A atmosfera no escritório de Luciano era de uma pressão sutil, como a umidade pesada que precede uma tempestade no campo. Ele nos recebeu – a mim, Henrique, e à ruiva, minha esposa – com um olhar calculista que dispensou formalidades. Eu me senti, como sempre nesses encontros, um pouco deslocado, um acessório do principal ativo: ela.
“Estêvão Borges”, Luciano iniciou, o nome ecoando como um gongo. “Patriarca do agronegócio. Tratores, terras, gado. Um império. O contrato de software de gestão está na mesa. Nove dígitos.” Seus olhos fixaram-se na ruiva, que usava um vestido justo de linho branco, parecendo uma flor exótica pronta para ser transplantada para um solo mais bruto. “Ele é um homem de… apetites simples, mas específicos. Coleciona experiências.”
Luciano fez uma pausa dramática, e então seu olhar, pesado e inevitável, voltou-se para mim. Dessa vez, não era um olhar de desdém ou avaliação. Era um olhar de designação.
“A experiência que ele deseja… envolve o casal. Mas não da forma que poderiam imaginar.” Ele limpou a garganta. “Estêvão tem uma preferência. Ele gosta de dominar. Totalmente. E para isso, ele gosta de um cenário específico: um homem… submisso. Um marido… passivo. Que observe, que receba, que aceite. E uma mulher que seja o conduto dessa submissão, o prêmio visível, mas também participante da rendição do próprio marido.”
O ar saiu dos meus pulmões. Até então, minha submissão havia sido psicológica, emocional, voyeurística. Sempre havia um degrau, uma barreira física final. O que Luciano descrevia era a demolição total dessa barreira.
“Ele quer… os dois?”, perguntei, minha voz soando pequena.
“Ele quer você, Henrique”, Luciano corrigiu, com uma frieza cirúrgica. “Através dela, e depois, diretamente. É a fantasia dele: a posse completa do casal. A mulher como troféu ativo, o marido como terreno conquistado. Ele chama de ‘formar o rebanho’. E para fechar esse negócio de nove dígitos… é o rebanho que ele quer.”
Minha ruiva estava quieta, mas seus olhos, fixos em mim, não mostravam horror. Mostravam uma curiosidade intensa, quase científica, como se visse uma nova cor pela primeira vez. Havia também um brilho de posse ali. A ideia de me ver, me entregar dessa forma, sob o olhar dela, acendia algo nela.
No carro, o silêncio era espesso. Ela quebrou-o, sua mão pousando sobre a minha na marcha.
“Passivo”, ela repetiu, a palavra saindo como um sussurro carregado. “Isso te assusta?”
“Me aterroriza”, confessei, olhando a estrada. “Me… confunde.”
“E te excita?”, a pergunta foi direta, sem julgamento, apenas busca.
Levei um longo momento para responder. No fundo do poço onde misturavam-se medo, humilhação e uma lealdade doentia, uma faísca minúscula de curiosidade proibida tremulou. A ideia de uma rendição tão completa, de ser um objeto não apenas no drama, mas na carne… era o tabu final. E parte de mim, a parte mais sombria e treinada por meses de entrega psicológica, queria conhecer seu sabor.
“Não sei”, menti. “Talvez.”
Ela apertou minha mão. “Vamos descobrir juntos. Dessa vez, eu vou estar com você. Não na frente, não atrás… com você. Ele vai nos ter, Henrique. Mas nós… nós vamos estar um no outro, de um jeito novo.”
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A fazenda do Estêvão era uma afirmação de poder bruto sobre a paisagem. A casa sede era um bloco de concreto e vidro, flutuando sobre um mar de pasto. O próprio Estêvão era a personificação da terra: alto, largo, com uma força que parecia irradiar de seus ossos. Mãos que podiam domar um touro ou assinar um cheque com a mesma impassibilidade. Seu aperto de mão esmagou a minha, e seu olhar, quando pousou em mim, não era de desejo, mas de avaliação, como se medisse o peso de uma rês.
“Então vocês são o pacote de incentivo”, ele disse, sua voz um rugido baixo, após um jantar breve. Não havia sofisticação. Apenas a transação clara. “Luciano prometeu qualidade. Vamos ver a maciez do couro.”
Ele nos levou não para um quarto, mas para um espaço amplo, com piso de pedra fria, que lembrava um estábulo reformado. Havia um cheiro limpo de fenol e, sutilmente, de animal. Uma grande pilha de feno limpo ocupava um canto. A mensagem era clara: era um ambiente de trabalho, de funcionalidade.
Estêvão parou no centro do espaço e se virou para nós. Sua autoridade era um manto pesado.
“A regra é simples”, anunciou. “Eu comando. Vocês obedecem. A mulher é a isca e a condecoração. O homem… é a prova final de submissão.” Seus olhos escuros queimaram os meus. “Você, marido. Tira a roupa. Fica de joelhos ali.” Ele apontou para um ponto no chão de pedra.
Meu corpo congelou. A ordem, tão direta, tão desumanizante, foi um balde de água gelada na espinha. Mas então, senti a mão da ruiva nas minhas costas. Não um empurrão, mas um apoio. “Vai”, ela sussurrou, e seu olhar não pedia, ordenava. Era a ordem dela que meu corpo, condicionado, obedeceu. Com dedos trêmulos, me despi, a vergonha sendo um fogo na minha pele, e ajoelhei-me no chão frio. A pedra era áspera contra os meus joelhos.
Estêvão observou, um leve sorriso de satisfação nos lábios. Então, ele se voltou para a ruiva.
“Agora você, flor. Tira esse vestido. E vai até ele. Deixa ele te ver. Deixa ele te tocar. Mas é só isso. É o cheiro da comida antes do jantar.”
Ela, com uma calma que me eletrificou, despiu-se. Sob a luz crua, seu corpo era uma escultura pálida e perfeita. Ela veio até mim, ajoelhou-se na minha frente, tão perto que eu podia sentir seu calor. Seus olhos trancaram os meus.
“Me olha”, ela ordenou, suave. Suas mãos pegaram as minhas e as pousaram em seus seios. A pele dela era quente, macia. “Sente o que é seu. Por enquanto.” Era um ritual de posse e despedida. Eu a acariciei, beijei seus ombros, seu pescoço, embriagado pelo cheiro dela e pela humilhação ardente da situação. Estêvão observava, imóvel, os braços cruzados, apreciando a cena.
Depois de longos minutos, ele falou. “Chega. Deita-se no feno, mulher. De costas.”
Ela me deu um último beijo, rápido, e obedeceu, deitando-se sobre a pilha de feno, suas curvas douradas pela luz contra a palha amarela. Era uma imagem surreal, primal.
Estêvão então se aproximou de mim. Sua sombra engoliu a luz.
“Agora você, boi”, ele disse, o termo caindo como uma marca a ferro. “Você vai ficar aqui, de joelhos, e vai assistir. Vai ver como se trata uma fêmea de verdade. E depois… depois você vai aprender o seu lugar no curral.”
O que se seguiu foi uma exibição de posse brutal e metódica. Estêvão tomou a ruiva com a eficiência de um criador inseminando uma matriz preciosa. Não havia carícia, apenas função e domínio. Ela gritou, não de dor, mas de um prazer surpreendido e avassalador, seus olhos, às vezes fechados de êxtase, às vezes abertos, buscando os meus. E eu, ajoelhado, nu, impotente, assistia. Cada gemido dela era uma facada e um afrodisíaco. Cada movimento poderoso de Estêvão era uma lição em humilhação. Eu estava completamente ereto, meu corpo traindo minha mente numa rendição fisiológica completa.
Quando Estêvão terminou com ela, ele se levantou, imponente, e veio até mim. O cheiro dele – suor, terra e sexo – era opressivo.
“Agora você viu”, ele rosnou. “Agora você sabe. Sua função acabou. Agora é a minha vez de marcar o resto do rebanho.”
Ele não foi gentil. Me virou com um puxão e me pressionou contra o feno, ao lado da ruiva, que ofegante, virou a cabeça para me observar. O peso dele era esmagador. A dor foi aguda, invasiva, um rompimento de tudo o que eu conhecia. Eu gritei, um som rouco e animal que ecoou no espaço vazio. Mas através da dor, através do pânico, algo estranho surgiu: uma libertação perversa. Era o fim da linha. A rendição total. Não havia mais escolha, não havia mais barreira. Eu era, finalmente e completamente, propriedade.
Enquanto ele me usava, minha ruiva se arrastou para mais perto. Seus olhos, cheios de lágrimas e de uma chama sombria, encontraram os meus. Ela pegou minha mão e a apertou com força.
“É nosso”, ela sussurrou, sua voz rouca. “Esse momento. Essa queda. É nosso. Seja dele, seja de quem for… você é meu. Meu corno. Meu boi. Meu.”
O clímax de Estêvão foi um tremor vulcânico que parecia sacudir o próprio chão. Um rugido de conquista saiu de seu peito. Quando ele se levantou, deixando-nos ali, derrotados e marcados, ele olhou para nós com a satisfação de um trabalho bem feito.
“O rebanho está formado”, ele declarou. “O contrato é fechado. Podem se limpar. O trator que leva vocês de volta ao aeroporto sai ao amanhecer.”
Ele saiu, e ficamos sozinhos no cheiro do feno, do sexo e da nossa nova verdade. A ruiva se encolheu contra mim, seu corpo quente contra o meu dorido. Não trocamos palavras. Não eram necessárias. No silêncio daquele estábulo, na dor que latejava e na estranha paz que a veio depois, um novo pacto havia nascido. Não de igualdade, mas de cumplicidade absoluta na queda. Ele nos possuía. Will e Luciano nos negociaram. Mas naquele feno, sujos da mesma humilhação, éramos um. Um rebanho de dois, pastando no campo mais sombrio e fértil do desejo alheio, inextricavelmente ligados pela coleira que, juntos, permitimos que nos colocassem no pescoço.
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