[REBOT] ENTRE CAMINHOS E SEGREDOS ~ 21 SILAS

Três semanas se passaram. Nesse tempo, eu e o Caio fomos até a cidade da Letícia para a primeira consulta de pré-natal. Foi um deslocamento longo, mas necessário. Não estava nos planos abandoná-la, No caminho, a conversa foi prática: datas, exames, o que ela precisava, o que a gente podia ajudar. Sem peso extra, sem alusão ao que já tinha rolado entre a gente. A gente estava se encaixando numa amizade que começava a fazer sentido de verdade, neutra, estável, sem aquele desconforto antigo. Eu começava a entender que o Caio podia ser, de fato, um melhor amigo.
Com o Bernardo a coisa continuava irregular. Altos e baixos, mensagens que vinham quentes e depois esfriavam, encontros que não se concretizavam. A gente ia levando, sem forçar definição, também contei pra minha mãe sobre o Silas vir a Caicó. Ela não falou nada, só o olhar mudou. Ficou tensa, o corpo inteiro ficou. Eu não insisti.
Na quinta, no fim da tarde, eu estava na fábrica quando o Alysson me chamou pro escritório. Fechou a porta, puxou a cadeira e ficou olhando pra mim um segundo a mais do que o normal.


— Rafael, o Silas chega esse final de semana. Ele vai querer falar com você.
Eu já sabia. Mesmo assim o peito apertou.
— Eu não quero conversa, Alysson. Já falei isso. Não quero saber dele.
— Eu sei o que você sente. — A voz dele baixou, mas não perdeu firmeza. — Só que ele é meu irmão. E você é... você é da família. Não dá pra fingir que ele não existe pra sempre.
— Pra mim ele não existe. — Cruzei os braços. — E tava pensando em não ir no seu aniversário. Melhor assim.


O Alysson soltou o ar pelo nariz, meio cansado, meio impaciente.


— Não. Isso eu não aceito. Você vai. Pode ficar quieto o tempo que quiser, pode não olhar na cara dele, mas você vai estar lá. Não é só sobre ele. É sobre a gente também. Sobre o que a gente construiu aqui.


Ficamos em silêncio. O barulho da fábrica do lado de fora parecia mais alto. Eu sentia a raiva misturada com algo que eu não queria nomear. Silas era meu genitor, não meu pai. O peso da palavra “pai” ele nunca carregou, e eu não ia entregar de graça.


— Eu não prometo nada — falei baixo. — Só vou porque o senhor tá pedindo.
— Tá bom. — Ele assentiu, como se já fosse vitória. — Só isso por enquanto.


Saí do escritório com o corpo rígido. A ideia de ver ou conhecer o Silas mexia em alguma coisa que eu preferia deixar quieta, mas o Alysson tinha razão num ponto: cedo ou tarde ia acontecer. Mais tarde o Bernardo mandou mensagem. Estava em Caicó, na fazenda. Eu sorri sem querer, respondi que ainda tinha umas coisas pra resolver pro Alysson e que passava no fim da tarde. Aí veio a segunda mensagem: a Sofia estava lá com ele, e os pais dela também. Hesitei. Digitei que achava melhor não ir. O Bernardo insistiu, mandou áudio dizendo que eu ia encontrar o Silas de qualquer jeito, que não precisava falar nada, que era só aparecer. Depois chegou o áudio da Sofia, voz animada, sem saber de nada, me chamando pra cavalgar com ela e gravar um vídeo pro canal que ela queria abrir no YouTube, eu fiquei olhando a tela. O Bernardo tinha razão em uma coisa: fugir não ia adiar o que já estava vindo.
Quando cheguei à Fazenda dos Carneiros, estacionei o carro e fiquei alguns instantes ali, com as mãos sobre o volante, olhando para a propriedade. Perguntei a mim mesmo se deveria mesmo estar ali. Silas provavelmente estava a poucos metros de distância. Talvez dentro da casa, talvez do outro lado daquele enorme terreno. De qualquer forma, aquele encontro aconteceria mais cedo ou mais tarde. Eu sabia disso. Só não imaginava que seria tão difícil estar tão perto dele. Mas havia outro motivo que me fazia querer estar ali: Sofia. Minha irmã. Uma menina que não fazia a menor ideia de quem eu era de verdade, que desconhecia completamente a minha existência como irmão. E, ainda assim, eu já sentia por ela um carinho enorme. Estava com saudades, e queria aproveitar cada oportunidade de estar ao seu lado, mesmo que ela ainda não soubesse o verdadeiro significado daquilo.
Peguei o celular e mandei uma mensagem para Bernardo avisando que havia chegado. Pouco depois, ele apareceu acompanhado de Sofia. Os dois estavam vestidos com roupas apropriadas para cavalgar. Ela vinha com a câmera fotográfica na mão, provavelmente já pensando em registrar cada segundo daquele passeio. Assim que me viu, abriu um sorriso enorme e veio praticamente correndo na minha direção.
— RAFINHAAAA! Meu lindo! Como você tá? Gente, olha você! Tá perfeito! Ai, que saudade!
Ela me abraçou apertado, daquele jeito espontâneo e cheio de energia que parecia ser tão próprio dela.
— Sofia! Saudade de você também, menina! — falei, retribuindo o abraço. Depois olhei para Bernardo. — Oi, Bernardo! Quanto tempo!
— Oi, gatão! — respondeu ele, aproximando-se para me dar um abraço mais discreto, daqueles que só nós dois entendíamos.
— E então, como andam as filmagens? Já produziu muito conteúdo? Está famosa e não me contou?
Sofia fez uma careta, ajeitando a câmera nas mãos.
— Ai, ainda não! Estou cheia de ideias, mas não sei por onde começar. O Bernardo é uó, não tem criatividade nenhuma! Eu quero meu inscrito número um, vulgo você, para me ajudar. Pensei em fazer um vlog da fazenda, mostrar os animais, os cavalos, os lugares bonitos daqui... Mas ainda não sei. Queria fazer alguma coisa bem legal, sabe? Daquelas que as pessoas assistem e ficam com vontade de conhecer também.
— Então pronto! Vamos fazer o que você quiser. Não é, Bernardo?
— Sim, senhor! Vocês é que mandam. Faço qualquer coisa para ver minha priminha feliz — respondeu ele, entrando na brincadeira.
Sofia era uma figura. Tinha aquela energia contagiante de quem estava descobrindo o mundo e queria experimentar um pouco de tudo. Naquele tempo, a internet ainda era um território cheio de possibilidades, e ela estava empolgada com a ideia de se tornar uma YouTuber. Talvez não soubesse exatamente como fazer isso acontecer, mas tinha entusiasmo de sobra, uma câmera nas mãos e uma infinidade de ideias na cabeça.
Eu gostava de vê-la assim. E, como já havia decidido, faria o possível para apoiar seus sonhos, mesmo que de longe e mesmo que ela ainda não soubesse que aquele carinho vinha de alguém muito mais próximo do que poderia imaginar. Começamos nosso passeio pelos arredores da fazenda. Cada um montou em seu cavalo, e Sofia, naturalmente, não parava de conversar. Queria registrar tudo, fazia comentários para a câmera, inventava pequenas apresentações e, de vez em quando, interrompia o passeio porque achava que havia encontrado o cenário perfeito para mais uma gravação.
Em determinado momento, acabamos apostando uma corrida pelos caminhos de terra da propriedade. Sofia estava especialmente empolgada e não aceitava perder de jeito nenhum. Bernardo ria das nossas provocações, enquanto eu entrava na disputa só para vê-la comemorar quando achava que tinha vencido.
Depois de um bom tempo cavalgando, Bernardo nos levou até uma cachoeira escondida entre a vegetação. Segundo ele, aquele era um de seus lugares secretos, um refúgio que pouca gente conhecia. Sofia já havia estado ali outras vezes, mas era a primeira vez que ele me levava até aquele cantinho. O lugar era realmente bonito. A água cristalina, o barulho da queda e a vegetação ao redor criavam uma tranquilidade difícil de encontrar em qualquer outro lugar. Deixamos nossas coisas próximas às pedras e, em pouco tempo, os três já estávamos dentro da água.
Foi uma tarde agradável. Por algumas horas, consegui esquecer todas as preocupações, os conflitos e os segredos que carregava. Estava simplesmente ali, aproveitando a companhia deles. Com Sofia, tudo parecia mais leve. Ela tinha uma facilidade impressionante de transformar qualquer passeio em uma aventura. Quando finalmente voltamos à fazenda, já estava anoitecendo. E foi justamente naquele momento que o encontro que eu mais temia acabou acontecendo. Silas estava do lado de fora da casa, acompanhado da esposa. Por um instante, nossos olhares se cruzaram.
Ele sabia quem eu era. Eu sabia quem ele era. Havia uma história inteira entre nós, uma história que ninguém ali parecia conhecer. Mas não demonstrei absolutamente nada. Mantive a expressão tranquila, como se aquele homem fosse apenas mais uma pessoa que eu estivesse conhecendo pela primeira vez. Sofia, alheia a qualquer tensão, tratou de fazer as apresentações.
— Painho, esse é o Rafael! Meu amigo, aquele que eu falei. Ele é amigo do Bernardo e trabalha para o tio Alysson.
Silas se aproximou e estendeu a mão.
— Opa! Tudo bem, Rafael?
Apertei sua mão, tentando manter a naturalidade.
— Tudo bem. Prazer, senhor.
— Essa é Ivete, mãe da Sofia e minha esposa — apresentou ele.
— Prazer, rapazinho — disse ela, com um sorriso que não me pareceu muito sincero.
Não sei explicar, mas meu santo não bateu com o daquela mulher desde o primeiro instante. Havia alguma coisa na maneira como me olhava, dos pés à cabeça, como se estivesse tentando me avaliar ou descobrir alguma coisa a meu respeito. E aquele tratamento de rapazinho também não me agradou muito. Talvez fosse apenas impressão minha, mas Ivete tinha uma postura que me causava certo desconforto.
— Ai, Sofia, fiquei com o coração na mão sabendo que você estava andando de cavalo por aí! — comentou ela, olhando para a filha.
— Ai, mãe, me poupe, né? Eu praticamente nasci nessa fazenda! Conheço cada pedacinho daqui. A gente devia vir mais vezes, inclusive. Não sei por que vocês inventam tanta dificuldade.
— Você sabe que não é tão simples assim, Sofia.
— Ah, mãe, sempre tem uma desculpa!
Enquanto as duas conversavam, percebi que Silas continuava me observando. Eu podia sentir seu olhar, mas evitava encará-lo. Não tinha coragem, ou talvez simplesmente não tivesse vontade. Estar diante dele era muito mais complicado do que eu havia imaginado. Por mais que tentasse agir naturalmente, havia algo dentro de mim que parecia fora do lugar.
O clima começou a ficar desconfortável. Ivete olhava para mim e, em alguns momentos, direcionava o olhar para Silas. Era como se estivesse tentando entender alguma coisa. Talvez tivesse percebido a tensão entre nós, talvez estivesse desconfiada de alguma coisa. Ou talvez tudo aquilo fosse apenas fruto da minha cabeça, que já estava trabalhando demais. Decidi que era melhor ir embora.
— Bom, pessoal, vou indo. Já está ficando tarde.
— Aiii, não, Rafinha! Não vai agora! Fica para jantar com a gente! — pediu Sofia, segurando meu braço.
— Sofia, a casa não é sua para sair convidando as pessoas — interveio Ivete, em um tom que me pareceu desnecessariamente grosseiro.
Sofia revirou os olhos.
— Ai, mãe, me poupe! Essa casa é praticamente minha também, né? Vamos nos mancar! E outra, o Bernardo está aqui, meu tio adora o Rafa... Qual é o problema?
Bernardo aproveitou a deixa:
— Isso mesmo, Rafa. Fica com a gente.
— Acho melhor não. Tenho que jantar com a minha mãe.
Minha intenção era encerrar aquela situação o mais rápido possível. Eu não estava preparado para passar mais algumas horas naquele ambiente, muito menos para dividir uma mesa com Silas, fingindo que tudo aquilo era perfeitamente normal. Mas, quando pensei que finalmente conseguiria me despedir, ouvi uma voz conhecida vindo em nossa direção.
— Rafinha, querido! Você por aqui?
Era Claudia, ela se aproximou com aquele jeito simpático de sempre e, ao perceber quem estava ao nosso lado, tratou de completar:
— Vejo que já conheceu o outro médico da família, meu cunhado Silas.
— Sim — respondi, esboçando um sorriso um tanto torto.
Claudia continuou, aparentemente sem perceber o desconforto que começava a tomar conta do ambiente:
— Ele quer fazer medicina.
Ivete soltou uma risadinha debochada antes de comentar:
— Um peãozinho da fazenda quer ser médico? Hahaha!
Olhei diretamente para ela. Até aquele momento, vinha me esforçando para manter a educação e não me envolver em qualquer tipo de discussão, mas aquele comentário ultrapassou o limite.
— Sim, um peão da fazenda. Que estuda, trabalha e tem sonhos. Qual é o problema?
Minha resposta saiu firme, sem que eu precisasse elevar a voz. Não tinha motivo algum para me envergonhar de quem eu era ou do caminho que havia escolhido seguir. Ivete pareceu surpresa com a minha reação. Por um instante, sustentou meu olhar, mas logo recuperou aquela expressão de superioridade.
— Oh, queridinho, desejo muito sucesso na sua jornada. Enfim, vou me retirar.
E, com um sorriso forçado, saiu do alpendre e entrou na casa, ficou um silêncio desagradável no ar. Eu não estava disposto a prolongar aquela situação. Já havia decidido que iria embora, e agora tinha ainda menos motivos para mudar de ideia.
— Bom, gente, eu realmente preciso ir.
Claudia, porém, não parecia disposta a aceitar minha despedida.
— De jeito nenhum, Rafael! Você acabou de chegar e já vai embora? Fique para jantar com a gente.
— É, Rafa! Fica! — reforçou Sofia, toda animada.
Antes que eu conseguisse encontrar outra desculpa, Alysson apareceu no alpendre. Bastou olhar para os rostos ao redor para perceber que alguma coisa havia acontecido. Seu olhar passou por mim, depois por Claudia e Bernardo, até encontrar Silas.
— O que está acontecendo por aqui? — perguntou, com um sorriso discreto.
— Estávamos convencendo o Rafael a ficar para jantar — respondeu Claudia.
Alysson olhou para mim e, sem dar muita margem para uma recusa, fez o convite:
— Então está decidido! Rafael, você vai jantar conosco. Não aceito não como resposta. Já está aqui mesmo, rapaz!


Não havia como negar ou fugir daquela situação. Eu iria ficar, Bernardo percebeu meu desconforto e se aproximou discretamente, falando baixinho no meu ouvido:
– Vai ficar tudo bem. Relaxa, tá? Estou aqui.
Olhei para ele e tentei esboçar um sorriso. A presença de Bernardo me tranquilizava. Ele conhecia parte da minha história, sabia o quanto aquele encontro significava e, principalmente, entendia que eu não estava preparado para aquilo. Ter alguém ao meu lado, mesmo sem precisar dizer nada, fazia toda a diferença.
Entramos na casa. Silas disse que iria subir até o quarto de hóspedes para pegar algumas coisas, enquanto Alysson continuava me observando de vez em quando, como se tentasse entender o que estava acontecendo comigo. Fiquei na sala com Sofia e Bernardo. Ela fez questão de mostrar todos os vídeos que havia gravado durante a tarde. Assistimos às gravações, rimos das cenas em que ela quase caiu do cavalo e das inúmeras tentativas de fazer uma apresentação para sua futura audiência na internet.
– Não, gente! Essa parte ficou horrível! Bernardo, você tinha que ter cortado! – reclamou ela, escondendo o rosto nas mãos.
– Eu? Você que ficou falando sozinha para uma árvore durante quase cinco minutos! – respondeu ele, arrancando uma gargalhada minha.
– Era uma introdução artística, seu sem criatividade!
Sofia continuou falando sobre suas ideias, perguntando o que eu achava de cada uma e planejando os próximos vídeos. Por alguns instantes, consegui me esquecer completamente de onde estava e de quem estava naquela casa, até que o jantar ficou pronto. Quando chegamos à mesa, encontrei um verdadeiro banquete. Havia carne de sol, macaxeira, queijo de manteiga, cuscuz, carne de porco, sopa, pães e tantas outras coisas que pareciam não ter fim. Era uma mesa farta, daquelas que convidavam qualquer pessoa a se sentar e aproveitar.
Todos foram se acomodando, e o jantar começou de maneira aparentemente tranquila. Ivete continuava me observando de longe. Não era exatamente um olhar de curiosidade, mas algo que eu não conseguia interpretar muito bem. Silas, por sua vez, vez ou outra direcionava os olhos para mim. Eu percebia, mas evitava qualquer contato visual. Minha atenção estava voltada para a comida, para as conversas e, principalmente, para qualquer coisa que me ajudasse a não pensar demais.
Sofia acabou assumindo o comando da conversa. Contava histórias de Bernardo, fazia comentários sobre os acontecimentos da fazenda e não perdia a oportunidade de constrangê-lo com alguma lembrança engraçada. Todos riam, inclusive ele, que já parecia ter desistido de tentar se defender das histórias da prima.
Claudia também participou da conversa, e Alysson aproveitou para contar algumas histórias antigas da propriedade. Eu tentava acompanhar, sorria quando era necessário e respondia às perguntas que me faziam. Por fora, parecia tudo normal. Por dentro, entretanto, eu estava contando os minutos para ir embora. Depois do jantar, comecei a me despedir de todos. Agradeci pela recepção e já estava me preparando para sair quando Silas se aproximou.
– Rafael, você poderia me dar uma carona até a cidade?
Olhei para ele, sem esperar aquela pergunta.
– Aconteceu alguma coisa?
– Preciso passar na farmácia para comprar um remédio para Sofia. Não estou acostumado a dirigir por essas estradas à noite e não conheço muito bem o caminho.
Engoli a seco, era uma situação desconfortável. Eu não poderia simplesmente dizer que não, pois pareceria estranho, ainda mais depois de passar a noite inteira evitando qualquer aproximação. Bernardo me olhou discretamente, como quem também esperava minha resposta. Alysson fez o mesmo.
– Mas eu não volto para cá depois. Tem algum problema? – perguntei, tentando encontrar uma maneira de evitar que aquela carona se transformasse em uma obrigação.
– Alysson, mande seu funcionário trazer o Silas de volta, então – Ivete se intrometeu, como se a solução fosse bastante simples.
Alysson não gostou muito da intervenção.
– O Rafael não está em horário de trabalho. E ele não trabalha para a fazenda, trabalha para a fábrica. Não tem obrigação nenhuma de fazer isso.
Houve um pequeno silêncio.
– Posso levar e trazer o senhor, sim. Sem nenhum problema – respondi.
Alysson me encarou por alguns segundos.
– Rafael, não se sinta pressionado. Você não precisa fazer nada que não queira.
Olhei para ele e depois para Silas, no fundo, eu sabia que aquele encontro aconteceria cedo ou tarde. Talvez fosse melhor enfrentar aquilo de uma vez. Havia muitas perguntas sem respostas, muitas coisas que eu queria dizer e uma raiva que já não cabia dentro de mim. Se eu continuasse fugindo, talvez nunca conseguisse colocar um ponto final naquela história.
– Tudo bem. Vamos.
Silas foi buscar a carteira, enquanto me despedi rapidamente dos outros. Bernardo se aproximou mais uma vez e apertou discretamente minha mão. Não disse nada, mas seu olhar foi suficiente para me lembrar que eu não estava completamente sozinho. Entrei no carro e fiquei esperando. Pouco depois, Silas apareceu, abriu a porta do passageiro e se acomodou ao meu lado, liguei o motor e saímos.
Durante os primeiros minutos, ninguém disse absolutamente nada. A estrada de terra estava escura, e os faróis iluminavam apenas o caminho à nossa frente. Eu mantinha os olhos fixos na direção, com as mãos firmes no volante. Sentia a presença dele ao meu lado, e aquilo me incomodava profundamente. Silas parecia procurar alguma maneira de começar uma conversa. Olhava para mim, desviava o olhar e depois voltava a me observar. Até que finalmente resolveu falar.
– Rafael, quero te pedir desculpas. Não sei nem por onde começar.
Soltei uma pequena risada sem humor.
– Cara, eu não preciso do seu pedido de desculpas. Já falei que você, para mim, não existe. E ponto.
– Eu sei que você está com raiva...
– Não, você não sabe de nada. E, sinceramente, não precisa ficar tentando encontrar palavras bonitas para uma situação que você mesmo criou.
Ele respirou fundo.
– Eu errei com sua mãe.
– Então vá se desculpar com ela, não comigo. Foi ela quem precisou me criar longe daqui, com medo de ser encontrada por você ou pela sua família. Fui eu quem cresceu sem um pai. E foi assim a minha vida inteira. Sempre foi só eu e ela. Não existe espaço para você nessa história.
– Eu posso te ajudar, Rafael.
Olhei rapidamente para ele, tentando acreditar que havia acabado de ouvir aquilo.
– Eu não quero seu dinheiro, se é isso que você está querendo dizer.
– Não é isso. Eu só quero saber o que posso fazer por você. Quero tentar reparar, de alguma maneira, tudo o que aconteceu.
Balancei a cabeça e voltei a olhar para a estrada.
– Quer saber o que você pode fazer? Sumir da minha vida. Você teve diversas oportunidades de me encontrar. Eu soube que você viajava de vez em quando para Teófilo Otoni. Sabia onde minha mãe estava, sabia que eu existia. E, mesmo assim, nunca fez nada. Preferiu me observar de longe, como se isso fosse suficiente para aliviar sua consciência.
Silas abaixou a cabeça.
– Eu fui um covarde.
– Covarde? Covardia é o que você fez com a minha mãe. É o que fez comigo. Você abandonou uma mulher grávida, deixou que ela enfrentasse tudo sozinha e seguiu sua vida como se nada tivesse acontecido. Enquanto isso, ela precisou abrir mão de tudo, sair da cidade onde nasceu, deixar para trás a própria história e recomeçar longe de todo mundo.
Minha voz começou a sair mais firme.
– Você sabe o que é crescer sem saber por que seu pai não quis você? Sabe o que é olhar para outras famílias e perceber que existe alguma coisa que você nunca teve? Você não faz ideia do que é isso, Silas.
– Eu tinha um sonho, Rafael. Eu queria fazer medicina...
Virei o rosto na direção dele por um instante.
– Eu sei. E entendo que você tinha um sonho. Aliás, eu também tenho os meus. Mas me explica uma coisa: como é que você teve coragem de mandar minha mãe abortar? Como conseguiu fazer isso com uma mulher que dizia amar? E depois, quando descobriu que ela não tinha feito o que você queria, por que não voltou? Por que não procurou por ela? Por que não tentou saber se seu filho estava vivo, se tinha nascido bem, se precisava de alguma coisa?
Minha garganta já estava apertada.
– Você não precisava ter largado a medicina. Não precisava ter casado com minha mãe, não precisava ter mudado sua vida inteira. Bastava ter feito o mínimo. Um telefonema. Uma visita. Uma ajuda. Uma pensão. Qualquer coisa que demonstrasse que você tinha alguma responsabilidade por aquela criança que ajudou a colocar no mundo.
Silas passou a mão pelo rosto.
– Rafael, me desculpa. Por favor…
Foi então que comecei a perceber que ele estava chorando. Primeiro tentou conter as lágrimas, depois levou a mão aos olhos, mas acabou desabando em um choro que parecia vir de muito longe. Aquilo me provocou ainda mais raiva, pisei no freio e parei o carro no meio da estrada de terra. O silêncio do lugar tornou tudo ainda mais pesado. Pela primeira vez desde que havíamos entrado naquele carro, virei completamente o rosto e olhei para ele.
– Não, Silas. Não faça isso.
Ele continuou chorando.
– Por favor, Rafael... Não me faça me sentir um lixo.
Fiquei alguns segundos olhando para aquele homem. Era estranho. Durante tantos anos, imaginei como seria encontrar meu pai. Em algum momento da infância, talvez tenha fantasiado que ele apareceria, que me abraçaria, que explicaria sua ausência. Em outros momentos, desejei nunca conhecê-lo. Mas jamais imaginei que, quando finalmente estivesse diante dele, seria para ouvi-lo dizer que não queria se sentir um lixo.
– Um lixo? – repeti, sentindo minha voz falhar. – Você quer saber o que é ser um lixo? Lixo foi o que eu senti durante boa parte da minha vida, sem nem saber o motivo. Você não tem a menor ideia do que eu passei sozinho, enquanto brincava de construir uma família perfeita. Eu cresci sem você. Cresci com uma mãe que precisou ser forte por nós dois e com um patrão que, muitas vezes, me tratou como um filho. Enquanto você estava aí, vivendo sua vida, eu tentava entender por que não tinha um pai.
As primeiras lágrimas começaram a cair pelo meu rosto, tentei enxugá-las rapidamente, mas já não conseguia controlar a emoção.
– Você teve a oportunidade de fazer o básico, Silas. O mínimo! E não fez. Agora aparece dizendo que quer ajudar, que quer reparar o passado, que não quer se sentir um lixo... Mas e eu? E minha mãe? Quem estava preocupado com o que a gente sentia? Quem pensou em como seria crescer sabendo que o próprio pai não me queria?
Ele tentou responder, mas as palavras não saíram.
– Você acha que essas lágrimas vão mudar alguma coisa? Que basta chorar na minha frente para tudo ficar bem? Eu passei a vida inteira sem você. Você não estava lá nos meus aniversários, não estava nas minhas dificuldades, não estava quando eu precisava de alguém para me orientar, para me defender, para simplesmente dizer que tinha orgulho de mim. Você não estava em lugar nenhum!
Minha voz falhou novamente. Respirei fundo, tentando continuar.
– E sabe o que é pior? Eu nem sabia que tinha sido rejeitado antes mesmo de nascer. Eu não sabia que você tinha olhado para a possibilidade de eu existir e escolhido que isso não deveria acontecer. Quando descobri, alguma coisa dentro de mim mudou. Porque uma coisa é crescer sem um pai. Outra, completamente diferente, é descobrir que seu próprio pai não quis que você viesse ao mundo.
Silas chorava em silêncio, com o rosto baixo.
– Você iludiu minha mãe, se aproveitou da bondade dela e depois a deixou sozinha para enfrentar as consequências de uma história que vocês dois construíram. Ela precisou sair da cidade, foi expulsa da própria vida por pessoas que deveriam tê-la acolhido. Você tem noção da maldade que fizeram com ela? Tem noção do quanto ela precisou suportar para que eu pudesse estar aqui hoje?
Parei por um instante. Já não era apenas raiva. Era uma tristeza antiga, uma dor que eu nem sabia que ainda carregava daquele jeito.
– Você entende o que significa para mim olhar para você agora? Saber que você estava tão perto e, ainda assim, nunca foi meu pai? Eu passei anos tentando entender essa ausência. E você teve anos para fazer alguma coisa. Anos, Silas! Não foi um dia, uma semana ou um mês. Foram anos!
Ele levantou o rosto, com os olhos vermelhos.
– Você está sendo muito duro comigo. Eu sei que errei, sei que não tenho como justificar o que fiz, mas você não entende o meu lado. Eu também carrego esse peso.
Soltei o ar pelo nariz e balancei a cabeça.
– E você entende o meu lado? Por acaso entende o que é descobrir que o homem que deveria ter sido meu pai mandou me abortar? Que me rejeitou antes mesmo de saber quem eu seria? Você sabe o que fez comigo? Com a minha cabeça? Com a minha história?
As lágrimas já escorriam sem que eu tentasse escondê-las.
– Eu não tive escolha, Silas. Eu não escolhi nascer nessa situação. Não escolhi crescer longe de você. Não escolhi ser motivo de vergonha para uma família que nem sequer me conhecia. E, mesmo assim, fui eu quem precisou lidar com tudo isso. Fui eu quem precisou seguir em frente, enquanto você teve o privilégio de simplesmente fingir que nada havia acontecido.
Olhei para a estrada à nossa frente e depois voltei a encará-lo.
– Você teve uma família. Teve uma casa, teve uma esposa, teve uma filha. Teve a oportunidade de acompanhar o crescimento dela, de estar presente, de ensinar, de cuidar. Eu nunca tive isso. Nunca passei um Natal com um pai, nunca tive alguém para me buscar na escola, nunca tive essas coisas que parecem tão simples para você. Eu cresci sempre à sombra, inclusive sofrendo bullying por causa do filho do dono da fazenda onde eu trabalhava. E você não estava lá. Nunca esteve.
Minha respiração estava descompassada. Passei as mãos pelo rosto, tentando limpar as lágrimas, mas era inútil.
– Sempre fomos eu e minha mãe. Só nós dois. E, mesmo assim, ela conseguiu me dar tudo o que estava ao alcance dela. Foi ela quem esteve comigo quando precisei. Foi ela quem me ensinou a ser alguém. Você não tem o direito de aparecer agora e achar que pode ocupar um lugar que nunca fez questão de construir.
Silas tentou se aproximar, mas não deixei.
– Não. Não encosta em mim.
Ele recuou imediatamente.
– Tudo bem, Rafael. Você tem todo o direito de me odiar. Eu não posso exigir nada de você e sei que não mereço seu perdão. Mas eu quero fazer alguma coisa. Não sei se um dia você vai conseguir me olhar sem sentir essa raiva, mas gostaria de ter uma oportunidade de reparar, pelo menos um pouco, tudo o que fiz. Me diga o que posso fazer.
Fiquei olhando para ele por alguns segundos, havia tantas coisas que eu poderia dizer. Tantas perguntas que gostaria de fazer. Tantos anos que queria recuperar, tantas lembranças que nunca existiriam. Mas nenhuma resposta seria capaz de devolver o que havia sido perdido. Eu não queria seu dinheiro. Não queria seu sobrenome, seus presentes ou qualquer tentativa de compensação. Não queria uma relação construída às pressas, muito menos fingir que éramos uma família só porque, biologicamente, compartilhávamos o mesmo sangue.
– Eu já disse o que você pode fazer.
Silas me olhou, esperando.
– Quero que você suma da minha vida. Que esqueça quem eu sou e que nunca mais tente se aproximar de mim. Você nunca existiu na minha vida, Silas. E não vai ser agora que vai existir.
Ele não respondeu, voltei a olhar para a estrada e liguei o carro novamente. Silas permaneceu imóvel no banco do passageiro, com o rosto voltado para a janela. Eu também não disse mais nada. O restante do caminho foi feito em silêncio. Não havia mais acusações, pedidos de desculpas ou explicações. Apenas o barulho do motor e dos pneus passando pela estrada de terra. De vez em quando, percebia que ele enxugava o rosto, mas não tinha vontade de olhar. Quando finalmente chegamos à cidade, parei próximo à farmácia que ele havia mencionado. Silas retirou o cinto de segurança e ficou alguns segundos sem abrir a porta.
– Obrigado pela carona, Rafael.


Naquela noite, enquanto dirigia de volta, fiquei pensando em tudo o que havia acontecido. Eu tinha passado tantos anos imaginando como seria encontrar meu pai, mas nunca havia considerado que esse encontro pudesse doer tanto. Talvez porque, durante muito tempo, uma parte de mim ainda alimentasse a esperança de que existisse alguma explicação, algum motivo que tornasse sua ausência menos dolorosa. Mas não existia. A verdade estava ali, e era muito mais difícil de aceitar do que qualquer história que eu pudesse ter inventado durante a infância.
Crescer sem um pai nunca foi fácil. Por mais que minha mãe tivesse feito de tudo para que eu não sentisse sua falta, havia momentos em que a ausência se tornava impossível de ignorar. Nas datas comemorativas, nas apresentações da escola, nas dificuldades da adolescência, nas pequenas conquistas que eu gostaria de compartilhar com alguém que tivesse orgulho de mim. Eu aprendi cedo a não esperar por aquilo que nunca vinha. Aprendi a me virar, a engolir certas tristezas e a não demonstrar quando alguma coisa me machucava. Mas isso não significava que não doesse.
E, agora, havia algo ainda mais difícil de carregar: Sofia, minha irmã. Uma menina cheia de sonhos, espontânea, divertida, com uma luz que parecia iluminar qualquer lugar por onde passava. Passei a tarde ao lado dela, ouvindo suas histórias, rindo de suas brincadeiras e ajudando-a a pensar em seus projetos. E, enquanto ela me chamava de Rafinha, eu precisava guardar dentro de mim a vontade de dizer que era muito mais do que seu amigo. Que eu era seu irmão. Que tínhamos o mesmo pai, que existia uma história inteira nos separando e que, por razões que ela desconhecia, eu não podia simplesmente abraçá-la e contar a verdade.
Era estranho demais. Eu tinha encontrado uma irmã e, ao mesmo tempo, não podia tê-la como irmã. Queria participar de sua vida, acompanhar seus sonhos, comemorar suas conquistas, vê-la crescer e estar por perto quando precisasse de alguém. Queria poder dizer que ela poderia contar comigo para qualquer coisa, sem precisar inventar justificativas para tamanho carinho. Queria que ela soubesse que, mesmo sem conhecer toda a história, havia alguém torcendo por ela de uma maneira que talvez jamais imaginasse.
Mas não podia. Pelo menos não naquele momento, e talvez essa fosse uma das partes mais cruéis de tudo aquilo: descobrir que existia uma família da qual eu fazia parte pelo sangue, mas na qual não havia lugar para mim. Eu estava sentado àquela mesa, ouvindo risadas, observando histórias sendo compartilhadas e vendo Sofia circular entre aquelas pessoas com a naturalidade de quem sempre pertenceu àquele ambiente. E eu? Eu era apenas Rafael, o “amigo” do Bernardo, o funcionário da fábrica, o rapaz que havia sido convidado para jantar.
Ninguém imaginava quantas coisas eu precisava esconder para conseguir permanecer naquela sala. Não era inveja da minha irmã, muito menos ressentimento por ela ter tido aquilo que me faltou. Sofia não tinha culpa de absolutamente nada. Pelo contrário, eu desejava que ela tivesse tudo de melhor, que crescesse cercada de amor, que realizasse seus sonhos e nunca precisasse conhecer o peso de uma rejeição como aquela. Mas seria mentira dizer que não doía olhar para aquela família e imaginar tudo o que poderia ter sido diferente.
Eu nunca teria aquelas lembranças. Não existiriam fotografias minhas com meu pai na infância, histórias de passeios em família ou recordações de natais compartilhados. Não haveria uma infância perdida que pudesse ser recuperada, nem uma adolescência que pudéssemos reviver. O tempo havia passado, e algumas ausências não podem ser preenchidas com pedidos de desculpas.
Minha mãe e eu construímos nossa própria família, do nosso jeito, com o pouco que tínhamos e com todo o amor que ela foi capaz de me dar. E eu seria eternamente grato por isso. Mas, em algum lugar dentro de mim, ainda existia aquele menino que gostaria de ter tido um pai, uma irmã por perto, uma mesa cheia de pessoas que o chamassem pelo nome e um lugar onde pudesse simplesmente pertencer.
Naquela noite, entendi que algumas descobertas não chegam para preencher vazios. Às vezes, elas apenas mostram o tamanho deles. Eu havia encontrado meu pai, conhecido minha irmã e estado diante de uma família que, de alguma forma, também era minha. Mas voltei para casa exatamente como havia saído: sozinho, carregando segredos que não podia contar e sentimentos que não sabia onde guardar. E talvez o mais triste de tudo fosse saber que Sofia dormiria naquela noite sem imaginar que, durante aquela tarde inteira, seu irmão esteve ao seu lado. Riu com ela, brincou, dividiu aventuras e a ouviu falar de seus sonhos. Ela não sabia que tinha um irmão torcendo por ela, e eu não sabia por quanto tempo ainda conseguiria amá-la de tão perto, sem poder dizer quem realmente era.


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Ficha do conto

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Nome do conto:
[REBOT] ENTRE CAMINHOS E SEGREDOS ~ 21 SILAS

Codigo do conto:
276303

Categoria:
Gays

Data da Publicação:
03/11/2026

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