Os dias passaram. A faculdade voltou a sua rotina maluca. Eu estava saindo da aula de Teoria Literária, com os livros na mão, a cabeça cheia de poemas e textos, quando avistei ela.
Isabela. A Deusa. A mulher mais linda e forte que eu adoro.
Mas ela não estava bem. Ela andava de um lado pro outro na entrada da universidade, com a cara fechada, preocupada, mexendo nervosamente no celular.
"Isa?" eu chamei, me aproximando. "Oi, amor. Tudo bem? Você tá estranha."
Ela olhou pra mim, suspirou fundo, e passou a mão no cabelo. "Oi, Bia. É... não é nada fácil."
"O que foi? Conta pra mim."
Ela olhou pros lados, como se não quisesse que ninguém ouvisse.
"É minha irmã..." ela disse, baixo. "Ela tá tendo uns problemas sérios lá dentro. Eu tenho que ir lá amanhã, dia de visita. Eu tô preocupada."
Eu fiquei surpresa. "Sua irmã? Nossa, Isa... eu nem sabia que você tinha irmã. E... dentro onde?"
"Na cadeia, Bia." Ela falou direto, olhando no meu olho. "Ela tá presa. E o lugar que ela tá... não é lugar de gente fina. É pesado."
Eu senti um frio na barriga, mas ao mesmo tempo uma curiosidade enorme. E uma vontade de ficar do lado dela.
"Então eu vou com você!" falei, sem pensar duas vezes.
Ela arregalou os olhos. "QUÊ? NÃO, BIA! De jeito nenhum! Aquilo lá não é lugar pra você! É lugar de gente perigosa, de mundo difícil. Você é mocinha, é estudante... elas comem você crua lá dentro."
"Eu não sou nenhuma criança, Isa!" eu segurei o braço dela. "Eu quero ir com você. Te ajudar, te dar força. Eu insisto."
Ela me olhou por uns segundos, vendo que eu não ia desistir. E acabou cedendo. "Tá bom... mas não diga que eu não avisei.
Acordei antes do sol raiar. Vesti uma calça jeans preta, uma camiseta básica, tênis. Nada de joias, nada de valor. Entrei no carro da Isa, e fomos.
O caminho foi silencioso. Quanto mais chegávamos perto, mais o clima ficava pesado. O presídio era uma construção enorme, de concreto, grades altas, muralhas, soldados com armas na porta.
Descemos do carro. E começou o pesadelo.
A REVISTA.
Nossa senhora... Que coisa humilhante.
Entramos numa fila imensa. Uma atrás da outra. O clima era tenso, cheiro de suor, de medo, de tensão.
"PRÓXIMA!"
Fui chamada. Entrei na salinha pequena. Uma agente carcerária me olhou com cara de poucos amigos.
"Tira tudo. Sapatos, cinto, bolsa. Abra as pernas. Abra a boca."
Eu tive que me despir, literalmente e figurativamente. Elas mexiam nas minhas coisas, reviravam tudo. Elas me pediram pra me inclinar, pra abrir bem, pra mostrar que não estava levando nada escondido. Foi ruim, foi constrangedor, eu me senti um objeto, um número, sem nenhum respeito.
"Pode passar."
Saí de lá com o rosto quente, o coração batendo forte. Entramos na área de visitação.
O lugar era um pátio grande, aberto, mas cercado de grades e torres de vigilância. E estava cheio. Cheio de mulheres. Muitas mulheres.
E o que eu senti foi um negócio que gelou a espinha.
Eu era a novinha. Eu era a gordinha, com cara de quem veio de fora, com cara de quem nunca tinha visto nada. E assim que eu pus os pés ali, todos os olhos se viraram pra mim.
Ssssshhht!
Olha lá a gostosa!
Nossa, que peitão!
Que bunda gostosa, minha filha!
Eu sentia os olhares percorrendo meu corpo inteiro. Eram olhos famintos, sedentos, de quem está há anos sem ver uma mulher de verdade. Eu me senti uma ovelha no meio de lobas. Eu me senti uma presa fácil no meio de tantas predadoras.
Elas cochichavam, apontavam, davam risadas safadas. Eu agarrei o braço da Isa forte pra caralho. "Isa, eu tô me sentindo observada..."
"É normal, Bia. Fica do meu lado. Não olha pra ninguém."
Mas era impossível não olhar.
De repente, no meio da multidão, eu vi ela.
Ela estava encostada num pilar de concreto, de braços cruzados. Meu Deus... Que mulher era aquela?
Ela era GORDA. Bem gorda. Mas não era gordura mole. Era corpo grande, massa, braços enormes, grossos, tatuados, pareciam dois troncos. O peito era grande, a barriga era avantajada, mas dava pra ver a força que ela tinha. Ela parecia uma muralha de carne e osso.
Cabelo curto, cortado bem rente, queixo quadrado, sobrancelha grossa, cara de brava, muito brava. Olhar frio, penetrante. Ela tinha cara de quem já tinha matado por muito menos, cara de quem mandava naquela ala toda.
Nossos olhos se cruzaram.
Ela parou. Me mediu da cabeça aos pés. Olhou pros meus peitos, pra minha barriga, minhas pernas, voltou pro meu rosto.
Ela não sorriu. Ela fez uma careta, mostrando os dentes, um sorriso de lado, perigoso. E moveu a boca, bem devagar, sem fazer som, mas eu li perfeitamente nos lábios grossos dela:
"Vou te arrebentar todinha." E mordeu os lábios inferiores.
Eu senti meu corpo inteiro arrepiar. Minha buceta deu um pulo dentro da calça jeans. Eu fiquei bambinha na hora! O coração bateu forte, mistura de medo e tesão absurdo!
Quem era aquela mulher? Por que ela me olhou assim? E o que ela queria comigo?
Isa puxou meu braço. "Vamos, Bia. Minha irmã tá lá naquele canto."
Mas eu não conseguia tirar os olhos daquela gigante. Ela continuava me olhando, me despindo com o olhar, como se eu já fosse dela.
CONTINUA...
