?Era um imóvel pequeno, no segundo andar de um prédio sem elevador, em um bairro residencial tranquilo da cidade. Tinha um quarto, uma sala integrada com a cozinha americana e uma área de serviço minúscula. O piso era de cerâmica fria, as paredes precisavam de uma demão de tinta e a pia da cozinha vivia com o ralo entupido se a gente descuidasse.
?Mas era nosso.
?A transição da teoria para a prática, no entanto, bateu na nossa porta na primeira segunda-feira de trabalho real.
?Eu tinha conseguido uma vaga como veterinária assistente em uma clínica de bairro, o que significava acordar às 5h30 da manhã, voltar com cheiro de produto de limpeza e pelos de gato grudados até na alma. O Lucas, por sua vez, havia entrado como advogado júnior em um escritório de médio porte. Agora ele usava terno completo, gravata de seda e passava o dia inteiro lidando com pilhas de petições e prazos judiciais que o deixavam com a testa franzida e a paciência curta.
?A vida de casados começou a cobrar o preço nos pequenos detalhes.
?Na terceira semana, a harmonia inicial deu lugar aos primeiros atritos domésticos.
?— Clara, por milésima vez, o rodo não fica encostado na pia, ele tem lugar na área de serviço! — o Lucas reclamou na quarta-feira à noite, soltando a maleta de couro no chão da sala com um baque seco. Ele estava com a gravata frouxa no pescoço, as mangas da camisa social dobradas até os cotovelos e uma expressão de exaustão profunda.
?— E eu, Lucas? — respondi da cozinha, lavando uma panela engordurada enquanto o macarrão da janta grudava no fundo. — Eu cheguei em casa há dez minutos, salvei a vida de um de um Pastor Alemão hoje, e a única coisa que você faz é reclamar de onde eu ponho o rodo? A louça tá acumulada desde ontem porque você prometeu que ia lavar!
?— Eu passei o dia inteiro redigindo uma apelação cível, Clara! Eu não aguento mais ver papel, e agora chego em casa e tenho que gerenciar uma auditoria de limpeza?
?O clima pesou. O apartamento pequeno parecia subitamente claustrofóbico. A gente não brigava por coisas grandes; a gente brigava pelo cansaço. Pelo boleto do condomínio que veio mais alto, pela conta de luz, pela falta de tempo para respirar sem pensar em prazos ou pacientes.
?Ele bufou, foi para o quarto e bateu a porta com força.
?Eu fiquei na cozinha, com a torneira pingando, sentindo uma vontade danada de chorar. A nossa vida adulta tinha virado isso? Contas, estresse e discussão por causa de utensílios de limpeza?
?Fui para o quarto dez minutos depois, em silêncio. Ele estava sentado na beirada da cama, com a cabeça apoiada nas mãos, olhando para o chão. A luz amarela do abajur desenhava as sombras das olheiras no rosto dele.
?Fiquei em pé na porta por um instante. O ranço da briga ainda ardia no meu peito, mas aí eu olhei para os ombros largos dele, para a aliança brilhando no dedo anelar, e lembrei de quem ele era para mim. Não era o advogado chato; era o meu menino da kitnet, o meu noivo, o homem que me conhecia inteira.
?Caminhei devagar até ele. Não falei nada.
?Apenas parei entre as pernas dele, abri os botões da camisa social que ele ainda vestia e comecei a puxá-la para fora dos ombros.
?Lucas levantou o rosto, surpreso. Os olhos escuros encontraram os meus, ainda carregados de tensão.
?— Clara... a gente acabou de discutir... — ele disse, em tom baixo.
?— Eu sei — sussurrei, empurrando a gola da camisa para baixo e beijando a pele quente do peito dele. — Mas eu tô exausta de brigar. E aposto que você também tá.
?Ele respirou fundo, fechou os olhos por um segundo e, quando os abriu, toda a pose de advogado rigoroso tinha evaporado. Ele segurou minha cintura com firmeza, puxando-me para colar no corpo dele.
?— Eu odeio discutir com você — ele murmurou contra a minha barriga. — Desculpa por ser chato com o maldito rodo.
?— Tudo bem. Eu também devia ter lavado a louça.
?As mãos dele começaram a subir pelas minhas costas, desfazendo o nó do meu cabelo, tateando a curva da minha coluna com aquela familiaridade que só o tempo e a intimidade dão. A tensão do dia começou a derreter ali, transformada em uma urgência silenciosa de reencontro.
?Ele levantou da cama, me pegou no colo com facilidade — eu soltei um pequeno grito abafado de surpresa — e me jogou de costas no colchão macio.
?Não havia mais pressa de tribunal nem horário de clínica. Havia apenas nós dois, o nosso quarto apertado e o fogo que nunca apagava.
?Ele tirou a minha calça jeans num puxão rápido, deixando-me apenas com a calcinha de algodão básica que eu usava para trabalhar. Ele se ajoelhou entre as minhas pernas, tirou a própria calça social para e se livrou dela e me olhou com aquela intensidade de lobo que me despida antes mesmo de tocar na minha pele.
?— Você é a melhor coisa da minha vida adulta, sabia? — ele disse, abaixando a cabeça.
?Ele não esperou resposta. Enfiou o rosto na minha calcinha, lambendo com força através do tecido fino. Eu gemi alto, jogando a cabeça para trás no travesseiro, sentindo o calor da boca dele queimar minha pele.
?— Lucas... ahh... meu Deus...
?Ele puxou o tecido para o lado com os dentes e meteu a língua direto na minha buceta. Ele estava com pressa, mas uma pressa faminta, como se estivesse tentando recuperar o tempo perdido nas brigas daquela semana. Ele chupava meu clitóris com tanta firmeza que meu corpo inteiro começou a tremer em ondas curtas de prazer.
?— Tá molhada... você sempre fica molhada pra mim, né? — ele sussurrou contra a minha carne, a barba dele arranhando a parte interna das minhas coxas de um jeito que me deixava maluca.
?Eu enfiei os dedos no cabelo dele, puxando os fios com força, guiando o ritmo.
?— Me come, Lucas... por favor, me fode... eu preciso de você...
?Ele subiu pelo meu corpo, ofegante, os olhos dilatados. Pegou a camisinha na gaveta da mesinha de cabeceira com uma agilidade impressionante e a colocou.
?Ele se posicionou entre as minhas pernas, apoiando os braços ao lado da minha cabeça.
?— Senta aqui — ele ordenou, levantando meu quadril.
?Ele entrou de uma vez só.
?O preenchimento foi imediato, profundo, perfeito. O som abafado do impacto dos nossos corpos ecoou no quarto pequeno. Eu envolvi a cintura dele com minhas pernas, travando-o contra mim, e comecei a cavalgar.
?O ritmo era nosso. Um ritmo construído ao longo de anos, de colégio, de kitnet, de hotel de luxo e agora, no nosso próprio apartamento.
?Ele segurava meus quadris, ditando a força, enquanto eu me inclinava para frente, colando nossos peitos, beijando-o com desespero. Nossas línguas se cruzavam no mesmo ritmo frenético das estocadas.
?— Quem é que manda em você? — ele gemia no meu ouvido, batendo forte, fazendo a cama de casal ranger contra a parede recém-pintada.
?— É você... só você, meu amor... — eu respondia, arranhando as costas dele, sentindo as unhas marcarem a pele firme.
?A cada investida, o estresse dos boletos, das cobranças do escritório e dos casos difíceis da clínica evaporava. Nós éramos apenas carne, suor e uma paixão irrefreada.
?Ele me virou de bruços, empinando minha bunda para a luz amarela do abajur, e me penetrou por trás com uma força possessiva que me fez perder a fala. Ele batia o quadril com tanta vontade que eu tinha certeza de que o vizinho do lado ia bater na parede de novo, mas naquele momento, foda-se o vizinho. Foda-se o mundo inteiro.
?O orgasmo veio como uma explosão branca e cega. Eu gritei o nome dele, contraindo minhas paredes internas com tanta força que o Lucas perdeu o fôlego.
?— Clara! Puta que pariu... — ele urrou, dando as últimas estocadas profundas e brutais, antes de desabar contra o meu corpo, gozando quente dentro da camisinha, tremendo dos pés à cabeça.
?Ficamos ali deitados por um bom tempo, espalhados na cama, suados e com a respiração pesada, a cabeça dele apoiada nas minhas costas.
?Nenhum de nós falou sobre o rodo ou sobre a louça.
?Depois de alguns minutos, ele rolou para o lado, me puxando para o abraço dele, e beijou minha testa, com um sorriso cansado, mas totalmente em paz.
?— Amanhã você lava a louça, e eu guardo o rodo. Combinado? — ele sussurrou.
?Eu ri, aconchegando-me mais no peito dele, sentindo o calor da pele masculina que era meu porto seguro em qualquer lugar do mundo.
?— Combinado, meu advogado. Agora cala a boca e me abraça.
?O apartamento ainda era pequeno, os boletos ainda iam chegar no fim do mês e a rotina continuaria dura. Mas olhando para ele ali, eu tive a certeza absoluta de que, enquanto tivéssemos um ao outro — e aquele fogo incontrolável entre quatro paredes —, nós daríamos conta de qualquer coisa.

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