Mariana sentiu o olhar fixo de Eduardo e disfarçou rapidamente, ajeitando a postura.
Eduardo permaneceu alguns segundos em silêncio. A expressão em seu rosto deixava claro que aquilo começava a lhe parecer muito estranho. Ele lançou mais um olhar desconfiado para Mariana e Gil.
— Vamos.
Voltou a caminhar pelo corredor, enquanto os dois o acompanhavam em silêncio.
Mariana caminhava ao lado de Gil quando viu alguém saindo do quarto 13 e agora estava vindo na direção contrária.
Era um rapaz alto, forte e muito bonito. Vestia o uniforme do Hotel, que deixava claro que era funcionário. Mariana reparou nele por mais tempo do que pretendia.
Então percebeu Gil ao seu lado e disfarçou imediatamente, não queria dar muita pinta.
Quando se aproximaram, Eduardo falou com o rapaz.
— Daniel, você não sabe o que aconteceu!
Daniel parou.
— Oi Seu Eduardo. O que foi?
Eduardo apontou para Gil e Mariana.
— Estes hóspedes encontraram o carro do Hotel acidentado na estrada. O carro que Claudiane estava dirigindo.
— Meu Deus! - Daniel arregalou os olhos. — Eu pedi para ela ir até a cidade vizinha comprar as peças para a manutenção do sistema de aquecimento a gás. Falei para ela ir com cuidado... Eu disse que não era tão urgente.
Olhou para as janelas, onde a chuva escorria pelo vidro.
— Com essa chuva...
Eduardo assentiu lentamente.
— Pois é. Essa estrada é fogo.
Daniel passou a mão pelos cabelos.
— Mas como ela está?
Gil e Mariana trocaram um olhar rápido. Embora os socorristas ainda estivessem trabalhando quando foram embora, nenhum dos dois tinha visto qualquer sinal de que ela estivesse bem.
— Nós chamamos o SAMUR – Disse Mariana - Os socorristas estavam atendendo quando saímos de lá.
— Então ela está viva?
Gil hesitou.
— Nós não sabemos.
Daniel ficou pálido.
— Meu Deus...
Eduardo olhou para Gil e Mariana.
— Vocês podem ir para o quarto. Eu vou tentar conseguir alguma informação.
Gil e Mariana começaram a caminhar.
Mariana ainda olhou discretamente para trás. Daniel continuava parado no corredor, olhando para Eduardo. Havia alguma coisa ali que a incomodava.
Mariana virou-se novamente para a frente.
— Que foi? — perguntou Gil, percebendo o olhar dela.
— Nada.
Chegaram à porta do quarto quinze. Gil colocou a chave na fechadura. Antes de girá-la, porém, os dois ouviram alguma coisa, um ruído vindo do interior do quarto. Mariana imediatamente parou de sorrir.
Gil olhou para ela.
— Você ouviu?
Ela assentiu, os dois ficaram imóveis. Do outro lado da porta, silêncio absoluto. Gil lentamente girou a chave e a porta se abriu.
Os dois permaneceram alguns segundos parados, esperando que alguma coisa acontecesse, mas nada aconteceu.
O quarto, apesar do episódio estranho, era aconchegante. A madeira escura, o tapete espesso e a iluminação quente contrastavam com o frio da serra que entrava pelas frestas da janela.
— Eu achei que tinha alguém aqui dentro — disse Mariana, baixinho.
Gil continuou olhando ao redor do quarto, atento a qualquer movimento.
— Eu também.
Mariana entrou mais alguns passos, observando os cantos, o espaço atrás da porta e até o banheiro.
— Mas não tem ninguém.
— Não.
Gil fechou a porta atrás deles e soltou o ar lentamente.
— Deve ter sido alguma coisa lá fora. A janela, talvez. Ou a madeira estalando.
Mariana deu de ombros, ainda desconfiada.
— Pode ser.
Ela se aproximou da janela e verificou se estava bem fechada.
— Acho que estamos ficando paranoicos.
Gil sorriu de leve.
— Depois do que aconteceu hoje, não seria exatamente uma surpresa.
Mariana olhou para ele.
— O acidente deixou a gente estressado.
— E cansados — completou Gil. — Talvez nossa cabeça esteja pregando peças.
Ela finalmente relaxou os ombros.
— É. Acho que foi isso.
Os dois ficaram em silêncio por alguns segundos, como se esperassem ouvir novamente o ruído.
Nada.
Mariana respirou fundo e sorriu.
— Pronto. Resolvido. Foi só a nossa imaginação.
— Nossa imaginação ou o quarto tentando assustar a gente?
— Gil...
— Está bem, está bem. Imaginação.
Ele riu, e Mariana balançou a cabeça, seguindo em direção à cama. Ainda havia coisas para fazer. As malas foram abertas sobre a colcha e, sem muita organização, começaram a espalhar roupas e objetos pelos poucos espaços disponíveis. Algumas peças foram colocadas no armário, outras permaneceram dentro das malas, enquanto os produtos de higiene acabaram reunidos sobre a pequena bancada do banheiro.
— Depois a gente arruma direito — disse Mariana, empurrando uma blusa para dentro da mala.
Gil pegou o telemóvel e conferiu as horas.
— Vamos tomar café?
— Vamos, mas antes precisamos trocar de roupa. Olha o estado em que estamos!
Haviam se molhado muito ao tentar ajudar no acidente, os dois estavam encharcados. As roupas estavam úmidas, os sapatos sujos de barro e as meias, então, nem se falava! Mariana fez uma careta ao tirar os sapatos e observar a sujeira que haviam acumulado pelo caminho.
— Acho que trouxemos metade da lama daquele barranco para dentro do hotel — brincou ela.
Gil riu enquanto tirava a camisa molhada. Os dois entraram rapidamente debaixo do chuveiro para um banho rápido.
Logo que terminaram, buscaram roupas secas nas malas para se vestirem. Gil parou e olhou fixamente para Mariana, que estava vestindo a calcinha, soltou um assobio de aprovação, percorrendo-a com os olhos e abrindo um sorriso admirado.
Mariana percebeu imediatamente e sorriu, balançando a cabeça.
— Mesmo com tudo isso acontecendo, você só pensa em besteira!
Gil aproximou-se dela com um sorriso maroto.
— Com a mulher gostosa que eu tenho, queria que eu pensasse em quê? – Disse enquanto apalpava a bunda de Mariana
Mariana notou que ele estava de pau duro, soltou uma risada e deu-lhe um beijo rápido.
— Você não tem jeito mesmo!
— É você que me deixa assim — respondeu ele, com um sorriso safado
Ela revirou os olhos, divertida, e voltou a ajeitar a roupa, enquanto Gil terminava de se vestir. Depois de se trocarem, os dois calçaram os sapatos secos e se prepararam para sair.
— A putaria fica pra depois, agora o café nos espera!
— Vamos. Estou morrendo de fome.
Antes de sair, Mariana lançou mais uma olhada pelo quarto.
— E dessa vez sem barulhos estranhos.
Gil abriu a porta.
— Se ouvir alguma coisa, a gente finge que não ouviu.
— Ótimo plano.
Os dois saíram pelo corredor e seguiram em direção ao salão do hotel, tentando deixar para trás o desconforto dos últimos acontecimentos e aproveitar, pelo menos por alguns minutos, uma manhã aparentemente normal.
Foi quando perceberam que a porta do quarto ao lado também estava se abrindo. Número treze. Uma mulher apareceu no corredor. Os dois pararam quase ao mesmo tempo. Ela era loira. Muito loira. Os cabelos tinham uma tonalidade tão clara que, sob a iluminação amarelada do corredor, pareciam quase prateados.
Vestia uma espécie de manta branca, leve, que caía sobre o corpo em várias camadas. O tecido era delicado e levemente translúcido, embora não revelasse propriamente o corpo. Parecia mais uma roupa antiga do que algo que alguém usaria normalmente para sair de um quarto de hotel.
No cabelo, havia um adorno feito de pequenas flores e folhas.
Mariana olhou para Gil.
Gil olhou para Mariana.
Nenhum dos dois disse nada. A mulher fechou a porta atrás de si, então virou-se para eles.
E simplesmente sorriu, um sorriso tranquilo, bonito. Mariana sentiu um arrepio percorrer os braços pois havia alguma coisa naquele sorriso que fazia Mariana querer continuar olhando e ao mesmo tempo, desviar os olhos.
A mulher começou a caminhar pelo corredor e um perfume suave ficou no ar.
Mariana acompanhou a mulher com os olhos. Gil também, até que ela desapareceu pela escada.
Mariana ficou olhando para o vazio.
— Estranha — murmurou.
Gil ainda estava olhando na direção em que ela havia desaparecido.
— Muito.
Mariana virou-se para ele.
— Mas bonita.
Gil finalmente olhou para a esposa.
— Muito.
Mariana arqueou uma sobrancelha.
— Está admitindo?
— O quê?
— Que achou ela bonita.
Gil sorriu.
— Você também achou.
— Achei.
Ela fez uma pausa.
— Mas não foi só bonita.
— Eu sei.
— Tinha alguma coisa...
Gil completou:
— Diferente.
Tomaram café, quase em silêncio, observando pela janela do salão a névoa que cobria parte da serra.
Depois voltaram para o quarto.
Tinham um city tour contratado e não queriam se atrasar.
Mariana terminou de se arrumar diante do espelho enquanto Gil procurava alguma coisa dentro da mala.
— Você viu meu carregador?
— Na sua mochila.
— Qual delas?
— A preta.
— Tenho duas pretas.
Mariana suspirou.
— A preta que você trouxe.
Ela riu.
Depois de alguns minutos, finalmente estavam prontos. Gil abriu a porta.
Mariana saiu primeiro.
Pouco depois, uma van parou em frente ao hotel. O motorista abriu a porta e os passageiros começaram a entrar. Gil e Mariana escolheram dois lugares próximos à janela. Foi então que Mariana viu alguém entrando na van, cabelos muito claros ... era a mesma mulher que tinham visto a pouco.
A mulher percebeu os dois e sorriu.
— Bom dia.
— Bom dia — respondeu Mariana.
Ela sentou-se na fileira à frente.
Durante alguns minutos, ninguém falou sobre o assunto.
Até que, numa parada, a mulher se aproximou.
— Acho que somos vizinhos de quarto.
Mariana sorriu.
— Parece que sim.
— Meu nome é Rita.
— Mariana.
— Gil.
Rita estendeu a mão para os dois.
— Prazer.
A van começou a subir pela estrada.
O primeiro destino foi uma cachoeira cercada por vegetação.
Enquanto o grupo caminhava pela trilha, Rita contou que vinha à Serra com frequência.
— Eu gosto muito daqui — explicou. — Não é só pela paisagem.
Mariana sorriu.
— Pelo quê, então?
Rita olhou para a mata.
— Energia.
Gil levantou uma sobrancelha.
— Energia?
— A Serra é um ponto espiritual muito forte. Eu acredito que existam lugares onde o contato entre os vivos e os mortos fica mais fácil.
Mariana ficou em silêncio por um instante.
— Você é esotérica?
— Eu não gosto de rótulos, mas, sim, tenho estudado algumas coisas de esoterismo.
Ela apontou para a mata.
— Existem lugares onde determinadas presenças ficam mais próximas.
Gil e Mariana trocaram um olhar rápido.
Depois da cachoeira, foram ao mirante, onde mais uma vez Rita parecia encantada com a paisagem.
Falava sobre energia, espiritualidade, vidas passadas e sinais que, segundo ela, as pessoas normalmente ignoravam.
No lago, a conversa ficou mais descontraída.
Descobriram que Rita não bebia e não fumava.
— E você não sente falta de nada? — perguntou Mariana — De bebida, cigarro...
Rita riu.
— Não. Nunca gostei.
Ela fez uma pausa.
— Agora, amor...
Olhou para Mariana e Gil.
— Amor eu gosto. E muito.
Mariana sorriu.
— Isso parece perigoso.
— Só para quem acredita que amor precisa ter dono.
Gil riu.
— Você é a favor do amor livre?
— Completamente.
Ela levantou as mãos.
— Desde que ninguém minta para ninguém.
Mariana e Gil se entreolharam.
A resposta pareceu particularmente adequada à relação dos dois.
Durante o passeio de tuc tuc, Rita sentou-se próxima deles.
— Vocês chegaram hoje ao hotel? — perguntou, ajeitando-se no banco.
— Chegamos — respondeu Gil. — E já começamos a estadia com emoção.
— Emoção?
— Encontramos um carro do hotel acidentado na estrada — explicou Mariana. — Era de uma funcionária que estava indo buscar uma peça para consertar o ar-condicionado.
Rita fez uma careta.
— Nossa. Então foi por isso que o pessoal estava comentando sobre o acidente. Espero que ela esteja bem.
Rita ficou alguns segundos em silêncio, olhando pela janela.
— No meu quarto também deu problema no ar-condicionado. O aquecimento parou de funcionar. Por isso o Daniel estava lá ontem, tentando resolver.
Mariana ergueu uma sobrancelha.
— Daniel?
— O rapaz da manutenção.
— Ah, sim. Nós conhecemos.
Rita sorriu de lado.
— Bonitão, não?
Mariana soltou uma risadinha.
— Desculpe, você está em Lua de Mel com seu marido. — Rita baixou um pouco a voz, como se estivesse compartilhando uma fofoca. — Mas é que eu conversei um pouco com ele enquanto tentava descobrir se eu ia congelar durante a noite. E descobri que ele é solteiro e está descompromissado.
Gil, que até então apenas acompanhava a conversa em silêncio, sorriu.
— Não precisa se desculpar.
Rita olhou para ele, surpresa.
— Eu fui um pouco inconveniente com meu comentário.
Mariana balançou sorriu:
— O nosso relacionamento não funciona exatamente como um casamento tradicional.
Rita ergueu as sobrancelhas, interessada.
— Como assim?
Gil apoiou os braços sobre a mesa.
— A gente tem um relacionamento semiaberto. Cada um de nós pode se envolver com outra pessoa, inclusive trazer alguém para compartilhar momentos connosco.
Mariana completou:
— Mas existe uma regra importante: os dois precisam saber e concordar. Nada escondido.
— Então vocês conversam antes? — perguntou Rita.
— Sempre — respondeu Gil. — Se um de nós não se sentir confortável, não acontece.
Mariana sorriu para Rita.
— É uma coisa nossa. Funciona porque existe confiança.
Rita ficou alguns segundos olhando para os dois, claramente surpresa.
— Que interessante...
Mariana olhou para ela, divertida.
— Mas me conte sobre você e o Daniel.
— Digamos que eu fiz algumas perguntas importantes para a minha sobrevivência.
As duas riram.
Gil observava a conversa com um sorriso discreto.
— Você não perde tempo, hein?
Rita virou-se para ele.
— Eu gosto de conhecer as possibilidades.
Mariana cruzou os braços, ainda sorrindo.
— E quais são as suas possibilidades?
Rita sustentou o olhar dela por alguns segundos.
— Homens e mulheres.
Mariana pareceu surpresa, embora não exatamente desconfortável.
— Você é bi?
— Sou. Gosto de homens, gosto de mulheres. Nunca vi muito sentido em ficar escolhendo uma categoria quando posso simplesmente gostar da pessoa.
Mariana sorriu.
— Gostei da filosofia.
Rita inclinou ligeiramente a cabeça.
— E você?
Mariana demorou um instante antes de responder.
— Eu gosto de pessoas.
Rita abriu um sorriso, claramente satisfeita com a resposta.
— Isso explica algumas coisas.
— Que coisas?
— O jeito como você me olha.
Mariana sentiu o rosto aquecer e desviou os olhos por um instante.
Rita então olhou para Gil.
— Aliás, não é só o Daniel que é bonito.
Gil levantou as sobrancelhas.
— Finalmente alguém reconheceu.
Mariana deu uma tapa leve no braço dele.
— Não se empolga.
Rita riu.
— Você também é bonito, Gil. Mas...
Ela voltou os olhos para Mariana.
— Sua mulher é linda.
Mariana sorriu, agora sem esconder o interesse.
— Obrigada. Mas, já que estamos distribuindo elogios...
Ela fez uma pequena pausa, percorrendo Rita com os olhos antes de voltar ao seu rosto.
— Você também é linda. E bastante atraente.
O trajeto final do city tour seguiu em um tom leve, mas a atmosfera no carro havia mudado sutilmente. A conversa descontraída sobre Daniel deu lugar a olhares trocados.
Conforme a van percorria o último trecho do passeio, Rita se aproximou um pouco mais de Mariana no banco, usando como desculpa o balanço do veículo.
A cada risada compartilhada sobre os pontos turísticos visitados, Mariana sustentava o olhar de Rita por alguns segundos a mais. Rita, por sua vez, tocava levemente o braço de Mariana ao enfatizar alguma brincadeira, deixando um rastro de eletricidade no ar. Gil acompanhava tudo em silêncio, divertindo-se com o clima que se formava abertamente à sua frente.
Ao chegarem ao hotel, o sol já começava a se pôr. Os três desembarcaram e caminharam juntos pelo corredor silencioso em direção aos quartos.
Pararam em frente à porta de Rita. Ela se virou de frente para o casal, encostando a coluna na madeira da porta.
— Bom, chegamos — disse Rita, com a voz um pouco mais mansa, os olhos fixos nos de Mariana antes de olhar para Gil. — Muito obrigada pela companhia hoje. O passeio foi incrível, de verdade.
— Foi ótimo mesmo — respondeu Mariana, dando um passo à frente, sem esconder o interesse.
Nesse instante, antes de dar qualquer outro passo, Mariana virou ligeiramente o rosto para trás e olhou para Gil. Seu olhar trazia uma pergunta silenciosa, uma busca de aprovação e cumplicidade.
Gil compreendeu imediatamente. Com um sorriso calmo e sutil, ele fez um breve movimento com a cabeça, inclinando-a para baixo em sinal claro de autorização.
Com a resposta que precisava, Mariana voltou-se para Rita. Sem hesitar, deu mais um passo, segurou suavemente o rosto de Rita e a puxou para um beijo calmo e profundo na boca. Rita, surpresa por um milissegundo, retribuiu de imediato, entrelaçando os dedos na cintura de Mariana.
Ao separarem os lábios, ainda a poucos centímetros de distância, Mariana murmurou com a voz baixa:
— Quer ir para o nosso quarto?
Rita olhou para Mariana, depois para Gil, que assistia à cena com ar tranquilo, e abriu um sorriso provocante.
— Achei que você nunca ia pedir. Vamos.
Continua ...
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Por Tuga069
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