele deu um sorriso de canto, meio convencido, meio triste, uma mistura estranha. — A gente nunca conseguiu se despedir direito. Sempre sobrava alguma coisa — desejo, raiva, um resto de esperança.
— Ainda sobra?
— Raiva, talvez. Esperança, não.
Ele falou isso olhando direto pra mim, como se aquela frase fosse, na verdade, dirigida só a mim e não à pergunta que eu tinha feito.
— Agora eu quero saber outra coisa — falei, segurando a vontade de acreditar cedo demais. — Você se aproximou de mim por causa dele?
Ele hesitou. Foi a primeira hesitação real da conversa inteira, e isso, de um jeito estranho, doeu mais do que qualquer resposta pronta.
— Eu achei você bonito assim que te vi na fazenda.
— Não foi o que eu perguntei.
— Eu percebi o jeito que o Caio olhava pra você. E confesso que isso despertou minha curiosidade.
— Que conveniente — falei, sem conseguir esconder a ironia.
— Não foi por isso que eu te procurei naquele dia, Rafael.
— Mas foi por isso que começou.
— Talvez tenha começado assim, dentro da minha cabeça. — Ele deu de ombros de novo, aquele gesto leve que eu já estava aprendendo a desconfiar. — Mas depois eu te conheci de verdade. E isso muda as coisas.
— Muda o motivo. Não apaga o começo.
Ele não discutiu. Só sorriu, um sorriso bonito, treinado, do tipo que eu imaginava que tinha convencido muita gente de muita coisa.
— Eu não vou ser o prêmio de ninguém — falei, a voz mais firme do que eu esperava. — Nem seu, nem dele.
— Você não é um prêmio.
— Então para de falar de mim como se eu fosse a prova de alguma coisa que você precisa provar pro Caio.
Ele baixou os olhos, por um segundo, rápido demais pra parecer genuíno, rápido demais pra eu ter certeza do que eu tinha acabado de ver.
— Você tem razão — disse, baixinho.
A concordância fácil demais me deixou mais desconfiado do que uma defesa teria deixado. Ficamos em silêncio, o carro já tinha parado havia um tempo, sem eu nem perceber onde estávamos — uma casa velha, de paredes descascadas, escondida atrás de umas árvores secas.
— Onde a gente está? — perguntei.
— Um lugar que foi importante, uma vez — ele disse, sem muita explicação, abrindo a porta do carro.
E, mesmo sem saber ainda o que aquele lugar guardava, alguma coisa em mim já sabia que eu tinha acabado de entrar em outro capítulo da mesma história que o Caio tinha me contado, só que contada por alguém que sabia, melhor do que ninguém, como deixar a própria versão mais bonita do que a verdade.
Tem um tipo de solidão que só quem já ouviu duas versões de uma mesma história consegue entender. Porque até aquele momento, eu achava que escolher em quem acreditar era uma questão de prestar atenção direito, juntar os detalhes, comparar as datas, perceber quem hesitava mais, quem tinha mais a perder contando a verdade. Eu achava que, se eu escutasse com cuidado suficiente, a mentira ia aparecer sozinha, feito mancha em roupa clara e não apareceu.
O Caio tinha me contado a dele com a voz embargada, os olhos virando pra parede toda vez que doía demais olhar pra mim. Não tentou parecer bonzinho. Não tentou esconder a raiva, nem a mensagem cruel que mandou numa noite de ciúme, nem o jeito que tentou me afastar do Bernardo só pra não reviver a própria perda. Ele não quis ser a vítima da história. Só foi, sem querer, o retrato de alguém que amou demais pra um lugar pequeno demais, e nunca aprendeu a parar de doer por isso.
O Bernardo contou a dele de outro jeito. Calmo, bonito, cada frase parecendo já ter sido pensada antes, talvez até dita antes, pra alguém. Não negou os próprios erros, pelo contrário, admitia rápido demais, com uma facilidade que eu não sabia se chamava de maturidade ou de hábito. Ele também não tentou ser o vilão. Tentou, isso sim, ser compreendido. E tem uma diferença enorme entre contar a verdade e contar a versão da verdade que a gente consegue carregar sem se odiar. Eu ouvi os dois. E não consegui decidir, porque talvez a pergunta errada, desde o início, fosse "em quem acreditar". As duas histórias eram verdadeiras, do jeito capenga que a memória da gente sempre é verdadeira, porém cheia de buracos nos lugares que doem demais pra lembrar direito, e cheia de detalhes nítidos demais nos lugares que a gente usa pra se absolver.
Nenhum dos dois mentiu inteiro. Nenhum dos dois contou tudo, e eu, no meio daquilo, não era juiz, nem prêmio, nem personagem principal de porcaria nenhuma. Era só o rapaz que tinha chegado tarde demais numa guerra que já durava anos, carregando a ingenuidade de achar que amor recente apaga ferida antiga. Fui pego no fogo cruzado de dois ex-amores que nunca se despediram direito, um que ainda gritava de dor, outro que já tinha aprendido a sorrir enquanto sangrava. Eu só não sabia, até aquela tarde, que o fogo cruzado também queima quem não escolheu lado nenhum.
Entramos na casa “abandonada” as paredes descascadas, o telhado deixando passar os últimos raios de sol da tarde, o cheiro de poeira e mato seco. Ele caminhou até a varanda e passou a mão numa das colunas de madeira, devagar, como quem toca alguma coisa que já sabe de cor.
— Por que você me trouxe aqui, Bernardo? — perguntei, parado na entrada, ainda sem coragem de atravessar aquele limite.
— Porque eu queria que esse lugar significasse outra coisa. — Ele se virou pra mim. — Eu passei anos vindo aqui carregando lembrança. Queria, pelo menos uma vez, sair daqui carregando só você.
Era a frase mais bonita que alguém já tinha me dito. E era exatamente por isso que eu desconfiava dela. Mas ele se aproximou, e toda a desconfiança que eu tinha acumulado naquela tarde inteira derreteu no segundo em que a mão dele encostou no meu rosto, do mesmo jeito que a mão do Alysson tinha feito, só que mais trêmula, menos segura de si, e isso, de alguma forma, me desarmou ainda mais.

— Posso? — ele perguntou, baixinho, a testa quase encostando na minha.

Eu não respondi com palavras. Fechei a distância que sobrava entre a gente. O beijo começou devagar, quase cuidadoso, como se ele estivesse com medo de que eu mudasse de ideia. Mas não demorou pra virar outra coisa, minhas mãos na camisa dele, puxando com força, a respiração dele ficando pesada contra a minha boca. Os dois tropeçamos pra dentro da casa, entre a mesa velha e a cadeira coberta de poeira que nenhum dos dois se importou mais em evitar. Eu empurrei Bernardo contra a mesa de madeira rachada. O pó subiu no ar quando as costas dele bateram nela. Ele soltou um gemido baixo, os olhos verdes, a boca já vermelha. Eu abri a calça dele com pressa, puxei a cueca junto e tirei o pau dele pra fora, quente, duro, latejando na minha mão. Ele tentou me beijar de novo, mas eu virei o rosto e mordei o pescoço dele, descendo a boca até o ombro enquanto apertava a bunda dele com as duas mãos.

— Quero te comer aqui — murmurei contra a pele dele. — Nessa mesa. Agora.

Bernardo só conseguiu gemer. Eu virei ele de costas, empurrei o tronco dele sobre a madeira empoeirada e abri as pernas dele com o joelho. Desci a mão, passei saliva nos dedos e enfiei dois dedos de uma vez no cu dele. Ele arquejou alto, a testa batendo na mesa, os dedos se agarrando na borda rachada. Eu abri ele com pressa, sujo, sem delicadeza, sentindo o corpo dele tremer e abrir pra mim. Quando tirei os dedos, cuspi na mão, passei no meu pau e enfiei de uma vez.
Bernardo gritou baixo, a voz rouca ecoando na casa vazia. Eu segurei a cintura dele com força e comecei a meter, rapido, fundo, bruto, sem dó. A mesa rangeu, o pó voou, o som da pele batendo na pele encheu a sala abandonada. Cada estocada fazia o corpo dele avançar sobre a madeira, a bunda vermelha, o cu apertando meu pau como se quisesse me engolir inteiro.

— Porra… Rafael… — ele gemia, a voz quebrada. — Mais forte…

Eu apertei a nuca dele contra a mesa e meti ainda mais fundo, sentindo o cu dele se abrir e fechar em volta de mim, quente, apertado, com saliva e desejo. Não pensei no Caio. Não pensei no Alysson. Não pensei em nada além do calor do corpo do Bernardo, do jeito que ele gemia meu nome, do barulho molhado do meu pau entrando e saindo dele com força.
A luz da tarde foi ficando laranja, depois vermelha, depois quase nada, enquanto eu o fodia naquela mesa velha, a casa inteira cheirando a poeira e sexo. Quando ele gozou, gozou apertando a madeira, o corpo inteiro tremendo, o cu se contraindo em volta do meu pau. Eu não aguentei. Meti mais algumas vezes, fundo, e gozei dentro dele, quente, forte, enchendo, o leite escorrendo pela coxa dele enquanto eu ainda estava enterrado até o fundo. Ficamos assim por alguns segundos, ofegantes, suados, a mesa suja debaixo de nós. Depois eu saí devagar, virei ele de frente e o beijei de novo, mais lento, mais fundo. Ele me puxou pra perto, o rosto contra o meu peito, e por um instante eu acreditei, de verdade, que tinha encontrado o lugar onde pertencia. Eu não sabia, ainda, que estava prestes a descobrir o quanto essa certeza podia durar pouco.
Naquela noite, o Bernardo e eu cruzamos uma linha que vínhamos nos cercando desde o primeiro encontro. E, quando finalmente aconteceu, não senti a violência de uma chama. Senti o calor de uma porta se abrindo. Vestimos nossas roupas, tentando recuperar a respiração. O Bernardo virou o rosto na minha direção.
— Você mete bem.
— Obrigado — puxei ele pra um beijo rápido, ainda sorrindo, ainda leve. — Isso foi... intenso. Muito bom.
— Foi — ele concordou, mas tinha uma coisa na voz dele que eu não soube nomear na hora. Um recuo pequeno, quase imperceptível.
Sentei na mesa, encostado nele, achando que aquele era o momento de dizer o que eu vinha guardando havia dias.
— Bernardo, eu queria saber se existe possibilidade da gente tentar alguma coisa de verdade. Sério, eu digo.
Ele ficou quieto um segundo a mais do que eu gostaria.
— Rafael...
— Pode falar.
— A gente mora em cidades diferentes. Eu moro em Natal, você mora em Caicó. Isso já é uma distância enorme pra qualquer relacionamento normal.
— Natal não é tão longe assim.
— E tem outra coisa. — Ele passou a mão pelo cabelo, evitando meu olhar agora. — Você trabalha pro meu pai, Rafael. Isso complica tudo de um jeito que eu não sei se você tá enxergando direito.
Senti o chão sumir um pouco debaixo de mim.
— Você falou isso antes de a gente transar. Disse que não ia atrapalhar nada.
— E não atrapalha. No emprego.
— Então atrapalha onde?
Ele suspirou, como se estivesse escolhendo as palavras com cuidado, do mesmo jeito calculado que eu já tinha notado antes, na casa abandonada.
— Eu gosto de você, Rafael. Gosto muito, de verdade. Mas eu não quero que você seja um Caio 2.0, não quero prometer mundo, fazer plano, dizer que vou te tirar daqui, que a gente vai morar junto, essas coisas. Eu já vivi isso. Já machuquei e já me machuquei fazendo esse tipo de promessa.
— Eu não pedi promessa de mundo. Pedi pra gente tentar.
— "Tentar" já é a primeira palavra de uma lista de promessas, Rafael. Eu conheço esse caminho de cor.
— Então o que você quer? Porque eu não entendi mais nada.
— Eu quero continuar te vendo. Quando der. Quando eu vier pra Caicó, quando você for pra Natal. Sem rótulo, sem cobrança, sem essa coisa de "namorado" que vira peso rápido demais.
— Você tá dizendo que quer continuar transando comigo quando for conveniente.
— Eu tô dizendo que não quero mentir pra você fingindo que posso te dar algo que eu não sei se tenho. — A voz dele ficou mais baixa. — Prefiro ser sincero agora do que te machucar depois, do jeito que eu machuquei o Caio.
A comparação doeu mais do que qualquer coisa que ele poderia ter dito.
— Eu não sou o Caio.
— Eu sei que não é. Por isso não quero repetir o mesmo erro com você.
— Erro de quê? De tentar de verdade com alguém?
— Erro de prometer coisa que a distância e a vida não deixam eu cumprir — disse, por fim. — Não fica assim.
— Assim como, Bernardo? — a voz saiu mais dura do que eu pretendia. — Eu acabei de me entregar pra você, de corpo e de verdade, e agora você me explica, com calma, por que isso não vale mais do que um "quando der".
— Eu não quis te machucar.
— Mas machucou.
Ele se levantou, se aproximou, tentou segurar minha mão. Eu deixei, só porque eu ainda não tinha aprendido a dizer não pro que meu corpo sentia por ele, mesmo com o resto de mim inteiro em pedaços.
— Eu ainda quero você por perto — ele disse, baixinho. — Só não posso te prometer o que eu não sei se sou capaz de dar.
— Então não promete nada — respondi, soltando a mão dele. — Só me leva pra casa.
O caminho de volta foi quase todo em silêncio. Em algum momento, ele pousou a mão sobre a minha, no banco entre a gente, e eu deixei ficar ali por uns minutos, sem forças nem pra puxar, nem pra aceitar de verdade. Ele soltava toda vez que algum carro se aproximava dos faróis, como se mesmo aquele gesto pequeno precisasse ser escondido.
Na época, achei aquilo contraditório. Hoje entendo melhor: tem gente que nasce sabendo amar só até certo ponto, e nunca um centímetro além. Ele estacionou a uma rua da casa de tia Sônia.

— Amanhã posso te ver? — perguntou, antes que eu descesse.
— Pode — respondi, sem muita convicção.
— Isso significa alguma coisa?
Olhei pra ele, pra aquele rosto bonito que, horas antes, eu tinha certeza de que ia mudar minha vida inteira.
— Significa que eu ainda não sei dizer não pra você. Isso não é a mesma coisa que estar bem com o que você acabou de me dizer.
Ele abriu a boca, talvez pra se explicar de novo, mas eu já tinha saído do carro. Entrei em casa sem fazer barulho, passei direto pelo quarto da tia Sônia, que já dormia com a televisão ligada baixinho, e me joguei na cama ainda com a roupa do dia inteiro grudada no corpo. Foi só ali, sozinho, no escuro, que a ficha caiu de verdade: eu tinha acabado de dar o corpo pra alguém que já tinha me avisado, com todas as letras, que não ia dar o resto.


Faca o seu login para poder votar neste conto.


Faca o seu login para poder recomendar esse conto para seus amigos.


Faca o seu login para adicionar esse conto como seu favorito.


Twitter Facebook

Comentários


foto perfil usuario passivo10

passivo10 Comentou em 06/10/2026

Principalmente no caso do Bernardo que já falou desde o início que por dependência financeira não iria sair do armário (não sabe que o pai já descobriu),Rafael fica insistindo nessa história entre Caio e Bernardo, quem tá falando a verdade!! Agora ele transar com Caio e no outro dia beijar e querer transar com Bernardo, ok...ou ficar com Bernardo e logo depois querer dar pro pai dele??? Acho que ele se põe superior aos dois e não vê o que pode causar...




Atenção! Faca o seu login para poder comentar este conto.


Ultimos 30 Contos enviados pelo mesmo autor


273915 - [REBOT] ENTRE CAMINHOS E SEGREDOS ~ 10 A VERSÃO DO CAIO - Categoria: Gays - Votos: 2
273866 - [REBOT] ENTRE CAMINHOS E SEGREDOS ~ 09 NO CARRO COM ALYSSON - Categoria: Gays - Votos: 2
273747 - [REBOT] ENTRE CAMINHOS E SEGREDOS ~ 08 UM LUGAR A MESA - Categoria: Gays - Votos: 0
273635 - [REBOT] ENTRE CAMINHOS E SEGREDOS ~ 07 ~ PLANOS DE VOO - Categoria: Gays - Votos: 1
273510 - [REBOT] ENTRE CAMINHOS E SEGREDOS ~ 06 O TAMANHO DO MUNDO - Categoria: Gays - Votos: 2
273441 - [REBOT] ENTRE CAMINHOS E SEGREDOS ~ 05 ~ FOGO, SEXO E PAIXÃO - Categoria: Gays - Votos: 2
273300 - [REBOT] ENTRE CAMINHOS E SEGREDOS ~ 04 ~ CONVERSAS - Categoria: Gays - Votos: 4
273156 - [REBOT] ENTRE CAMINHOS E SEGREDOS ~ 03 SINAIS - Categoria: Gays - Votos: 4
273027 - [REBOT] ENTRE CAMINHOS E SEGREDOS ~ 02 O NOME CARNEIRO - Categoria: Gays - Votos: 4
272863 - [REBOT] ENTRE CAMINHOS E SEGREDOS ~ 01 A ESTRADA DE VOLTA - Categoria: Gays - Votos: 3
268536 - Bernardo [03] ~ PRIMEIRO BEIJO - Categoria: Gays - Votos: 2
268513 - BERNARDO [02] - Categoria: Gays - Votos: 2
268296 - BERNARDO [01] ~ INICIO - Categoria: Gays - Votos: 4
254050 - FORA DO ESTOQUE [12] ~ LUKE NO GRINDR - Categoria: Gays - Votos: 2
253377 - FORA DO ESTOQUE [11] ~ MOTEL COM LUCAS E FELIPE - Categoria: Gays - Votos: 3
247023 - FORA DO ESTOQUE [10] ~ DE VOLTA AO CINE REX - Categoria: Gays - Votos: 2
246960 - FORA DO ESTOQUE [09] ~ VIVENDO NA FANTASIA - Categoria: Gays - Votos: 0
246511 - FORA DO ESTOQUE [08] ~ SEXO A3 COM O BERNARDO - Categoria: Gays - Votos: 2
246373 - FORA DO ESTOQUE [07] ~ MEU SOBRINHO - Categoria: Gays - Votos: 4
246288 - FORA DO ESTOQUE [06] ~ SEXO REAL - Categoria: Gays - Votos: 5
246226 - FORA DO ESTOQUE [05] ~ NO ESCRITORIO DO GERENTE! - Categoria: Gays - Votos: 2
246026 - FORA DO ESTOQUE [04] ~ BANHEIRÃO E MOTEL - Categoria: Gays - Votos: 2
245962 - FORA DO ESTOQUE [03] ~ Obsessão Doentia - Categoria: Gays - Votos: 3
245956 - FORA DO ESTOQUE [02] ~ O PASSADO DE LUCAS GABRIEL - Categoria: Gays - Votos: 1
245863 - FORA DO ESTOQUE [01] ~ SEXO NO CINE REX - Categoria: Gays - Votos: 3
245746 - GAROTO, EU ODEIO AMAR VOCÊ ~ [90] ~ FINAL - Categoria: Gays - Votos: 2
245744 - GAROTO, EU ODEIO AMAR VOCÊ ~ [89] ~ PENULTIMO CAPITULO - Categoria: Gays - Votos: 1
245505 - GAROTO, EU ODEIO AMAR VOCÊ ~ [88] ~ EU ESCOLHO VOCÊ - Categoria: Gays - Votos: 0
245479 - GAROTO, EU ODEIO AMAR VOCÊ ~ [87] ~ 15 MINUTOS PARTE 2 - Categoria: Gays - Votos: 1
245346 - GAROTO, EU ODEIO AMAR VOCÊ ~ [86] ~ 15 MINUTOS - Categoria: Gays - Votos: 1

Ficha do conto

Foto Perfil contosdelukas
contosdelukas

Nome do conto:
[REBOT] ENTRE CAMINHOS E SEGREDOS ~ 11 ~ A VERSÃO DO BERNARDO

Codigo do conto:
273992

Categoria:
Gays

Data da Publicação:
06/10/2026

Quant.de Votos:
2

Quant.de Fotos:
0