Eu sempre soube que havia algo errado — ou talvez certo demais — em mim. Desde os cinco anos, me via no espelho e via *ela*: cabelos longos, quadril estreito, uma voz que nunca engrossou. Meu corpo era feminino, mas o universo pregou uma peça cruel no meu nascimento. Meu nome era João, mas eu assinava *Sofia* nos cantos dos cadernos.
Minha mãe nunca questionou. Ela me deixava usar seus vestidos, me ensinava a passar batom. "Você é linda", ela murmurava, ajustando o decote no meu peito liso. E eu acreditava.
Até que, aos dezessete, algo mudou. Era uma noite quente, o ventilador girava preguiçoso no quarto dela. Eu havia acabado de sair do banho, enrolada em uma toalha rosa. Ela me chamou para ajudar a fechar o zípere do vestido — aquele preto, justo, que ela usava nos encontros secretos.
Quando me virei, nossas bocas se encontraram por acidente. Ou não. Seus lábios tremiam. "Sofia...", ela suspirou, e eu entendi.
A toalha caiu. Ela me empurrou contra a parede, suas mãos explorando o corpo que ela mesma ajudou a moldar. Meu pau, duro e traidor, pulsava contra a barriga dela. "Você sempre foi minha princesa", ela gemeu, guiando-me para dentro dela com um movimento lento, dolorido, perfeito.
E naquela noite, entre suspiros e unhas cravadas, João morreu de vez. Sobrou apenas Sofia, afundando no útero quente da mulher que a criou.
A primeira vez foi rápida, desajeitada. Ela riu quando eu gozei em três bombadas, os dedos ainda presos no cabelo dela. "Menina ansiosa", disse, lambendo meu pescoço enquanto minha respiração voltava ao normal.
Na manhã seguinte, encontrei um pacote rosa em cima da cama. Dentro, um vestido de renda preta e um bilhete: *Para minha filha crescida.*
Não usamos mais portas trancadas. Às vezes ela me pegava na cozinha, me levantava na pia com as pernas abertas e o avental ainda amarrado na cintura. Outras vezes eu a encontrava de quatro na cama do casal, o cheiro do amante ainda fresco nela, e mesmo assim eu entrava, bebendo os dois de uma vez.
Até que um dia o vizinho nos viu. Eu estava de joelhos no jardim, limpando o creme dela da minha boca com as costas da mão quando ouvi o portão rangendo. Ele ficou parado, os olhos escorrendo entre meu corpo de menina e o sorriso molhado nos meus lábios.
Mamãe saiu na varanda só de camisola. "Problema, senhor Silva?"
O velho engoliu seco quando ela puxou minha cabeça para entre suas pernas outra vez, diante dele. Nunca mais reclamaram das nossas roseiras invadindo o muro.
Naquela primavera, meu peito começou a crescer de verdade. Os hormônios chegaram num envelope sem remetente, com dinheiro suficiente para dois anos. Mamãe me ensinou a aplicar as injeções na coxa, beijando cada hematoma depois.
"Logo você vai me substituir", ela brincou uma noite, observando como os homens na padaria olhavam minhas curvas novas.
Eu a puxei pelo colar. "Nunca."
Quando meu primeiro cliente apareceu - um advogado gordo que pagou extra para chamar ela de "vovó" - mamãe segurou minha mão durante tudo. Seus olhos nunca saíram dos meus, mesmo quando o homem gemeu meu nome errado.
"João", ele rosnou no meu ouvido.
Mamãe cuspiu nele. Eu ri até chorar.
E assim fomos, duas mulheres num mesmo corpo, até o dia em que a ambulância levou ela e nunca mais trouxe.
No caixão, coloquei nosso primeiro vestido entre seus braços. O mesmo que ela rasgou naquela noite abafada.
Quando a terra cobriu o corpo dela, senti algo esticar dentro de mim. Como se, enfim, o útero estivesse pronto.
Naquela noite, um homem pagou o triplo para me chamar de "mamãe".