Este conto é a confinuação de “Madrugada Caçando — A Vida Secreta de Xaiane Silva: A Crossdresser Safada” (267431). No final daquela história, prometi contar o que aconteceu quando voltei para casa, quase ao amanhecer, ainda vestida como Xaiane.
Era 1990. Eu tinha 21 anos, mas Xaiane já vivia escondida dentro de mim desde os 14.
Eu acabara de terminar meu namoro com Amanda, uma garota linda por quem fui profundamente apaixonada. Durante algum tempo, acreditei que aquele relacionamento pudesse me conduzir à vida considerada normal para um rapaz heterossexual.
Não conseguiu.
Quanto mais eu tentava esconder Xaiane, mais forte ela se tornava.
Eu trabalhava numa fábrica no bairro água verde e convivia com homens rudes que falavam o tempo todo sobre mulheres, conquistas e masculinidade. Nos fins de semana, saía com alguns colegas, frequentava bares e baladas e até ficava com garotas.
Por fora, eu parecia acompanhar a vida deles.
Mas havia uma diferença.
Enquanto alguns saíam das festas com suas parceiras e seguiam para hotéis baratos no centro, eu me despedia da garota com alguns beijos e dizia que voltaria para casa.
Nem sempre voltava.
Às vezes, eu voltava para Xaiane.
Naquele domingo, depois de chorar escondida no quarto pelo fim do namoro, abri meu esconderijo, retirei minhas roupas e deixei que ela tomasse conta de mim.
Saí para a região da ciclovia do Parolin, perto ldo Teatro Paiol.
Quando comecei o caminho de volta, já eram quase cinco horas da manhã.
Eu carregava uma calça jeans e um casaco de moletom. Bastava vesti-los antes de entrar na minha rua. Bastava esconder a minissaia e voltar a ser o rapaz que todos conheciam.
Mas não consegui.
Xaiane ainda estava acesa.
A minissaia subia a cada passo, deixando parte da minha bunda à mostra. Eu precisava puxá-la para baixo constantemente enquanto atravessava as ruas frias e quase vazias, tomada pelo medo e pela excitação de ser vista.
Eu sabia que estava me arriscando.
Mesmo assim, continuei.
Passei diante da casa de Valdevino e Wanderlei, pai e filho. Além de vizinhos, trabalhávamos na mesma empresa.
Eles estavam acordados.
Não fizeram barulho. Não me chamaram. Apenas observaram.
Eu não percebi nada.
Entrei em casa silenciosamente, fui direto para o quarto, desfiz a transformação e guardei minhas roupas no esconderijo.
Naquele momento, acreditei que ninguém tivesse me visto.
Eu estava enganada.
Na manhã daquele mesmo dia, fui trabalhar tentando agir normalmente.
No caminho para o almoxarifado, encontrei Valdevino.
— Como está o trabalho? Está gostando daqui? — perguntou.
— Está tudo bem. Estou gostando, sim.
Enquanto eu respondia, ele me encarava fixamente. Era um olhar estranho, atento demais, como se comparasse meu rosto com uma imagem ainda fresca em sua memória.
Segui para o almoxarifado sem entender.
Na volta, encontrei Valdevino conversando com Wanderlei.
Assim que me viu, Wanderlei me chamou:
— Preciso conversar com você. Pode ser depois do almoço?
— Sobre o quê?
Valdevino o interrompeu:
— Aqui dentro da empresa, não. Converse com ela lá fora.
Ela.
A palavra me atravessou, mas tentei acreditar que havia escutado errado.
Depois do almoço, Wanderlei me levou até um ponto mais afastado da rua onde os funcionários estacionavam os carros.
Assim que ficamos sozinhos, perguntou:
— E aí, bicha? Onde vai ser? Dentro do carro ou vamos dar uma volta?
Fiquei irritada e assustada. Se algum colega escutasse, as suspeitas sobre meu jeito delicado ganhariam ainda mais força.
— Eu não sou bicha. E não gosto que você me chame assim.
Wanderlei sorriu.
— Então era você que eu e meu pai vimos hoje de madrugada?
Meu corpo gelou.
— Do que você está falando?
— Não se faça. De minissaia, com a bunda quase de fora, voltando para casa daquele jeito.
O barulho da fábrica pareceu desaparecer.
— Você está confundindo.
Ele se aproximou um pouco mais.
— Não estou confundindo ninguém. Eu vi você. Meu pai também viu.
Naquele instante, tudo fez sentido: o olhar de Valdevino, as perguntas estranhas e a palavra “ela”.
Eles tinham me reconhecido.
Wanderlei continuou:
— O que você estava fazendo na rua, quase amanhecendo, vestida daquele jeito?
Eu não conseguia responder.
Eu já sabia, por comentários que haviam chegado até mim por meio de colegas e amigos do meu irmão, que Wanderlei falava sobre meu jeito delicado e dizia que tinha vontade de me pegar.
Até então, eu tratava aquilo como conversa vulgar de peão.
Agora ele conhecia Xaiane.
E eu ainda não sabia o que pretendia fazer com meu segredo.
Para manter meu segredo dentro da fábrica, paguei o preço dentro do carro.
A chantagem estava apenas começando.
Depois disso, ele passou a me usar no almoxarifado, no banheiro e a exigir que eu fosse até o quintal da casa dele, à noite, vestida de minissaia.
A ameaça era sempre a mesma:
— Se não quiser que todo mundo saiba que você é uma CDzinha que adora dar o rabo, abre as pernas para mim.
O medo de ser exposta na empresa, perder o emprego, ver minha família descobrir tudo e me tornar motivo de piada era sufocante.
E o pior: com o tempo, comecei a gostar daquele medo.
Gostava do poder que ele tinha sobre mim.
Gostava de ser a putinha secreta dele.
Xaiane não queria mais se esconder.





Uma delícia a Xaiane!! Para a felicidade dos machos ela não devia se esconder nunca!!