— Vocês dois ficam aí de conchinha — disse, pegando uma cerveja. — Eu vou conhecer a noite natalense de verdade.
— Cuidado — falei.
— Eu sempre tenho cuidado. — Ele piscou. — Só não tenho juízo, mas isso é outra coisa.
Saiu rindo, e a casa foi esvaziando de gente e de som. Os amigos do Bernardo foram se despedindo, um a um, até sobrarmos só nós dois no sofá grande da sala, com a TV passando clipe e uma mesa de centro cheia de copos pela metade. A Cláudia tinha ido a um jantar de amigas e só voltaria tarde. Foi quando a Sofia apareceu na escada, de pijama, descalça, com os cabelos presos num coque torto.
— Alguém falou em ficar acordado? — perguntou, já descendo.
— Você não tava dormindo? — o Bernardo levantou uma sobrancelha.
— Tava tentando. Aí ouvi vocês rindo e o sono foi embora. — Ela se jogou no sofá entre nós dois, puxou uma almofada e se ajeitou como quem já morava ali. — Que que tá passando?
— Clipe.
— Clipe velho. Passa pro canal de música nova.
— Quem manda aqui é o dono da casa — o Bernardo disse.
— Quem manda aqui sou eu, e você sabe. — Ela tomou o controle da mão dele sem a menor cerimônia e mudou de canal. O Bernardo olhou pra mim, resignado, e eu ri.
Pediram pipoca. A Sofia foi até a cozinha buscar, voltou com uma tigela enorme e um guaraná, e a gente ficou ali, os três, assistindo, comentando, dando risada. Era gostoso ter ela por perto. Tinha uma leveza nela que contagiava, aquele jeito de ocupar o espaço sem pedir licença e, ainda assim, deixar a gente confortável.
— Você tem um sorriso bonito, sabia, Rafinha? — ela disse, de repente, sem tirar os olhos da TV. — Quando sorri, parece que a cara toda acende.
Fiquei sem graça.
— Obrigado.
— E você é gente boa. Dá pra ver. Tem cara de quem ouve de verdade, não só de quem espera a vez de falar.
— E você é a pessoa mais engraçada que eu conheci nos últimos tempos — respondi, e era verdade. — E mais corajosa também. Vai longe, Sofia.
Ela virou o rosto pra mim, e por um segundo parou de brincar.
— Você acha mesmo?
— Acho.
— Ninguém fala isso pra mim, sabia? Todo mundo fala “calma, Sofia”, “pensa, Sofia”, “você precisa de um plano B”. — Ela abraçou a almofada. — Você é o primeiro que fala que eu vou longe.
Uma coisa apertou no meu peito, forte, e eu tive que fingir que estava interessado na pipoca. Ficamos assim por mais um tempo, até ela começar a bocejar. Quando o sono voltou de vez, ela se levantou, esticou os braços, deu um beijo na bochecha do Bernardo e outro na minha.
— Boa noite, primo. Boa noite, Rafinha. Não esquece, inscrito número um.
— Não esqueço.
— Bom. — Ela sorriu. — Agora eu posso dormir tranquila.
Subiu a escada devagar, e eu fiquei olhando até a luz do corredor se apagar. Quando o silêncio voltou pra sala, o Bernardo encostou a cabeça no encosto do sofá e ficou olhando pra mim por um tempo. Ele sabia o que eu estava passando. Dava pra ver no jeito que ele tinha ficado quieto, esperando.
— E aí? — falou, por fim, baixinho. — Tá gostando de conhecer a sua irmã?
— Ela é uma graça. — Soltei o ar. — E completamente doidinha, né?
— A Sô é incrível. — O sorriso dele foi sincero. — Eu amo minha prima demais. A gente é praticamente irmão. Mas e você? Tá bem em relação a isso?
Demorei pra responder.
— Não sei. É tudo muito estranho. — Passei a mão no rosto. — Apesar de tudo, eu não consigo enxergar ela como minha irmã, sabe? Ela nem sabe quem eu sou, nem deve saber nada de mim. Então vai ser uma pessoa distante. Uma pessoa que eu vou conhecer só pela metade.
— Rafael — o Bernardo se ajeitou, virando o corpo pra mim —, você não precisa levar as coisas nesse radicalismo. Por que você não tenta conversar com o tio Silas?
— Você ficou louco?
— Não é papo de reconciliação, calma. — Ele levantou as mãos. — Mas pensa. O tio Silas é podre de rico. Capaz de ser mais rico que meu pai, porque a Ivete, mulher dele, mãe da Sofia, também é muito rica. Você é filho dele. Você tem direitos.
— Eu não quero um centavo desse cara.
— Rafael...
— Nem um centavo. E também não quero papo com ele. Já disse.
Ele ficou me olhando, e eu vi uma coisa passar pelo rosto dele, uma mistura de preocupação e de respeito. Depois suspirou e assentiu.
— Tudo bem. Não vou insistir.
E o assunto morreu ali. Fiquei em silêncio por alguns segundos, sentindo o peso daquela conversa se dissolvendo devagar no ar. Depois puxei o Bernardo pelo colarinho e o beijei. Foi um beijo lento, sem pressa, cheio de uma ternura que eu ainda estava aprendendo a reconhecer. Os lábios dele se abriram devagar contra os meus, a língua encontrando a minha com cuidado, quase perguntando. Eu respondi do mesmo jeito, a mão subindo pro rosto dele, o polegar passando de leve na bochecha.
A gente subiu pro quarto dele de mãos dadas, sem acender a luz. A penumbra do corredor entrava pela porta entreaberta. Eu tirei a camisa dele devagar, beijando o peito, o ombro, o pescoço. Ele fez o mesmo comigo, as mãos quentes deslizando pelas minhas costas até a bunda, apertando de leve, sem pressa. A gente se deitou na cama, pelados, os corpos se encaixando. O pau dele, longo, uns dezoito centímetros, roçou na minha coxa, já duro. Eu segurei e passei a mão devagar, sentindo o calor, a veia discreta, a cabeça molhada.
Bernardo me beijou de novo, profundo, e desceu a boca pelo meu peito até o pau. Chupou devagar, a língua passando lenta pela cabeça, depois descendo o máximo que dava. Eu gemi baixo, a mão no cabelo dele, os olhos fechados. Depois ele subiu de novo, deitou de costas e me puxou pra cima. Eu me posicionei entre as pernas dele, cuspi na mão, passei no pau e entrei devagar. Centímetro por centímetro. Ele soltou um suspiro longo, os olhos abertos, olhando pra mim. Eu parei quando enfiei até o fundo, o pau inteiro dentro, e fiquei assim por alguns segundos, sentindo o calor, o aperto, o corpo dele em volta de mim.
Comecei a me mexer lento. Estocadas longas, profundas, sem pressa. Bernardo gemia baixo, as mãos na minha cintura, puxando de leve pra mais fundo. A gente se olhava. Eu via o peito dele subir e descer, a boca entreaberta, o jeito que ele mordia o lábio quando eu enfiava fundo. De vez em quando eu parava, beijava ele, a língua lenta, e voltava a meter. O som era baixo, molhado, só a respiração dos dois e o barulho suave da pele se encontrando. Sem tapas, sem pressa, sem raiva. Só o calor, o suor começando a aparecer, e o tesão crescendo devagar.
Quando eu gozei, gozei fundo, olhando nos olhos dele, o corpo tremendo de leve. Bernardo gemeu junto, o cu apertando, e gozou também, o pau latejando entre os nossos corpos, a porra quente na barriga dele. Eu fiquei parado dentro dele por um tempo, ofegante, a testa colada na dele. A gente se beijou de novo, lento, o gosto de suor e sexo na boca. Foi a primeira vez que o sexo entre a gente foi calmo. De manhã, acordei com o sol batendo na cortina e o braço do Bernardo ainda em volta da minha cintura. Por alguns segundos, fiquei parado, ouvindo a respiração dele e o barulho de pássaros lá fora, tentando lembrar onde eu estava. Quando a memória voltou, veio inteira, e eu fechei os olhos de novo.
— Bom dia — o Bernardo murmurou, sem abrir os olhos.
— Bom dia.
— Dormiu bem?
— Dormi. — E era verdade. Fazia semanas que eu não dormia tão bem.
Ele se espreguiçou, levantou, abriu o armário e me jogou uma camiseta e uma bermuda.
— Toma. A sua tá com cheiro de sexo.
Tomei banho no banheiro dele, com o shampoo dele, vesti as roupas dele, e desci a escada com aquele cheiro dele grudado em mim, tentando não pensar no quanto aquilo parecia íntimo demais pra uma casa onde a mãe dele estava a poucos metros. A cozinha tinha uma mesa grande de madeira, posta como em filme: cuscuz fumegando, tapioca, queijo coalho, frutas cortadas, café, suco de cajá. A Cláudia estava na cabeceira, de roupão de seda claro, o cabelo preso num coque elegante, com uma xícara na mão. A Sofia estava ao lado dela, de pijama, com os pés em cima da cadeira, roubando pedaços de queijo coalho do prato da tia.
A Cláudia levantou os olhos quando entramos, e eu percebi, no segundo em que ela me viu, uma pontinha de surpresa. Mas foi só uma pontinha. Logo ela sorriu, aquele sorriso educado e caloroso de quem recebe bem qualquer pessoa.
— Bom dia, Rafael. Você ficou por aqui, que bom. Sente, sente. Bernardo, olha o estado dessa sala, meu Deus do céu. Parece que passou um furacão. Eu saio um dia e você transforma a casa num bar.
— Foi só uma social, mãe.
— Uma social de quarenta copos e uma tigela de pipoca no teto.
Eu me sentei, pegando uma fatia de tapioca, o rosto queimando por dentro. A Cláudia conversou comigo sobre coisas aleatórias: se eu estava gostando de Natal, se já tinha ido a Ponta Negra, se o hotel era bom. Falou da fábrica, da obra, do quanto o Alysson andava ocupado. Eu respondia tudo com a maior naturalidade que conseguia. Acho que ela não fazia ideia de que, horas antes, eu estava na cama com o filho dela. Ou talvez fizesse. Com as mães, nunca se sabe. E se soubesse do resto, de quem mais tinha passado pela minha cama naquela semana, aquele café ia ter outro clima. Foi no meio dessa conversa que o nome do Silas apareceu, sem aviso, de um jeito completamente desprevenido. O celular da Cláudia tocou em cima da mesa. Ela olhou a tela e atendeu.
— Alô? Oi. Sim... claro. Deve estar lá em cima, ela dorme com o aparelho debaixo do travesseiro... Tá, eu aviso. Cunhado, beijo. Tchau.
Ela desligou e olhou pra Sofia.
— Era seu pai. Disse que vem te buscar já, já. E reclamou que você não responde as mensagens.
A Sofia largou o pedaço de queijo e jogou a cabeça pra trás, num gemido dramático.
— Ai, tia! Meu celular tá lá em cima, aff. Eu queria aproveitar a manhã com os meninos. E o velhote vem logo agora.
— Para de chamar seu pai assim, Sofia.
— Ela só tem coragem de falar assim por trás — o Bernardo comentou, mordendo uma fatia de tapioca.
— Claro. Eu lá sou doida de arriscar a mesada? — Ela levantou o queixo, com um sorriso inocente. — Afinal, eu sou a princesinha do papai.
— Rafa, não liga — a Cláudia me explicou, balançando a cabeça. — A Sô é assim. Um demônio nas costas dos pais e uma princesa na frente deles. Mas a gente conhece a peça.
— Por isso ela vai ser uma grande atriz — falei, sorrindo, e tentando disfarçar a ansiedade que me subia pela garganta.
— Obrigada, Rafinha, meu inscrito número um. — A Sofia me mandou um beijinho no ar.
— Nossa família é toda doida — a Cláudia concluiu, rindo.
— Eu imagino — falei.
Sorri junto com todo mundo, mas por dentro eu estava longe. Sentia o coração batendo na garganta, a mão suada em volta da xícara. O Silas estava chegando. Eu ia ficar a poucos metros do homem que me gerou, será que eu ia conhecer o Silas? E, mais do que isso, será que eu estava pronto? Sabia que não. Fiquei conversando mais um pouco, tentando parecer natural, até que a ansiedade ganhou. Engoli o resto do café e me virei pro Bernardo.
— Acho melhor eu ir embora.
Ele me olhou, e eu vi na hora que entendeu. Não precisou perguntar o motivo. Só assentiu, devagar, com um cuidado que eu agradeci em silêncio.
— Rafael — a Cláudia disse, e eu me assustei com a voz dela —, o Silas está chegando. Quer conversar com ele?
O ar sumiu da cozinha.
— S-sobre o quê? — gaguejei.
— Ué, você não quer fazer Medicina? — Ela ergueu as sobrancelhas, com a naturalidade de quem oferece uma xícara de açúcar. — O Silas pode te dar dicas, te levar no hospital, mostrar como funciona. Ele ama Medicina. Fala disso o dia inteiro.
Ela não fazia ideia. Estava me oferecendo, com a melhor das intenções, justamente o sonho pelo qual eu tinha passado a vida inteira trabalhando, entregue pela mão do homem que eu mais queria longe da minha vida. A ironia era tão cruel que eu quase ri.
— Não, não — respondi, rápido demais. — Ele deve ser uma pessoa muito ocupada.
— Isso o velhote é — a Sofia resmungou, de boca cheia.
— Sofia! — a Cláudia repreendeu, sem muita convicção. E virou pra mim de novo. — Quando ele chegar, eu te apresento. Não custa nada.
— Melhor não. — Levantei, com a cadeira arranhando o chão. — Eu já vou ter que ir embora mesmo. Né, Bernardo?
— É — ele disse, levantando também, com uma calma que eu sabia ser só pra me proteger. — A gente tem que passar numa coisa antes da volta pra Caicó, mãe. E
— Mas nem terminaram o café...
— Já comemos o suficiente — o Bernardo disse, já me puxando de leve pelo cotovelo.
A Sofia me olhou, com a cabeça inclinada e uma expressão estranha, como se tivesse percebido que alguma coisa estava errada e não soubesse o quê.
— Então até Caicó, Rafinha — a Sofia disse, sorrindo.
— Até Caicó? — perguntei, sem entender.
— Daqui a três semanas é o aniversário do tio Alysson. — Ela se recostou no batente da porta da cozinha, de braços cruzados, com a naturalidade de quem comenta o tempo. — Meu pai, minha mãe e eu vamos pra lá. É uma das poucas vezes no ano que a gente vai pra aquela fazenda. Mas eu amo, apesar de tudo. Quero até gravar uns vídeos lá pro meu futuro canal.
— Ah. — Engoli em seco, e a voz saiu mais firme do que eu esperava. — Eu vou adorar te ajudar a gravar.
— Sério?
— Sério. Eu seguro a câmera, e você manda.
— Fechado. — Ela abriu um sorriso largo. — Inscrito número um e cinegrafista. Que luxo.
Retribuí o sorriso, mas por dentro algo girava. Três semanas. O Silas, a Ivete, a Sofia, todo mundo reunido numa fazenda, numa festa, possivelmente comigo no meio, e ninguém sabendo de nada. Eu tinha, de repente, uma data marcada, um prazo concreto pra me preparar psicologicamente. Ou pra desistir de me preparar.
Peguei minhas coisas no quarto do Bernardo, enfiei o resto da roupa na mochila e saí da casa com ele antes de o Silas chegar. Não falei nada, achei que ia respirar melhor assim que ficasse longe daquela porta, mas a sensação de aperto no peito me acompanhou pela rua inteira. O Bernardo dirigiu em silêncio. Não perguntou nada, não tentou puxar assunto, não encheu o carro de música pra preencher o vazio. Ele só dirigiu, com uma das mãos no volante e a outra pousada na minha perna, firme e quente, como quem diz tô aqui sem precisar falar. E eu agradeci aquilo mais do que qualquer palavra bonita. Quando ele parou na frente do hotel, desligou o motor e ficou um instante olhando pra frente.
— Quando você quiser falar, eu escuto — disse, por fim.
— Obrigado por não perguntar.
— Eu aprendi a ler você. — Ele sorriu, meio de lado. — Mais ou menos.
Ele me puxou pra um beijo demorado, daqueles que não pedem nada em troca.
— Eu adorei o fim de semana, Rafael. Mesmo com tudo.
— Eu também.
Ficamos ainda uns minutos conversando sobre outras coisas, coisas leves: a casa, a balada, a Sofia e o canal de maquiagem, do próximo fim de semana. Falar de trivialidades era um jeito de me manter inteiro. Depois eu subi pro meu quarto o Caio ainda dormia, esparramado de lado, com o travesseiro entre as pernas e a boca entreaberta. Sentei na beira da cama dele, e ele acordou aos poucos, esfregando os olhos.
— Que horas são? — resmungou.
— Dez e pouco.
— Hmm. — Ele se sentou, bagunçou o cabelo, e me olhou com a cara amassada de sono. — Ele sorriu. — Eu fui pra balada com o casal. Foi uma noite de... como é que eu digo... descobertas culturais.
— Caio.
— Depois eu conto. Agora fala você.
Contei da Sofia, do café da manhã, da Cláudia, da ligação do Silas. Do aniversário do Alysson, das três semanas. O Caio ouviu tudo calado, com os joelhos dobrados e os braços em volta deles, e quando terminei, soltou o ar devagar.
— Você viu ele?
— Não. Fugi.
— Fez bem. — Ele pensou um segundo. — Ou fez mal. Sei lá, vai saber. — Deu de ombros. — Mas eu acho que a gente nunca sabe se a fuga foi certa, só se o que veio depois foi pior ou melhor.
— Três semanas.
— Três semanas dá pra se preparar. Ou pra fugir de novo. — Ele me olhou, com aquela sinceridade que aparecia nele nos momentos mais inesperados. — Mas, se você decidir ficar, eu vou estar do seu lado. Em cada segundo daquela festa. Se ele falar uma palavra errada, eu derrubo bebida nele.
Eu ri, e o riso me soltou um pouco.
— Você derrubaria mesmo.
— Faço uma coisa ainda pior, mas prefiro não falar rs — Ele levantou, esticou os braços e foi pro banheiro. — Anda, arruma suas coisas, que a gente tem estrada pela frente.
Naquele dia voltaríamos pra Caicó. Peguei a mochila, dobrei as roupas que o Bernardo tinha me emprestado e guardei no fundo, entre as minhas, sem saber direito o que fazer com elas. O Caio cantarolava debaixo do chuveiro, e a água fazia um barulho confortável, de casa. Eu tinha três semanas pra me preparar. Pelo menos pra conhecer o Silas de vista. Vinte e um dias. Eu já começava a contar