Parte 13 – O Interrogatório e o Homem do Banheiro
Não escapei.
No sábado seguinte, minha mãe me chamou para conversar. Sentamos na sala, em silêncio. O olhar dela misturava preocupação e desconfiança.
Queria saber se eu realmente gostava de meninas.
Naquele instante, Xaiane quase tomou conta de mim. Quase contei tudo. Quase admiti que existia uma mulher escondida por trás da máscara de Jefferson. Mas o medo falou mais alto.
Mentir parecia mais seguro do que perder minha família.
Ela encerrou o assunto. Eu permaneci calado. Mas, por dentro, estava em guerra.
A semana seguinte foi um suplício.
Com Alcino e Wanderlei viajando a trabalho, fiquei longe dos dois. Passei sete dias sem me montar. Sem maquiagem. Sem lycra. Sem a liberdade de ser Xaiane.
Era apenas Jefferson por fora.
Por dentro, porém, minha mente só imaginava como seria viver definitivamente como mulher. Eu ainda não sabia explicar quem eu era. Crossdresser? Travesti? Transexual? Naquela época eu apenas sabia que existia uma mulher tentando respirar dentro de mim.
Chegou o sábado.
Saí com colegas da fábrica para o Largo da Ordem, em Curitiba. Bebemos, rimos, fingimos interesse pelas garotas que passavam.
Eu fingia junto.
Meu corpo estava ali.
Minha cabeça, não.
Em determinado momento fui ao banheiro.
Havia apenas outro homem ao meu lado.
Quando olhei, perdi completamente a concentração.
Não era apenas curiosidade.
Era desejo.
Era fascínio.
Era a sensação de que Xaiane tinha assumido o controle por alguns segundos.
Ele percebeu.
Sorriu discretamente.
Naquele instante entrei em pânico.
Saí quase correndo do banheiro, tentando convencer a mim mesma de que tudo terminaria ali.
Mas não terminou.
Voltei para a mesa completamente desconcentrada.
Durante o restante da noite percebi que aquele homem estava em outra mesa do bar.
Várias vezes nossos olhares se cruzaram.
Cada vez que isso acontecia meu coração disparava.
Meu maior medo não era ele.
Era que resolvesse caminhar até nossa mesa.
Se dissesse qualquer coisa... se comentasse o que havia acontecido no banheiro... meu segredo acabaria ali mesmo, diante dos meus colegas.
Não suportei a pressão.
Inventei uma desculpa e disse que iria embora.
As piadas vieram imediatamente.
"Lá vai o viadinho da mamãe."
Todos riram.
Mal sabiam que eu não estava fugindo deles.
Eu estava fugindo do homem do banheiro.
Saí apressada pela Rua XV, tentando respirar e acreditando que finalmente estava segura.
Só que eu estava completamente enganada.
Quando senti uma mão tocar meu ombro, virei assustada.
No mesmo instante, outra mão deslizou por baixo da minha cintura e apertou minha bunda por cima da calça.
Meu corpo inteiro arrepiou.
Foi um choque.
Raiva.
Medo.
Indignação.
E, para meu próprio desespero...
uma sensação de prazer que eu jamais conseguiria explicar.
Instintivamente ergui a mão para dar um tapa em quem ousara invadir minha intimidade.
Só então percebi quem estava atrás de mim.
Continua...




