Bom... foi isso que aconteceu comigo.
Conheci uma pessoa e, desde o nosso primeiro contato, alguma coisa diferente aconteceu. Talvez “mágica” seja uma palavra exagerada, mas foi assim que senti. E talvez, por ser escritor, eu tenha esse defeito — ou essa dádiva — de criar mundos dentro da minha cabeça. Com algumas palavras, consigo transformar uma conversa em cenário, uma troca de mensagens em expectativa, uma pessoa em personagem e um desejo em algo muito maior do que ele realmente é.
E talvez tenha sido exatamente aí que eu me perdi.
No começo, tudo é maravilhoso. Falamos sobre nós, descobrimos afinidades, trocamos fotos(pau, bunda, corpo, rosto), desejos, fantasias. Falamos sobre aquilo de que gostamos sexualmente, sobre o que gostaríamos de experimentar. E cada conversa parecia alimentar ainda mais a vontade de nos conhecermos.
Pelo menos, era assim que eu imaginava.
Os dias foram passando e, talvez pela distância, talvez pelas circunstâncias, talvez simplesmente porque algumas vontades têm prazo de validade, percebi que aquela intensidade começou a desaparecer.
A minha não.Talvez porque eu tenha idealizado demais.
As conversas foram diminuindo. As mensagens, antes esperadas, começaram a se tornar raras. Eu via a pessoa online e pensava:
“Será que a mensagem vai chegar?”
E esperava. E nada acontecia.
Até que, em algum momento, a ficha caiu.
Talvez a nossa conversa fosse realmente ótima quando o assunto era sexo, desejo, troca, fantasia. Mas e depois? O que sobra quando o desejo deixa de ser o assunto?
Talvez esse seja o meu problema.
E passo tanto tempo vivendo através de uma tela que, às vezes, a vida ali dentro parece mais interessante do que a vida lá fora. Na tela, eu posso criar. Posso inventar momentos, personagens, encontros improváveis, situações, posso ser ativo, passivo, posso gozar dentro, deixo gozar dentro, posso gozar na boca, são tantas fantasias que só de escrever aqui fico excitado.. Posso construir cada detalhe, mergulhar nas minhas fantasias e fetiches, criar o cenário perfeito para um momento especial, sem medo de ser julgado por gostar de A, B ou C.
Ali, tudo é possível.
Talvez, por ser casado, eu também tenha aprendido a me contentar com o território dos sonhos. As oportunidades de estar com outro homem, na vida real, foram poucas. Muito poucas, acredito que poderia contar nos dedos.
Mas existe uma coisa que descobri sobre mim: talvez eu prefira criar do que simplesmente acontecer.
Eu não consigo estar com alguém apenas por estar. Não consigo tocar alguém apenas por tocar. Preciso de conexão. De empatia. De vontade. Preciso sentir que existe alguma coisa acontecendo entre duas pessoas além de dois corpos procurando prazer.
Preciso me apaixonar.
Não necessariamente pela pessoa. Não no sentido literal da palavra. Embora, sinceramente, talvez não fosse nada ruim.
Quero me apaixonar pelo momento.
Pelo carinho.
Pelo olhar.
Pelo toque.
Pela expectativa.
Pela sensação de ser desejado e, principalmente, de ser correspondido.
É muito mais gostoso conhecer alguém, conquistar e também ser conquistado. Criar uma intimidade que pode durar uma hora, duas horas, uma noite inteira... ou quem sabe muito mais.
Porque, para mim, até um romance breve pode ser verdadeiro enquanto dura.
E talvez esse seja o meu problema.
Eu não consigo simplesmente baixar a cueca e pedir para alguém me chupar. Não consigo conhecer alguém em um banheiro, em algum canto qualquer, e partir direto para os finalmente. Tipo: Deita aí que vou te comer. Não desse jeito, o deita aí que eu vou te comer, dito de uma forma enérgica, quase autoritária, num momento e cenário fantasioso, seria perfeito, uma relação de submissão. Isso me deixa louco, mas num encontro por si só, não me sinto confortável.
Não que eu julgue quem consegue. Muito pelo contrário .Talvez eu até inveje essa facilidade.
É que, para mim, o desejo precisa de alguma coisa antes. Precisa de palavras. Precisa de troca. Precisa de curiosidade. Precisa daquela sensação gostosa de pensar na pessoa quando ela não está ali.
Precisa existir alguma coisa entre o começo e o fim.
E talvez eu esteja cansado.Cansado de ser desejado apenas enquanto sirvo a um desejo.
Cansado de sentir que, depois que o corpo deixa de ser novidade, a pessoa também deixa de ser interessante.
Cansado de ser tratado como um pedaço de carne pendurado no açougue, esperando alguém escolher, usar e seguir adiante.
Eu sou mais do que isso. Tenho desejos, claro. Tenho fantasias. Tenho um corpo. E tenho um cérebro!
Mas também tenho sentimentos, expectativas, inseguranças, vontades e uma necessidade enorme de me sentir conectado a alguém.
Então, talvez hoje eu tome uma decisão.
Vou me apaixonar.
Mas, desta vez, vou me apaixonar pela escrita.
Pelas palavras.
Pelos mundos que posso criar.
Pelos personagens que invento.
Pelos encontros que talvez nunca aconteçam.
Vou me apaixonar pelo que não é real, porque, às vezes, aquilo que inventamos consegue tocar lugares dentro da gente que a realidade insiste em ignorar.
E talvez, no fim das contas, eu não esteja procurando apenas alguém para me desejar.
Talvez eu esteja procurando alguém que queira me conhecer.
E existe uma diferença enorme entre as duas coisas.
Peço a todos, que me desculpem pelo desabafo.