Um conto erótico de Leandro Vicente
Categoria: Gay
Data: 23/09/2026 20:36:15
Assuntos: Academia, Banheiro, Carro, Dominação, Gay, Humilhação, Pés, Podolatria, Romance, Sigilo, Submissão.
— Vai, Gabriel. Mais força.
— Tá doendo, porra.
— Mais forte, vai. Empurra essa merda.
Gustavo segurava a barra do supino por cima da minha cabeça enquanto eu tentava completar a última série. Janeiro, sábado de manhã, e eu já estava no meu limite. Os braços tremendo e minhas veias saltando.
— VAI.
Empurrei e travei na metade. Gustavo puxou a barra de volta para cima e me ajudou a levantar.
— Quase. Tava quase.
— O mesmo que nada.
— Deixa de ser bitolado, mano. Semana que vem sai. É só ir com calma, e se alimentar direito.
Sentei no banco e enxuguei o suor com a barra da camiseta. No espelho, eu. 1,75m, 23 anos, pardo, barbudo e cansado. Nunca fui sarado como os outros caras aqui da academia, mas os músculos que eu tinha eram o suficiente pra dizer que eu treinava. Ou que, pelo menos, tinha um corpo legal. Não tão legal quanto o de Gustavo. Olhei pra ele pelo espelho.
— Como se você precisasse. Bebe quase todo dia, fuma, come mais que um boi, e mesmo assim consegue manter o shape.
— Vai ficar julgando agora, é? Cada corpo é um corpo, mano. Você foi bem hoje, seu músculo também já estava fatigado.
Gustavo é meu vizinho e treinamos juntos quase sempre. Ele já treina há uns anos e me ajuda com alguns exercícios que eu ainda tenho dificuldade. Principalmente os com barra solta. Ele é um cara grande, tem um bíceps de dar inveja, chamava atenção de longe. Tem uns 25 anos e é um dos meus melhores amigos, além da Mayara. Eles são basicamente minha família aqui em Castelo Branco.
Finalmente terminei esse treino. Corri para o vestiário tomar um banho, e Gustavo veio atrás de mim tagarelando sobre alguma coisa. Eu precisava ir logo.
— Que banho rápido! Mas então, por isso que eu prefiro comer bastante carboidrato, principalmente antes de vir treinar. Não dá pra ficar seguindo só nutri de Instagram.
Estava me secando de costas pro Gustavo. Não estava registrando nada do que ele estava falando. Minha cabeça estava em outro lugar. Mercado, compras, voltar pra casa antes da Gi chegar. Abri a bolsa procurando uma cueca limpa. Vasculhei o fundo com uma mão enquanto segurava a toalha na cintura com a outra. Camiseta, desodorante, meias. Nada de cueca. Puxei o zíper do bolso lateral e ele travou. Forcei. A toalha escorregou e caiu molhada no piso do vestiário.
Merda.
Me abaixei rápido pra pegar, mas Gustavo foi mais rápido. Inclinou o corpo, apanhou a toalha do chão e ficou ali, segurando, sem me devolver. Parou de falar no meio da frase. Quando olhei pra trás, vi que ele não estava olhando pro meu rosto.
Voltei pra bolsa, de costas, tentando achar a maldita cueca. Minha bunda inteira exposta pro vestiário, o ar gelado em lugares onde não devia sentir. Onde estava — O silêncio de Gustavo pesava nas minhas costas enquanto eu tentava fingir normalidade.
— Caralho mano, como todo o respeito, que bundão, hein. Tá ficando grande esse negócio. — Gustavo exclamou
Gelei. Por dentro, algo voltava à superfície: vestiário depois das aulas de natação. Armários batendo, chão molhado, o cheiro de cloro que não saía da pele. Eu era mais novo, mais magro, e minha bunda já era grande demais em comparação aos outros meninos. Os caras da equipe viviam pegando no meu pé por isso. Diziam que era de menina. Rodrigo era o pior. Ficava dando tapas na minha bunda toda vez que eu passava, sempre com os outros olhando. "Que delícia, hein, Gabriel", "Se tu liberar eu traço, hein" Todos riam. Idiotas. Por que Gustavo estava agindo assim também?
— Vai se foder, Gustavo. Me dá essa toalha.
— Não, mano, de verdade. Me passa seu treino de perna que eu quero ficar assim também. Minha mina disse que adora bunda de homem.
— Sua “mina” tá é querendo te comer. — Ironizei. — Me dá a…
— E não seria má ideia, viu. Imagina a Sandra, gostosona, cavalona, me comendo?
— Ih, lá ele. Tá me estranhando? Eu não sou veadinho que nem você não. — Minha voz saiu fina, desconcertada.
Estava tão alvoroçado pela ousadia de Gustavo que não notei que não estávamos mais sós no vestiário. O silêncio foi tomado por risadas, passos, portas, chuveiros.
Era Carlos. Carlos e seus amigos.
— Me dá logo essa droga de toalha.
— Tá bom, desculpa. Só peguei pra não sujar.
— Tanto faz.
Carlos deve ter uns 30 anos, 1,95, preto, corpo bem definido. É gerente de contas num banco aqui do centro e também dá aula como personal trainer. Sempre usava uma regata wifebeater branca que mostrava tudo que ele queria mostrar. Como eu sei disso tudo? Bem, ele é uma pessoa difícil de não ser notada. Nos trombamos direto aqui na academia e eu já o pesquisei umas vezes no Instagram. A timeline de um cara que acha que o mundo gira em torno dele. Ele ria alto com outros dois caras da academia, gesticulando, ocupando espaço como se o lugar fosse dele. Soberbo. Prepotente. Tomara que ele não tenha me visto sem toalha.
— ...aí ela deixou a calcinha na minha casa. De novo. Terceira vez que ela deixa. Daqui a pouco eu vou cobrar pela lavagem.
O Fábio riu. Carlos continuou.
— E essa semana a outra, a que faz aula comigo, mandou mensagem pedindo pra fazer uma extra na sexta à noite. Marcamos. Estava montando o treino dela e ela me enviou: "Pode comprar o vinho?" Simples assim. — Ambos riam. — Falei que faríamos somente a aula e nada mais. Ela me apareceu lá com DOIS vinhos e o marido junto.
Ficava constrangido e desconcertado com aquilo. Olhei pro Gustavo e revirei os olhos. Gustavo deu de ombros.
— Se metade do que ele fala é verdade, já é mais do que eu — Gustavo riu baixo enquanto tirava a camiseta.
— Preguiça. Esses caras aí são todos do mesmo tipinho.
— Pega leve, Gabriel. Eles são legais. Estavam me ajudando com um exercício outro dia. São gente boa.
— Gente boa que nem você que fica olhando bunda de homem? Ficam se gabando de conquista, contando vantagem de mulher, isso é coisa de moleque, homem inseguro. Homem de verdade é focado e não conta vantagem. Disciplina, Deus, carreira, estudo. Mulher vem por consequência.
— Se você tá dizendo… Falando em mulher, e a Gi? Vai pedir ela em namoro quando?
— Quando eu tiver certeza.
— Certeza de quê? A mina é gata, trabalha, te aguenta, já estão juntos há uns dois meses. Você já chama ela de namorada. O que mais tu quer?
— Sei lá, Gustavo. Deixa acontecer. Tá parecendo meu pai. Me erra.
— Fica dando mole, vai perder ela.
Giovanna. Meu pai quem me apresentou, antes de se mudar para o Porto. Mais uma tentativa dele de me arranjar pra alguém, já que ele vivia me chamando de atrasado por nunca ter namorado. Fui relutante no começo. Mas a Gi me surpreendeu. Gostosa, gentil, paciente, trabalhadora, amorosa. Ela tem uns 1,65, branca, cabelos pretos, algumas mechas vermelhas nas pontas, e um corpão esculpido. Peitos grandes, quadril largo. Adora roupas pretas. A cada dia a gente descobre mais coisas em comum entre a gente. Com ela, pela primeira vez em muito tempo senti que as coisas estavam se encaixando.
Então por que eu não simplesmente peço ela em namoro?
— Já vou indo. Preciso passar no mercado.
— Com essa cara de quem vai pra forca?
Realmente para mim era um sacrifício ir ao mercado. Minha empresa de marketing tá quase parada. A IA comeu metade da demanda. E agora que tô saindo com a Giovanna, o dinheiro encurtou. Não queria mexer nas minhas reservas para pagar uma simples conta de mercado.
Peguei minhas coisas e saí. Gustavo ficou para fazer cardio, já que eu não daria carona para ele hoje até em casa. Na porta do vestiário, Carlos estava bem atrás de mim. Abri a porta e a segurei por reflexo e Carlos passou, de perto, me dando aquele tapinha genérico de agradecimento nas costas — que ficou queimando. Ele seguiu andando, rindo de alguma coisa, e eu fiquei dois passos atrás sem saber se andava mais rápido pra passar ou mais devagar pra não parecer que estava passando.
A academia tem um corredor estreito entre a receção e a saída, e por uns dez segundos eu estava preso ali, olhando a nuca dele, os ombros largos, coxas grossas, a regata grudando nas costas molhadas. Percebi que ele estava de chinelo. Ele empurrou a porta de vidro do final do corredor com uma mão e saiu pro Sol, sem olhar pra trás. Eu esperei uns três segundos antes de sair.
O Sol já estava queimando no asfalto e a camiseta já começava a colar nas minhas costas. Pelo menos marcava o pump. Tive que deixar o carro estacionado do outro lado do cruzamento porque o estacionamento já estava cheio quando cheguei.
Atravessei a rua rápido, querendo distância daquele lugar. Liguei o carro e segui rumo ao mercado. Certeza que essa droga vai dar mais de 100€. Afobado, não percebi que tinha que ter parado na sinalização do cruzamento. O outro carro, que estava na preferencial, seguiu seu trajeto e bateu perpendicular no meu a uns 50km/h.
BOOM.
O impacto foi seco. O que aconteceu? Eu morri? Alguém morreu? Fudeu! Como vou pagar esse conserto sem seguro? Foi tudo tão rápido, mas quando dei por mim estava descendo do carro com a cabeça rodando, doendo, em direção ao outro carro, me desculpando e verificando o estrago. Não olhei quem era.
— E aí colega? Aprendeu a dirigir onde?
Carlos. De novo? Meu estômago revirou. Mas que porra! Justo esse cara! Ele me mediu e olhou o estrago somente de seu carro. A postura reta, o maxilar apertado, e um olhar desafiador e de deceção que me impedia de olhar diretamente em seus olhos. O calor fazia o suor brilhar em sua pele. Ele se agachou, passou os olhos pelo estrago sob o carro e na lataria. Senti sua irritação subir.
— Me desculpa, cara! Eu errei, de verdade! Foi mal, mas…
— Mas? Mas o quê!? Não sabe o que é uma placa de “STOP”, porra? Olha o meu carro! Olha isso aqui!
Depois de apontar para seu carro, tirou sua camiseta e a jogou no chão entre nós. O que é agora? Ele vai postar foto do resultado do treino no meio da rua? O cheiro quente de suor pós academia chegou até mim. Eu tentei disfarçar a respiração ofegante, e o medo. Falhei.
— Abaixa aí e olha. Você vai pagar por isso.
O tom era de comando, mas não era explosivo. Que porra, Gabriel! Tudo que eu menos precisava era me envolver em acidente agora, ainda mais com esse tipinho. Me agachei com a cabeça bem perto do chão para ver o vazamento de óleo sob o para-choque, tentando me esquivar de sua regata nojenta.
Não conheço nada de carro. Sei ligar, dirigir e abastecer. Minha área é computador, planilha, design. Me enfiei debaixo do para-choque tentando identificar alguma coisa que justificasse aquele cheiro forte de motor, desviando da regata branca suada que ele tinha jogado entre nós como uma bandeira. Dali de baixo o mundo era outro: o asfalto queimando nos joelhos, o óleo escuro escorrendo lento formando uma poça, o barulho dos carros passando a poucos metros como se nada estivesse acontecendo.
E o pé de Carlos.
O pé. Não reparei na hora. Mas ele estava ali, bem no canto do meu campo de visão. O chinelo largo, a pele escura, suas pernas grossas, os dedos relaxados como se ele estivesse na varanda de casa e não no meio de um cruzamento com um idiota agachado aos seus pés. Fingi que não reparei. Não vou dar esse gostinho pra ele.
O vazamento parecia grave. Além do para-choque amassado, o óleo já estava empoçando. Isso vai custar caro.
— Isso aqui é ó...
Carlos se mexeu. Foi um ajuste de peso, um deslocamento mínimo, mas seus dedos se estenderam e o dedão encostou na minha boca, que estava meio aberta no meio da frase.
Ódio.
Que humilhação. Minha língua tocou sua pele por um segundo e um sabor indesejado me invadiu. Raiva me dominou quase que imediatamente. O que eu estou fazendo? Agachado de joelhos, no meio de um cruzamento no centro da cidade, com o pé de um cara na minha boca? Que nojo! Que nojo!
Senti raiva de mim mesmo por me colocar nessa situação. Medo de alguém no cruzamento ter visto. Imagina se passa um cliente meu ali na hora? Ou o Gustavo! OU A GI! Imagina se ela me vê aqui assim. O namoradinho dela com o pé de outro cara na boca. Patético. Eu me levantei rápido, bati a cabeça no parachoque do carro. Meu rosto, vermelho.
— Tá maluco, Carlos? — Disse desesperado enquanto tentava limpar minha boca na manga da minha camiseta e me livrar daquele gosto, enquanto recolhia o que sobrou de minha dignidade.
— Foi mal — Ele murmurou e riu baixinho. — Meu pé estava escorregando do chinelo.
Aquilo me levou para os meninos da escola mais uma vez. Eu sempre tive a chance de revidar dos moleques, zoar eles de volta, mas fui fraco. Sentia algo diferente ouvindo aquelas coisas. Dessa vez eu não ia deixar barato.
— Foi mal? Você enfia o pé na minha boca e "foi mal"? Eu podia… eu devia…
— Eu só me mexi.
— Você fez de propósito, está achando que eu sou otário?
— Sem chilique que você está no erro.
Um tapa sem mão. Eu abri a boca pra responder e nada saiu. Meu maxilar travou. Era como se alguém tivesse puxado um fio que conectava minha raiva à minha voz e cortado no meio. O ar que eu tinha enchido pra gritar saiu em silêncio pelo nariz.
Sem chilique? Com quem ele pensa que está falando? Ia pra cima dele. Meu punho se fechou e senti as unhas cavando a palma da mão. Mas Carlos não recuou. Nem piscou. Estava parado, sem camisa, braços cruzados, olhando pra mim com aquela calma de quem já viu esse filme antes. E eu ali, vermelho, suado, babado, um palmo e meio mais baixo e sem nenhuma autoridade. O que eu ia fazer? Bater num cara desse tamanho, no meio da rua, com platéia?
Olhei em volta. Duas pessoas na calçada já tinham parado. Um senhor encostado num poste, uma mulher com sacola de farmácia. Viram o quê? O acidente? Ou o resto? Será que dava pra ver dali que eu estava com a boca molhada, o rosto lambuzado? O cruzamento que há dez minutos era só um pedaço de rua agora parecia um palco com refletores apontados pra minha cara.
Carlos deu um passo na minha direção e pegou a regata do chão. Sacudiu ela uma vez, jogou no ombro, olhando o estrago do carro dele como se eu não existisse mais. Passou a mão no queixo, estalou o pescoço pro lado, e riu. Entrou em seu carro, girou a chave, e nada. Tentou de novo, sem sinal de vida. Abaixou o freio de mão e manobrou no ponto morto até o canto da rua. Quando Carlos me dirigiu a palavra de novo, o tom era outro.
— Seguinte, você já me atrasou, já fodeu com o meu carro. — Ele tirou o telemóvel do bolso da bermuda e começou a digitar, sem me olhar. — Meu irmão vai vir aqui buscar meu carro com um guincho. Você fica aqui até ele chegar.
Esperou a mensagem enviar. Deu seu telemóvel em minha mão para eu passar meu contato. Só então me olhou.
Que escolha eu tinha? Eu bati no carro dele. Eu furei o pare. Ele estava certo. Tínhamos que resolver isso. Mais uma vez, cedi. Minhas mãos tremiam enquanto passava meu número. Me submeti
Carlos saiu andando. Filho da puta. Fiquei parado ali no meio do cruzamento, com o sol rachando minha cabeça, o gosto almíscar na boca e o carro amassado do lado. Olhei em volta. Pessoas observam os carros jogados. Desviei o olhar e fui pro meu carro. Não demorou muito e o irmão dele chegou com um guincho. Não quis trocar muitas palavras com ele, só disse que já ia resolver tudo diretamente com o seu irmão.
Felizmente meu carro ligou. A direção puxava pra esquerda e fazia um barulho que não fazia antes, mas andava. Desisti do mercado. Não ia ficar um segundo a mais naquele cruzamento. No primeiro semáforo, parei. Dessa vez parei. As mãos ainda tremiam no volante. De raiva.
Cheguei em casa e tranquei a porta. Comi alguma coisa sem gosto, sentei no sofá. Liguei a TV pra abafar o que estava na minha cabeça, mas não funcionou. A cena voltava em loop. O "foi mal" descarado, o sorriso de canto, o jeito mandão. Ele é pior do que eu pensava.
Tinha que beber algo. 1, 2, 3, 4 shots de algum destilado velho que tinha na geladeira. Era gin. Usei como enxagua-te da alma. Comecei a rir do meu desespero. Aquilo tudo era só por conta do acidente? Só o acidente? Uma notificação chegou em meu telemóvel e o barulho era ensurdecedor. Número desconhecido.
— Passa na minha casa às 15h para resolvermos tudo. Rua Pereira Sales, 659.
Li a mensagem umas três vezes. "Resolvermos tudo." Na casa dele? O que vou fazer lá? Ver o carro de novo? Ele nem perguntou se tenho seguro, ou falou um valor pra eu pagar, qualquer coisa. Não. Queria que eu fosse até lá. Sem confirmar, sem "pode ser?", sem porra nenhuma. Uma ordem. Como se eu fosse capacho dele. Vai fazer eu lamber o que agora? O pau dele?
Joguei o telemóvel na almofada. Não vou. Mas não vou mesmo. Ele que mande um orçamento por mensagem. Foda-se. Precisava de outro banho.
No banheiro, me encarei no espelho enquanto me despia. Será que estou exagerando? Será que foi sem querer mesmo? Cada pergunta era uma peça de roupa da qual eu me desfazia. Por que estava tão mexido com isso tudo?
No reflexo dos meus olhos via Carlos. Ele parado ali no cruzamento, sem camisa, de braços cruzados, me olhando de cima enquanto eu estava de quatro no chão com o dedão do pé dele enfiado na minha boca. Filho da puta. Quem ele se acha pra fazer uma coisa dessas? Eu fechei os olhos com força e a cena veio mais nítida. O maldito chinelo surrado que ele usa. A panturrilha grossa, do tamanho do meu braço, tensa ali do meu lado. Idiota. As coxas, aquelas coxas ridiculamente grossas que ficavam aparecendo por baixo da bermuda enquanto ele se agachava pra ver o estrago que EU causei. O suor escorrendo pela pele escura dele como se o sol tivesse sido feito para iluminar aquele corpo. E um volume obsceno, estúpido, provocante debaixo daquela bermuda, que ele nem se dava ao trabalho de esconder. Como se quisesse que eu visse. Desgraçado.
E eu vi.
Vi tudo. Cada detalhe. De quatro, no chão, com a boca aberta e a cara lambuzada. Vi como se estivesse estudando pra uma prova. Por que eu lembro de tudo isso? Pior. Eu obedeci a tudo que ele mandou. Ajoelhei, fiquei quieto, passei meu número. E Gustavo? Comendo minha bunda com os olhos, como um pedaço de carne pro churrasco. Não fiz nada. Por que permito tudo isso?
A última peça que vestia era uma cueca, que tirei e a joguei no chão. Meu reflexo no espelho revelou: meu corpo me traiu.
Estava de pau duro.
Duro. Duro de verdade, latejando. Devia estar assim fazia tempo e eu não tinha percebido, ou não quis perceber. E essa era a pior parte. Pior do que o acidente, pior do que o gosto, pior do que a humilhação. Tesão.
Num lapso de alucinação, ou de coragem, respondi a mensagem.
"Ok"
Estava a caminho da casa de Carlos. Não sabia exatamente o que esperar desse encontro, mas queria resolver qualquer dívida que eu tenha gerado. A última pessoa com a qual eu queria ter o rabo preso era com Carlos.
Era uma casa grande em uma rua um pouco afastada do centro da cidade. Carlos abriu a porta ainda sem camisa, com a mesma bermuda e chinelo de hoje cedo — que eu conheci de perto. Entrei. A mesma sensação de estar nu. Vulnerável. Ele já estava me esperando na garagem, ao lado de seu carro.
— Fala Carlos, primeiramente, mil desculpas, de verdade. — Tentei começar apaziguando para resolver isso o mais rápido possível, engolindo toda a minha raiva — Eu estava pensando em mil coisas na hora e não prestei…
— Meu irmão deu uma olhada por cima e falou que o conserto vai ficar uns 1000€.
— Mil? mil euros?
— É o preço da sua falta de atenção. Vou ter que trocar o cárter, e o óleo ainda sujou o piso da garagem. Olha aí!
Me agachei à distância para não passar novamente pelo que passei mais cedo. Droga. Como vou pagar cinco mil reais do mais absoluto nada? Isso se ele não estiver me enrolando. Sem condições.
— Posso tentar ver com outro mecânico? Estou curto de grana e às vezes consigo achar outro mais barato.
Carlos riu.
— Tu quebra o carro dos outros e ainda quer escolher onde vai arrumar, meu irmão? Seguinte, você pode até tentar achar outro orçamento pro meu irmão cobrir. Mas o conserto é com ele.
Conserto com o irmão? Que conveniente. Olhei pro carro de novo tentando avaliar o estrago com alguma noção que eu não tinha. O para-choque amassado, a poça de óleo no piso da garagem. Será que vale cinco mil mesmo? Podia ser três. Dois. Eu não sei trocar nem um pneu. Carlos estava parado, de braços cruzados, sem camisa, esperando minha resposta. O suor escorria em seu peito e eu me peguei fitando seu corpo. Desviei.
— T-tá bom, sim, claro. Me desculpa. Ele aceita cartão de crédito?
— Não, só dinheiro vivo ou Pix. — Disse ele, decidido.
Acho que ele tá me passando a perna. Começo a andar em círculos. O que fazer?
— Certo, eu vou tirar uma foto de como ficou aqui e passo para outro mecânico. Se o preço for maior, a gente já fecha aqui, pode ser?
— To gusando, cara hahaha, ele aceita crédito sim. — Ele estava rindo do meu desespero. Aqui eu estava conhecendo um Carlos que não tinha visto antes. Ele estava brincando comigo? Nessa situação? Pensei que estava bravo. Foi pra isso que ele me trouxe aqui? Me senti de novo diminuído por ter caído no jogo dele. É lógico que mecânicos aceitam cartão de crédito.
— Mas pode tirar sua fotinho aí. — Ele ainda ria.
Me agachei novamente para tirar a foto. Garanti que Carlos não estivesse perto dessa vez. Daquele ponto, não consegui deixar de observá-lo: seu olhar desafiador, a pele reluzente no Sol, destacando o desenho de seus músculos bem trabalhados. Ele não estava tão perto, mas olhando debaixo era inevitável ver o volume da sua bermuda, que parecia maior do que hoje mais cedo.
Por que estava prestando atenção nisso? Manjando rola? Eu sou homem! Na minha cabeça passava os filmes pornô que assisto (hétero, claro): por mais que tentasse, sempre acabava dando mais atenção para a performance dos caras no sexo — o tamanho, como são dominantes e brutos, e como as mulheres ficavam extasiadas vendo um pau grande, traindo maridos por homens iguais a este que está agora bem na minha frente.
Carlos percebeu o tempo que fiquei o encarando e se aproximou. Despretensiosamente, começa a ajustar os dedos no chinelo, movendo seu pé pra bem perto da minha boca. Ele só pode estar de brincadeira. Ele tá achando que eu sou veado? Carlos estende os dedos do pé, a mesma tática, e seu dedão encosta em minha boca. Eu fico imóvel. Minha mente se enche de desespero por não aceitar que me coloquei nessa situação, me sentindo humilhado pela reincidência e por não ter controle sobre meu próprio corpo. Um calafrio percorre minha espinha.
Dessa vez ele vai além e faz força pra entrar. O dedão abre passagem entre meus lábios e invade minha boca com um peso intencional. A sola pressiona meu queixo contra o chão da garagem e eu sinto o concreto quente nas costas da cabeça. O gosto volta, mais forte agora, mais fundo, mais demorado. Suor, o mesmo sabor almíscar que já tinha endereço dentro de mim. Carlos faz força pra baixo e meu rosto afunda. Eu quero morder. Quero empurrar. Quero levantar e meter a mão na cara dele. Minhas mãos estão livres. As duas.
Olho pra cima. Carlos está me olhando. A mandíbula cerrada, as narinas abertas. Ele está caçando. Seu olhar desce pelo meu rosto com a lentidão de quem já sabe que a presa parou de correr. Meu corpo inteiro treme. Acorda. Você é homem. Sai daqui. Quando finalmente consegui afastar o rosto, não sei quanto tempo tinha passado. Me levantei e minha respiração estava pesada, meu queixo doía, e meu rosto inteiro estava babado de saliva. Tirei a foto sem nem olhar direito.
Antes que eu pudesse tentar sentir raiva, o olhar de Carlos desceu. Estava olhando pra minha bermuda. Eu segui o olhar dele e vi: um volume, um volume humilhante, marcando contra minha bermuda cáqui, e uma manchinha molhada de pré-gozo que não tinha como esconder. Desde quando eu estava assim? Carlos riu. Baixinho, pelo nariz, com a boca fechada. Suspeita confirmada. Cobri com as duas mãos e virei de lado, tentando apagar o que ele já tinha visto. Eu estava de pau duro. Por outro homem. E ele soube antes de mim.
Estava de frente com uma verdade que Carlos já sabia.
— Quer saber? Entra aí, vamos negociar, Gabriel.
——— CONTINUA ———
Por Tuga069
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