Depois daquela madrugada, Xaiane deixou de ser apenas uma transformação escondida.
Eu já sabia andar de salto, escolher roupas que valorizavam minhas pernas, montar meu rosto e sair de casa com a confiança de quem conhecia exatamente o efeito que causava. A minissaia, as meias arrastão, o cropped curto e o rebolado já faziam parte de mim.
Mas, durante o dia, Jefferson ainda precisava esconder tudo.
Na fábrica, qualquer gesto mais delicado, qualquer mudança no meu jeito de andar ou qualquer roupa marcando demais o corpo podia virar comentário entre os peões. Eu vivia me policiando: as mãos, a voz, a postura e até a forma de sentar.
Mesmo assim, meu corpo começava a me denunciar.
Meu peito era mais arredondado do que o dos outros rapazes, e logo inventaram um apelido para mim:
Tetinha.
Eu fingia achar graça e ria junto para não demonstrar desconforto. Por dentro, porém, cada vez que me chamavam assim eu sentia medo e uma satisfação difícil de admitir.
Era perturbador perceber que estavam notando minha feminilidade.
Ao mesmo tempo, alguma coisa dentro de mim gostava de saber que Xaiane já aparecia mesmo quando Jefferson tentava escondê-la.
À noite, porém, eu não queria esconder nada.
Xaiane estava pronta.
E Wanderlei sabia disso.
Nos meses seguintes, minhas visitas à garagem da casa dele se tornaram frequentes. Duas ou três vezes por semana, quase sempre no mesmo horário da madrugada, eu atravessava poucas casas completamente montada e entrava naquele lugar onde não precisava fingir ser Jefferson.
No começo, aquilo tinha nascido do medo de ser descoberta.
Depois virou desejo.
Eu já não precisava caminhar quilômetros pela cidade procurando homens. Bastava esperar minha casa silenciar, abrir o esconderijo, vestir Xaiane e seguir até a garagem.
Wanderlei era casado, mas estava cada vez mais envolvido comigo. Não queria apenas encontros rápidos. Queria minha presença, minha feminilidade e aquela versão de mim que só aparecia depois da meia-noite.
Eu havia me tornado o caso secreto dele.
E, numa sexta-feira, ele decidiu que uma garagem já não era suficiente.
Depois do almoço, chamou-me para conversar num canto afastado da fábrica. Seu olhar estava diferente, mais decidido.
— Hoje eu quero você a noite inteira — disse em voz baixa. — Quero levar Xaiane para um motel.
Meu coração disparou.
Eu nunca havia entrado em um motel. Até então, tudo acontecia escondido, em lugares improvisados e sempre com a sensação de que alguém poderia aparecer a qualquer momento.
A ideia de ter um quarto, uma cama, espelhos e uma noite inteira para permanecer montada parecia enorme.
— Uma noite inteira? — perguntei.
— Inteira. Sem pressa. Só eu e você.
Combinamos que, depois do trabalho, eu passaria em casa para buscar minhas roupas, maquiagem, lingerie, meias e tudo o que precisava para me transformar.
Mas havia um problema.
Como eu entraria em casa, prepararia uma mochila e avisaria que passaria a noite fora sem despertar a curiosidade da minha família?
Para Jefferson, a solução foi simples: inventar uma namorada.
Eu diria que dormiria na casa de uma garota. Depois do fim do meu último namoro, porém, essa suposta namorada não existia. Eu já não saía com mais ninguém. Naquela fase, só queria Wanderlei e a liberdade que sentia quando Xaiane ocupava completamente meu corpo.
A desculpa, ainda assim, era perfeita.
Minha família ouviria que eu passaria a noite com uma mulher e provavelmente não faria muitas perguntas. Assim, eu poderia entrar no quarto, abrir meu esconderijo e colocar na mochila tudo aquilo que realmente levaria comigo: lingerie, maquiagem, peruca, meias e as roupas de Xaiane.
Wanderlei também precisava inventar uma história para a esposa.
Para ele, bastava justificar por que não voltaria para casa naquela noite.
Enquanto ele enganava a mulher, eu enganava minha família.
Os dois preparávamos nossas mentiras para que Xaiane pudesse atravessar, pela primeira vez, a porta de um motel.
O escolhido foi o Guadalajara, em São José dos Pinhais.
Wanderlei pegou uma suíte com hidromassagem. Só isso já fazia aquela noite parecer maior e mais especial do que tudo o que eu havia vivido até então.
Como saímos cedo naquela sexta-feira, consegui passar rapidamente em casa, pegar minhas coisas e sair sem chamar atenção. Chegamos ao motel ainda no começo da noite.
Quando entrei na suíte, fiquei fascinada.
Havia uma cama grande, espelhos, iluminação suave e um banheiro onde eu poderia me produzir sem pressa. Pela primeira vez, não precisava me transformar escondida, preocupada com barulhos no corredor ou com alguém batendo à porta.
Wanderlei me deixou sozinha e disse que voltaria em breve.
— Vou buscar uma coisa para você.
Ele havia prometido um presente para a primeira noite em que eu seria completamente fêmea para ele.
Enquanto estava fora, abri a mochila e espalhei meus pequenos tesouros sobre a cama.
Dessa vez, eu tinha tempo.
Fiz a maquiagem devagar, corrigindo cada detalhe diante do espelho. Ajustei a peruca, vesti a lingerie, coloquei as meias e escolhi a roupa que melhor valorizava minhas pernas e meus quadris.
A cada peça, Jefferson desaparecia um pouco mais.
Quando terminei, Xaiane estava inteira.
Wanderlei demorou o suficiente para que eu caprichasse na produção. Quando ouvi a porta se abrir, meu coração acelerou.
Ele entrou carregando um buquê de rosas vermelhas e uma sacola de uma loja de calçados femininos.
Fiquei sem reação.
As flores já haviam me deixado nervosa, mas então ele colocou a sacola sobre a cama e retirou uma caixa.
Dentro dela estava meu primeiro salto alto de verdade.
Até aquele momento, eu só possuía um modelo baixo e discreto. Aquela sandália preta era diferente: delicada, ousada e muito mais sexy do que qualquer coisa que eu já tivesse usado.
Sentei-me na cama enquanto ele colocou a caixa diante de mim.
Minhas mãos tremiam.
Receber flores e um presente escolhido especialmente para Xaiane fez todos os sentimentos se misturarem: vaidade, nervosismo, desejo, felicidade e uma emoção que eu não conseguia explicar.
Calcei a sandália com cuidado.
Quando me levantei, precisei me equilibrar por alguns segundos. Depois dei os primeiros passos pelo quarto.
O salto mudou minha postura, alongou minhas pernas e fez meus quadris se moverem de uma forma ainda mais feminina.
Diante do espelho, com as rosas nas mãos e Wanderlei me observando, senti que aquela não era apenas mais uma transformação escondida.
Pela primeira vez, alguém havia levado Xaiane para passar uma noite inteira fora.
Pela primeira vez, eu havia recebido flores como mulher.
E, pela primeira vez, senti que aquela mulher escondida dentro de mim estava sendo desejada, cortejada e tratada como alguém real.
Wanderlei aproximou-se por trás e segurou minha cintura.
— Era assim que eu queria ver você — disse perto do meu ouvido.
Olhei nosso reflexo no espelho.
Eu estava de salto alto, com as pernas valorizadas pelas meias, a maquiagem feita com cuidado e um buquê de rosas vermelhas nas mãos.
Xaiane não parecia uma fantasia.
Parecia minha vida.
Passamos horas juntos.
Meu corpo queimava, e Wanderlei parecia tão tomado por aquela noite quanto eu. Não havia garagem, matagal ou pressa para terminar antes que alguém aparecesse.
Naquela suíte, eu podia caminhar de salto, olhar-me nos espelhos, entrar na hidromassagem e continuar sendo Xaiane durante toda a madrugada.
Dormimos no motel e só saímos perto do meio-dia de sábado.
No caminho, Wanderlei permaneceu em silêncio por alguns minutos. Depois olhou para mim e disse:
— Precisamos resolver isso. Eu quero você como você realmente é. Sempre soube que existe uma mulher aprisionada nesse corpo, que só por um detalhe é masculino.
Aquelas palavras ficaram ecoando dentro de mim.
Muitas coisas aconteceriam depois daquela primeira noite completa como Xaiane. Novos encontros, novas promessas e decisões começariam a mudar a maneira como eu enxergava meu corpo e minha própria existência.
Mas, naquele momento, eu tinha um problema muito mais imediato.
Precisava voltar para casa levando um buquê de rosas vermelhas e uma caixa com uma sandália feminina de salto alto.
Presentes que eu não tinha como explicar.
Xaiane havia conquistado sua primeira noite inteira.
Agora Jefferson precisava descobrir onde esconder as provas.




