[REBOT] ENTRE CAMINHOS E SEGREDOS ~ 19 SOFIA



Os dias que se seguiram em Natal foram bons. Eu aproveitei a folga, e aproveitei junto com o Caio: fomos à praia de Ponta Negra com calma, deitados na areia até o sol baixar, comemos em lugares que nenhum de nós dois pagaria em Caicó, e até olhamos algumas casas e apartamentos, só por curiosidade, só pra ver como seria. A gente já começava a sonhar que Natal estava mais perto do que longe. Uma nova vida, uma nova cidade. E, claro, um filho a caminho, sem que ainda soubéssemos como aquela dinâmica toda ia funcionar. Mas o que eu mais temia estava prestes a se concretizar: eu ia sair com o Bernardo e o Caio, juntos. O Bernardo ia nos levar a uma balada gay.
Aquilo era completamente novo pra mim. Eu vinha de Teófilo Otoni, mal tinha ido a Belo Horizonte, e uma balada gay era um mundo que eu só conhecia de ouvir falar. Como não tínhamos levado nenhuma roupa pra sair, eu e o Caio fomos ao shopping.


— Essa aqui — o Caio disse, levantando uma camisa de listras finas contra o meu peito. — Essa te deixa com cara de quem sabe o que tá fazendo.
— Eu não sei o que tô fazendo.
— Por isso mesmo. A camisa mente por você.


Compramos roupas, sungas e outras besteiras que a gente não precisava. Foi ali, no caixa de uma loja de departamento, que eu fiz meu primeiro cartão de loja. Sei que pode parecer bobagem, mas o momento me deixou feliz de um jeito estranho. Assinar aquele papel, receber aquele plástico com meu nome impresso, me fez sentir um pouco mais adulto, um pouco mais dono da minha própria vida. O Caio percebeu minha cara e riu.


— Tá emocionado com um cartão, Rafael?
— Cala a boca.
— Tô falando sério. É bonito. — Ele bateu o ombro no meu. — Um dia a gente vai lembrar disso e rir.


Mas vamos ao que interessa, a noite, o Bernardo pediu um uber pra buscar a gente no hotel e nos levou a uma prévia na casa de um amigo dele da faculdade, o Gustavo, num apartamento perto da balada. Tinha uns caras, uns casais, música baixa e copos pra todo lado. O clima estava bom. O Caio, pelo que dava pra perceber, não parecia desconfortável, e o Bernardo também não. Os dois se cumprimentaram com um abraço rápido, educado, e eu soltei o ar que nem sabia que estava prendendo. Bebemos, conversamos, rimos de histórias que ninguém contava direito. Em algum momento, o Bernardo se aproximou de mim perto da janela, com um copo na mão.


— Você tá bonito — murmurou.
— Foi o Caio que escolheu a camisa.
— Então vou agradecer a ele.


E me beijou. Um beijo rápido, quase um carimbo, mas deu pra sentir o calor dele nos meus lábios. Quando me afastei, meus olhos foram direto pro Caio, do outro lado da sala. Ele tinha visto. Sustentou meu olhar por um segundo, e eu tentei dizer, só com os olhos, uma coisa que se parecia muito com um pedido de desculpas. Não sei se vocês vão entender, mas existe um tipo de olhar que fala mais do que qualquer palavra. O dele falou. Não era raiva. Era uma coisa mais cansada, mais antiga. Logo depois, ele virou pro lado e puxou conversa com um rapaz que estava ali, de camisa preta, com um sorriso bonito. Fingi que não vi. Seguimos pra balada pouco depois da meia-noite.
Quando cheguei, fiquei boquiaberto com a estrutura: uma varanda enorme, luzes cortando a escuridão em feixes coloridos, o som tão alto que o chão tremia. Era uma festa de funk. E, claro, estávamos em 2014, e a Anitta estava começando a estourar, então tinha refrão dela em cada esquina da pista. Depois de reconhecer o lugar e a pista de dança, peguei uma bebida no bar e entramos. Dançamos. Eu e o Bernardo, o Caio um pouco mais longe, rindo com os amigos novos. E eu, claro, não consegui deixar de olhar ao redor: homens se beijando sem medo, casais de mãos dadas no meio da pista, algumas meninas, aparentemente héteros, dançando à vontade, como se aquele lugar fosse de todo mundo. Pensei em Caicó, em como o Caio e o Bernardo, tão perto naquele mesmo ambiente, só tinham tido um casarão abandonado pra se amar sem ninguém olhando. Pensei no que seria crescer num lugar assim. E me perguntei se alguém ali sabia o preço de uma liberdade que parece tão simples. Passei a noite com o Bernardo, entre dança, bebida e beijos, até que, já quase de manhã, ele me puxou pela mão até perto do banheiro.


— Quer ficar com um cara comigo? — falou no meu ouvido, rindo.
— Como assim?
— Aquele ali, de branco. Ele me chamou. Mas eu queria que você fosse.


Eu estava alto da bebida, a cabeça leve, o corpo ainda tremendo da música. Olhei pro rapaz, que sorriu pra gente com a maior naturalidade do mundo, e acabei topando. A gente se afastou da pista e foi pro banheiro. O cara de branco entrou junto, fechou a porta e já puxou o Bernardo pra um beijo. A língua deles se encontraram rápido, molhada. Eu fiquei ali, olhando, o pau já duro na calça. O Bernardo me puxou pela nuca e me beijou também, os três de uma vez. Bocas abertas, saliva misturando, as mãos se perdendo.
O cara abriu a calça do Bernardo e tirou o pau pra fora. Uns dezoito centímetros, longo, não tão grosso. Ele se ajoelhou e chupou fundo, engolindo quase tudo. O Bernardo gemeu baixo, a mão no cabelo dele, olhando pra mim. Depois ele me puxou. Eu me ajoelhei ao lado e chupei o pau do cara. Era grosso, quente, a cabeça brilhando. Eu e o Bernardo revezamos, as línguas se encontrando em volta da cabeça, beijando quente enquanto chupávamos, o cara virou o Bernardo de costas contra a pia, abaixou a calça dele e meteu. O Bernardo gemeu alto, a testa no espelho. Eu fiquei do lado, olhando. O cara metia forte, o pau entrando e saindo, o som molhado ecoando no banheiro. O Bernardo me olhou, ofegante, e me puxou pra perto. Eu beijei ele enquanto o cara o fodia. A mão do Bernardo desceu e segurou meu pau por cima da calça, apertando. Quando o cara gozou, gozou dentro. O Bernardo gemeu, o corpo tremendo. O cara saiu, ofegante, e o Bernardo se virou pra mim, o cu aberto, a porra escorrendo pela coxa. Ele me beijou, sujo, e falou baixo:


— Gostou?


Eu gostei. Claro que gostei. Foi rápido, quente, um pouco desajeitado, sem grandes cerimônias. O Bernardo nunca tinha demonstrado aquele lado da sexualidade dele pra mim. Aquilo era novo, e, claro, eu adorei. Mas, quando o vi beijar o outro ali, bem na minha frente, e deixar o cara meter nele daquele jeito, senti uma pontada de ciúme. E sim, eu sei que isso pode soar como egoísmo, comparado ao que eu mesmo fazia. Mas isso não vem ao caso. Quando saímos de lá, procurei o Caio na pista. Foi um dos amigos do Bernardo que me avisou:


— Ele saiu com dois colegas nossos. Falou pra dizer que tá tudo bem.
Fiquei olhando pra porta, com um nó estranho na garganta. Tudo bem, ele tinha dito. Eu conhecia aquela frase. O Bernardo me puxou pela cintura, o rosto vermelho, o cabelo grudado de suor.
— Vamos pra minha casa?
— Melhor não. Vamos pro hotel.


Ele insistiu uma ou duas vezes, mas acabou cedendo. A gente chegou no hotel ainda alto da bebida, a cabeça leve, o corpo quente. Assim que a porta fechou, eu empurrei o Bernardo na cama. O beijo veio bruto, com dente, a língua entrando com pressa. Eu tirei a roupa dele com força, a calça e a cueca juntas, o pau longo já duro. Virei ele de quatro, a bunda pra cima, e bati. Um tapa seco, forte, a carne tremendo. Ele gemeu alto.


— Porra… Rafael…


Eu bati de novo, mais forte. Depois mais uma. A bunda dele ficou vermelha rápido. Eu cuspi no pau, posicionei e enfiei de uma vez, fundo. Bernardo gritou baixo, a voz rouca, a testa no colchão. Eu segurei a cintura dele e comecei a meter com força, bruto, cada estocada fazendo a cama bater na parede. Os tapas continuaram. Eu batia na bunda grande dele enquanto metia, o som da pele estalando misturado com os gemidos altos dele.


— Mais… — ele pedia, a voz quebrada. — Bate mais…


Eu bati. Forte. A mão ardendo, a bunda dele vermelha, marcada. Eu metia fundo, o pau entrando e saindo molhado, o barulho sujo enchendo o quarto. Bernardo gemia sem parar, alto, sem se importar com o hotel. Eu olhei pra cama do lado, vazia, perfeitamente arrumada, e pensei no pai dele. Dias atrás eu tinha fodido o Alysson naquela mesma cama. Tinha metido fundo nele, tinha gozado dentro. Agora eu estava comendo o filho, batendo na bunda dele, e o tesão só aumentava. Eu aumentei o ritmo. Meti mais forte, mais fundo, os tapas secos na bunda vermelha. Bernardo gemia alto, o corpo tremendo, o cu apertando meu pau. Eu não aguentei. Segurei a cintura dele com as duas mãos, meti até o fundo e gozei forte, quente, enchendo ele. Jatos grossos, o corpo inteiro travando. Ele gemeu junto, o cu se contraindo em volta de mim. Fiquei parado alguns segundos, ofegante, ainda enterrado, o suor escorrendo. Depois saí devagar. A porra escorreu pela coxa dele. A gente se deitou, ofegantes, o corpo ainda tremendo. No hotel, transamos muito, até quase nove da manhã, e foi bem legal. Mas, quando adormeci, com o braço dele em volta de mim, me peguei olhando pra cama vazia do outro lado do quarto, a cama do Caio, perfeitamente arrumada.
O Caio chegou quase às duas da tarde. A gente ainda dormia, exausto da noite inteira, os lençóis embolados, as cortinas mal fechadas deixando entrar uma faixa de sol sobre o chão. Acordei com a porta se abrindo e com a voz dele, no tom mais teatral que eu já tinha ouvido.
— Bom dia, belas adormecidas.
Abri os olhos devagar. O Caio estava parado na porta, com uma sacola de papel numa mão e dois copos de café na outra, o cabelo ainda meio bagunçado da noite, e um sorriso que dizia que ele tinha visto absolutamente tudo e não ia perder a chance de aproveitar. O Bernardo se mexeu ao meu lado, puxou o lençol até o peito.


— Caio, eu...
— Calma, calma, não precisa se explicar. — Ele entrou, fechou a porta com o pé e olhou pra cama com uma seriedade fingida. — Só quero saber uma coisa. Cabe mais um aí?
Eu quase engasguei. O Bernardo caiu na gargalhada.
— Cabe — respondeu, passando a mão pelo rosto. — Desde que você tenha trazido café.
— Trouxe café. — Ele levantou os copos como quem apresenta um troféu. — E pão de queijo. Eu sou um homem de recursos.
Sentou numa poltrona de frente pra gente, estendeu um copo pro Bernardo, outro pra mim, e abriu a sacola. O cheiro de queijo e de pão quente encheu o quarto. Foi tão natural, tão leve, que por um instante eu esqueci de ter vergonha de qualquer coisa.
— Onde você dormiu? — perguntei, ainda com a voz rouca.
— Na casa de um casal amigo do Bernardo, o que foi com a gente na balada. — Ele deu uma mordida no pão de queijo. — Uns amores. Me deram café da manhã, me emprestaram uma escova de dente, e ainda me ensinaram a fazer um drink que eu nunca mais vou esquecer. A gente conversou até de manha. Eu falei de Caicó, eles falaram de Natal, e eu fiquei pensando que a vida aqui é outra coisa.
— Outra coisa como? — o Bernardo perguntou, e eu notei o cuidado na voz dele.
O Caio ficou um momento olhando pro copo.
— Agora eu entendo por que você ama tanto essa cidade, Bernardo. — Ele levantou os olhos, e não havia nem um grama de ironia no rosto. — Aqui as pessoas respiram diferente. Ninguém olha pros lados antes de pegar a mão de ninguém. Se eu tivesse crescido num lugar assim, acho que seria outra pessoa.
— Você seria igual a hoje, só que menos ranzinza — o Bernardo respondeu, sorrindo.
— Ranzinza eu? — O Caio fingiu indignação. — Você é que é o rei do drama.
— Eu era o rei do drama.
— Era. — Ele sorriu de volta. — Agora você é só o rei de Natal.
Os dois riram. Foi uma risada que eu nunca tinha visto entre eles, curta, honesta, sem peso. Fiquei olhando pros dois, sentindo uma coisa quente subir no peito. Não era aquele clima pesado de antes. Era como uma trégua. Ou talvez uma paz de verdade, daquelas que ninguém precisa assinar. Pelo menos era o que eu achava. O Bernardo se levantou, procurou a calça no chão.


— Preciso sair. Uns assuntos com minha mãe. — Ele vestiu a camisa e olhou pra mim. — Você tá livre à noite?
— Tô.
— Então vocês dois vão lá em casa. Vai ter uma social, uns amigos, música. Depois a gente vê se vai pra balada de novo.
— Combinado — o Caio respondeu antes que eu abrisse a boca. — Mas só se tiver comida.
— Sempre tem comida quando tem você.
Ele deu um beijo rápido na minha testa e saiu. Fiquei ouvindo os passos dele sumindo pelo corredor. Quando a porta se fechou, o Caio se jogou na cama ao meu lado, de barriga pra cima.


— E aí? Conta tudo.
— Eu que devia perguntar. Como foi com o casal?
— Foi educativo. — Ele levantou as sobrancelhas, e eu ri. — Mas esse capítulo eu conto outro dia. Agora eu quero saber da balada.
Contei. A pista, a música, a dança, a ida ao banheiro, o menino de branco, o beijo do Bernardo. Quando cheguei na parte do sexo a três, o Caio se sentou na cama, com os olhos arregalados.
— O Bernardo? O Bernardo-que-segurava-vela-em-procissão? Aquele que ia pro inferno só de pensar em beijar na rua?
— O próprio.
— Meu Deus. — Ele levou a mão ao peito, dramático. — Que milagre em Natal! O santo virou profano!
Rindo, olhei pra ele, e o riso foi diminuindo devagar.
— Tá tudo bem mesmo, Caio?
Ele ficou calado por um instante, olhando pro teto. Quando falou, a voz tinha mudado.
— Tá. — Ele respirou fundo. — Sabe, eu passei muito tempo odiando quem o Bernardo virou. Hoje eu entendo que ele só virou quem sempre foi, num lugar onde podia. E isso dói um pouquinho. Mas é uma dor boa. Tipo quando tiram o gesso.
— Você tem certeza?
— Tenho. — Ele virou o rosto pra mim e sorriu. — E para de me olhar com essa cara de culpa. Eu não tô morrendo, Rafael. Eu tô crescendo. É diferente.


Fiquei feliz. Não vou mentir. Muito feliz, mas a noite daquela social, na casa do Bernardo, ia me marcar pelo resto da vida. Foi ali que eu conheci a Sofia. Minha meia-irmã, por parte de pai. Ela não sabia quem eu era. Eu só sabia quem ela era por causa do meu stalker no Facebook. A casa do Bernardo era grande, de dois andares, com uma escada larga que dava na sala. Quando chegamos, tinha uns oito amigos dele, entre homens e mulheres, sentados pelo sofá e pelo chão, assistindo a clipes numa TV enorme e bebendo. A música estava alta, as risadas também. O Caio entrou na frente, cumprimentando todo mundo como se fosse da casa, e foi então que eu a vi, de longe.
A Sofia desceu a escada como quem nunca pediu licença pra entrar num lugar. Os cabelos cor de mel soltos nos ombros, os olhos verdes, o rosto bonito, e uma postura que dizia que aquele pedaço era dela, que sempre tinha sido. O queixo erguido. A sobrancelha teimosa. Eu me reconheci nela de um jeito que me deu vertigem. Olhei pro Bernardo. Ele me olhou de volta, e um cantinho da boca dele se curvou, num sorriso que só eu entendi. A Sofia veio direto até a gente.


— Primo! — disse, com os braços cruzados e uma cara de acusação divertida. — Quem é esse que você tava escondendo de mim?
— Deixa de ser pirralha, Sofia. — O Bernardo riu. — Esse é o Rafael, o cara de Caicó que eu te falei. Lembra?
— Ahhh! O Rafael! — Ela abriu um sorriso enorme. — Nossa, o Bernardo fala tanto de você que eu tava achando que era invenção dele. Que honra.
Ela me puxou pelo braço e me deu dois beijinhos, um em cada bochecha, com a naturalidade de quem sempre faz isso. O perfume dela era doce, de baunilha com alguma coisa cítrica. Eu fiquei imóvel, com o coração batendo no ouvido.
— Prazer — falei, meio tímido. — O prazer é meu.
— Posso te chamar de Rafinha?
— Pode.
— Então tá. Rafinha. — Ela cruzou os braços de novo, satisfeita. — E você pode me chamar de Sofia, de Sô, ou de Majestade, depende do dia.
— Pronto — o Bernardo disse, rindo. — Agora vocês dois têm apelido.
— Quantos anos você tem, Sofia? — perguntei, e a pergunta saiu antes de eu pensar. Saiu com um tom que eu não esperava: o tom de um irmão mais velho preocupado.
Ela levantou uma sobrancelha.
— Quinze e meio. Quase dezesseis. Por quê?
— Porque festa com bebida não é lugar de quem tem quinze.
— Ahhh. — Ela revirou os olhos, com um sorriso. — Mais um que acha que manda em mim. Eu já tenho um pai e um primo pra isso, Rafinha. Não preciso de mais um.
Um pai. A palavra me atravessou como uma faca. Tentei não mostrar nada.
— Ela veio só pegar o carregador — o Bernardo falou, com um olhar de cumplicidade pra mim, completamente fascinado com a cena. — E já ia subir.
— Eu ia subir quando eu quisesse. — Ela empinou o nariz. — Mas já que o Rafinha tá preocupado, eu fico mais um pouquinho só pra irritar.
Tentei segurar o riso e falhei. Os ciúmes de irmão, aquela vontade absurda de mandar nela e de protegê-la ao mesmo tempo, eram novos pra mim. E eu não podia demonstrar nada. Não podia dizer: eu sou seu irmão e quero te colocar na cama agora. Só podia ficar ali, de braços cruzados, tentando disfarçar o afeto estranho que crescia no meu peito.
— E você estuda o quê, querida? — perguntei, tentando conhecê-la.
— Meu pai quer que eu faça Medicina — ela respondeu, soltando um suspiro dramático. — Mas isso não tá no meu sangue, nem no meu plano. Eu e o Bernardo sofremos da mesma síndrome: pais que querem que a gente siga a profissão deles.
Quase ri. Quase chorei. Medicina era o meu sonho. E ela falava daquilo como quem fala de uma sentença.
— E o que você gosta de fazer? — tentei brincar. — Quer ser aeromoça e o Bernardo pilota o avião?
— Aeromoça? — Ela colocou a mão no peito, ofendidíssima. — Que ofensa! Eu quero ser atriz. Cantora. Viver de moda, sei lá. Tô montando um canal de maquiagem no YouTube, já tenho até roteiro do primeiro vídeo. Pode anotar: daqui a alguns anos eu vou ser muito famosa e ganhar rios de dinheiro sem precisar ser médica.
— Deixa de ser sonhadora, Sofa — o Bernardo disse, se metendo, adorando cada segundo.
— Sonhadora, não. Visionária. — Ela apontou o dedo pra ele. — Tem diferença.
— Vou anotar — falei. Peguei o celular, abri o bloco de notas e digitei: Sofia, futura famosa. Mostrei a tela pra ela.
Os olhos dela brilharam, e ela soltou uma risada que eu nunca esqueci.
— Gostei de você, Rafinha. — Ela se aproximou, olhou a tela e bateu o dedo na nota. — Isso aí. Anota mesmo.
— Vou ser o seu primeiro inscrito — prometi.
— Inscrito número um, hein? Não esquece.
— Não esqueço.
Foi a primeira promessa que eu fiz pra minha irmã. E foi a primeira que eu pretendia cumprir. Ela pegou o carregador num canto da sala, deu um beijinho no ar na direção do Bernardo, piscou pra mim e subiu a escada, com o mesmo passo de rainha com que tinha descido. Eu fiquei olhando até ela sumir no corredor do andar de cima. Senti uma mão no meu braço. O Caio tinha vindo ao meu lado, sem eu perceber. Ele se inclinou e sussurrou, só pra mim:


— Ela é a sua cara.
— Eu sei.
— Você tá bem?


Assenti, sem confiança na minha voz. Ele apertou meu braço mais uma vez, discretamente, e ficou ali, perto, sem dizer mais nada. O Caio fazia isso melhor do que qualquer um: sabia exatamente quando falar e quando só ficar.Naquela noite, rodeado de música, de risadas, de gente que não sabia de nada, eu entendi uma coisa. Eu tinha acabado de conhecer minha irmã e ela nem sabia.


Naquela noite, depois que a música baixou e a casa foi esvaziando aos poucos, eu fiquei um tempo na varanda do Bernardo, sozinho, com um copo d'água na mão e o barulho distante do mar chegando junto com o vento, eu tinha acabado de conhecer minha irmã. Não sei descrever direito o que isso faz com a gente. Nenhum manual ensina o que fazer com o peito quando ele descobre, de uma hora pra outra, que existe uma pessoa no mundo que carrega o seu queixo, a sua teimosia, o seu jeito de erguer a sobrancelha, e que essa pessoa passou a vida inteira num outro andar da mesma história sem nunca ter ouvido o seu nome.
A Sofia tinha uma vida que eu nunca tive. Eu pensava nisso sem querer, como quem pisa num degrau que não existe. Ela tinha um pai que sentava à mesa com ela, que cobrava nota, que sonhava um futuro pra ela, mesmo errando o sonho. Tinha uma casa com escada, com porta que fechava por dentro, com gente que perguntava se ela já tinha jantado. Tinha o luxo de reclamar da própria família, e esse talvez seja o maior luxo que existe: poder se queixar de quem ficou. Eu cresci do outro lado desse luxo. Cresci reparando nas famílias dos outros, aprendendo cedo a não pedir o que não vinha.
Mas, sentado ali, eu descobri uma coisa que me surpreendeu: eu não sentia inveja dela. Esperava sentir. Estava pronto pra sentir, até, porque seria mais fácil, a gente sabe lidar com a inveja. Mas o que veio foi outra coisa, mais macia e mais difícil. Veio uma vontade enorme de que ela ficasse bem. De que ninguém, jamais, a convencesse de que os sonhos dela eram pequenos. De que o canal de maquiagem, a fama, os rios de dinheiro, tudo aquilo que ela falava com a convicção de quem ainda não foi desmentida pela vida, desse certo. Eu gostei dela. Simples assim. Gostei de um jeito que eu não tinha escolhido e que também não sabia desescolher.
Queria ser amigo dela. Queria estar por perto sem precisar dizer o motivo. Queria ser o primeiro inscrito, o primeiro a curtir, o primeiro a aplaudir de longe, mesmo sem poder dizer em voz alta que aplaudia como irmão. Há amores que a gente só consegue dar escondido, e eu estava começando a entender que esse era o meu: um amor de plateia, de quem torce da última fileira e vai embora antes das luzes acenderem.
Talvez fosse isso que o Silas sentia, nas viagens anuais, atrás de uma árvore, na saída da minha escola. Talvez ele também tivesse olhado de longe e pensado: eu só queria que ele ficasse bem. A ideia me atravessou, e eu não soube o que fazer com ela. Fiquei com raiva dele por me fazer entender, e com raiva de mim por entender.
Lá embaixo, o mar fazia o mesmo barulho de sempre. Alguém riu dentro da casa, um copo tilintou, o Caio gargalhou de alguma piada ruim. Tudo parecia no lugar. O Bernardo estava feliz, o Caio estava em paz, o Alysson estava longe, a Sofia dormia lá em cima sem desconfiar de nada. Pela primeira vez em semanas, ninguém precisava de mim pra nada.
O mar estava calmo. Tudo nos conformes, mas eu já devia ter aprendido: depois da calmaria vem a tempestade.


Faca o seu login para poder votar neste conto.


Faca o seu login para poder recomendar esse conto para seus amigos.


Faca o seu login para adicionar esse conto como seu favorito.


Twitter Facebook



Atenção! Faca o seu login para poder comentar este conto.


Ultimos 30 Contos enviados pelo mesmo autor


274985 - [REBOT] ENTRE CAMINHOS E SEGREDOS ~ 18 SEXO A3 - Categoria: Gays - Votos: 0
274574 - [REBOT] ENTRE CAMINHOS E SEGREDOS ~ 17 ~ SEXO NA CACHOEIRA - Categoria: Gays - Votos: 2
274422 - [REBOT] ENTRE CAMINHOS E SEGREDOS ~ 16 ~ O OUTRO LADO - Categoria: Gays - Votos: 2
274278 - [REBOT] ENTRE CAMINHOS E SEGREDOS ~ 15 O Que Eu Nunca Planejei - Categoria: Gays - Votos: 2
274230 - [REBOT] ENTRE CAMINHOS E SEGREDOS ~ 14 PAI - Categoria: Gays - Votos: 0
274127 - [REBOT] ENTRE CAMINHOS E SEGREDOS ~ 13 SONHOS E PLANOS - Categoria: Gays - Votos: 2
274068 - [REBOT] ENTRE CAMINHOS E SEGREDOS ~ 12 COMENDO O FILHO, DANDO PRO PAI - Categoria: Gays - Votos: 4
273992 - [REBOT] ENTRE CAMINHOS E SEGREDOS ~ 11 ~ A VERSÃO DO BERNARDO - Categoria: Gays - Votos: 3
273915 - [REBOT] ENTRE CAMINHOS E SEGREDOS ~ 10 A VERSÃO DO CAIO - Categoria: Gays - Votos: 2
273866 - [REBOT] ENTRE CAMINHOS E SEGREDOS ~ 09 NO CARRO COM ALYSSON - Categoria: Gays - Votos: 2
273747 - [REBOT] ENTRE CAMINHOS E SEGREDOS ~ 08 UM LUGAR A MESA - Categoria: Gays - Votos: 0
273635 - [REBOT] ENTRE CAMINHOS E SEGREDOS ~ 07 ~ PLANOS DE VOO - Categoria: Gays - Votos: 1
273510 - [REBOT] ENTRE CAMINHOS E SEGREDOS ~ 06 O TAMANHO DO MUNDO - Categoria: Gays - Votos: 2
273441 - [REBOT] ENTRE CAMINHOS E SEGREDOS ~ 05 ~ FOGO, SEXO E PAIXÃO - Categoria: Gays - Votos: 2
273300 - [REBOT] ENTRE CAMINHOS E SEGREDOS ~ 04 ~ CONVERSAS - Categoria: Gays - Votos: 4
273156 - [REBOT] ENTRE CAMINHOS E SEGREDOS ~ 03 SINAIS - Categoria: Gays - Votos: 4
273027 - [REBOT] ENTRE CAMINHOS E SEGREDOS ~ 02 O NOME CARNEIRO - Categoria: Gays - Votos: 4
272863 - [REBOT] ENTRE CAMINHOS E SEGREDOS ~ 01 A ESTRADA DE VOLTA - Categoria: Gays - Votos: 3
268536 - Bernardo [03] ~ PRIMEIRO BEIJO - Categoria: Gays - Votos: 2
268513 - BERNARDO [02] - Categoria: Gays - Votos: 2
268296 - BERNARDO [01] ~ INICIO - Categoria: Gays - Votos: 4
254050 - FORA DO ESTOQUE [12] ~ LUKE NO GRINDR - Categoria: Gays - Votos: 2
253377 - FORA DO ESTOQUE [11] ~ MOTEL COM LUCAS E FELIPE - Categoria: Gays - Votos: 3
247023 - FORA DO ESTOQUE [10] ~ DE VOLTA AO CINE REX - Categoria: Gays - Votos: 2
246960 - FORA DO ESTOQUE [09] ~ VIVENDO NA FANTASIA - Categoria: Gays - Votos: 0
246511 - FORA DO ESTOQUE [08] ~ SEXO A3 COM O BERNARDO - Categoria: Gays - Votos: 2
246373 - FORA DO ESTOQUE [07] ~ MEU SOBRINHO - Categoria: Gays - Votos: 4
246288 - FORA DO ESTOQUE [06] ~ SEXO REAL - Categoria: Gays - Votos: 5
246226 - FORA DO ESTOQUE [05] ~ NO ESCRITORIO DO GERENTE! - Categoria: Gays - Votos: 2
246026 - FORA DO ESTOQUE [04] ~ BANHEIRÃO E MOTEL - Categoria: Gays - Votos: 2

Ficha do conto

Foto Perfil contosdelukas
contosdelukas

Nome do conto:
[REBOT] ENTRE CAMINHOS E SEGREDOS ~ 19 SOFIA

Codigo do conto:
275061

Categoria:
Gays

Data da Publicação:
19/10/2026

Quant.de Votos:
0

Quant.de Fotos:
0